sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Eucir de Souza

Ator. No cinema atuou em ‘Meu Mundo em Perigo’; ‘Salve Geral’ e ‘O Menino da Porteira’.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O roteiro também me influencia na decisão como sempre, mas no caso do curta, a origem do convite é mais importante, quem é o diretor ou quem me indicou para ele. Por se tratar de um formato mais experimental, fico mais à vontade se conheço e confio na direção, porque um ator pode se dar muito mal, se for mal fotógrafo ou se o filme não for bem montado por exemplo. rs. Isso tudo de uns tempos pra cá, por questões como tempo de trabalho e de vida também. Mais no início aceitava todos os que apareciam, gostando ou não, porque não temos tradição em escolas para cinema, a gente tem que aprender na prática. E o curta é um treino maravilhoso com menos pressão que um longa-metragem. Porque para a atuação existe uma base que é o desenvolvimento pessoal, o que você tem dentro. Mas tem que aprender as linguagens para se comunicar.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Boa pergunta. Também gostaria de saber. Penso que talvez seja um formato menos rentável para os patrocinadores, e hoje temos cada vez menos espaço real para divulgação. É difícil um profissional que realmente pode usar o meio de comunicação para expressar o seu gosto pessoal, ou o que seria melhor, o resultado de sua pesquisa e conhecimento. Quase todo espaço é vendido diretamente ou atende aos desejos dos investidores.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Existem muitos programas interessantes, havia um dia no Espaço Unibanco onde uma sala era dedicada a exibição de curtas, não sei se persiste, espero que sim! Todos os festivais nacionais recebem e alguns premiam os curtas. Vejo muitos pelo Canal Brasil também. Mas penso que os produtores e diretores poderiam criar novas formas de exibição. Acho um erro ficar tentando competir com os grandes, disputar o espaço, é batalha perdida. Mas o que parece uma maldição pode se tornar uma vantagem. Se os investidores não gastaram tanto como se gasta num longa, também esperam menos retorno, e as opções de exibição gratuita, por exemplo, são infinitas hoje em dia, as mídias e os projetores são cada vez mais fáceis de transportar e manusear. A internet é um veículo maravilhoso, praticamente sem censura e sem nenhum direcionador que não seja o gosto do público. Então acho que é tentar fazer um filme de verdade, algo que fique bom mesmo e criar coragem para mostrar muito!
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Nunca pensei em dirigir no cinema. Tenho alguns projetos para o teatro, mas até hoje dirigi muito pouco. Gosto mesmo de atuar e a direção fica sempre em segundo plano. Mas gostaria sim, muito. Tem muitos assuntos que me chamam, que penso que seria bom se fossem expostos e  o curta deve ser bem divertido justamente por essa liberdade de criar linguagens. Tem uma coisa que me atrai muito no cinema também que é a convivência obrigatória. Você não tem opção, tem que se relacionar com todas aquelas diferentes pessoas, isso é um grande presente para a evolução pessoal e no curta isso se dá de forma bem mais suave. É ótimo!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Julia Gorman

Atriz. Atuou nos filmes ‘Giovonni Improtta’ e ‘Podecrer!’.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O roteiro tem que ser bom em primeiro lugar e tem que haver alguma identificação com o argumento, a ideia do diretor e a personagem. Nas minhas experiências em curta sempre tive muito diálogo com o diretor. Felizmente participei de trabalhos muito focados no sentido de pesquisa ou experimentação através da linguagem do cinema, onde desenvolvíamos processo de ensaios e laboratórios antes de chegar ao set. Em "Das Dores"(2007) curta-metragem de Gabriel Tupinambá, a ideia era coreografar a relação de dois amantes perdidos em um posto de gasolina abandonada ao amanhecer. E para complicar mais tínhamos um metrônomo no alto falante marcando o tempo de uma valsa, 3/4.  Cada impulso, respiração ou intenção deveria acompanhar a batida. 
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não faço a menor ideia. Acho que deveria haver mais espaço para os curtas. Eu como espectadora tenho dificuldade de saber onde encontrá-los. Acho que deveria ter algum site especializado em curtas-metragens de todo o mundo. Que disponibilizassem o filme, não apenas informações sobre o mesmo. Muitas vezes lia sobre algum diretor premiado, sobre algum curta que me despertava o interesse e não sabia por onde começar a procura ( além do Youtube!)  Gosto muito dos festivais de cinema e foi lá que vi alguns filmes que me impressionaram positivamente.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...  
Acho que o curta é um formato de linguagem. Uma forma sucinta e artística de comunicação. Como um poema ou uma crônica e o longa um romance, pela riqueza de detalhes e o desenvolvimento da trama. Acho que um diretor de verdade sabe apreciar as qualidade de ambas as formas de se fazer cinema. Tem histórias que merecem mais tempo para serem contadas e outras que funcionam de forma econômica.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não saberia responder isso já que não sou cineasta, mas como admiradora do cinema posso dizer que acho o mercado de distribuição e divulgação de curtas pouco eficiente...
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Curso direção teatral no UFRJ, tenho vontade de me aventurar como diretora mais vezes no teatro e quem sabe no cinema também? Me faltam a parte técnica e o olhar da cinematografia em cinema. Eu teria que estudar muito e me cercar de pessoas brilhantes na equipe técnica. Mas a parte de contar uma história através de imagens e som é o que mais me instiga.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Imprensa - Rafael Spaca

Link da entrevista que concedi ao jornalista Elio Soares, quando da minha ida ao Maranhão, durante o 36º Festival Guarnice de Cinema. Esta entrevista foi ao ar na Rádio Comunitária Cultura FM. Ouçam em: http://www.radiotube.org.br/audio-3622K6kC8xgDs

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Francis Vogner dos Reis

Crítico de cinema, cofundador da extinta revista ‘Cine Imperfeito’, já colaborou para as revistas ‘Filme Cultura’, ‘Teorema’, ‘Miradas del Cine’ (Cuba), ‘La Furia Umana’ (Itália), ‘Cahiers du Cinéma’ ‘España’, ‘Foco’, ‘Revista de Cinema’ e escreveu por cinco anos para a revista ‘Cinética’. É também professor de cinema, produtor de mostras e roteirista.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Não participei de muitas produções pra falar a verdade, mas algumas coisas tem aparecido. Bem, aceito o que faz a minha cabeça, se for pra trabalhar com alguém que admiro ou em um projeto que acredito. Uma exceção para curtas de alunos meus, por motivos óbvios. E só.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque não têm mercado. Simples assim. Aliás, essa relação de indiferença de boa parte da mídia com a produção cinematográfica não é só com os curtas, mas com o cinema de modo geral. Temos em alguns canais programas de filosofia, literatura, programas sobre arte (inexpressivos, mas existem) em TVs a cabo, mas cinema - quando há algum programa - é só para falar de estreias no circuito e em DVD. Os jornais agem desse mesmo modo, os críticos servem - quase sempre - para responder ao público consumidor. Mesmo o programa Zoom, que acabou, foi deixando nos últimos anos cada vez mais os curtas de lado. Bem, se levando em conta a relação que se tem com cinema no país, o cinema é quase sempre arte de segunda mão, inclusive para parte de nossa "elite pensante". Com literatura não se faz isso. Tem o programa Entrelinhas da TV Cultura, por exemplo. Ali há coisas sérias, entrevistas boas, pautas quase sempre interessantes. As pessoas leem mais do que assistem filmes? Certamente não. Mas há um respeito pela literatura como forma de expressão. Esse respeito pelo cinema é uma conquista a ser alcançada. Mas é complicado...
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Lembro-me de quando eu tinha oito anos eu via uma série de curtas da TV Cultura. Não me esqueço de Meow!, de Marcos Magalhães. Aquilo me divertia. Acho que a TV, principalmente a pública, deveria passar curtas. Hoje o Canal Brasil faz isso, mas quem vê? Só quem assina TV a cabo. Muitos desses curtas são feitos com dinheiro público e a lógica seria que eles passassem na TV pública. Mas não passa. É um contrassenso. É também estupidez e má vontade dos programadores e exibidores. Isso tudo não faz sentido.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É possível, não vejo porque não seria. Outro dia vi um cara falando isso, esse papo "do trampolim". Isso não é verdade. É claro que muita gente faz curta como portfólio, geralmente gente que começa a filmar na universidade. Mas isso não é real. Hoje fazer curta é fazer um cinema que é possível porque é barato, de produção mais rápida e menos complicada. O fato de alguém fazer longas não quer dizer que não seja mais possível fazer curtas. Eu duvido que Kléber Mendonça não irá mais fazer curtas pelo fato de ter feito dois longas. Essa distinção "cineasta de curta e cineasta de longa" é uma invenção picareta do ensino de cinema que dizia: curta é parte do processo pedagógico, longa é para o mercado. Couro de Gato é o melhor filme de Joaquim Pedro. É um curta. Di, está entre os três melhores filmes do Glauber. É um curta.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não sei te responder isso com convicção, mas acho que não.  Se boa parte dos diretores prefere fazer longas é por opção, não discriminação. Acho...Talvez em países de mercado mais vigoroso como os EUA o curta é algo visto com algum estranhamento, como algo de universidade mesmo. Porque lá a cultura cinematográfica deles é basicamente feita de longas-metragens. Mas veja a França:  Luc Moullet, Agnes Vardá e Godard ainda fazem curtas hoje em dia.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Eu tenho tanto material pra montar, tanto projeto de ficção para terminar. Só não tenho tempo. Outras coisas me tomaram este tempo. até agora não foi prioridade. Mas enfim, vamos ver o que aparece até o fim do ano. Prefiro não falar sobre, é melhor deixar cozinhar antes de abrir a tampa.

sábado, 19 de outubro de 2013

Rosaly Papadopol

Atriz. Atuou nos filmes ‘Anjos da Noite’; ‘Bellini e a Esfinge’, ‘Lua Cheia’, entre outros.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Algumas variantes que vão desde o pedido de um amigo ou algum jovem cineasta com um roteiro bacana precisando de uma atriz, até um profissional que como eu acredita no poder de síntese e linguagem contemporânea dos curta metragens.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque a cultura e as artes estão de uma maneira geral sendo sucateadas pelos órgãos e suas políticas públicas bem como pelas instituições privadas( todo mundo hoje “pode” ser artista e tem os mesmos direitos???) e consequentemente sem dinheiro e sem a necessidade de conteúdos mais precisos e preciosos no mercado, apenas pensando-se cultura e arte como um grande negócio, a mídia em geral só vai se interessar por aquilo que VENDE seus exemplares ou onde os patrocinadores se interessem por investir seu dinheiro.   
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Por todos os meios de comunicação visual, dentro de escolas, bares, mesmo cinemas, televisão (intervalo entre programas...
 
Por que não? Até mesmo naquelas tele mídias de elevadores...As pessoas veriam em capítulos. rs...
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Sim é possível. E tenho um amigo que é um grande curta-metragista, premiadíssimo, aliás. O Sung Sfai.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não sei. Nunca conversei muito sobre isso!
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Penso mais em ser intérprete neles ou mesmo em fazer direção de atores para eles.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Eliete Cigaarini

Atriz. Foi uma das fundadoras do Grupo de Teatro Boi Voador, nascido do CPT - Centro de Pesquisas Teatrais de Antunes Filho, em 1984. Ao longo dos anos, ministrou aulas em diversas instituições profissionalizantes para atores e atualmente é professora de interpretação na Escola de Atores Wolf Maya. No cinema atuou nos curta-metragens ‘Até a Eternidade’, direção de Luiz Vilaça, ‘Sangue, Melodia...’, roteiro e direção de Adilson Tokita, e ‘Feito para não Doer’, de Caetano Gajardo.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Cinema, para todo ator, é o sonho dourado. Não conheço um ator que não diga que prefira o cinema à todas as outras linguagens para exercer seu oficio de ator. Eu não sou diferente. O cinema possui uma magia, um requinte para a construção de um personagem, desde a cenografia e adereços que compõe o set de filmagem, figurinos, até o envolvimento da equipe durante às filmagens. A maioria dos atores vem do teatro. O cinema é uma obra aberta, assim como a dramaturgia teatral, que eterniza o trabalho ator.
 
Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
No início da minha carreira fiz inúmeros curtas metragens produzidos pelos formandos de cinema da ECA - USP. Foram experiências incríveis. Aprendi sobremaneira como atriz, mas também sobre cinema tecnicamente falando. Nesse época a montagem era feita na moviola. Eu curtia participar das montagens pela curiosidade de como funciona esse quebra cabeças. No início dos anos 90, tive a oportunidade de protagonizar, junto com o ator Paulo Gorgulho, de um curta dirigido por Luiz Vilaça, o thriller "Até a Eternidade"- Um casal apaixonado vai até as últimas consequências em suas fantasias revivendo antigos clássicos do cinema. Esse curta foi produzido com os requintes de um longa-metragem. Nesse trabalho pude reconhecer o curta-metragem como um gênero cinematográfico peculiar.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que o espaço para cultura em nosso País, de uma maneira generalizada, é inexistente. Há um verdadeiro descaso para a cultura como se precisássemos somente de pão, água e sangue.  O homem precisa do lúdico para não sucumbir à sua realidade.  Não duvido de que a imprensa encare os curtas-metragens como um subproduto do cinema e que não mereça espaço, já que precisa-se divulgar toda uma “bobajada” que venda jornal.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acredito que deveriam sancionar uma lei de exibição obrigatória de um curta nacional por sessão de cinema, em todas as salas de cinema do País. Vale a sugestão: instigar um de nossos representantes políticos a esta causa.
 
O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Sem dúvida. Conheço muitos novos cineastas brasileiros que encontram no curta metragem uma maneira de experimentar e aprender. Quanto à atuação eu sou exemplo disso. Porém, sabemos que em muitos países de primeiro mundo, curtas metragens são um gênero de manifestação artística de preferência de muitos diretores de cinema. Com esse gênero cinematográfico esses cineastas têm a oportunidade de sintetizar suas ideias, explorar tanto sua criatividade, como linguagens cinematográficas inusitadas. Para estes, produzir curtas-metragens torna-se uma escolha artística.
 
O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa? 
Pode ser um trampolim, mas como já disse, acredito que muitos o preferem esteticamente, com o objetivo de explorar linguagens cinematográficas. Outra questão bastante relevante para a escolha desse formato, reside nas diferenças disparatadas nos custos de produção e de distribuição entre um curta e um longa-metragem. Certamente isso influência na escolha do cineasta.
 
Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Se alguém souber avise, por favor, para eu copiar a receita. Sensos de humor a parte, não sei mesmo. O que podemos apontar como quais seriam os ingredientes básicos necessários para se concorrer ao hanking dos melhores? Roteiro moderno, com temáticas instigantes; enquadramentos criativos (câmera na mão-travelling-steadycam)? No meu ponto de vista, todo artista precisa, fundamentalmente, saber qual é o seu objetivo, o porquê de fazer e quem quer mobilizar sensorialmente com o seu produto, seja ele qual for. Ele precisa ter uma boa história para contar.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, já pensei, inúmeras vezes. Um dia conseguirei realizar esse sonho. Já esbocei alguns roteiros e estão engavetados. Temporariamente, assim espero. Amo o cinema e acredito que é a sétima arte mesmo.

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


T. G. NOVAIS, O HOMEM QUE PARECIA NÃO TER PASSADO
Rubens Francisco Lucchetti

A primeira pessoa que me falou de Sherlock Homes foi meu pai; e só fui conhecer o detetive criado por Arthur Conan Doyle nos meados da década de 1940, por meio das revistas pulp Detective e Policial em Revista.

Com o passar dos anos, não me contentei em ler esporadicamente as aventuras de Sherlock Homes. Sonhava em ter em minhas mãos um de seus livros. Porém, em nosso país, as obras de Conan Doyle há muito estavam esgotadas; e eu, residindo no interior, em Ribeirão Preto, não tinha condições de visitar os sebos de São Paulo. Foi quando tive a ideia de recorrer à revista O Cruzeiro, que, na época, 1952, vendia cerca de 210 mil exemplares semanais – eu era um de seus compradores assíduos, apaixonado pelas reportagens de David Nasser, pelas fotos de Jean Manzon, pelas “Garotas” (do Alceu Pena), pelo “O Amigo da Onça” (do Péricles) e pelo “O Pif-Paf” (de Emmanuel Vão Gôgo). Um anúncio publicado em suas páginas atingiria, no mínimo, mais de quatrocentos mil leitores, se considerarmos que cada exemplar de uma publicação é lido por pelo menos duas pessoas. Então, sem pensar duas vezes, redigi uma carta, em que me confessava “um ardoroso admirador de Sherlock Homes” e informava que “estava à procura de seus livros em Português”, e enviei-a para a seção ‘Escreve o Leitor’.

Não estava enganado quanto ao sucesso que imaginava que teria um anúncio publicado em O Cruzeiro. Recebi mais de uma centena de cartas, escritas por garotas sonhadoras interessadas em manter uma correspondência sentimental ou por vigilantes da boa conduta e da moral religiosa, que me aconselhavam a “dedicar-me à leitura de algo proveitoso, a fim depurar o espírito, e esquecer as indignas e pecaminosas narrativas policiais, que só servem para corromper a alma”. Mas de concreto, com relação ao meu pedido... nada.

Algum tempo depois, quando já começava a conformar-me com o fracasso da minha ideia, fui surpreendido com a chegada de um pacote registrado. Nele, havia três livros de Conan Doyle: As Memórias de Sherlock Holmes, A Volta de Sherlock Holmes e O Cão dos Baskervilles, traduzidos por Branca de Villa-Flor e lançados, por volta dos anos 1910 e 1920, por H. Garnier, Livreiro-Editor, do Rio de Janeiro.

Nenhuma carta ou bilhete acompanhava os livros. Esperei alguma carta em separado, o que não aconteceu.

Talvez um mês mais tarde, escrevi ao remetente do pacote – seu nome, T. G. Novais, e seu endereço (na cidade do Rio de Janeiro) constavam no papel em que foram embrulhados os livros –, agradecendo e perguntando o preço dos três volumes gentilmente enviados. Minha carta não demorou a ser devolvida, com a seguinte declaração: “Pessoa desconhecida no endereço.”

Numa nevoenta e fria tarde de sábado de julho de 1952, recebi a visita de um homem que dizia ser T. G. Novais. Devido ao frio cortante e à garoa, ele trajava capa de chuva (de cor amarela, semelhante à de Dick Tracy) e usava galochas. A primeira impressão que tive foi a de que era um ser saído das páginas de um dos romances de Charles Dickens, alguém destoando completamente de nossa época.

Confesso que não fiquei à vontade, diante daquela inesperada visita, que eu recebia em nossa sala de jantar, uma vez que em casa não tinha sala de estar. Quanto a T. G. Novais, parecia muito à vontade. Disse-me que trabalhava como correspondente – na Europa e Estados Unidos – de publicações brasileiras e argentinas (O Cruzeiro e Tit-Bits eram algumas dessas publicações). Falou-me também que não assinava as matérias com seu verdadeiro nome; mas não mencionou o(s) pseudônimo(s) que usava, e eu não me atrevi a perguntar. E foi, por intermédio dele, que fiquei sabendo o verdadeiro nome de Emmanuel Vão Gôgo: Millôr Fernandes (tenho certeza de que, na época, poucos sabiam disso; e só muitos anos mais tarde tornou-se público que Emmanuel Vão Gôgo era um pseudônimo de Millôr Fernandes).

Em seguida, T. G. Novais citou alguns atores e atrizes do cinema americano que entrevistara: Lew Ayres, Linda Darnell, Alan Ladd, Maria Montez, Jon Hall, Will Rogers, Audrey Totter, Dick Powell, Yvonne De Carlo, Ella Raines, Gail Russell, Laird Cregar, Ralph Bellamy, Raymond Massey, Victor Jory, Basil Rathbone, Nigel Bruce, Sidney Toler, Ray Milland, Jeanne Crain, Brenda Joyce, Gene Tierney, Ruth Roman, Adele Mara, Esther Williams, Red Skelton, Gale Sondergaard, Barry Fitzgerald, Bela Lugosi, Boris Karloff, Doris Day... E fez uma pausa, antes de citar Carole Landis. E foi emocionado que ele me disse: “Entrevistei-a poucos dias antes de sua morte. Ela estava cheia de planos e amava a vida. Por isso, não creio que tenha se suicidado... Eu estive em sua casa, em Pacific Palisades, e via-a morta no chão do banheiro, usando a mesma roupa que vestira quando me dera a entrevista. Um momento que jamais esquecerei, enquanto viver...”

Fiquei surpreso ao saber que T. G. Novais conhecia diversos autores de histórias de Detetive & Mistério e de Horror – recordo-me de que ele disse conhecer Clark Ashton Smith, August Derleth, Steve Fisher, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Richard Sale e, entre outros, Robert Bloch, todos colaboradores de revistas pulp como Black Mask e Weird Tales – e pertencia à The Sherlock Holmes Society of London, uma sociedade que fora fundada para estudar “a vida” e “os feitos do grande detetive inglês”. No entanto, o que mais me deixou maravilhado foi quando falou que conversara diversas vezes com um escritor muito especial para mim: Walter B. Gibson, autor da maioria das aventuras de O Sombra, o primeiro herói mascarado das pulps.

Foi por intermédio de T. G. Novais que travei conhecimento com algumas pessoas ligadas aos Quadrinhos, aos filmes de Horror e aos livros populares. Algumas delas se tornaram muito amigas, dentre às quais, posso citar: a escritora inglesa Isadora Highsmith, autora de uma série de romances góticos; os escritores norte-americanos B. Becker e Mary Shelby; e o editor espanhol Edgar Montanero. Foi com este último que mantive um maior número de correspondências; e, como não poderia deixar de ser, muitas vezes, nas cartas que trocávamos, T. G. Novais era o assunto principal.

Da mesma forma que eu, Edgar Montanero pouco ou nada sabia a respeito de T. G. Novais. E ele conhecia outras pessoas que, em algum momento de suas vidas, travaram contato com nosso misterioso amigo. Entretanto, nenhuma dessas pessoas soube dar qualquer informação sobre T. G. Novais. Assim, não conseguimos avançar um milímetro no mistério que envolvia nosso amigo comum. Sequer sabíamos o significado do “T. G.”. A única coisa que Montanero conseguiu me informar foi que T. G. Novais nascera em 1927 no Brasil.

Em janeiro de 2009, recebi uma carta de Matilde Montanero, esposa de Edgar. Nessa carta, ela falava da morte de Edgar (ele morrera vítima de um enfarto) e contava-me que seu marido pretendia escrever-me a fim de me avisar que soubera do falecimento de T. G. Novais.

A última vez que T. G. Novais me visitou foi por volta de 1974, quando eu já morava no Rio de Janeiro, na Rua Bariri, em frente à sede do Olaria Futebol Clube. Essa visita ocorreu numa segunda-feira. Já passava das nove horas da noite; e meu filho e eu assistíamos – pela TV Rio, Canal 13 – a um episódio do seriado Columbo (nesse episódio, o Tenente Columbo, da Homicídios, investigava um crime ocorrido num quartel do Exército). De repente, a campainha de casa tocou. Fui abrir a porta de entrada e deparei-me com a figura de T. G. Novais. Ele entrou em nossa saleta, usando uma capa de chuva (por demais semelhante à do Columbo) e galochas, já que fazia frio e chovia muito. Pediu uma xícara de café quente. Bebeu o café de uma só vez. Depois, falou para minha mulher, a Tereza, deixar o bule de louça ali, sobre a mesinha de centro. De quando em quando, ele mesmo se servia da bebida.

Foi a mais agradável de suas visitas. E, durante nossa conversa, contou-nos muitas coisas. Falou-nos a respeito das personalidades que conhecera, dos lugares que visitara, dizendo ser “um grande dialogador pelo mundo”. Porém, como das outras vezes, não fez qualquer referência sobre sua origem, seus familiares...

Quando T. G. Novais se despediu (já passava da meia-noite), nós o acompanhamos até o portãozinho de nossa casa. A rua estava deserta. A chuva havia passado; mas nuvens esbranquiçadas corriam baixas num céu escuro. Ele nos disse que subiria até a Rua Leopoldina Rego e pegaria um táxi. Ficamos ali parados, vendo-o caminhar lentamente, sem pressa. Sua imagem afastando-se está bem viva em minha memória. Suas galochas não produziam ruído algum na calçada molhada, onde sua sombra era projetada pela iluminação esmaecida das lâmpadas dos postes espacejados.

Só entramos quando ele desapareceu no fim da rua. Nesse momento, um trem passava, indo em direção aos subúrbios. Imaginarmos que deveria ser o último trem que deixara a Estação Dom Pedro II.

Resta dizer que, por mais de cinquenta anos, T. G. Novais me enviou um sem-número de pacotes, que, continham, entre outras coisas, livros e revistas de meu interesse, originais de sua autoria e traduções (feitas por ele) de histórias de Horror e de Detetive & Mistério. Entretanto, nesses pacotes nunca veio nenhuma carta ou bilhete. Dessa maneira, eu não tenho nada que comprove a existência de T. G. Novais... T. G. Novais, o homem que parecia não ter passado.

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.