domingo, 11 de agosto de 2013

Daniel Dottori

Ator. Estrelou o seriado de humor ‘2 Apês’ da TV USP, o primeiro programa para jovens feito por jovens, sobre o cotidiano de um grupo de estudantes que mora em dois apartamentos vizinhos.Foi apresentador do programa de TV ”Um mundo pra chamar de seu” no canal GNT.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Gostar do personagem e acreditar na história... normalmente os curtas tem verbas muito restritas que são gastas para a produção como um todo, então o grande barato e se encantar com as cenas e os diálogos que poderemos fazer. No cinema, acredito, que posso embarcar em um universo real simplesmente pela possibilidade de filmar em "cenários reais" e isso é uma enorme satisfação.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Poucas são as salas de exibição e os horários, mas também acredito que os jornais tem um espaço, ainda, pequeno para a cultura e assim é necessário priorizar determinadas artes... o espaço dedicado ao cinema nacional,  que aborda principalmente  as grandes produções, poderia ser maior para conhecermos mais e mais do é feito aqui. Assim, também, teríamos mais espaço para comentar sobre os curtas que são um universo à parte.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Antes da exibição dos longas... normalmente assistimos a uns 20 minutos de propagandas e trailers e este tempo é mais que necessário para vermos um curta... aliás, alguns longas de animação já fazem isso e funciona muito!
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho um pouco difícil mas é possível... assim como é difícil um ator de dedicar a fazer somente teatro...  existem grandes roteiristas e cineastas que se dedicam muito a isso e realizam! O curta pode ser um trampolim para fazer longa, mas independente disso você está fazendo cinema e conseguir finalizar um trabalho assim é uma grande conquista mesmo se o longa não vier...
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
De maneira nenhuma... é cinema só que com alguns minutos a menos.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Adoraria dirigir um curta... ter que pensar em como observar  e registrar uma história para contar aos outros seria uma experiência fantástica!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Antoniela Canto

Atriz e locutora. Atuou no filme ‘Bom Dia’, do diretor Felipe Dall'Anese.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem? 
Uma boa história, um bom roteiro! Isso me prende. E me faz comprar a ideia, como em qualquer outro trabalho.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não sei... Acho que os curtas são tratados como o primeiro passo para os cineastas, mas eu não concordo. Adoro curtas. E tenho visto uns ótimos ultimamente.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Pode parecer bobo da minha parte ou até ilusório, mas de repente, nos cinemas, antes dos filmes, ou nas TVs abertas. Acho que poderia ajudar.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho que sim, mas quando um cineasta de curta, resolve fazer um longa, não é somente porque é seu grande trampolim, talvez seja porque a história que ele quer contar não caiba mais num tamanho pequeno kkkkkk. Ou ele conseguiu mais dinheiro... 
 
Também não gosto dessas definições que você só pode ser uma coisa ou outra. É como atuar, eu posso fazer uma comédia rasgada e no outro dia um drama pesadíssimo. Essa é a graça, poder contar uma história independentemente de seu tamanho. O importante é que essa história seja bemmm contada! 
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não faço a mínima ideia... nunca nenhum cineasta disse isso pra mim... 
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Por enquanto, vou ficar na atuação mesmo... Não é minha prioridade de agora. Mas um dia... quem sabe. Histórias boas pra contar, eu tenho. kkkk 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

BISTURI - Rejane K. Arruda

Contra o Mito da Autenticidade: Lee J. Cobb e De Niro

Rejane K. Arruda

A atuação em filmes de gênero quase nunca é debatida. No entanto, ela apresenta materiais de uma precisão muitas vezes cirúrgica. A imobilidade trêmula dos filmes de suspense; a densidade psicológica; ou o ar blasé e descomprometido (antes de começar a tensão) tendendo para o cotidiano mimético: são arranjos que deveriam ser dissecados. Registros que se opõem e encontram equilíbrio conforme o gênero e o estilo do ator.

 “O Homem do Oeste” é um western de 1958 de Anthony Mann que traz no elenco Gary Cooper e Lee J. Cobb. Poderíamos dizer que o Western, tal como o suspense, implica um estilo específico de atuação? Esta pergunta situa uma porta entrada na análise do filme, a partir da qual, ao salpicar impressões, acabamos por nos deparar com uma evidência: não o Western como estilo de atuação, mas como um gênero que potencializa certos estilos (que passam de ator para ator).

Logo o contraste se desenha: a comicidade e a afetação do coadjuvante – enquanto o protagonista, imbuído de mistério, prima pela contenção, neutralidade, imobilidade, sustentando o tempo dilatado de sucessivas tentativas (da câmera) de capturar sua reação. Quando são assaltados, enquanto o coadjuvante (tomado pela exacerbação) se exaspera, Gary Cooper, apesar de perder o dinheiro destinado à contratação de uma professora (para o vilarejo onde vive), não esboça uma reação. Apenas o tempo da câmera registra-lo. Uma espécie de abandono parece preservar a força de um mistério qualquer – material que se articula ao gênero – enquanto a narrativa é construída. Nesta ausência de qualquer reação denotativa, não se sabe da onde vem seu dinheiro; por que fornece nomes diferentes ou estava armado. No entanto, o gênero garante: ele é o mocinho.

Esta Hollywood clássica, onde a música reforça as ações, situa um tipo de tessitura que, no teatro, chamamos dramática. Isto enquanto o espectador dialoga, consigo mesmo, criando expectativa, passando por um caminho de construção de uma fantasia que vem ou não a se realizar. E é nesta fantasia, banhada por luzes e sombras, ao estilo de um tenebrismo, que Lee J.  Coob, “cria de Kazan”, aparece. Lee J. Coob, que atuou como o chefe do “Sindicato de Ladrões” em 1954, agora é Dok Tobin, o tio bandido. Tio que Cooper abandonou e que ainda assim, graças a uma configuração familiar típica de Mann, tem o seu amor, em detrimento do primo que (não nobre, belo ou misterioso, tampouco arrependido) se manteve fiel ao bando. 

Logo a mocinha blasé se apaixona por aquele que a protege de um estupro – e depois revela que, no passado, aprendeu a fazer coisas terríveis, mas se redimiu diante de uma sociedade que o recebeu de braços abertos. Uma sociedade onde fez laços que precisa preservar apesar do passado bater-lhe à porta. Uma estrutura de melodrama? Talvez, mas não com um final feliz. Com a antiga família dizimada, o personagem de Gary Cooper retorna para o seio do lar – deixando a mocinha com o seu inevitável destino de cantora solitária (que, no entanto, descobre o amor pelo único homem que a respeitou). E assim como o mocinho não é só mocinho (pois mata aquele que o criou), o vilão também não é só um vilão. 

Há espaço para um tipo de atuação surpreendente. Que beira o grotesco, em oposição a certo drama psicológico brotando da relação com o sobrinho. Lee J. Cobb passa por louco furioso. Trata-se de um registro que não tem muito bem um lugar, pois cheio de gritos, idiossincrasias, caretas. Passa por bêbado, por perverso testando o limite do seu poder, passa por pai amoroso sedento de companhia, por um homem desconfiado e ambíguo, por aquele macho que não pode deixar de ser.

Mas o mais interessante é quando percebemos sua escola. Quando vemos, na figura de Lee J. Coob, também o Robert de Niro: o mesmo esgar, o olhar agudo, o balbucio, a risada, a corpulência, o grito. Dando aulas me deparo muitas vezes com os atores evitando partir das referências – para não copiar, para não diminuir-lhes a autenticidade. Mas se De Niro tem, em parte, o mesmo estilo (a escola) de Lee J. Coob (e isto salta aos olhos) é porque estes atores estão, um a um, inscrevendo-se em algo que os antecede (e que é a poética da atuação). O fato de usarem material que os absorve e que implica a apropriação de algo valioso, ainda assim, isto não impede de cada qual ser singular. Ainda assim Lee J. Cobb é um e também De Niro.

domingo, 4 de agosto de 2013

Jorge Duran

Fotografia: Luis Abramo, Fotografo, Alexandre Ramos, na câmera, Jorge Durán, e Gabriel Durán, produtor e montador.
 
Jorge Duran é roteirista e diretor que ficou conhecido pelos roteiros de Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981) e O Beijo da Mulher-Aranha (1984), os três dirigidos por Hector Babenco. Como cineasta fez: Não Se Pode Viver Sem Amor; Proibido Proibir e; A Cor Do Seu Destino.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Não tenho participado diretamente em produções de curta-metragem. A El Desierto Filmes, nossa produtora, tem participado sim, e quem tem cuidado disso são Pedro Rossi e Gabriel Durán, também sócios. Eu acho importante  receber produções de curta-metragem, já que os considero tão difíceis de produzir e realizar quanto o longa-metragem. Mais ainda, porque sabemos que são feitos com mais esforço que dinheiro.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que os curtas, embora alguns tenham as mesmas ou mais qualidades que alguns longas, nunca terão a visibilidade de estes últimos. Não acho isso bom, mas uma realidade. Na época que o curta era exibido obrigatoriamente, no começo passavam bons curtas nos cinemas. Isso foi sendo deturpado e como se falava na época, os próprios exibidores faziam arremedos de filme de poucos minutos, que foram criando um mal estar no publico. A Motion Picture, naqueles anos fez vir Jack Valenti, ou como se chame o sujeito, que era o chefão naquela época, para fazer lobby contra a obrigatoriedade da exibição dos curtas junto com um longa, sendo muito bem recebido pela sociedade brasileira, políticos, militares e autoridades. Uma mesquinharia, falta de interesse no cinema brasileiro e, para ser claro, considero que foi causado pó uma estupidez e falta de critério quase congênita.  
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não me ocorre uma forma, porque ver eles na TV é um paliativo, mas não uma solução, já que muitos deles visavam a exibição em salas de cinema. Talvez criar uma mostra mensal de curtas selecionados, por uma semana em Centros culturais espalhados pelo Brasil, ajude. No Chile, um cinema do grupo Hoyt, dedicava uma das tantas salas todas as segundas feiras a exibição de curta-metragem. Não sei se ainda fazem isso. Não acredito que exibidores vão se interessar no “produto”, como é chamado por eles e distribuidores, por não ter nenhuma vantagem econômica. Outra forma seria pleitear que aqueles cinemas que recebem incentivos fiscais para existir, passem obrigatoriamente curta-metragem.  
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Não vejo o curta-metragem como trampolim. Seria como imaginar o escritor de contos como um sujeito se preparando para escrever um romance. Viver, pagar as contas, fazendo curtas, acredito que seja difícil. Mas combinado com atividades no cinema, como produzir, distribuir, escrever e outras formas de ganhar a vida, podem permitir que alguém se dedique a fazer curta-metragem, já que podem ter saída comercial eventual. Não acredito que fazer curta-metragem ajude muito a entender a mecânica de fazer um longa. São absolutamente diferentes, mas não excludentes. Eu nunca consegui escrever um curta, já que quando estava na página sete ou dez, sempre reparava que ainda nem tinha entrado no assunto. Já tentei varias vezes, sem êxito. Mas ainda consigo fazer um que seja. Acho extremamente difícil fazer um bom curta-metragem, assim como um longa. Você deve lembrar daquela clássica desculpa “me perdoe por lhe escrever esta carta tão longa, é que não tive tempo para lhe escrever uma curta”.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não acredito. Qualquer cineasta sabe respeitar e apreciar um bom filme.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Planejo fazer um documentário e um curta-metragem, já que ainda não consegui fazer. Ideias não faltam, mas vou ter que tomar coragem e estudar bastante.

Djair Guilherme

Ator, cenógrafo e dramaturgo.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Principalmente o roteiro. A segunda coisa que conta, é a oportunidade de treinar um pouco a interpretação para o cinema, que é coisa bem diferente do que venho fazendo no teatro.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque as grandes distribuidoras não se interessam em fazer o mesmo "jabá" que fazem para as grandes produções.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Que tal se fosse na TV, nos intervalos das exibições de cinema americano? Tipo, intervalo do Supercine, Telaquente, etc...?
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Não sei responder isso.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sim. Nesse caso, parece que o curta é o longa de pobre.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não. Meu negócio é atuar, não dirigir.

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


O GESTO
Rubens Francisco Lucchetti

“Rei, nas noites de inverno, quando, diante duma grande lareira, tu e teus companheiros estais amensedados, acontece, às vezes, que um grande pássaro entra por uma abertura, esvoaça sobre a mesa e sai pela outra extremidade. Um momento ele fica na luz e no calor; mas, antes de entrar, onde estava? E, quando saiu, na noite e na tempestade, para onde foi?

Dum poema de Bede, transcrito dum livro póstumo de Monsenhor Duchesne.

Manhã agradável, como todas as manhãs de sol.

De repente, ela surgiu diante de mim, como que vindo do nada. Então, lembrei-me do poema de Bede, porque, como o pássaro descrito no poema, ela surgiu como por encanto, como se não vivesse antes nem depois, como se não existisse. Sim, era exatamente essa a sensação que me produziu seu encontro.

Era jovem, muito jovem. Bem-feita de corpo, com uma sexualidade a escorrer-lhe dos olhos e da boca. Seus fulvos cabelos estavam tombados negligentemente, orgulhosamente... pelos seus ombros nus. A blusa moldava-lhe o busto, e a bolsa a tiracolo dava-lhe uma aparência agressiva. Seu porte fino e seu delicado perfume fizeram-me parar.

Parei para melhor apreciar aquele pedacinho da Natureza.

Ela passou alheia a tudo, indiferente a todos os olhares. Sua sombra esbateu-se pelo muro e, por um momento, confundiu-se com a minha, o que bastou para meu consolo.

Depois, continuou seu caminho... sempre alheia, como infinitésima parte de um sistema solar ou fragmento de um poema... ou visão provocada por um entorpecente... ou qualquer coisa leve como um pensamento, uma pluma, um beijo nos olhos, fumaça tênue duma chaminé, uma nuvem branca num céu de fim de tarde.

Seus pés, a saltitar, ritmavam música na calçada, como se fossem os dedos de fina concertista brincando de Chopin no teclado de um piano...

Aí, veio o gesto. O gesto espontâneo, o gesto que, assim como o sorriso da Gioconda, serviria para imortalizar toda uma vida. Seu gesto era digno de ser imortalizado na tela ou no poema de algum artista...

Foi um gesto simples; porém, como todas as coisas simples, cheio de vida: principiou a subir os degraus da escada da igreja (iria dialogar com alguma santa?), parou e irreverentemente ajustou a meia, acertando o fio que estava fora de linha. E nesse simples gesto pude ver resumido todo o Universo.

Um garoto, um engraxate, postado no início da escada, murmurou, num suspiro prolongado:

– Ah, meu Deus, por que, em vez de engraxate, não me fiz massagista?

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos

sábado, 13 de julho de 2013

Aviso

Uma pausa por duas semanas.
Na volta, em agosto, o blog Os Curtos Filmes voltará a ser atualizado.
E no mesmo mês teremos:
- Estreia do programa Zootropo na TV Cronópios (http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=5680).
- Lançamento, pela Editora Verve, do livro ‘Curtametragem – Compilação de Ideias e Entrevistas do Blog Os Curtos Filmes’.
- Homenagem no FIIK (Festival Internacional de Cinema Independente Kino-olho), em Rio Claro.
Conto com vocês. Até breve.
Rafael Spaca.