terça-feira, 10 de dezembro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


R. F. LUCCHETTI, O MONSTRO DE MIL CABEÇAS
Paulo W. Duarte

“Eu envelheço como (e como) a língua que eu conheço.
Às vezes, mordo minha língua pra falar.
Eu me remendo, viro a pele do avesso;
Não chegue perto, se você não quer olhar.”
Paulo Duarte

Reza a lenda que o Segundo Trabalho de Héracles, tendo morto o Leão da Neméia, foi partir em busca da Hidra, um monstro com muitas cabeças.

Alguns diziam que tinha sete... outros, cinquenta, quem sabe dez mil cabeças!

Uma delas era imortal.

Uma delas é imortal.

Quantas cabeças você tem? Quantas cabeças você pode usar para ousar... e arriscar o seu pescoço?

Quantas cabeças você pode destruir para que nasçam de dentro delas mais cabeças e uma torrente de universos, pensamentos, emoções, sensações e encarnações (nações de carne)?

Quem tem medo de abrir a cabeça?

Lucchetti não tem.

Eu conheci a Hidra. E nem de longe a destruiria, porque, senhores...

Ela é Rubens Francisco Lucchetti.

Uma cabeça é Urbain Laplace, outra cabeça é Curtis T. Gardner, uma delas mira bem no meio de seus olhos e se chama Marjorie Brown, uma quer seduzi-lo e se apresenta como Mary Shelby, outra quer sua destruição e atende pelo nome de Floyd Manhattan...

Cabeças, cabeças, crânios carregando explosões nucleares ambulantes prontas para se chocarem com outros planetas.

O segredo da vida. O segredo do tempo. O segredo do medo.

O fato é que o monstro sagrado de todas as cabeças quer engolir, quer fazer a sua cabeça. Você morre, mas renasce melhor.

Se você tiver coragem, vai entender que muito mais coragem tem e teve ele, anjo negro, cujas asas perdidas apenas serviram para guiar vertiginosamente seu caminho ao fundo do fundo, ao centro do tudo.

Sabe Deus os mistérios que pairam sobre a nossa existência, o que vive na sombra, na escuridão, o que espreita, o que faz seu coração pular e bater mais forte, seus sentidos se aguçarem, seus pelos da nuca ficarem em pé...
O medo é seu companheiro, a sombra do SOMBRA, um mistério insondável.


Deus é neste lado escuro da lua... seu confidente.

Deus, esta mulher, sussurra no ouvido de Lucchetti contos secretos.

Lucchetti, como um astronautalma ancestral-visceral, vagando no meio do caos perfeito, no infinito, entende a solidão da alma humana como o maior de todos os medos e com o maior de todos os encantos. E trabalha em silêncio.

Silêncio, outro amigo do medo, fiel ao guardar seus segredos.

É no silêncio que os maiores gritos, crimes e castigos são cometidos.

Não é seguro andar sozinho por dentro do silêncio.

Mulheres fatais, mortas ou vivas, querem seu sexo e suas entranhas, o mais íntimo do seu íntimo. Você vendo a si mesmo fora do corpo.

Silêncio.

Cigarro, fumaça, luz na calçada, chuva grossa, o traço ROSSO. Lugares perdidos, esquecidos: ruas sem nomes, becos escuros. Sorrisos sem dentes. O traço ROSSO. Silêncio. Bordéis. Líquidos inflamáveis, desespero e loucuras entorpecentes. Personagens que querem se esquecer de si mesmas. O frio do outono. Silêncio. A faca. O tiro. A corda. O grito. A noite. O eclipse. O silêncio. Calafrio, frio na espinha, corrida sem olhar para trás. Coisas que não podem ser entendidas. Silêncio.

Silêncio e leia.

Não vá se perder por aí.

A busca pela razão não se faz necessária. Não é o campo onde encontraremos vestígios de vida, mas do que um dia se projetou como sendo.

Nem é, em milhões de letras embaralhadas, a busca pelo amor, um sinalcançável.

Lucchetti é rei da mentira. Nas torres mais altas da cidade da verdade mais crua, é ladrão da verdade, saltando os muros noturnos das sombras mais bonitas.

Do ponto e do pó que suga a criatura e por ela é sugado.

Da boca que morde a língua... do sangue que escorre do canto da boca depois de um beijo forçado, arrancado pela sede de um prazer instantâneo e imaginário.

Da sede de um pedaço de vida, mesmo que abstrato, vago-fog, photo-fantasma de uma tarde impressionista. Palavra usada, palavra guardada. Palavra-fantasma que assusta ao ser lida, pronunciada.

A palavra é a cura da palavra.
A palavra é a procura da cura.
A palavra é só a procura.
A palavra é só a palavra. É só. Sem cura.
Por isso, estão todas as palavras... acompanhadas.
Elas têm medo de serem uma palavra só, separada.

A palavra muda da sombra em blanc y noir.

Noir como a palavra escrita sobre a tela branca do livro.

O cheiro de papel, pergaminho, guardado por gerações junto ao Mar Morto.

Língua morta e desenterrada. Desterrada. Levanta-te e anda, sai do caixão da memória e roga a praga.

Na escuridão do silêncio, palavra é luz.
Luz que inunda a tela e a sala.
Cinema é preto no branco.
Livro é preto no branco.
Sangue é vermelho, seja de um preto ou seja de um branco.
Sangue é vermelho mesmo aos daltônicos olhos da besta... da fera que só enxerga o preto e o branco, mas enxerga o medo vermelho estampado em seu rosto.
Cada dia é uma página.

Livros e mais livros, páginas e mais páginas, noites sem dormir, dias mal dormidos, horas mortas, papéis amassados... os dedos sujos, juntos, quebrando-se como ossos – sem ócios do ofício.
A mente onde jamais nenhum homem esteve, mas alguns poucos se cruzam (além da porta, um olho que o engole e um aceno a Richard Matheson).


No meio do caos, do deserto estelar, nenhuma sinfonia, só a noite escura e eterna, total; só o medo da morte depois da morte... o medo do céu acima do céu... o medo de talvez não haver um inferno, de não existir nada além do além.

Tempestade cerebral. Um temporal atemporal.

Tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, cavaleiro sem rosto e sem piedade.
Com o tempo marcando insistentemente o seu passar, o seu chegar, nas paredes da casa de Lucchetti.
Milhares de relógios lembrando-lhe a hora, a sua hora.
Milhares de relógios e ponteiros apontando para o agora.

Centenas de engrenagens funcionando, impassíveis na forma.
Inevitável o peso das horas; insuportável o peso do pêndulo, o carrasco atemporal, senhor dos destinos, cuja verdade é uma só.

Em uma linha única: presente, passado, futuro.
O ponto no fim da frase, da página, do livro, da vida.
O fim da linha. Depois de todas as linhas escritas.

Corta para o interior da Biblioteca de Lucchetti.

BIBLIOTECA – INTERIOR – NOITE
Mais uma madrugada; e um homem, debruçado sobre papéis e uma máquina de escrever, corre sem medo, sob o fio da navalha, que separa a linha fina entre os sonhos mais religiosos e os pesadelos mais primitivos.

Corta para

CAVERNA PRÉ-HISTÓRICA – INTERIOR – NOITE
Já há fogo.
No interior da caverna, em um baile primitivo de luzes e sombras, um ancestral desenha figuras na parede de pedra. Alguns dormem, outros se assombram com o barulho dos animais desconhecidos rastejando no escuro, no lado de fora. O homem não teme, não para de desenhar, cumpre sua missão, a parte que é sua.

Corta para

BIBLIOTECA – INTERIOR – NOITE
Lucchetti se entrega ao seu ofício: acorda demônios, doma a fúria de espíritos seculares.
Corta para

QUARTO DE HOMEM – INTERIOR – NOITE
Um homem dorme, a janela aberta, a cortina dança ao sabor do vento que uiva e desperta as canções de lamentos dos filhos da noite. Em sono profundo, ele viaja por dimensões inomináveis; Lucchetti encontra sua presa e entra em seu sonho, seus medos e desejos. O que o homem sonha, Lucchetti escreve. Um alheio à sorte do outro, como quem psicografa a sombra, a sobra da vítima. Ao acordar, o homem não lembra.

Corta para

BIBLIOTECA – INTERIOR – MANHÃ
Sobre a escrivaninha, junto à máquina, um calhamaço... a prova, viva-escrita em sangue e tinta, de um sonho roubado na madrugada.

Abra o livro e estará abrindo uma cabeça...
Talvez a sua, talvez a minha, talvez a de alguém que nunca se conheça.
Agradeça ao monstro, dono de todas elas.

Gratidão e reverência a R. F. Lucchetti.
Este texto foi escrito em São Paulo, no outono de 2003.

Paulo W. Duarte é bacharel em Comunicação Social pela Faculdade Anhembi-Morumbi, formado em Direção e Roteiro pelo Núcleo de Cinema da Universidade de São Paulo (CINUSP) e pós-graduado em Comunicação e Mercado pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. É produtor executivo e diretor de produtos especiais da Cinemagia, que já lançou as coleções Zé do Caixão, Mazzaropi, Stanley Kubrick e Walter Hugo Khouri em DVD. Foi produtor do Núcleo Guel Arraes da TV Globo. Trabalhou na Cult Filmes, sendo responsável pelo lançamento dos filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no mercado de vídeo. Atualmente, prepara-se para ser roteirista e diretor de Cinema.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Zootropo na TV Cronópios

A ATRIZ JUSSARA CALMON NO PROGRAMA ZOOTROPO
 
Este é mais um episódio da história do cinema brasileiro contada por seus protagonistas no programa Zootropo. Rafael Spaca entrevista a atriz Jussara Calmon, musa do Pasquim e atriz no primeiro filme brasileiro com cenas de sexo explícito, o “Coisas Eróticas” de 1982. Tempos imediatamente pós “Império dos Sentidos”, de Nagisa Oshima, de 1976, e exibido no Brasil em 1980 - indicando de certa forma o início do fim do governo militar. O “Coisas Eróticas” é produto de 'timing' e 'esperteza' do diretor Raffaele Rossi e se tornou um grande sucesso de bilheteria. “Império dos Sentidos” e “Coisas Eróticas”, só no Brasil esses dois filmes têm o sentido que têm: nada em comum, tudo em comum.
 
Jussara Calmon lançou recentemente a biografia “Jussara Calmon – Muito prazer”, escrita por Fabrício Fabretti e Sônia Barbosa (editora Giostri). O filme Coisas Eróticas é só uma passagem em sua na carreira. Jussara ainda participou de novelas na Rede Globo, com destaque para o folhetim “Sonho Meu” de 1993. Tornou-se musa do semanário Pasquim, diva do teatro de revista e ainda modelo e musa do Carnaval carioca.
 
O Zootropo traz um enfoque bem particular do cinema nacional, graças a Rafael Spaca e seu olhar agudo sobre temas pouco explorados pela crítica cinematográfica. Rafael é mantenedor do já famoso blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com.br/) e recentemente lançou pela editora Verve o livro “Curta metragem, compilação de ideias e entrevistas do blog Os Curtos Filmes”. Foi dele a ideia desse novo projeto do Portal Cronópios. O Zootropo tem a parceria do Reserva Cultural de cinema e arte, onde gravaremos todos os episódios. Assista agora essa nova e original produção da TV Cronópios.
 
Agradecimentos especiais:
Jussara Calmon
Laure Bacqué
Miguel de Almeida
Cleo Araujo
Roberto Bicelli
 
Apresentação:
Rafael Spaca
 
Produção:
Rafael Spaca
Paulo Ortiz
Jorge Miyashiro
Pipol
 
Direção:
Pipol
 
Apoios: Reserva Cultural de Cinema e Editora Verve

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

João Signorelli

Ator.
 
Qual é a sua formação? Estudou artes cênicas?
Eu não fiz escola de arte dramática. Comecei a trabalhar profissionalmente aos 16 anos e me formei na prática. Dois cursos depois foram fundamentais pro meu trabalho. Dois anos aluno de Juliana Carneiro da Cunha e dois anos aluno de Klaus Vianna.
 
Como você lida com as críticas?
Às vezes ligo às vezes não.
 
Seu primeiro trabalho em telenovela foi em ‘Supermanoela’ , onde interpretou Nando. Poucos conhecem essa produção. Pode falar sobre ela?
Foi uma novela das 19h de Walter Negrão dirigida por Reynaldo Boury e Marilia Pera e Paulo José nos papéis principais. Ela um empregada a Manoela e ele vestibulando com vários personagens da novela, ela tratava do vestibular.
 
Você participou também de outras grandes produções nacionais como as novelas “Tieta” e “Dona Beja” e as minisséries “O Sorriso do Lagarto” e “Grande Sertões: Veredas”. Como surgiram esses convites?
Olha na verdade, pra todos esses trabalhos que você citou, eu é que fui me apresentar e pedir um papel.
 
Muitos críticos consideram a telenovela um gênero menor. Como vê isso?
Eu não acho. No tempo em que vivemos toda obra de arte é um produto.
 
Numa outra perspectiva, tem setores da sua classe que consideram o trabalho em televisão superficial, que pouco ou nada acrescenta. Qual é a sua análise?
Eu sinto que fazer novela te prepara pra você ter respostas rápidas e criativas na sua atuação pra situações e criações.
 
Há espaço para atuações fora dos cânones televisivos dentro da televisão?
Acho que sim.
 
Quais são as suas referências em interpretação?
Zanoni Ferriti, Antonio Fagundes, Al Pacino, Robert de Niro.
 
"O Disco Solar" foi um espetáculo de teatro que você atuou. Conte sobre ele.
Um lindo espetáculo que falava do mito das Amazonas mulheres guerreiras que viviam na floresta amazônica depois da invasão espanhola na américa latina.
 
A partir de 2004, e por mais de três anos, interpreta "Gandhi, Um Líder Servidor", apresentando-se por todo país em empresas, teatros, em instituições de ensino, clínicas, abertura de eventos, congressos e seminários. Como foi o processo de criação deste espetáculo?
Vi várias vezes o filme , li e ainda leio tudo que sai sobre ele ,ensaiamos dois meses ,4 horas por dia.
 
 
No cinema, destacam-se suas participações em "Fogo Morto", "Meus Homens Meus Amores" e "Boca de Ouro". Qual é a sua opinião sobre o trabalho do ator no cinema?
É a linguagem que mais gosto de fazer. É calma a dinâmica de produção, pelo menos pra nós atores, alia na criação dos personagens, o barroco do teatro com a rapidez televisiva. É interessante.
 
Como analisa essa nova fase do cinema nacional? Tem interesse em atuar mais nessa área?
Tem filmes lindos, gosto muito dos documentários feitos aqui e adoraria ser chamado pra fazer mais filmes.
 
Você já atuou em curtas-metragens, qual é a sua análise desse gênero?
Eu acho ótimo, pois os que fiz ,foram com estudantes e é ótimo trabalhar com a liberdade com a ousadia que eles podem ter.
 
O curta-metragem é a plataforma mais usada para expandir ideias audiovisuais. Sejam elas técnicas ou artísticas. O que te faria aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Ser chamado e gostar da equipe e do texto.
 
Pensa em dirigir em algum momento?
Penso sim.
 
O que você projeta para a sua carreira daqui para frente?
Continuar fazendo o Gandhi até o fim de meus dias e fazer mais cinema e fazer uma novela estou sentindo falta.
 
Para finalizar, gostaria de saber qual é a maior verdade e qual é a maior mentira que contaram a seu respeito.
Que eu sou um homem bom.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Novidade!!!

 
Para ficar na moda, só mesmo com uma dessas:

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Zootropo na TV Cronópios

 

NO PORTAL CRONÓPIOS: O ATOR FLÁVIO PORTO EM CATIVANTE ENTREVISTA NO PROGRAMA ZOOTROPO. NÃO DEIXE DE VER.
 
Neste novo episódio do programa Zootropo, Rafael Spaca entrevista o ator e roteirista Flávio Porto. Flávio trabalhou na Vera Cruz mas a sua paixão mesmo é o cinema da Boca do Lixo. Além de ator, Flávio Porto também é roteirista, é coautor do roteiro de Sargento Getúlio, filme de Hermanno Penna, um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos. Flávio atua nesse filme, interpreta um padre em cena antológica contracenando com Lima Duarte. Flávio Porto tem mais de 30 filmes em sua carreira e hoje está bastante envolvido com o teatro. Assista agora, do começo ao fim, essa entrevista emotiva, emocionante, demasiado humana! Espalhe para os amigos. Espalhe humanismo.
 
O Zootropo traz um enfoque bem particular do cinema nacional, graças a Rafael Spaca e seu olhar agudo sobre temas pouco explorados pela crítica cinematográfica. Rafael é mantenedor do já famoso blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com.br/) e recentemente lançou pela editora Verve o livro “Curta metragem, compilação de ideias e entrevistas do blog Os Curtos Filmes”. Foi dele a ideia desse novo projeto do Portal Cronópios. O Zootropo tem a parceria do Reserva Cultural de cinema e arte, onde gravaremos todos os episódios. Assista agora essa nova e original produção da TV Cronópios. 
 
Agradecimentos especiais:
Flávio Porto
Laure Bacqué
Miguel de Almeida
Cleo Araújo
Roberto Bicelli 
 
Apresentação:
Rafael Spaca
 
Produção:
Rafael Spaca
Paulo Ortiz
Jorge Miyashiro
Pipol
 
Direção:
Pipol
 
Apoios: Reserva Cultural e Editora Verve

 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

domingo, 1 de dezembro de 2013

Divulgação

Hoje, a partir das 16h, no Lyra Serrano - Paranapiacaba.