domingo, 27 de março de 2011

Carlo Mossy

foto: Cadú Dias.

Mossy é um emblema do cinema nacional. Considerado um dos maiores galãs brasileiros, reinou durante os anos 70 e 80 com produções eróticas e populares que arrebentavam nas bilheterias de todo o país.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
No Brasil tupiniquim, nenhuma importância que possa se definir como importância, seja ela cultural, artística e ou comercial. Em outros países, o curta é respeitado e valorizado. No Brasil, apenas um escape passional, agregado à total incapacidade – e desinteresse - dos ‘administradores’ do nosso cinema, cinema que algumas décadas atrás podia ser denominado como sendo uma indústria cinematográfica, hoje, indústria da captação de dinheiros mafiosos. (São sempre os mesmos que são brindados com o dinheiro público através de –estranhos- Editais e afins). Isso não quer dizer que não haja bons curtas. Infelizmente, muitos deles jamais sairão do –mortal- anonimato. Curta-metragistas existem e fazem existir seus curtas, (a maioria, na minha humilde opinião de cineasta há 45 anos, uma merda). O que não existe é a seriedade da sociedade gestora desse segmento importante à proliferação de curtas. Aliás, impreterível à formação de novos cineastas, de qualquer bitola.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral? 
Nem os longas têm o espaço que merecem, imagine os curtas. Atualmente, os críticos de cinema, jovens e com um olhar menos antropofágico, mantém um bom índice de aceitação ao atual formato intelectual para com os novos diretores de curtas. Acreditam os críticos especializados numa metamorfose celulóidica através dos curta-metragistas em ascensão e de seus valiosos produtos.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Como se tem feito. Inicialmente em salas de cineclubes, projeções extra-particulares em salas para mais de quarenta pessoas, nas universidades, e, claro, nos Festivais. Estimular e seduzir através de curtas, de toda espécie artístico-intelectual um publico jovem, eis o código. Nos anos 70, obrigados pela lei, os exibidores produziam eles mesmos, criminosamente- curtas de baixíssimo nível, com o propósito de desestimular o público a aceitar os curtas como formação de futuros espectadores. A lei da obrigatoriedade caiu. O cinema foi junto. Quem comanda com o cinema nacional é o cinema internacional (americano). Vive-se com pires na mão, ajoelhados diante os distribuidores/exibidores alienígenas (cuja diretoria é brasileira) para exibir qualquer produção nacional que não faça parte de seu monopolizado sistema agressor.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Cineasta só de curta será sempre um cineasta frustrado. Mal comparando, nenhum jogador de futebol, de qualquer clube pequeno, deixará de sonhar com um time grande e com a seleção. Nenhum cineasta americano de curtas (país onde se exalta e se respeita esse tipo de trabalho audiovisual) deixará de almejar um Oscar e, à continuidade, adentrar no mundo dos longas. O fascínio existe e é equacionado pelo tempo e pelo talento de cada curta-metragista. Impossível viver no Brasil (comercialmente falando) só de curtas. Mas como quase todo mundo pode comprar uma câmera digital, logo se achando um Fritz Lang com os super poderes de um Spielberg, e ainda mais atribuindo-se o milagre da câmera na mão uma idéia na cabeça e alguns trocados do papai no bolso ou na bolsa Victor Hugo (legítima), se transformam num piscar de olhos num cineasta. Equívoco. Inicia-se pelas bases como em qualquer outra profissão, esse é o lema. O cinema é uma profissão, só que diferenciada, pois agrega o físico, o intelectual e o espiritual.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
O atual cineasta brasileiro salve algumas pouquíssimas exceções não se incomoda com o curta, apesar de saboreá-lo em doses mínimas. O que está em questão é a grana que provirá através de maracutaias, e não à qualidade de seu filme, mesmo que não dê retorno financeiro já está pago antes de iniciá-lo. É bom lembrar, caro Rafa, que o cinema, antes de qualquer coisa, é em primeiro lugar, é um extra-produto de origem financeira, e que deve pertencer ao quadro da arte comercial, ou seja, ele deve, na lógica urbano-ocidental atrair o máximo de pessoas pagantes. Um filme intimista, culturalista, abstratista, ou qualquer lista, ou seja, filmes herméticos, intimistas e pessoais podem e devem ser fomentados, contanto que sejam realizados (no universo da quimera) com o dinheiro do bolso de quem os produz. Todo cineasta é um curta-metragista apesar dele, pois os fotogramas, cada qual, individualmente, é um curta, juntados, metamorfoseiam-se em médias, longas, ou bíblicos.

Você trabalhou em vários curtas. Como é o seu processo de trabalho neste formato? Difere muito quando trabalha com longas?
Sou um apaixonado por curtas. Eles contribuem à minha convivência existencial celulóidica. Dizer num pequenino espaço de tempo audiovisual muita coisa, é a arte mais construtiva e inteligente que podemos estimular. Poemas de Verlaine ou de Rimbaud, por exemplo, elastecem, através de suas poucas parábolas, toda uma existência, seja ela aflitiva ou prazenteira.

Pensa em dirigir um curta futuramente? Qual é o seu próximo projeto?
Dirijo curtas desde que me conheço por cineasta. Já ganhei dois prêmios internacionais com meus curtas, esses, realizados nos idos de sessenta na França e na Suíça. Os curtas são minha paixão primeira. Aprendo com cada take. É uma lição que transporto para os meus longas. Meu próximo curta, "Eu por mim Mesmo", autobiográfico e visceral, falará de um Mossy diferente do Mossy até aqui apresentado à humanidade brasileira. Mais intelectualizado, mais tolerante consigo mesmo, mais antropológico às questões da condição humana, mas não menos libidinoso. (risos)

Para o ‘Canal Brasil’, numa matéria sobre a política e o cinema nacional, saí com essa: “O Cinema Brasileiro não é -no momento- melhor do que o Congresso Nacional e sua vizinhança politiqueira. Então, não lhe cabe se prestar à palmatória cultural do país. Mudem o sistema financeiro anárquico e ganancioso que comanda com o jogo existencial brasileiro, o cinema mudará também”.

domingo, 20 de março de 2011

Edu Felistoque



Cineasta e dirigiu longas, séries para a televisão e curtas, entre eles ‘Zagati’.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O cinema mundial começou no formato de curta-metragem ... e lá foi o tempo do pensamento e conceito que rodar um curta era somente experimentação e inicialização no cinema .... preparo para um coisa "maior"... o longa-metragem . Eu nunca acreditei nisso, tanto que rodo longas e curtas, sempre!!!

Infelizmente a importância histórica dos curtas fica restrita do grande público... estando somente disponíveis ao "gueto cultural" adoradores de cinema curto.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque a maioria dos críticos, distribuidoras e exibidores não vêem os curtas como um "produto comercial" de entretenimento ... isso por causa do curto tempo de duração dos filmes e também pelo conceito errado de que curta metragem é coisa de iniciante... ou seja não "tem valor".

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Cota de tela seria uma besteira enorme... talvez tentar unir vários curtas para que chegasse ao tempo de um longa para poder entrar na "grade do cinema".

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Não por muito tempo... exatamente por causa desse conceito errado de que curta é trampolim pra longa... o curta deveria receber "status" de desenho animado gringo ... que conta uma estória em pouco tempo e é sucesso no mundo todo, na TV aberta, fechada etc...

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sim e muito... graças a glamorização do longa... que besteira !!!!

Você já dirigiu alguns curtas. Qual foi a sua escolha? Como define temas para começar a rodar um curta?
Meu critério é o seguinte existe estórias curtas e estórias longa ... só isso.. a estória que determina o tempo do filme... não da pra esticar uma estória curta pra longa fica cheio de barrigas e tempos nulos.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Todo o tempo... inclusive agora rodando a série de 12 episódios para o canal Brasil Globosat HD, estou na verdade fazendo 12 episódios, são 12 curtas-metragens de 25 minutos cada enquanto aguardo o lançamento do meu longa-metragem, "Inversão".

domingo, 6 de março de 2011

Caco Galhardo



Caco Galhardo, o cartunista que fez a arte deste blog, nos presenteia com um cartum que saiu na Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, em dezembro de 2010.

Alfredo Sternheim



Alfredinho, como é carinhosamente conhecido, foi um dos maiores cineastas da Boca do Lixo de São Paulo. Além de diretor, é escritor e colunista.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Não só a de revelar talentos e sensibilidade, mas também de registrar aspectos da nossa realidade, nossa cultura. Por isso, curtas como os feitos pelo antigo INCE (Insituto Nacionalo do Cienam Educativo) que antecedeu o INC, como "Mário Gruber", "Alberto Cavalcanti" divulgaram a vida e a obra de muitos criadores artísticos. E mesmo aqueles caprichados institucionais de Jean Mazon, hoje são datados mas importantes pela realidade que registram. A realidade oficial e não oficial.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não são só os curtas que não têm espaço na mídia. Os DVDs (o que tem de filme inédito no cinema que]ganha lançamento só em DVD), o teatro, a ópera, não têm vez nos jornais. E até mesmo atividades relevantes como a da Câmara dos Vereadores de SP ou dos deputados estaduais, não se vê uma linha. A imprensa ficou pequena. A mídia ganhou espaço na Internet, mas esse espaço é mal aproveitado.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não sei dizer. Talvez a volta da antiga lei de obrigatoriedade do curta nos cinemas. Porém, não poderiam (como ocorria na época) ter mais de 11 minutos. Ou uma lei obrigando a cada dois lançamentos de longas, o terceiro vir acompanhado de um curta nacional. Afinal, o exibidor nos obriga a ver publicidade (mais de 3 minutos)... e cobra caro o ingresso.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É possível, mas não é o ideal. Mesmo quando o diretor visa fazer longas. Eu fiz oito antes de estrear no longa. E só fiz 3 curtas depois que dirigir longas, porque era muito difícil encontrar produção para o curta.

Qual o legado que a Boca do Lixo deixou para os curtas?
Para os atuais diretores, creio que a Boca, ou a maioria de seus cineastas, respeitava a linguagem cinematográfica. E isso, essa falta de respeito e excesso de vaidade que compromete o ritmo, noto existir com freqüência. A Boca também deixa o legado do respeito ao orçamento e a preocupação em atingir o público, algo que hoje, com as verbas vindas do mecenato oficial, deixou de existir. Pelo menos parcialmente.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não, não é. Como disse antes, as dificuldades para encontrar produção para um curta quase são maiores do que para um longa.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Gostaria, mas estou sem animo e força física para ir atrás de produção, dentro do mecanismo atual (renúncia fiscal, concursos, editais, etc).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sérgio Sanz



Sérgio começou como assistente de direção de Ruy Guerra no filme ‘Os cafajestes’. Fundador e ex-presidente da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), presidiu também o Sindicato dos Artistas e Técnicos (SATED - RJ).

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta-metragem abre portas para que cada cineasta perceba se pode ou não fazer cinema.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
O mercado ganhou a guerra contra o curta. Ninguém vai ao cinema ver curta, por causa do curta. O mercado convenceu o governo ao dizer que o curta só atrapalhava os custos da exibição, encarecia. O Collor rifou totalmente o curta da tela, pois era neoliberal, assim como o governo Fernando Henrique. O Lula não repôs o curta por causa dos dirigentes da UCINE.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
De alguma maneira é. Todo mundo busca o mercado e baixou a qualidade. Os longas hoje não tem a qualidade dos longas da década de 70. Quem faz longa quer ter visibilidade e mercado. Como o curta não tem isso, não interessa pra ele. É uma questão de vaidade. O que adianta fazer um curta se ninguém vai ver e eu faço o longa e ele vê, por pior que seja, é legal pra ele posar de cineasta...

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Eu fiz um curta recentemente, ele tem 17 minutos. O nome é ‘São Luis dorme ao som dos tambores’. Eu gosto de fazer curta.

Qual é o seu próximo projeto?
Eu passo as mesmas agruras que o pessoal do curta passa. Faço documentários. Quero fazer um filme sobre os refugiados angolanos no Brasil, o título é ‘Um lar chamado Brasil’.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Joel Pizzini



Joel dirigiu diversos documentários de curta e longa-metragem, com destaque para o longa 500 almas (2004), vencedor do prêmios de melhor fotografia, trilha sonora, som e montagem no Festival de Brasília, e prêmio de melhor documentário pelo júri oficial do Festival do Rio.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O cinema brasileiro nasceu através de experimentos de curta duração e formou uma tradição poderosa nesta forma de expressão que passou desde o cinema institucional, cinejornal, pedagógico, animação como ensaios de arte como "Di" do Glauber, "Couro de Gato" de Joaquim Pedro de Andrade e "Arraial do Cabo" de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro, que se tornaram clássicos. Trata-se de um espaço por excelência, da experimentação e renovação da linguagem. O tempo físico neste caso é ficha técnica, o que fica é a experiência estética que atinge um nível de transcendência onde a duração temporal é subjetiva e reverbera na imaginação. Temos um conjunto de filmes de curta-metragem que integram o patrimônio audiovisual mundial, além da produção educativa, realizada especialmente por Humberto Mauro que tiveram uma grande função “social”.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Por critérios estritamente comerciais, já que o longa-metragem atende a um tempo de programação compatível com a grade das salas de cinema e deste modo chama mais atenção e movimento uma economia maior. Nos anos 90, na Era Collor, quando a produção de longas minguou no Brasil, os curtas ocuparam o primeiro plano e forjou-se inclusive o movimento chamado ‘A Primavera do Curta’, do qual fui até incluído, que se notabilizou pela capacidade narrativa e também pelo exímio acabamento. É bom lembrar que nesta Idade Média da produção brasileira, vários fotógrafos atuantes na publicidade migraram para o curta o que imprimiu aos filmes uma excelência visual nunca vista antes na produção do gênero. Lembro-me que se falava na época de um tipo de curta chamado "portfólio" ou "mini-longa", que miniaturizava a mesma estrutura de um longa convencional para um formato mais compacto. É claro que paralelo a isso, se contrapunha a experimentação.

A mídia estampou na capa dos segundos cadernos toda esta fase luminosa do curta e, na medida que os editais voltaram, os curtas retornaram ao segundo plano. O curioso é que houve uma crise criativa a partir daí, pois a função dos filmes mudou e não fazia sentido repetir o mesmo procedimento. Hoje vemos fenômenos como o documentarismo mineiro, que dialoga com as artes plásticas, arejando assim a produção ensaística.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Em parte sim, pois há toda uma mistificação sobre se dirigir um longa como se só assim, o autor alcançasse enfim a sua maturidade artística. A repercussão social de um longa, sem dúvida, é maior, a cobertura da mídia é superior, mas isso não garante a sobrevivência do filme enquanto fenômeno sócio-cultural. Autores como Agnés Varda, por exemplo, segue fazendo seus curtas, independente desta hierarquização.

Até por que, quem trabalha na fronteira das artes, realizando instalações, web-art, não tem essa necessidade de se adaptar ao tempo padrão das salas de cinema. O Jean-Luc Godard fez uma constatação interessante à respeito: por que um filme precisa necessariamente ter o mesmo tempo que uma partida de futebol (em média 90 minutos)? É quanto em média, com raras exceções, o sujeito "suporta" sentado numa poltrona de uma sala escura...

Entre os anos 50 e 70, haviam os longas de esquetes, que aglutinavam de 2 a 4 curtas de autores conceituados como os filmes "Amores na Cidade", "ROGOPAG" e "Bocaccio 70", entre outros. É uma forma de amplificar a circulação dos curtas, desde que sejam parte de um projeto de longa-metragem. Outra saída é a composição de programas afins temática e esteticamente, que possam se equivaler à duração de um longa e assim ocuparem os espaços consagrados. Do contrário, resta-nos o chamado circuito alternativo dos cineclubes onde sobrevive a criação independente e experimental não subordinada à pressão do mercado.

Por outro lado, há uma espécie de culto-à-metragem que não contribui pra essa discussão. Ninguém diz que "O Cão Andaluz" do Buñuel é um curta, inclusive ele é distribuído num DVD solo. Antes de tudo é um filme, cuja duração é curta. Há que se tomar cuidado em não valorizar o tempo físico, o foco é outro. É claro que a duração cria um conjunto de filmes que precisam de outra estratégia de circulação e distribuição, naturalmente.
Sempre me incomodou a auto-intitulação por parte de certos realizadores, de curta-metragista. Soa pejorativo, infantilizado.

Você já dirigiu vários curtas (‘Caramujo-Flor’; ‘Enigma de Um Dia’; ‘Glauces - Estudo de um Rosto’; ‘Helena Zero’). Como é o seu processo de escolha destes trabalhos? Como é a composição do seu trabalho?
Realizar a síntese é às vezes mais difícil do que comportar a prosa dentre de uma história de longa duração, onde a palavra pode servir de muleta pra falta de imaginação sonora e visual. Concordo com o Fellini quando diz que o autor realiza um filme só à vida inteira, com uma luz própria onde de filme pra filme questões são retomadas, revistas e revisitadas. Basta ver uma seqüência de um filme do Fellini ou do Antonioni pra reconhecer a autoria, pois o estilo prevalece como protagonista da história.

No meu caso, parto de uma palavra, uma sensação, algo que me persegue ou que não lembro exatamente até dar forma a um argumento. Mas é no processo que o filme nasce e o tempo de duração resulta do ritmo imposto pela abordagem, pela natureza dos materiais arranjados. Há um princípio fisio-químico que deve ser observado, e sobretudo o olhar dos colaboradores envolvidos que construirão novos sentidos à composição do trabalho. Há que se confiar na natureza, incorporar o improviso não como ponto de partida, mas como desdobramento da ação desencadeada. É um jeito particular, onde a experiência é intensa, radical de longa-metragem, e a feitura resulta breve, como se arvorasse voar.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tenho dois projetos encaminhados, um chama-se "Cinema de Sombras" e outro "A Morte do Pai" aguardando apenas um incentivo de produção. Penso sempre em filmes-haicai, pois a poesia está muito ligada ao sentido da brevidade, do sumo, do gesto essencial, da abstração do tempo. O Robert Bresson costumava dizer que seu sonho era chegar a cinco minutos de cinema puro...

Não tenho uma visão linear e hierárquica deste processo. Após filmar "500 Almas" realizei por absoluta necessidade "Dormente", que talvez seja o meu trabalho de maior repercussão de público, inclusive. Ganhou vários prêmios, inclusive num Festival no Irã e teve cópias adquiridas para o acervo do Festival de Oberhausen e Moma.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Júlio Lellis



Júlio dirigiu diversos curtas e, atualmente, está realizando a montagem de um longa-metragem sobre a vida da escritora Nélida Piñon, numa produção hispânico-brasileira. "Nélida Piñon - O Atlântico e suas Correntes" conta a vida e obra de uma das mais importantes escritoras do mundo.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Recebi do escritor Otávio Mello Alavarenga um livro intitulado "O Rosário de Minas", contando a história de sua família. O seu avô, Aristides Junqueira, cavaleiro de muitas viagens, precursor da hipnose e do cinema documentário em Minas, fez em 1909 alguns pequenos filmes de sua família e de vizinhos. Para nós do século XXI, são pequenos curtas. Tudo isto está desaparecido. Eu penso que tipo de história pode ter um país que não respeita e não vislumbra um Brasil com seu povo retratado em imagens de algum tipo. Penso que não há história se não há um arquivo. O Brasil não tem um órgão que seja que realmente cuide de sua cultura, das suas imagens, etc. O que temos está muito maltratado e sem verbas. Por isso, fica muito difícil colocar uma real importância histórica da linguagem do curta-metragem na cultura nacional. Não há formação real acadêmica ou histórica para a linguagem.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Deveria existir uma lei que obrigasse os canais abertos a passar um curta metragem, como era feito nos cinemas há tempos atrás. Os curta-metragistas deveriam abrir mão durante um tempo predeterminado de algum pagamento de seu trabalho para que o público se acostumasse com a linguagem. Já é muito importante o fato em si: o curta ser exibido, um grande avanço. Poderia ser inserido entre uma novela e outra. Sabemos que o Brasil é um dos países que mais produz curtas e os mesmos ficam restritos a cineclubes ou circulando entre amigos e alguns poucos sites direcionados para isso.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
As pessoas acreditam que os curtas são de má-qualidade. Isso perdura até hoje entre alguns segmentos da população, mas não podemos esquecer que as novas gerações não passaram por essa lei, portanto, não tem essa "mágoa antiga", por assim dizer. Podemos restabelecer isso. A duração de um curta talvez não movimente os donos da mídia a investir em divulgação, pois acham que é uma arte de pouco apelo. Talvez a solução seja juntar em uma sessão de cinema alguns curtas afins. tenho certeza que o público se interessaria. É uma questão de costume e divulgação. Não há uma política cultural para isso. Recentemente, na cidade de Congonhas do Campo, em MG, uma curta-metragista chamada Lucia Farinha fez um filme contando sobre uma lenda local e nem a própria cidade exibiu. O interesse do povo existe. O que não existe é algum interesse das distribuidoras e associações políticas em dar força a esta linguagem. Historicamente podemos atribuir isso também à grande poda assassina que foi feita na EMBRAFILME por políticos brasileiros movidos por interesse estrangeiro.

Denise Lopes, professora da Faculdade Estácio de Sá na área de cinema, tem uma tese sobre o assunto, versando sobre o que foi de real interesse político estrangeiro e brasileiro nessa grande maracutaia feita nos anos 80.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sofri esse preconceito recentemente. Tenho 8 curtas de ficção, 3 curtas documentários (entre eles um sobre a atriz Léa Garcia e outro sobre a escritora Nélida Piñón que foi exibido na UNAN - Universidade do México quando a referida recebeu o prêmio honoris causa ) em meu currículo. Alguns colegas vieram falar comigo me felicitando por eu ter "realmente ingressado na carreira de cinema" por eu estar fazendo meu primeiro longa de ficção. Eu comentei do meu currículo de 5 anos de curtas ... Os tais colegas me responderam que isso não contava!!!???

Você já dirigiu vários curtas (‘A Família Ruiva - Onde Estará o Bebê Ruivo?’; ‘Broadway Off Broadway – Sobrevivendo’; ‘O Menino que Abraça Árvores’; etc.). Como é o seu processo de escolha destes trabalhos? Como é a composição do seu trabalho, etc.?
Sempre me chegam as histórias através de alguém próximo. Os amigos costumam me dizer que sou um contador de histórias, tanto minhas como as que me contam. Sou do interior de MG e gosto de contá-las através de imagens. A minha ida para o cinema foi através da escritora Nélida Piñón pois pensava na época dirigir um conto chamado "Disse Um Campônio à sua Amada". Tentei durante vários anos produzi-lo, sem sucesso. Mas não desisti, pois me sinto um desbravador de idéias. Esta história demandaria uma grande produção em todos os níveis por causa da magnitude da estrutura do conto, portanto, acabei adiando esta produção. A chance de realizar outros curtas vieram em seguida, me levando para um outro caminho.

Ouço as histórias, converso com meu sócios e colocamos tudo em forma de roteiro, já pensando em cenas e planos. "O Menino Que Abraçava Árvores" me foi contado por um dos meus sócios, Breno Pessurno (uma passagem da sua infância)e a delicadeza da narrativa me inspirou a criar esta fábula. "A Família Ruiva" foi uma idéia divertida de meu outro sócio, André Damin, na qual eu agreguei alguns personagens saídos da minha cidade, Conselheiro Lafaiete. "Talco Show" e "Princesas Desencantadas" são curta-metragens realizados em 2009.

Não tenho uma fórmula previamente planejada, mas a cada história que ouço sempre me vêm as imagens que gostaria de filmar. Procuro levar para as telas o que ouvi e o que vivi.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, claro! É uma história sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade. Seria o encontro do poeta com Elke maravilha, a partir de um pequeno caso que me foi narrado por ela. O roteiro está pronto e estou atrás de locações e etc. Filmei um longa-metragem recentemente que está em fase de finalização, intitulado "Mea Culpa", com as participações de Elke Maravilha, Daniel Del Sarto e Cristina Prochaska. Foi um trabalho de junção de forças e talentos. Completamente sem patrocínio, juntamos artistas e equipe técnica que trabalharam em regime de cooperativa. Ou seja, como eu, existem muitos profissionais que acreditam haver uma saída para um trabalho independente. Mas isso só aconteceu por causa da minha experiência com os curta-metragens, portanto, para mim, não difere em esforço da criação de um longa, pois também é um trabalho árduo...É como estar na roça: cavando buracos na terra para poder plantar algo. Penso no cinema assim: como um homem do interior, um agricultor simples, que quer ver as plantas crescendo.