terça-feira, 13 de outubro de 2015

Os Curtos Filmes na mídia


Rejane Arruda foi colunista de Os Curtos Filmes por dois anos e está lançando pela Editora Laços a compilação de seus textos publicados neste blog. O link da matéria falando deste lançamento está aqui: http://namesmavibe.com.br/artigo/bisturi-ator-e-cinema


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Aysha Nascimento


Atriz. Formada pela ELT - Escola Livre de Teatro de Santo André. Membro fundadora da Cia. dos Inventivos e do Coletivo Negro.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Gosto da experiência de curta, pois traz um caráter experimental, e tem a pesquisa e o lugar que todo ator gosta que é a experiência do cinema, que é bem diferente que a do teatro e a da TV.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Foi ótima, e infelizmente só fiz um curta-metragem, o “Ciranda”. com direção do Kauê Palazzolli, pela ELCV - Escola Livre de Cinema e Vídeo em Santo André.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito eu, porque tem caráter experimental e muitos com baixo orçamento comparado aos longas, sem falar no preconceito que cerca este gênero do cinema.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Sei que existem alguns festivais de curtas, mas eles em sua maioria são alternativos, e Cult, teria que ter uma divulgação e atenção dentro do circuito de mídia rápida e popular, mas fico na dúvida se eles não irão perder qualidade e etc... Tenho medo de tudo que é fácil e chega rapidamente no olhar do grande público, tenho receio do tipo de abordagem.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
É isso que acredito. Por isso que gosto tanto de curtas, por ser atriz, isso me seduz muito.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não sei. Mesmo, este mundo é um pouco distante pra mim ainda, mas bem superficialmente falando acredito que sim.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Dinheiro? Patrocínio? Costas quentes? Indicação? Talento? Realmente não sei. Não temos um grande incentivo público para esta arte aqui neste país, aliás, pra nenhuma... O financiamento público é bem escasso, despreparado e pouco pensado e discutido com os órgãos competentes.

Pensa em dirigir um curta futuramente? 
Não acredito que sim, embora acredite que tudo pode acontecer, mas penso em fazer como atriz, muitos.

Lucio Dicetaro


Ator. Atuou nos espetáculos teatrais “Eu te amo, meu Brasil”; “O Tesouro do Pirata Pão-Duro”; “Pigs – Os Três Porquinhos, Uai...”, entre outros.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem? Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Na verdade sou ator puramente para teatro. A linguagem do cinema me fascina e estou tendo minha primeira experiência agora em grupo de cinema. Para falar a verdade me sinto feliz porque tive a oportunidade de aprender não só à atuar mas fazer muita coisa por detrás das câmeras.(produção, arte ou até segurar a vara de som).Resumindo o conjunto me atrai.com isso acho que respondi duas de suas perguntas, desde ao porque de aceitar e experiência.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Bem, o curtas não tem espaço na mídia pelo mesmo motivo que poucos vão ao teatro. Não é difundido e não faz parte da cultura geral do brasileiro. Ainda é apresentado como cult e não popular.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Os curtas deveriam ser apresentados em salas de cinema antes do longa-metragem, com certeza já uma grande maneira de difundir trabalhos, projetos e até um certo gosto por curtas .

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Há pessoas que os preferem pelo tempo e temáticas mais objetivas. O curta é realmente um meio fantástico para liberar ideias, fantasias e tudo que estiver ao alcance de uma mente que saiba como expor tudo com tato e habilidade.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
É como um poeta que faz 100 poesias e na ultima ele se descobre e aí ele não para mais, todo dia é sempre uma poesia nova e assim pode se fazer um curta ou vídeo novo. E com isso penso que o curta pode ser um trampolim para um longa-metragem, é onde o exemplo da poesia que dei vira agora um épico ,só que a criatividade tem que estar a mil e a compreensão de como fazer um longa torna-se algo complexo que vai desde a ideia, produção e etc.. .como um desafio.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
A receita para vencer no audiovisual eu não sei e acho difícil responder à essa pergunta porque no dia em for descoberto todos vão imitar.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Eu penso em dirigir futuramente um curta mas sem estrutura não dá para sair nem do campo das ideias. Uma câmera e uma boa ideia já é um começo...o resto você corre atrás.

Ana Levisky


Cineasta. Dirigiu o curta-metragem “Dreidel”.

Qual é a importância histórica do curta-metragem na filmografia nacional?
Não tenho tanta clareza da trajetória do curta-metragem brasileiro, mas a minha impressão é de que hoje em dia a produção é enorme e bastante diversificada.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
N faculdade a gente só produz curtas-metragens. Então a minha experiência no meio cinematográfico começou por aí.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Até agora só trabalhei em curtas da faculdade: alguns eu dirigi, outros foram dirigidos por colegas, por veteranos... Ainda não tive a chance de fazer parte da produção de um longa-metragem e, apesar de ter bastante vontade, acho o curta-metragem um formato bem legal e pretendo continuar participando de produções desse tipo de filme também.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Os curtas costumam ser difundidos em festivais. Não acontecem sessões de curtas periodicamente no circuito das salas de cinema, pelo menos aqui em São Paulo. Talvez por isso eles ganhem mais atenção em momentos de destaque na programação dos cinemas.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Se as salas programassem com mais frequência exibições de sessões de curtas no meio de tantos longas-metragens, as pessoas teriam mais oportunidade de adquirir o hábito de assistir curtas.

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Um diretor tem muito espaço para criar dentro do curta-metragem. Mas eu acho que a liberdade que os atores e a produção têm nesse campo depende muito das escolhas do diretor. É claro que todos contribuem com o seu trabalho, mas a concepção do diretor determina muito do que vai ser necessário da parte dos outros envolvidos.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Todo trabalho que você faz te dá alguma experiência e provavelmente significa que você fez novos contatos com outras pessoas do meio. Então com certeza fazer um curta te traz certo conhecimento que pode contribuir na hora de fazer um longa, e também em uma produção você pode conhecer pessoas que te convidem para participar da próxima.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Tudo depende do que a pessoa considera ser essa vitória. Se for fazer dinheiro, é um caminho. A meu ver, vencer no audiovisual brasileiro seria conseguir produzir o filme que você tem realmente vontade de realizar e fazer com que ele seja visto e reconhecido, mesmo que seja para receber críticas mais duras. O importante é que as pessoas tomem conhecimento do seu trabalho e te deem algum retorno pra você poder refletir sobre sua própria visão.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Espero um dia ter a chance de dirigir um longa-metragem, mas até lá preciso de muita experiência. E como isso significa ter que trabalhar de alguma maneira em várias produções, já me sinto animada em fazer parte desse meio.

Edson Oda


Cineasta. Participou de um concurso relacionado ao longa de Quentin Tarantino, "Django Unchained", e produziu o curta "The writer", que derrotou quase 200 concorrentes do mundo inteiro.. Como prêmio, Oda rumou para Los Angeles para encontrar o diretor, assistir às primeiras cenas de sua próxima empreitada durante a Comic-Com e visitar o set de filmagens.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
A vontade de contar histórias que tenham a ver com o que acredito, e a falta de dinheiro para produzir um longa-metragem. (risos). Acho que o curta dá bastante espaço para experimentação também, acho que é um ótimo meio de desenvolver a voz artística e técnica do Filmmaker.

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Era redator publicitário e sempre tive vontade de fazer algo mais autoral. Um dia fui fazer um curso de Filmmaking em NY e descobri que o curta é uma das melhores maneiras de se expressar através de uma arte Audiovisual. A partir disso nunca parei de fazer curtas e Music Videos. Nunca deixei a falta de dinheiro me impedir de continuar produzindo. Se não tinha dinheiro pra fazer algo, pensava em alguma coisa mais simples que não comprometesse a ideia. Trabalhei muito sozinho (com stop motions e coisas do tipo) Mas agora estou aprendendo a ter mais gente no processo. Coisa indispensável pra produção ficar melhor.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Tem muitos motivos. Acho que dá pra falar de culpados. Mas creio que essa impopularidade se deve bastante ao fato de não termos um mercado pra curtas. Acho que isso se deve às duas partes: o público não tem hábito de pagar pra ver uma sessão de curtas no cinema, e também os distribuidores que não tem uma garantia de lucro ao apostar em curtas. Mas uma coisa posso dizer: acho que a internet (Vimeo, Youtube, etc) criou um espaço fantástico pros curtas metragens. Eles não estão nos holofotes das grandes mídias, mas estão sempre nos holofotes das timelines, emails "FW" e blogs.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público
Não seria uma má ideia algum estúdio, distribuidora, escolher curtas fantásticos que estejam sendo criados atualmente e colocar em sessões de grandes redes de cinema. Não precisa ser nada grandioso. Algo como uma sessão de sexta feira com 8 curtas selecionados já seria muito legal. É legal pro filmmaker e também pra plateia que se aproxima desse mundo. É legal pra essa plateia saber que existem filmes mais simples (simples mas geniais) feitos por gente como eles.

O famoso cinema pra todos, não?

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Completamente! Um curta envolve menos dinheiro, riscos , chefes e pessoas do que um longa. Portanto, mais liberdade.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Certamente. São milhares os exemplos de longas que derivam de curtas. E diretores que se destacam por curtas e por conseguinte tem a primeira chance de dirigir um longa. Eu por exemplo, acabei de escrever um longa-metragem inspirado no princípio do Malária motivado por pessoas/estúdios que gostaram do curta.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Se eu soubesse, eu já teria vencido. (risos). Não faço ideia, mas estudar e trabalhar duro todo dia acho que ajuda.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Penso, mas agora estou mais focado em desenvolver um longa-metragem. Estou escrevendo e estudando absurdamente agora, de domingo a domingo. Vamos ver no que isso tudo vai dar.

Rodrigo Zerbetto


Cineasta. De 2009 a 2012 integrou a equipe de produção do “Festival de Cinema de Santos” (Curta Santos), acompanhando o que há de novo na produção cinematográfica. Graduado em Cinema pela Universidade Anhembi Morumbi em 2013, aprimorou sua formação em direção cinematográfica, tendo como filme estreante o curta-metragem “Nina”, filme que, com a temática circense e a intersecção de linguagens, marca a busca do diretor por exercer a poesia no cinema. Prêmio: Melhor ficção do 5o Festival Internacional de Cinema Independente - Kino-Olho - FIIK (Rio Claro, Brasil).

Qual é a importância histórica do curta-metragem na filmografia nacional?
Acredito que a principal característica da realização de um curta-metragem e, portanto, a mais importante, é estarmos em um terreno de experimentação. Uso esta palavra pela ambiguidade. Fazer um curta-metragem é naturalmente uma experimentação, pois, aquele que pretende trabalhar com cinema passará, provavelmente, por projetos menores antes de embarcar em outras aventuras. Por outro lado, os curtas são uma grande escola de experimentação de linguagem, de criação e consequentemente, resistência à imposição de identidade única ou regra para fazer cinema. Infelizmente em nosso contexto os curtas metragens são vistos por muita pouca gente quando pensamos nos números de nossa população; os curtas são vistos por aqueles que trabalham com cinema ou em áreas artísticas e alguns "poucos" simpatizantes. 

Com isto, acredito que a importância do curta-metragem num país como o Brasil, que almeja uma indústria tendo que concorrer com a invasão dos Estados Unidos e sua Hollywood, está no registro da nossa diversificada e vasta cultura, nas possibilidades ainda pequenas de estruturarmos uma indústria autossustentável com aqueles que ultrapassam o universo dos curtas e vão fazer longas metragens, e o tão importante ato de resistência que possibilita a produção de festivais de curtas metragens, em pequenas ou grandes cidades, pelo simples motivo de que as pessoas merecem ter acesso ao que está sendo produzido, ao que está sendo criado.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem? Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Na verdade, até hoje, as participações que tive em curtas metragens foram projetos que surgiram de ideias minhas e que eu dirigi, sendo o principal deles o curta "Nina", que está atualmente no circuito de festivais. Paralelamente eu trabalhei quatro anos na produção de um festival de cinema, o “Curta Santos”, onde tive acesso a muitos filmes que estavam no circuito. Com isso, acredito que meus ideais vão quase sempre coincidir com projetos que tenham mais liberdade criativa, consciência da linguagem que estamos usando, e que as decisões estejam fora de uma determinação comercial. Sabendo das dificuldades, procuro dar andamentos aos projetos que tenho seja em cinema ou qualquer outra área artística, enquanto isso vou me dividindo em outro emprego.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Se eles não têm espaço nem nos próprios cinemas, como teriam no jornal ou mídia? Há quem nem saiba o que é um curta-metragem (e a culpa não é só deles!). No fundo, esbarro na questão da educação; somos educados para produzir, não para pensar, somos educados para ouvir muito e falar pouco; nas salas de cinema, procuramos passar o tempo, e não viver o tempo, ou seja, há uma ideia massiva de que os filmes são, exatamente "passatempos", sem dar espaço para os outros tipos de filme. Os curtas tendem a ter uma visão mais artística, política ou autoral, enquanto o "cinemão" tende a pregar ideais que acabam abafando aqueles citados anteriormente. Assim vai ficando difícil curta-metragem virar notícia.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
A questão de atingir mais público é digna, claro, mas se não tomarmos cuidado, podemos simplificá-la demais. Se a intenção for essa, incondicionalmente, porque não fazemos televisão ou postamos os filmes na internet de uma vez? As possibilidades de dar mais ibope são infinitamente maiores. Por um lado, há uma corrida de encontrar seu espaço no mercado audiovisual, para sustentar-se, obviamente, e também para alimentar uma possível indústria, que muitas vezes faz este realizador cair na publicidade e outros trabalhos audiovisuais; há também uma relação entre o realizador e o exibidor (festivais), que alimenta a exclusão dos curtas-metragens, quando os regulamentos de alguns festivais, por exemplo, pedem exclusividade de que o filme ainda não tenha sido postado na internet ou exibido em televisão; por outro lado, porque o filme merece ser visto em largas proporções: tela grande, som alto? Qual é a consciência que o realizador tem disso? Passo por essas questões para questionar: o que faria do curta-metragem uma atração? O que o difere da televisão ou internet, por exemplo? E o que eu, quanto realizador, estou fazendo em relação a isso? São questões básicas, mas que parecem não ser tão discutidas. E eu só consigo pensar em atingir mais público a partir delas.

Ah, e vale lembrar, estamos falando de um contexto classe média, grandes cidades, etc., afinal, se levarmos em conta cidades menores, que não possuem nem salas de cinema, os curtas fariam o maior sucesso!

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Falei disso na primeira questão; com certeza pode ser o grande campo da liberdade para a experimentação, vai depender do "profissional" e do contexto de realização do filme. Acrescentaria ainda que não devemos diferenciar as ditas "artes visuais", a "vídeo arte", do cinema. Podemos começar experimentando por aí, fundindo pensamentos destas áreas que, inexplicavelmente, o cinema não dialoga tanto.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Novamente, pode ser; é o caminho mais conhecido, mas nem todo curtametragista consegue ou quer ser um diretor de longa. E aqueles que ousarem fazer um longa-metragem sem ter feito um curta anteriormente serão condenados e terão seus filmes "rebaixados" a outro nome que não "longa metragem" e provavelmente colocarão "experimental" em algum lugar. (risos)

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Me conta!!!

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tenho alguns projetos em processo de criação e também de pesquisa de viabilização. 

Sylvia Prado


Atriz. Atuou nos curtas-metragens “O Retrato de Deus Quando Jovem”; “Pobres diabos no Paraíso”; “Trópico das Cabras”; "A Bordo"; entre outros.

O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O cinema me interessa como arte, assim como o teatro me interessa, são linguagens que me inspiram como artista. Pra mim não importa se é um curta, o um longa-metragem, mergulho com a mesma intensidade. Antes de mais nada, o que me atrai, é o fato de ser chamada, digo, que tenham pensado em mim para determinado papel. Depois disso vem o papel em si, o roteiro, a ação, que acredito esteja ali, a espera de uma intervenção humana. A soma de tudo, a química produzida pela equipe, tudo isso me instiga, me interessa, e me faz aceitar um convite pra filmar

Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Fiz meu primeiro curta assim que entrei na escola de teatro: “O Retrato de Deus Quando Jovem”, o que pra mim foi uma surpresa, no dia do teste pra escola, uma pessoa chegou até mim e disse: - quer fazer um filme...?! ACEITEI! Fui dirigida por Fernando Coimbra, que hoje estreia seu primeiro longa: “O Lobo Atrás da Porta”. Meu segundo curta também foi dirigido por ele, “Pobres diabos no Paraíso”, e também o terceiro, “Trópico das Cabras”... Essas parcerias acontecem muito no cinema, quando a ator vira quase um alter ego do diretor. Ser dirigida pelo mesmo cineasta na sequência, tem um certo conforto na linguagem... mas paradoxalmente, a atuação é sempre uma nova descoberta, de personagem pra personagem, além disso,  a língua cinema é feita de  frases entrecortadas, uma poesia concretista sem sequência linear, o que para um ator de teatro é um desafio enorme. Fazer cinema, nunca é confortável pra um ator que vem do teatro. Acho que o Curta, amplia ainda mais essa sensação pelo curto tempo em que que é realizado. Depois desses curtas vieram mais três, um que fui chamada pra ser secretária do Peréio, e que até hoje não vi, “Pete Pode Tudo”,  de Anahi Borges, e acabo de fazer “Walking Bass”, de Caio Ferraz e Luis Romero. Enfim...minha vida nos curtas está só começando...

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não sei dizer exatamente por que os curtas não tem espaço no jornal, acho que passa pelo mesmo problema que os longas nacionais, que o teatro, que a cultura . A cultura não tem espaço no jornal. Por exemplo, você estreia uma peça, fica horas sentada conversando com a repórter, que está ali com aquela simpatia estampada, aquele ar de interesse. Quando abre a página de Cultura do Jornal, o assunto é o filme estrangeiro de não sei quem, ou pior, o anúncio colossal da marca X. A matéria sobre a peça esta perdida, "espremidinha na pagininha tal", sem nada do que foi dito, ou com tudo cortado, absolutamente sem sentido. O jornal está cada vez mais patético na sua dicotomia mercado/veículo de formador de opinião. A TV então... nem se fala, mil e um canais pra "descerebração"! Infelizmente a moeda corrente é o lucro, a notícia é notícia se gerar automaticamente mais mídia, mais Ibope, mais pontos de audiência, ela não é um parâmetro pra informação, pra criação, ela é uma moeda. Nesse sentido acho que as redes sociais, a tecnologia, a mídia ninja que cada um pratica diariamente, todo esse movimento que surge com muita força vai desmonopolizar isso.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acho que os curtas deveriam ser exibidos em todas as salas de cinema antes dos longas, ao invés dos trailers. Infelizmente esse espaço já virou capital também, você paga e anuncia qualquer coisa ali. Acho que os cineastas deviam associar seus longas aos curtas-metragens que lhes interessam, acho que deveria haver uma generosidade "Belair" entre os cineastas. Acho que deveria haver um movimento nacional de soma das artes pra transformação da Cultura, estamos muito isolados, cada um tentando garantir sua feira... 

Ao mesmo tempo, está aí o festival de curtas, as mostras nas cidades... mas se pensarmos no poder coletivo disso... estamos marcando toca...

O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Acho que a arte precisa, cada vez mais se libertar dos parâmetros comerciais... e não quero dizer com isso, não ganhar dinheiro, muito pelo contrário, quero dizer:

-Criar espaço pra valorização do que não está catalogado, rotulado, aceito. 

A cada vez que alguém, diretor, ator, escritor, fotógrafo, tem a coragem de mergulhar no seu espaço interno, na sua necessidade vital, que pra mim se traduz em espaço pra experimentação, liberdade de criação, e traz isso pro mundo, ele desamarra  a máquina.

Não é uma exclusividade do curta, do longa,  isso são catálogos. É o papel do artista, é a coragem do produtor. Senão parece isso: - coisa de moleque, coisa de adulto.  No pior sentido, anarquia X caretice?!

Não!

O artista adulto tem que ser o anarquista coroado, livre, pra fazer o que quiser.

O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Nada é trampolim pra nada. Só mesmo na piscina. E o mais interessante, se pensarmos na metáfora da piscina, é lembrar que é um impulso que nos alavanca pro alto  pra voltarmos pra baixo, pro  profundo...  Acho esse termo aliás - ridículo.  Acho que se alguém está fazendo algo apenas como escada pra chegar em algum lugar, cumprindo metas, está perdendo tempo precioso. Eu não faço uma coisa pra chegar na outra, a não ser quando pego metrô, isso se chama transporte, locomoção. Se você não fizer intensamente algo, não se transformará, não vai sair do lugar. Se colocarmos a questão no campo da experiência, talvez começar por uma estrutura menor, conduza com mais propriedade pra uma escala maior...mas isso é muito pessoal.

Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não tenho a menor ideia. Não acho que exista receita, inclusive esse termo 

A-u-d-i-o- v-i-s-u-a-l-b-r-a-s-i-l-e-i-r-o, já é pra mim uma abstração, o que é o "audiovisualbrasileiro", se pensarmos Euclidianamente? Digo, se voltarmos para as páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha? Se pensarmos na impossibilidade de catalogar , de resumir "o brasileiro", pela infinidade de equações que geram essa nacionalidade.

O que é?  Impossível...

Vou dizer mais... nem mesmo recita de bolo, é  garantia de resultado. Deixemos de lado essas abstrações...

Eu deixo .

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Talvez...