domingo, 11 de janeiro de 2015

Roberta Estrela D'Alva


Ativista e co-fundadora do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, companhia de teatro que inaugurou o "teatro hip hop".

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Ah...vários fatores. O roteiro, o tema, a relação que tenho com quem está propondo a parada....

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
A época que eu mais fiz curtas foi a da faculdade. Eu estudava na ECA-USP e o pessoal do curso de cinema sempre dava umas ciscadas lá nas Artes Cênicas procurando atores. No fim é bom pra todo mundo porque é um espaço muito legal de experimentação. E esse ano está sendo finalizado o "Ou te mato ou te quero", um curta que o Núcleo Bartolomeu está fazendo em parceria com a Pineal Films de Londres e a documentarista Tatiana Lohmman.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Pô, se a gente pensar que nem os longas-metragens tem esse espaço... quer dizer, tô falando de filme brasileiro né. Acho que são vários fatores, falta de interesse dos jornalistas, do público, falta de gente qualificada pra falar sobre a parada. Acho que até tem se falado mais disso ultimamente, mas é um lance cultural né? o tipo de coisa que não muda do dia pra noite , vai mudando devagar, crescendo o interesse da pessoas.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Ah, tinha aquele projeto do Unibanco que sempre passava um curta antes do longa que era legal . A não ser quando o curta era ruim (risos)...Acho que boas estratégias são festivais gratuitos, divulgação, levar nas escolas pra molecada, pras crianças.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sim, acho que os cineastas principalmente plantam muitas sementes do que será o trampo deles no futuro durante essa fase dos curtas.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Como eu disse, acho que é um espaço de experimentação. Eu conheço gente talentosa pra caramba que só fez curtas até agora e sonha em fazer um longa. Diretores, atores, eu mesma ainda não fiz um longa, que deve ser uma experiência muito diferente de tudo que já fiz. Não sei se te muito essa de trampolim, mas acho sim pode ser um começo de algo maior.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Se eu soubesse, estava no pódio faz tempo... (risos)

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Eu gosto de dirigir, hein? Já dirigi teatro, mas cinema nunca. Acho que até tenho umas ideias que virariam curtas interessantes... Acho que seria legal. Quem sabe...

Camila dos Anjos


É atriz formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena. Fez workshops com Robert Castle, Fatima Toledo e Tata Amaral. Começou a trabalhar como atriz na televisão realizando diversos trabalhos, entre eles, "Sandy e Junior", "Começar de novo", "Essas mulheres", "Malhação", “Anjos do sexo” e “Amor e Revolução”. No cinema participou dos curtas, “Pretérito Perfeito” , Dir. Geórgia Guerra Peixe; “Existe Sempre Espaço para o Amor”, Dir. Bernardo Barreto; “Nua e Crua” , Dir. Marcelo Miazzi; "Noite Perdida" , Dir. Filippo Capuzzi Lapietra. Em 2010, com o curta "O nome do gato", Dir. Pedro Coutinho, ganhou os prêmios de melhor atriz nos festivais “Art Dèco” de curtas e documentários e no “14ºFAM” – Festival Audiovisual do Mercosul. No teatro participou das peças, “Panos e lendas” (Companhia “Pic & Nic”), texto de Vladimir Capela, direção de Chico Cabrera; “Depois Daquela Noite”, texto e direção de Miro Rizzo; “Dr Faustus Liga a Luz” (Cia Nova de Teatro), de Gertrude Stein, direção de Lenerson Polonini e “Caminos Invisibles... La partida” (Cia. Nova de Teatro), dramaturgia e direção de Carina Casuscelli; “Leila Baby”, texto e direção de Mário Bortolotto e “Guarde um beijo meu”, texto e direção de Mario Cesar Costaz.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Roteiro, personagens interessantes e boas parcerias. Acima de tudo pelo exercício e pela paixão em atuar.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Comecei a trabalhar em curtas metragens ainda criança. O primeiro que fiz se chamava Pretérito Perfeito” (Dir. Geórgia Guerra Peixe). Desde então venho fazendo curtas metragens alternando com trabalhos no teatro. Participei de curtas de produtoras já conhecidas, curtas independentes e de cineastas recém formados e talentosíssimos. Gosto de atuar em curtas pelas possibilidades que ele oferece aos profissionais envolvidos.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
O curta-metragem não é distribuído. Sem caráter lucrativo ele perde espaço na mídia. Os meios de comunicação acabam reservando mais espaço para produções grandes, normalmente com atores conhecidos. Acho uma pena, pois os curtas não chagam ao público e acabam sendo vistos e valorizados apenas por pessoas da área.

Na sua opinião, como deveria será exibição dos curtas para atingir mais público?
Sei de uma lei da época da ditadura que obrigava a exibição de curtas nacionais antes de longas internacionais, poderia ser uma alternativa serem exibidos antes de longas internacionais e nacionais, mas também acho complicado isso de “ser obrigado”. Acredito que a melhor forma seria se as redes de cinema e de televisão abrissem mais espaço na sua programação. Isso faria com que os curtas chegassem ao público.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sim. Acredito que muitos profissionais descobrem sua linguagem artística fazendo curtas, pois há muita liberdade para experimentação. Ele é muito democrático, pode ser feito com muito ou pouco dinheiro, por diretores experientes ou recém formados em busca de sua identidade.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
O curta-metragem da oportunidade de mostrar o seu trabalho. Como ele é visto por muitos profissionais da área, seu trabalho pode ser reconhecido e oportunidades podem surgir.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não acredito em receitas. Vários cineastas, atores e profissionais do audiovisual brasileiro, conseguiram seu respeito por caminhos muito diferentes. Algumas coisas ajudam, como por exemplo, aprender a produzir seus próprios projetos e não ficar só esperando uma oportunidade. Aliás, isso é importante para qualquer área artística. Acima de tudo acredito que quem trabalha com arte precisa amar muito o que faz, correr atrás e não desanimar com as dificuldades. 

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não penso em dirigir, mas penso em produzir roteiros que me interessam para trabalhar como atriz. Isso é algo que já venho fazendo no teatro e tenho muita vontade de fazer com roteiros para o cinema. Sempre com o objetivo de trabalhar como atriz, porque é o que me move.


Vadim Nikitin


Ator e diretor teatral. É tradutor da obra de Fiódor Dostoiévski.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
A meu ver, é como ser personagem de um conto ou mesmo verso de um haicai cinematográfico. A concisão radical – na direção, na atuação, no roteiro – atrai-me radicalmente. Como os bons videoclipes, que são “curtas-curtas”, tiros certeiros – e um desbaste esperto em relação ao caráter romanesco dos longas. Contra os quais nada tenho – trabalho muito, por exemplo, com Dostoiévski, prosador prolixo. Os longas no Brasil acabam sendo, oficial ou informalmente, superproduções, enquanto que os curtas são muitas vezes quase cinema de guerrilha.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Não trabalhei muito com curtas, mas posso dizer que, nas pequenas produções de que participei, como ator ou como assistente, cito, imodestamente, Hamlet, de Shakespeare: “Eu poderia estar confinado a uma casca de noz, e ainda assim me achar o rei do infinito.” Um curta talvez seja essa luminosa casca de noz.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
A imprensa, quando não é informante, é aliciante. Quanto a cinema, então, nem se fala. Como crítica, é raramente boa intermediadora entre arte e público. Há uma arrogância por parte dela contra os curtas. Como se os curtas sofressem a opressão da hipótese de que o mais longo é necessariamente o mais complexo. Transformam um nome técnico, “curta-metragem”, num conceito estético de segunda classe. O curta, repito, é um gênero com digna organicidade própria. Ele é tão cinema quanto o longa, às vezes até mais impactante do que duas horas de tela. Mas, é claro, com outro tempo, outra ginga, que tende, de fato, à “pílula” – imagem, aliás, que vários poetas já usaram para definir os seus escritos e que, etimologicamente, é o diminutivo de globo terrestre. Embora um curta custe meia eternidade para ser gerado. Quem faz, que o diga. Mas à mídia em geral deveria interessar, sim, a “pílula”, a pérola plena de arte, instigação e inquietude. O shot, como um beijo roubado. Eu substituíra “curta-metragem”, em homenagem a Kazu Ono e a Yasushito Ozu, por “haicai-metragem”: três versos, trinta minutos; hai = brincadeira e kai = harmonia, realização. Ou seja, sou pela ideia de que “curta” (corte, brevidade) seja substituída por uma noção de totalidade independente.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Em princípio, uma proposta aos governos e, consequentemente, aos circuitos de cinemas – proposta um tanto utópica, é claro – de promover ciclos permanentes e circulantes de curtas, e encontros do público com os diretores e os atores, e toda uma bulha de imprensa em torno disso. Como já há, na verdade, mas esporadicamente. A coisa toda deveria ser mais constante, fazendo jus à intensidade, à qualidade e à velocidade da produção atual de curtas no Brasil e no mundo. Película ou digital, tanto faz. Sou mais pelo digital, porque esse é um processo mais dinâmico e mais barato de produzir, editar, lapidar – em suma, dar passagem à liberdade poética. O importante é que há um desejo fre mente de fazer cinema nacional e que é preciso revelá-lo. Provocá-lo, inclusive. Além de estimulá-lo. Afinal, curta ou longa, tudo é fantasia, não é? (Uma vantagem do curta, entre muitas outras, é a dieta: assistindo a um, come-se menos pipoca.) Uma negociação fundamental com as televisões, que, salvo engano, sofrem de programação precária e ao mesmo tempo de uma inflação de propagandística pífia. Mas aqui vai o principal: para atingir e formar público: promover sessões em centros culturais de comunidades ditas “carentes” – que normalmente não dispõem de outro cinema que não a TV ou têm dificuldade de chegarem ao centro. É quase um programa cultural. A Mostra Internacional de Cinema costuma realizar, a céu aberto, exibições transcendentais no Parque do Ibirapuera. Em resumo: para ter mais público, o curta precisa enlaçar política cultural, televisão e todos os centros culturais que pululam pelas cidades. Não acho justo um curta, que suou tanto para existir, ser exibido simplesmente em função de um festival ou coisa assim. Que o cinema seja do povo, à mancheia, como o céu é do condor!

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
O curta é apenas um dos grandes campos de experimentação do cinema – cinema!, que é uma arte de carreira custosa, há décadas superinflacionada pelo mercado. Mas o curta é decerto um grande campo de reinvenção, na medida em que, regido à base de planilhas mais brandas, pode arriscar mais. Num set de haicai-metragem, para usar o neologismo, a liberdade de criação dos atores e da equipe destrava-se e sai das trevas.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não. Curtas e longas são, mal comparando, como poesia e prosa. O breve e o extenso, o verso e o parágrafo, o poema e o romance. Dois gêneros, válidos cada um por si, com evidentes entremeios e trocas. Bobagem achar que, fazendo um poema, depois sairá um romance, como se um fosse menor do que o outro. Um curta é uma odisseia em miniatura, que não precisa, para existir, ser trampolim de nada. É um gênero em si. Como dança e teatro: o mesmo palco, mas estruturas e tempos diferentes. O curta aproxima-se mais da síntese da dança, e por isso talvez permita riscos cinematográficos que os longas não permitem, por conta de dinheiro, distribuição, mercado. O que não impede que diretores como Je an-Luc Godard façam longas feito curtas e Júlio Bressane faça imensas narrativas no bojo de um take só. Quem se propõe a realizar um longa, faça-o a partir de que vai encarar um longa. Um curta é condensação, e não um laboratório-trampolim para um longa. Um curta, ou um haicai-metragem, é um tempo em si.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não há receita, porque o Audiovisual Brasileiro não é um bolo. Mas acredito que uma dica de cozinha seja válida: poesia. Seja o frenesi do videoclipe, seja uma escultura do tempo, como diria Tarkóvski. O cinema do curta é capaz de resgatar algo do que o cinema do longa vive a perder em nome da mania de querer ser Hollywood de araque. Tempo e espaço à poesia! É com esse risco que se desafia o Audiovisual Brasileiro.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Pretendo dirigir um curta, sim. Trabalho basicamente com teatro, mas tenho vários pequenos roteiros de cinema na gaveta. Um deles sobre meu pai, que ainda não conheço pessoalmente – um grande ator de Moscou, Valentin Gaft. Moscou, minha cidade natal, onde nasci há quarenta anos.

André Deca


Ator. Atuou nos curtas-metragens ‘Depois do Escuro’; ‘Ratão’; ‘KCRisis’; ‘The Bitchhiker’; entre outros.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O roteiro, os profissionais envolvidos e o personagem que eu vou fazer. Me interessa muito fazer personagens que me desafiam, coisas que não fiz, mas principalmente o roteiro.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Eu comecei nos curtas em 1998, no filme “Depois do Escuro” de Dirceu Lustosa. Fiquei um período sem atuar, tinha meio que desistido da carreira por conta de grana e tal, até que em 2003 recebi o convite do Eduardo Belmonte que já tinha trabalhado em outros projetos para fazer o curta-metragem “Momento Trágico”, de Cibele Amaral. O curta teve uma ótima repercussão e graças a ele, recebi o prêmio de melhor ator no festival de gramado em 2004 e não parei mais. Já participei de mais de 15 curtas todos de diretores brasilienses.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não sei, coisas da nossa imprensa. Os longas-metragens não tem espaço, imagina nos curtas. É uma pena.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho que a internet é o grande veículo pra exibição dos curtas. Eu acho interessante um projeto que obriga a exibição de curtas antes dos longas em cartaz no “circuitão”. O que acontece é que o grande público não tem o hábito de assistir curtas.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sim com certeza é. Me interessa mais o desafio de se contar um estória num curta do que certas "viagens" de alguns cineastas, mas claro que tem filmes experimentais interessantíssimos e é importante pra formação de uma linguagem, de uma estética e também pra formação dos envolvidos.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Acho sim que os curtas são a porta de entrada pros longas, tanto pros diretores como técnicos e atores. A partir dos curtas que se tem uma formação, mas isso não quer dizer que o cineasta vai fazer longas. O caminho é muito árduo tanto pra produção e principalmente pra distribuição dos longas.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não tem receita, eu não acredito nisso de vencer no audiovisual brasileiro. É uma carreira que tem que ser construída. Acho que tem acreditar e não desistir.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não me sinto capaz ainda, mas quem sabe... Quero sim produzir e encontrar bons roteiros para atuar que é minha paixão no cinema.

Marcel Szymanski


Ator. Atuou em ‘400 contra 1 - A História do Comando Vermelho’; ‘Cafundó’; no curta-metragem ‘Garoto Barba’; entre outros.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Os mesmos motivos que me fazem participar de produções em longa-metragem, TV e teatro. Acredito. Necessito. Vivo disso.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Comecei participando de produções universitárias - aquelas em que tudo é novidade, e que aos poucos vamos nos familiarizando com a linguagem; e que todos aprendem juntos a fazer; onde surge o desejo da experimentação. Algumas produções eram realizadas pela área de comunicação audiovisual da PUC-PR, outras eram experimentos da CINETVPR (Escola Superior Sul Americana de Cinema e TV) – hoje integrada à FAP (Faculdade de Artes do Paraná). Desses lugares surgiram alguns dos melhores profissionais com os quais trabalhei: Diego Florentino, Aly Muritiba, Fábio Allon, Bruno de Oliveira e Adriano Esturilho [diretores de "Circular"]; Christopher Faust [diretor de "Garoto Barba"; Paulo Biscaia Filho [diretor de "Morgue Story"]. Uma das experiências mais marcantes na minha trajetória cinematográfica, foi certamente a participação no curta metragem "A Fábrica", de Aly Muritiba, em que presenciei até onde vai o alcance de uma história contada em quinze minutos.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Muitas coisas ainda não tem espaço na mídia. Contamos com pouca crítica especializada, se levarmos em consideração o número de produções existentes hoje. O surgimento de instituições interessadas em formar profissionais da área é um bom sinal, desde que haja realmente esse interesse. E reciprocidade. É um processo lento ainda. Há a dificuldade. Mas creio que existe o movimento. Os Festivais do gênero promovem com mais facilidade essa troca. A visibilidade e a reflexão que rolam nos festivais realmente deveriam estar mais próximas da sociedade.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Talvez o diálogo entre as linguagens seja um bom caminho. Curtas produzidos, coproduzidos ou apenas exibidos por emissoras de tevê já possuem um bom alcance. Propostas como a da nova lei da tevê paga, por exemplo, que prevê um aumento na exibição de filmes nacionais, podem ser mais um meio de chamar a atenção do público também para os curtas-metragens. As exibições deveriam acontecer não só em cinematecas ou cineclubes, mas em salas comerciais. Não só em algumas cidades, não só em alguns estados, não só no Brasil. Não só os curtas, não só o cinema, mas a Arte em geral.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Acho que pra um artista, o curta metragem serve de campo de liberdade pra várias coisas. Inclusive experimentação. Um curta-metragem pode ser um recorte de uma história, uma lente de aumento sobre determinado sentimento ou questão, um simples entretenimento ou uma crítica social. Dá pra experimentar bastante! (risos). Assim como a produção de filmes "menos experimentais" podem proporcionar descobertas surpreendentes! É gratificante e divertido fazer um curta-metragem. É gratificante e divertido fazer cinema!

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não necessariamente, mas pode ser. O trampolim pra qualquer trabalho é a qualidade. Se a escolha for aprimorar a qualidade em um curta-metragem pra encarar um longa em seguida, ótimo. Mas pode acontecer o contrário. rs.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Também gostaria de saber! rs. Acho que se houvesse uma receita(algo genérico, que servisse pra todos) seria fácil. Busco motivações e verdades minhas. Tento ser verdadeiro. Se eu conseguir alcançar alguém, seja por identificação, seja por suas outras motivações e verdades, já é válido.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Já pensei várias vezes. Sempre penso. É algo que está presente em meus desejos. Tenho vontade de filmar várias histórias, estou amadurecendo a ideia. Enquanto isso, observo os sets e assisto muitos curtas. Minha formação é na área de atuação/interpretação, mas tomei gosto por todas as funções de uma produção cinematográfica. Quero passear em outras funções, inclusive direção.


Alice Stefânia


Atriz, diretora e pesquisadora. Doutora em Teatro pela UFBA - Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (professora adjunta e pesquisadora). É coordenadora do grupo de pesquisa Poéticas do Corpo.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Adoro atuar em cinema. Fazer curtas ainda tem a vantagem de não ocupar tanto tempo, é fácil organizar as outras atividades profissionais e cotidianas e participar. Um bom roteiro, uma personagem interessante ou uma equipe bacana são motivos mais que suficientes. E, a menos que se trate de projeto acadêmico, é importante que haja um cachê, ainda que simbólico a depender da produção.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Já fiz algumas participações em curtas acadêmicos, profissionais e experimentais. Todos os projetos me trouxeram satisfação e alegria. Talvez por ser atriz de teatro, me encantou participar de alguns trabalhos mais artísticos, em que tive maior liberdade criativa. Esse é um espaço mais raro no cinema: de abertura significativa a proposições por parte dos atores. Pra mim, como artista, isso é bem especial. Mas também curto muito interpretar diferentes personagens segundo as concepções prévias de roteiro e direção, já que, claro, há sempre espaço para a contribuição do ator.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Possivelmente fatores de mercado e econômicos estão por trás dessa lacuna, mas não tenho tanta clareza. Apenas lamento, como artista e como espectadora!

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Além de mais espaço em TVs fechadas e abertas, seria maravilhoso, por exemplo, a exibição de curtas antes de sessões de cinema. Eu adoraria assistir. Não sei como seria isso do ponto de vista comercial/econômico, já que em tese paga-se pela sessão principal, mas de qualquer modo seria um início, e ao menos implicaria em divulgação de tantos bons filmes que ficam restritos a festivais e guetos culturais.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Não sei se é o grande campo, mas um grande campo, certamente. O que talvez explique em parte o descrédito e desânimo das mídias em geral em relação a eles... Como também o fato de que curtas são muitas vezes associados a diretores iniciantes ou inexperientes.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Para muitos artistas sim. Não pejorativamente falando. Mas quem quer fazer um longa, possivelmente fará antes um curta. Num raciocínio simplório: o orçamento é mais baixo, se errar, o prejuízo é menor...

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Mas aí depende um pouco do que se entende por vencer... Vencer é vender? É se tornar uma referência na linguagem? Virar um blockbuster? Ser sucesso de crítica? Seja o que for, se você descobrir a receita, conta pra gente!

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Honestamente nunca pensei nisso, nem curta, nem média, nem longa! Minha intimidade com as câmeras é pelo lado de cá, diante delas. E mesmo assim é pequena ainda. Mas adoro, estou sempre disponível pro cinema!

Luiz Bertazzo


Ator. Trabalhou na adaptação do curta-metragem “Corvo”, da VigorMortis.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Primeiro de tudo o contato com o diretor ou equipe artística. Gosto de reunir, tomar um café, falar sobre o projeto, ser pessoalmente inserido no contexto do curta, assim consigo me sentir livre em poder dar ao projeto o melhor de mim, de dialogar com o diretor caso exista diferenças, inseguranças. Um set muitas vezes pode ser estressante então a abertura para o diálogo é fundamental. Já presenciei situações em que o ator que está dentro da cena está mais atento à detalhes em que a equipe não está focada, se o ator for um mero instrumento todo mundo sai perdendo. Não acredito em nenhuma relação profissional que não seja horizontal, mesmo que cada um tenha suas especificidades na sua área atuação.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Acho que sempre tive a sorte, pelo menos nos trabalhos profissionais, de trabalhar com alguns nomes legais aqui em Curitiba. O bom de fazer curta é que que as pessoas se arriscam mais em suas convicções artísticas, fiz uma adaptação do “Corvo” com o Biscaia, diretor da VigorMortis em que pude gastar bastante sobrancelhas, gritos de terror e respirações ofegantes, para interpretar a paranoia do Allan Poe, também fiz um curta com a Sara Bonfim (Quadros) em que o trabalho de atuação/direção foi de um sensibilidade feminina que me tirou dos meus padrões. Acho que a equipe reduzida e o trabalho intenso de um curta faz as pessoas vestirem mais a camisa, almoçar juntos, repito que eu gosto quando o trabalho tenha um parcela de “pessoalidade” em todos.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que essa é uma questão geral, não vejo a arte abocanhando muitos espaços, quando eu digo arte estou dissociando-a da ideia de cultura ou entretenimento. Não há interesse mercadológico na arte, há um interesse alegórico em cinema/teatro/música, mas não necessariamente na arte, e a ideia de curta-metragem acaba sofrendo esse baque, pois acredito que em sua essência o curta-metragem tem um formato de experimentação, de abordagem, de ataque a alguns temas que não se relacionam com o espaço aberto nas “mídias em geral”. Claro que estou falando isso de um modo geral e pessimista, em Curitiba onde em moro já existem alguns meios de comunicação, e a internet ajuda muito nisso, que se preocupam em abordagens mais direcionadas ao fazer artístico, mas o caminho para difundi-los ainda é árduo.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Os Festivais fazem isso muito bem, eu adoro acompanhar quando tenho a oportunidade, acho legal ter o contato com a obra em um evento experiencial, entrar em diálogo com um puzzle de curta metragens que não se relacionam necessariamente entre si, saio sempre transbordando dessas sessões de curtas. Mas algumas vezes adoraria poder entrar em contato com certa obra em um momento mais intimo, em casa, estudar o curta, ver, revê-lo. Isso é quase impossível pois a maioria fazem nome nos festivais e depois voltam para a produtora, não há uma politica de distribuição. Seria legal se cada festival do Brasil ganhasse um apoio e fizesse um Box dos filmes mostrados, ver o que foi selecionado em Recife, em São Paulo, em Curitiba, cada festival tem sua personalidade. Também poderia haver uma seleção oficial de curtas como acontece com os filmes vendidos aos domingos em jornais como a Folha de São Paulo, comprar o material com um preço acessível seria, acredito, uma maneira de valorizar e difundir o formato.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sem dúvida, acho que o clima é outro, a pressão é menor, talvez por não se pretender entrar nesse esquema de grandes distribuidoras. Posso falar apenas das experiências que vivi e sempre foram de diálogos abertos, a equipe reduzida deixa o filme mais artesanal, todo mundo põe um pouco a mão na massa, a corresponsabilidade é maior, isso acaba influenciando muito no resultado final, deixa de ser um filme tão segmentado em funções. Porém acho que isso não é uma exclusividade do curta, trabalhei em um longa metragem chamado Circular, com cinco diretores, uma equipe grande, em que a experimentação também era uma característica no set, pelo menos na parte da atuação me senti livre pra propor e fazer meu trabalho assumindo alguns riscos.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Muitos diretores reafirmam seu nome no formato, atores também, acho que é sim uma vitrine, um curta que acumula prêmios tem chances de alavancar sua equipe para um trabalho de maior dimensão, só não acho que essa deve ser a intenção ao fazer um curta, como eu disse um curta metragem assume riscos que uma produção de longa nem sempre pode correr, então pra que perder essa oportunidade vislumbrando algo maior, o curta por essência já é uma grande coisa. Seu formato não pode ser considerado “pré-nada”.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não acho que existe receita pro sucesso, receita é algo de medidas contadas e resultado igual, só sigo receitas pra fazer comida e ainda sim só porque sou péssimo cozinheiro, se eu fosse um bom faria de forma experimental e vanguardista.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Dirigir ainda não está nos meus planos, mas esse ano tenho um curta-metragem em fase de captação em que atuo e assino o roteiro, minhas ambições estão mais como roteirista do que como diretor.