domingo, 17 de novembro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


FRAGMENTOS DO COTIDIANO DE R.F.LUCCHETTI









R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


À GUISA DE INTRODUÇÃO
Marco Aurélio Lucchetti

Tudo começou com um telefonema.

Numa manhã de novembro de 2000, eu estava em casa, escrevendo um artigo para a revista Comix Book Shop Magazine. De repente, o telefone tocou. Fui atendê-lo. Era Edna Souza, secretária de redação do Estúdio Mercado Editorial – localizado na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, esse estúdio produzia, na época, aproximadamente duas mil páginas por mês para diversas editoras paulistanas.
Com sua voz suave, Edna informou-me que Carlos Mann, o diretor superintendente do estúdio, queria conversar comigo. Fiquei esperando e, pouco depois, ouvi a voz de Carlos. Ele estava ligando a fim de dar-me os parabéns, pois acabara de ler o original do livro No Reino do Terror de R. F. Lucchetti, que eu havia organizado para sua editora, a Opera Graphica, e gostara muito de meu trabalho.

Confesso que suas palavras me deixaram alegre. Isso porque Carlos é exigente e sincero. É incapaz de falar uma inverdade apenas para ser agradável a alguém. Portanto, se estava dizendo que gostara de meu trabalho, era porque gostara realmente.

As palavras de Carlos também me trouxeram certa tranquilidade. E por uma razão bem simples: por intermédio delas, pude comprovar que agira com total imparcialidade ao organizar o livro, que enfoca o trabalho de meu pai como roteirista de histórias em quadrinhos. Devo dizer que, na minha opinião, não é tarefa das mais fáceis um filho organizar um livro que tem como tema o trabalho de seu pai. É algo por demais incômodo, uma vez que se tem de agir com muita frieza, para não se deixar levar pela emoção.

Agora, voltando ao telefonema de Carlos Mann... Conversamos por cerca de meia hora. E, durante a conversa, Carlos convidou-me para organizar outro livro, que faria parte da Coleção Opera Cult, cujo primeiro volume, Quando os Macacos Dominavam a Terra, do jornalista Eduardo Torelli, tinha sido recém-lançado. Disse-me também que esse livro deveria abordar tudo o que meu pai fizera até então na área cinematográfica, deveria esgotar completamente o assunto O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI. Informou-me ainda que era obrigatório o livro ter uma longa entrevista com meu pai.

A principio, assim como acontecera quando fora convidado para organizar No Reino do Terror de R. F. Lucchetti, tive vontade de recusar o convite. Porém, refletindo melhor, cheguei à conclusão – do mesmo modo que ocorrera da vez anterior – de que ninguém melhor do que eu estaria em condições de realizar o trabalho. Explico: devido aos quase quarenta anos de convivência com meu pai, conheço, e muito bem, sua longa trajetória no Cinema, o que me possibilitava saber quais as melhores perguntas a serem feitas na entrevista para o livro. Falei a Carlos que aceitava o convite. Então, ele pediu-me para esperar um instante e perguntou ao seu diretor de redação, o sempre prestativo o extremamente competente Dario Chaves, o número de páginas que o livro teria depois de impresso. Dario deu-lhe a informação; e, em seguida, Carlos comunicou-me que o livro seria editado no mesmo formato de Quando os Macacos Dominavam a Terra (21x28 cm) e teria pouco mais de duzentas páginas. Consequentemente, meu original iria ter umas quinhentas laudas, já incluindo as ilustrações e fotografias.

No dia seguinte, após terminar o artigo que estava escrevendo, relembrei a conversa que tivera com Carlos e comecei a pensar no livro que ele me encomendara. Não sabia como iniciá-lo. Repentinamente, meus olhos foram atraídos para um grosso volume que estava sobre minha escrivaninha. Era uma biografia do cineasta francês François Truffaut, eu a havia adquirido algumas semanas antes. Peguei o livro e li algumas páginas ao acaso. E muito me ajudou a leitura do seguinte trecho:

(...) François Truffaut dá prosseguimento a um outro projeto, o de uma longa conversa com Alfred Hitchcock, um de seus ‘mestres de Cinema’ (...). A ideia surgiu em Nova York, em abril de 1962 (...). Truffaut fica transtornado com o profundo desconhecimento da obra de Hitchcock por parte da crítica americana, que vê nele apenas um bom profissional, um ‘mestre do Suspense’, cínico e sombrio, um ‘money maker’. Esta falta de reconhecimento é que está na origem desse projeto de entrevistas (...).

Nos anos 50, Truffaut se depara na França com esta mesma incompreensão da obra de Hitchcock. Para ele e seus colegas dos Cahiers, Rohmer, Chabrol, Rivette e Godard, o ‘mestre do Suspense’ esconde na realidade sua genialidade e sua inteligência por trás de uma aparência bonachona e cheia de humor, para melhor seduzir um público um público mais amplo (...). Para justificar esta dissimulação, Truffaut adianta uma explicação: Hitchcock é ‘o maior mentiroso do mundo’, pois é ele mesmo um personagem hitchcockiano (...).” (1)

A leitura desse trecho ajudou-me muito. Coloquei uma folha de papel na máquina de escrever e bati em letras maiúsculas: O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI. Esse seria o título do livro... do livro que abordaria, por meio de entrevistas e artigos, a vida, a carreira e as ideias de um “dos raros roteiristas de filmes populares, o único com carreira nos filmes tupiniquins de Terror” (2).

Mas a leitura do trecho da biografia de Truffaut ajudou-me de que maneira? Foi lendo esse trecho que percebi que tal qual a obra de Alfred Hitchcock o trabalho do roteirista é incompreendido. O roteirista, entre todos os demais técnicos cinematográficos, é o menos citado, o menos comentado, o menos notado, o menos valorizado, o mais marginalizado. Ele é um ilustre desconhecido. No entanto, as pessoas se esquecem de que os personagens e as cenas de uma fita surgem primeiro na forma de palavras escritas... num roteiro. Se não existisse o roteirista, não existiriam os filmes... e, por conseguinte, os demais técnicos, inclusive o diretor, igualmente deixariam de existir. Assim, compreendi a real importância de O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI: seria um dos únicos livros no Brasil – e também no mundo – em que o tema é um roteirista. Um roteirista que, como Hitchcock, é “um dos maiores fantasistas (eu poderia usar aqui o termo “mentiroso”, que foi usado por Truffaut para qualificar Hitchcock; entretanto, acho-o ofensivo demais) do mundo”, visto que, da mesma forma que o “mestre do Suspense”, é um personagem criado por ele mesmo. Em suma: o roteirista R. F. Lucchetti é um personagem lucchettiano. Explicando melhor: o homem Rubens Francisco Lucchetti, uma pessoa tímida e afável, criou, sobretudo com a ajuda de algumas declarações de seus amigos e parceiros José Mojica Marins (“No gênero Terror, o Lucchetti é o roteirista perfeito.” “O Lucchetti é o gênio dos gênios.” “O Lucchetti é um eremita que mora na região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Vive recluso em sua imensa biblioteca. Não recebe ninguém a não ser eu!”) e Ivan Cardoso (“O Lucchetti é o Lovecraft de Ribeirão Preto. É o homem das mil histórias e dos mil heterônimos. Quase todas as histórias policiais publicadas na lendária revista X-9 foram escritas por ele.” “Infelizmente, o Lucchetti não é valorizado o suficiente. Nenhum outro profissional possui uma obra como a dele, que conta com mais de vinte roteiros para o Cinema. Em qualquer outro lugar do mundo, ele seria um mito.” “Sou fã incondicional do Lucchetti. Ele é um autor cosmopolita e universal. Dedicou-se a temas considerados em nosso país, até pouco tempo atrás, estrangeiros ou malditos.”), o intimidante roteirista R. F. Lucchetti. Foi pensando em tudo isso que concluí que O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI teria de, antes de tudo, desvendar os segredos do criador (o Rubens Francisco Lucchetti articulista, autor de seriados radiofônico, cinéfilo, teorizador, cineclubista, artista plástico, desenhista, realizador de filmes experimentais, organizador de eventos culturais, gerente de cinema, editor, correspondente de revistas estrangeiras, pesquisador da obra de Chaplin etc.) e de seu personagem (o R. F. Lucchetti idealizador da filosofia de Zé do Caixão e roteirista de filmes como O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual dos Sádicos, Exorcismo Negro, Delírios de um Anormal, O Segredo da Múmia, As Sete Vampiras e O Escorpião Escarlate). E a principal forma de desvendar esses segredos seria entrevistando criador/personagem.

AS ENTREVISTAS

Foi numa sexta-feira, 17 de novembro de 2000, que comecei a entrevistar meu pai.

Essa entrevista durou exatos cinco meses. E nela meu pai fala, entre outros assuntos, sobre os primeiros filmes que viu quando era criança, atrizes de Cinema do passado e do presente, as fitas que o marcaram, o produtor Val Lewton, os artigos que escreveu a respeito da arte cinematográfica, o cineclube que ajudou a fundar em Ribeirão Preto, os filmes experimentais que realizou com o artista plástico e cenógrafo Bassano Vaccarini, os eventos culturais que idealizou e organizou, seu trabalho como gerente de cinema, seu histórico encontro com José Mojica Marins, os roteiros que escreveu para Mojica e Ivan Cardoso, roteiros escritos e nunca filmados e o já falecido cineasta Jean Garrett.

Poucos dias depois de haver terminado de datilografar a entrevista, recebi uma ligação do outro diretor da Opera Graphica, Franco de Rosa, a quem conheço há quase 25 anos, desde os tempos da Press Editorial.

Durante a conversa que tivemos, Franco me disse que meu livro As Sedutoras dos Quadrinhos, cujo original eu havia lhe remetido nos meados de 2000, não dava para ser editado da forma que estava. Informou-me que o livro não tinha o número de páginas desejado e incumbiu-me de escrever sobre mais algumas personagens femininas das histórias em quadrinhos.

Para atender a incumbência do Franco, fui obrigado a deixar de lado – por algum tempo – O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI.

Em outubro de 2001, poucas semanas antes do lançamento dos livros As Sedutoras dos Quadrinhos e No Reino do Terror de R. F. Lucchetti (3), voltei a dedicar-me a O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI. Então, fiz uma nova entrevista com meu pai.

Essa segunda entrevista, à qual dei o título de “O Escorpião Escarlate – De Script Radiofônico a Roteiro Cinematográfico”, aborda principalmente a realização do roteiro do filme O Escorpião Escarlate, cujo argumento é baseado num seriado radiofônico que meu pai escreveu para a PRA-7 Rádio Club de Ribeirão Preto na segunda metade da década de 1950.

Concluída a entrevista, dediquei-me a organizar – também para a Opera Graphica – o livro A Múmia – Os Melhores Quadrinhos de Horror de Julio Shimamoto & R. F. Lucchetti.Em conseqüência disso, as duas entrevistas de O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI ficaram engavetadas por mais ou menos um ano. Por volta de setembro de 2003, eu as li atentamente e constatei que havia alguns assuntos que precisavam ser abordados. Fiz, então, uma terceira e última entrevista.

Nessas entrevistas, entre outras coisas, meu pai fala sobre sua colaboração nas principais revistas pulp brasileiras, os filmes do agente secreto 007, o roteiro que escreveu para a fita Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro, os filmes de Horror/Terror produzidos na atualidade, adaptações de histórias em quadrinhos para o Cinema, o trabalho do roteirista, os críticos cinematográficos e as revistas brasileiras de Cinema

O ROTEIRO DE O ESCORPIÃO ESCARLATE

Quando estava datilografando a primeira entrevista, decidi que O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI tinha de ter um roteiro de meu pai, senão o livro não estaria completo. Em seguida, dei uma olhada em todos os roteiros escritos por ele e acabei escolhendo o do filme O Escorpião Escarlate, que participara de um concurso realizado em 1987 pela extinta Embrafilme e recebera de um dos jurados, o diretor Carlos Alberto Prates Correia (dentre os filmes dirigidos por ele, destacam-se: Cabaré Mineiro, com Nelson Dantas e Tânia Alves; e Noites do Sertão, inspirado numa novela de Guimarães Rosa), o seguinte comentário:

“Se o cinema brasileiro, para levantar o moral das bilheterias, precisa de humor e amor, ação e imaginação, de forma leve e inteligente, todos esses elementos estão presentes no roteiro de O Escorpião Escarlate, que tem tudo para vir a ser um filme de grande sucesso (no mínimo junto ao público infanto-juvenil). Escrito por R. F. Lucchetti, para Ivan Cardoso-e o espírito é o mesmo das fitas anteriores do diretor –, trata-se de uma imaginosa intriga de história em quadrinhos assumidamente filiada ao gênero ‘comédia romântica e de aventuras’ e desenrolada na época em que os folhetins radiofônicos dominavam a fantasia popular. E, embora isso não fosse obrigatório, dadas as liberdades de linguagem do Cinema, o roteiro tem razão de ambientar-se no passado, na chamada ‘Era de Ouro do Rádio’, pois o clima de nostalgia cobre a trama, deliberadamente ingênua, com um manto de irresistível magia. Não há muito o que dizer. Ivan Cardoso, a meu ver, já se credenciaria ao apoio da Embrafilme só pelo êxito excepcional de As Sete Vampiras, com seu um milhão de espectadores. Mas, além disso, seu novo projeto tem méritos próprios indiscutíveis, de qualquer ponto de vista. É uma deliciosa brincadeira metalinguística feita em torno dos seriados antigos (do rádio e do Cinema), na qual a ficção se alterna, se prolonga, se mistura com a realidade para puro divertimento da plateia. Com uma ou duas alterações insignificantes, o filme poderia, inclusive, ganhar censura livre, aumentando em muito o seu mercado potencial. Recomendo sem ressalvas.”

E escolhi o roteiro de O Escorpião Escalate – bem entendido: o roteiro original, o que participara do concurso da Embrafilme, uma vez que, a pedido de Ivan Cardoso, foi escrito um segundo roteiro, no qual o personagem principal deixou de ser O Morcego (uma homenagem a O Sombra) e passou a ser o Anjo, o popular herói do rádio e das histórias em quadrinhos –, porque nele meu pai homenageia grande parte daquilo que compõe o seu universo: as revistas pulp, os seriados radiofônicos, as histórias de Detetive & Mistério, os filmes Noir, os quadrinhos, os personagens mascarados da ficção, as femmes fatales... E todas essas homenagens foram enumeradas e comentadas por meu pai em “Homenagens e Citações no Roteiro de O Escorpião Escarlate”, que é um apêndice do roteiro.

OS ARTIGOS

No final de 2002, na época em que eu ainda estava organizando o livro A Múmia, tomei a decisão de que O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI deveria ter, além das entrevistas e do roteiro de O Escorpião Escarlate, alguns artigos abordando a obra de R. F. Lucchetti e/ou o homem Rubens Francisco Lucchetti. Entretanto, os artigos teriam de ser inéditos, isto é, escritos especialmente para o livro. Então, contatei os dois diretores com quem meu pai mais trabalha e com os quais mais se identifica – o sr. José Mojica Marins e Ivan Cardoso – e alguns cineastas, professores universitários, críticos e jornalistas que conhecem seu trabalho. E pedi a cada um deles que escrevesse um artigo.

O resultado desses pedidos foram nove artigos (cada um enfocando um aspecto da obra lucchettiana). E a esses artigos acrescentei um outro – “Madrugadas”, de José Edson Gomes --, que não era inéditos; mas merecia ser incluído no livro, por enfocar aspectos não abordados nos demais artigos.

O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI E ESTA EDIÇÃO DO JORNAL DO CINEMA

O CINEMA DE R. F. LUCCHETTI foi concluído no segundo semestre de 2004 e enviado ao Carlos Mann. Infelizmente, por razões que não interessam ser mencionadas aqui, não foi lançado. Mas, agora, parte dele, incluindo o roteiro de O Escorpião Escarlate, está sendo publicado junto com outros textos que não figuravam no livro, neste número do Jornal do Cinema, uma edição comemorativa dos setenta anos de carreira de meu pai.

NOTAS:

(1) BAECQUE, Antoine de & TOUBIANA, Serge. François Truffaut – Uma Biografia (François Truffaut), tradução de Clóvis Marques, Rio de Janeiro, Record, 1998, pp. 259-260.

(2) MIRANDA, Luiz Felipe. “LUCCHETTI, Rubens F. (Rubens Francisco Lucchetti)” (verbete), in Fernão Ramos & Luiz Felipe Miranda (organizadores), Enciclopédia do Cinema Brasileiro, São Paulo, SENAC São Paulo, 2000, p. 343.

(3) Esses dois livros foram lançados em 24 de novembro de 2001, um sábado, na Comix Book Shop, na Alameda Jaú, em São Paulo.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Maria Ceiça de Paula

Atriz.
 
Como iniciou sua ideia de se transformar em atriz? Como foi esse processo?
Na verdade eu faço teatro e canto desde criança. Primeiro, no salão paroquial da igreja, influenciada por uma prima catequista e depois ao longo do período escolar eu sempre fiz parte dos corais. Depois de formada, já trabalhando como técnica de eletricidade na Light e já tendo trancado a faculdade de engenharia duas vezes, buscava outros caminhos para estudar quando me reencontrei num curso teatro e aí resolvi estudar à vera e seguir carreira.
 
Vencer no audiovisual brasileiro já é difícil, sendo mulher e negra é ainda mais?
Eu diria que vencer como ator e atriz neste país é difícil. Sendo negro já é um agravante e mulher ainda por cima!!!!! Não nos vemos representados no "audiovisual" como o ideal de beleza, dos vencedores, dos bem sucedidos, etc... em consequência , os contratos e os papeis são pequenos e quase sempre estamos em personagens estereotipados, escravos....ou o que é pior, invisíveis em muitas produções.
 
Você é uma das personalidades mais engajadas no debate sobre o negro no nosso audiovisual, do inicio desse debate até o presente momento, qual é a sua análise a respeito deste tema?
Eu observo uma ligeira melhora nas possibilidades de representação do negro no cenário das obras audiovisuais atualmente porque, paralelo aos debates, às questões das cotas nas universidades, existe atualmente um clamor pelas causas sociais.
 
A sociedade brasileira, como um todo, está mudando o olhar. Existe vontade política para mudanças e isso tende a melhorar a autoestima da população negra, da população carente e então, a arte e a educação serão encarados com mais seriedade.
 
Gostaria que falasse a respeito da sua parceria com Joel Zito Araújo. ‘Vista da Minha Pele’ (curta-metragem) e ‘Filhas do Vento’ (longa-metragem) foram trabalhos que realizaram em conjunto.
Eu costumo brincar um pouco quando falo da minha relação de casamento com o Joel: Não tivemos filhos mas fizemos filmes. rs, rs.
 
Foi uma experiência muito interessante profissionalmente em “Vista a minha Pele” porque também pude trabalhar fazendo a assistência de direção. Um filme que fez muito sucesso nas escolas abordando a possibilidade de trocar de lugar para se ter uma ideia do que é a vida do outro e, no caso, a visão do outro com a cor da pele.
 
Em filhas do vento, além de participar de todo o projeto, desde os primeiros debates e encontros e, antes mesmo do roteiro, à maravilhosa carreira do filme, os prêmios ganhos em Gramado, as viagens internacionais, etc...
 
Filme: O Testamento do Sr Napomuceno. Gravação em Cabo Verde.
 
Você participou de uma produção história, ‘Carlota Joaquina’, que muitos dizem que foi o filme que iniciou a retomada do nosso cinema. O que pensa a respeito disso? Houve mesmo uma retomada?
Com certeza esse filme foi um marco do cinema nacional, dando inicio a uma nova fase. Na verdade o nosso cinema está sempre se reinventando, seja por conta da extinção da Embrafilme em 1990, seja por conta da decadência da antiga Vera Cruz , iniciada em 1949 ou das novas linguagens como no filme Cidade de Deus... eu acredito na nossa vocação para a indústria de cinema.
 
A fórmula original da Carla Camurati de produzir, dirigir e distribuir o filme acabou com o desânimo que pairava sobre o fazer cinema nacional. Tenho orgulho de estar neste filme, estava também iniciando a minha carreira no cinema nacional.
 
Acredita que o Brasil ainda se tornará uma indústria de cinema?
Acredito sim. Estamos buscando a nossa própria linguagem, as nossas fórmulas de produção. Já temos muitos filmes sendo feitos de formas geniais e originais. A força da população brasileira, a miscigenação, nos faz únicos na nossa "contação" de histórias...
 
Como foi trabalhar com Cacá Diegues em ‘Orfeu’?
Extraordinário. Cacá é um diretor maravilhoso. Ele não perde a oportunidade de aprender e lançar um novo olhar sobre o que muitos nem percebem. Tive várias momentos incríveis filmando "Orfeu". De aplausos em cena aberta durante as filmagens, chegando a detalhes nas emoções orquestrada por Cacá até quase "explodir" num misto de dor, prazer, amor, ciúme em plena Sapucaí na pele da personagem "Carmem".
 
Cenas de Orfeu.
 
‘Padre Mestre’; ‘Na Boca do Sapo’; ‘O Moleque’, foram alguns dos curtas-metragens que você atuou. Quais as razões que te levam a aceitar um trabalho em curta-metragem?
As razões para meu trabalho no cinema são sempre um bom roteiro e confiança na direção. Curta ou longa, tanto faz. O mercado tem espaço e acho que vamos crescer ainda mais.
 
O que pensa a respeito desse gênero?
Eu acho que o curta já passou da época em que era só um meio de experimentação pelos diretores e equipe para se chegar ao longa metragem. Hoje já existe um mercado consumidor próprio para o curta, muitos festivais e acho que falta ainda mais reivindicações para que eles voltem a ser exibidos regularmente, antes dos longas nos cinemas como antigamente.
 
Você participou de diversas produções televisivas, as novelas predominam no seu currículo que consta com ‘Pacto de Sangue’; ‘Fera Ferida’; ‘Uga-Uga’, entre outras. O que a telenovela tem de interessante para o trabalho que te desenvolva como atriz?
Na televisão o ator tem a oportunidade de experimentar situações diversas e que são bem positivas. Uma delas é atuar e raciocinar com rapidez. Numa novela gravamos várias cenas por dia, de capítulos diferentes, sem a possibilidade às vezes de repetir. Atuar também com várias câmeras ligadas ao mesmo tempo e equipes grandes exigem bastante concentração e controle.
 
Todas as novelas citadas acima foram na Rede Globo. Quais as suas principais lembranças da emissora?
Todas as lembranças dos meus trabalhos na Globo são ótimas. Me sinto uma pessoa privilegiada, todos os meus personagens fizeram sucesso, trabalhei com grandes diretores e autores. O que dizer da Tuquinha Batista em "Felicidade" de Manoel Carlos ou da Márcia em "Por amor", também do Maneco? Da Engracia, de "Fera Ferida" de Agnaldo Silva, da Rosa de "Uga-Uga" de Carlos Lombardi? Todas foram ótimas e eu sinto muita gratidão por tudo.
 
 
Após um longo vínculo com a Rede Globo você foi para a Rede Record, onde gravou as telenovelas ‘Caminhos do Coração’ e ‘Mutantes’. Como foi essa transição?
Foi tranquila porque na época que fui convidada para a Record, estava sem nenhum contrato. Aí chegamos num ponto da conversa que quero falar... apesar dos sucessos, nunca tive, antes de ir para a Record, um contrato longo renovado depois da novela e isso me deixou muito sem rumo e sem entender o que acontecia... entramos aí na questão racial. Só assim para entender porque outros atores "brancos" eram contratados com menos sucesso até do que eu... ouvi várias vezes, nas minhas buscas por mais trabalho, as pessoas ou diretores dizendo que meu trabalho era  ótimo, as pessoas gostavam de mim, etc... mas que NÃO TINHAM personagem pra mim naquele momento. É terrível constatar num produto audiovisual brasileiro, com elenco de 60, 70 pessoas que não tem personagem negro.... que não se tem parâmetro para talento, a autoestima fica no chão. Tive muita sorte porque nestes intervalos fiz teatro, cinema mas deixo aqui registrado que é difícil se erguer, se achar capaz. Se não for por desânimo, é pela sobrevivência que se desiste. E por aí ficaram vários amigos meus, talentosos, bonitos, mas que foram por outros caminhos porque o feijão com arroz e o pão, diários, não esperam por dois  anos para uma próxima produção que tenha "negros". Digo que hoje o país está acordando, está mudando o olhar, já temos novos talentos com contratos longos. Já é reflexo de toda uma luta que vem lá de trás, com os pioneiros, Ruth de Souza, Leá Garcia, Grande Otelo... Imagina o que não passaram? E que talentos... Me lembro que na novela Felicidade, conversávamos sobre isso e eu ouvia a Maria de Alves, o Milton Gonçalves e pensava: isso acontece com eles, pelas dificuldades do passado, comigo vai ser diferente.... qual nada!!!!
 
Mas posso afirmar: hoje já é diferente. Yes, we can! Está aí Barak Obama que não nos deixa mentir.
 
Na Record fui muito bem recebida, fiz já três novelas, uma minissérie, fui convidada a assinar um contrato longo e estou esperando ainda para este ano uma nova convocação para uma novela ou minissérie.
 
Há um declarado interesse da emissora em produzir telenovelas com o mesmo padrão da Rede Globo. Qual é a sua análise a respeito?
Não sei se é um declarado interesse ou é a linguagem que nós, brasileiros encontramos para fazer telenovelas... é claro que com a "guerra de audiências" existe a tentativa de envolver os telespectadores e mudanças bruscas não são bem vindas pelo telespectador acostumado a um determinado formato.
 
Você participou de séries e minisséries. Como é a rotina de trabalho nessas produções?
O trabalho em minissérie tende a ser menos exaustivo do que novela por ter menos capítulos, o tempo de preparação é outro, tudo é feito com mais calma e cuidados especiais.
 
Qual ou quais os trabalhos que mais se orgulha de ter feito (critério deve ser pelo seu desempenho pessoal)?
Pode parecer blasé, mas eu me dedico tanto a cada trabalho que faço, e o faço com tanto prazer que é difícil dizer qual. Cada um deles teve a sua função naquele determinado momento na arte e na minha vida particular. As emoções, as dores, o sucesso, as frustações, tudo contribuiu e contribui para o meu aprimoramento como pessoa, eu acho.
 
O Aleijadinho.
 
Como você se classifica como atriz?
Sou uma atriz apaixonada pelo que faço, me sinto privilegiada porque pude escolher e sobrevivo desse meu trabalho.
 
Não fico pensando que sou talentosa, eu "suo a camisa" e tenho necessidade de fazer muito mais.
 
Considera sua carreira vitoriosa?
Claro! Dela tiro a sobrevivência, criei meus filhos! Tenho muitos planos e continuo otimista.
 
Para finalizar, gostaria de saber se acredita ser subestimada como atriz pela crítica e pelo meio audiovisual.
Não, de maneira nenhuma. O fazer artístico em geral, seja teatro, cinema e televisão acontece em meio a um emaranhado de relações, convivências e conveniências que não há como determinar certas coisas, elas simplesmente acontecem ou não.