segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Marx Vamerlatti

Marx é diretor de fotografia. ‘Veludo & Cacos-de-Vidro’, ‘Sorria Você está sendo Filmado’, ‘Professora Helena & os Cirilos’ e ‘O Petróleo é Nosso!’, são alguns curtas em que trabalhou.



Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
A importância histórica da constante possibilidade do exercício estético e de linguagem. Muitos diretores brasileiros passaram, e ainda passam, pela realização do curta com a consciência plena de poder ousar e sintetizar um conflito, uma história. Sabemos que a produção de curtas foi muito intensa nos últimos 20 anos por se mostrar economicamente viável para muitos realizadores. Mas hoje considero o curta-metragem uma escolha, uma atitude...

O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
A possibilidade de uma equipe trabalhar com afinidade e de se entregar para a ótima condução daquela história. A primeira leitura do roteiro com toda a equipe é primordial. Ter a chance de ouvir as manifestações de cada um é muito importante para cada área de trabalho. Estabelecer uma confiança mútua e levar isso adiante torna-se um desafio. Desenvolvo vários projetos com diretores experientes e fico muito grato quando um realizador iniciante me convida para fotografar um curta. Acredito muito na parceria que se cria entre o diretor do curta e o diretor de fotografia.

Você sente alguma diferença de satisfação profissional entre fazer cinema, teatro e TV?
A minha formação é em Cinema e Vídeo. Sempre trabalhei na realização de curta-metragem, documentários e longa-metragem. Tenho vontade de fotografar um seriado para televisão. Nunca me envolvi com o teatro. Ainda...

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Pelo formato, simplesmente... Um certo preconceito, talvez... Mas penso que a rede mundial está mudando isso.

Como deveria ser a exibição de curtas para atrair mais público?
Deveria fazer valer a lei do curta. Exibição obrigatória de um curta nacional antes de qualquer longa-metragem. Mas na prática... Enfim, todos nós sabemos como isso não funciona. A alternativa que está dando certo é a exibição através de canais na web. Sites especializados em exibição acompanhados de crítica é uma ótima opção. O espectador assiste ao curta, assiste depoimentos críticos, escreve uma opinião... É estabelecer uma aproximação do espectador com a obra exibida.

Considera o curta-metragem um trampolim para fazer um longa?
Considero que deveria ser uma etapa obrigatória. A experiência adquirida na realização do curta-metragem é reveladora. E toda a trajetória desta produção amplia-se consideravelmente em um longa.

Dá para o cinema nacional sobreviver sem subsídios?
Ainda não. Todos os projetos que participo são contemplados por edital Estadual ou Federal.

O que é necessário para vencer no cinema?
Determinação mas principalmente dedicação. Sabia que queria fazer cinema desde muito cedo, com doze, treze anos... Estudei para isso. O meu mundo é o cinema. Assistir aos filmes é um exercício celebrado constantemente.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, penso em dirigir. Aliás, sempre pensei. Comecei operando câmera e migrei para a direção de fotografia. Em tese, estou me preparando para a direção há algum tempo.

Qual é o seu próximo projeto?
Fazer a direção de fotografia de um curta documentário no próximo mês.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Daniel Og

Daniel dirigiu videoclipes da Pitty, Ultraje a Rigor, Rodox, entre outros. No cinema foi diretor de animação de ‘Muito Gelo e 2 dedos dágua’. Seu trabalho como quadrinista merece um olhar atento do público.


Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Eu acho que o curta-metragem de uma forma geral é onde se trabalha linguagem. É um formato curto que permite muita coisa... experimentar livremente sem muito compromisso de dinheiro, nem de tempo. E o formato curto é bacana. Alguns filmes ficam geniais, aquele do Disquinho Verde e o da Ilha das Flores, são filmes pequenos redondos. Uns do Glauber Rocha. Eu não sei dizer academicamente se no Brasil é importante... meu amigo João Mors te diria isso, eu falaria besteira se fosse dizer que sei.

O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Hum... tá ficando interessante! Dinheiro! hahahhaa muito!

Você sente alguma diferença de satisfação profissional entre fazer cinema, teatro e TV?
Teatro eu só fiz quando era criança, no colégio. não tenho uma referencia de como é a realidade de trabalhar com teatro, pra dizer. conheço pessoas de teatro e gosto muito da atmosfera. Mas não conheço... Na TV tudo me parece um pouco rígido, em questão de ficção. Tem o Guel Arraes, mas eu imagino que não sobreviveria ao meio. Meus clipes eram de certa forma curtas na TV, mas o clipe eu acho que seja um outro formato... é mais para cinema, até... mas satisfação todo trabalho bem feito dá. Não sei se tem diferença.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acho que é a ideia que as pessoas fazem, de que curta-metragem é um tipo de exercício, ou que é um filme de quem tem pouco dinheiro... que é capenga, por qualquer razão. Talvez seja justo. Talvez seja por que os curtas em geral são muito experimentais, e o publico mais abrangente quer coisas mais fáceis... na TV Brasil, TV Cultura, TV Futura... redes publicas e educativas, passam curtas e isso não muda muito o efeito. acho que é cultural. Falta de interesse por que não conhecem trabalhos que gostem. Não acho que tenha um culpado... os jornais podiam fazer mais criticas, mas tem tanta coisa que todo mundo tinha que fazer mais... hahahaha. Acho que tem veículos tentando divulgar bons curtas...

Como deveria ser a exibição de curtas para atrair mais público?
Festivais e antes dos filmes nos cinemas. Talvez entre um filme e outro. No intervalo das sessões. Se você ficar até o final do crédito, vê um curta...

Considera o curta-metragem um trampolim para fazer um longa?
Acho que é mais acessível. Então acaba sendo natural que o curta venha antes do longa. Mas uma coisa não deveria depender da outra.

Dá para o cinema nacional sobreviver sem subsídios?
Não sei. Não entendo muito, mas não gostaria que o cinema fosse coisa de indústria. Os americanos tem indústria, mas por algum motivo, e estou sendo bem franco, o cinema de indústria deles funciona, por mais que tenha muito lixo. É bom. nosso cinema de indústria seria uma bela bosta! Hahahhaa. Acho que pra coisas pequenas o apoio do governo deve ser importante sim.

O que é necessário para vencer no cinema?
Não sei.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Pretendo participar de editais. Estou tendo problemas com o mercado justamente pelo formato da minha empresa. Minhas animações são muito experimentais pra televisão e acabo fazendo péssimos negócios por pura pressão. Acho que os curtas são uma boa "rota de fuga"...

Qual é o seu próximo projeto?
Tenho muitos! Outras histórias longas, outras curtas, mas como ficamos nos curtas-metragens o que eu preciso é definir como ganhar dinheiro sendo um sujeito honesto e construir nossa casa... esse ano quero fazer muitos quadrinhos curtos, mas nada épico. Não tenho pressa.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Eliana Fonseca

Eliana é atriz, produtora e diretora. Dirigiu ‘Xuxa Requebra’, ‘O Martelo do Vulcano’, ‘Eliana em O Segredo dos Golfinhos’. É dela também o único filme realizado pelo SBT Filmes, ‘Coisa de Mulher’.


O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Em primeiro lugar o roteiro e, obviamente como atriz, o personagem. Depois é necessário um bom papo com o diretor pra ver sua leitura do roteiro e seu modo de trabalho.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?

Acho que porque, num primeiro momento, não parecem rentáveis em nenhum aspecto. As pessoas esquecem o poder de abrangência de um curta-metragem. Eu mesma tenho a experiência de ter tido muito sucesso com 2 deles : A REVOLTA DOS CARNUDOS (sou atriz, diretora e roteirista) e o FRANKSTEIN PUNK (filme de animação, que foi meu trabalho de formação da ECA). Até hoje tem gente que me reconhece por me ligar a esses dois trabalhos. E olha que faz tempo que foram lançados, mais de 15 anos, e eu faço um bocado de coisas. Acho que se as pessoas percebessem o poder do curta, seja como veículo de experimentação do cinema, seja como alcance do público quando se trata de um filme mais popular, tanto a imprensa como patrocinadores teriam outra visão sobre esse produto cultural.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?

Sem dúvida ele tem que ganhar espaço na TV. Isso porque tem lugares no Brasil que nem cinema tem. Outra coisa bacana seria voltar àquela história de passar bons curtas antes de longas. Pacotes com curtas para quem quisesse locar também seria uma boa opção. E é claro, tudo isso com a mídia dando uma forcinha.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...

Depois de ter feitos 3 longas, percebo que não. Acho a linguagem do curta cada vez mais estimulante. Trabalhar a síntese é algo difícil e ao mesmo tempo extremamente excitante. Sem dúvida, há muita história que só pode ser contada num curta.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?

Não sinto isso não. Acho que quando um filme é competente, tem personalidade, ele é respeitado seja lá a metragem, bitola ou o lugar que ele tenha sido feito.

Pensa em dirigir um curta futuramente?

Vários. Tenho engavetados alguns roteiros e ainda pretendo vê-los nas telas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Luciano Vidigal

Luciano é integrante do Grupo Nós do Morro, tendo participado de várias peças e filmes. Atualmente, dá aulas de teatro e cinema e está dirigindo novos curtas. É um dos diretores do projeto em longa-metragem ‘Cinco Vezes Favela – Agora Por Eles Mesmos’, idealizado por Cacá Diegues. Atuou nos curtas ‘Mina de Fé’, ‘A Distração de Ivan’, ‘Caixa Preta’, entre outros.


Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta é o momento inicial de identidade do cineasta. Tem importância de entrada e permanência no mercado audiovisual. É a prova de fogo da nossa criatividade, singularidade, personalidade a amor ao cinema.

O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
O roteiro ou a linguagem determinada pela direção do projeto. Como sou ator também, tem que bater um amor a primeira vista com os personagens e as tramas.

Você sente alguma diferença de satisfação profissional entre fazer cinema,teatro e TV?
Atualmente estou priorizando cinema e teatro. Através do cinema me comunico com mais coerência com o mundo. Teatro é total liberdade. Sinto muita dificuldade com os estereótipos midiáticos que existe na TV.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque o nossa mídia é capitalista e preconceituosa. Acho isso uma regressão no acesso a cultura.

Como deveria ser a exibição de curtas para atrair mais público?
Voltar a lei do curta antes do longa nos cinemas. E criar uma nova lei para exibições de curtas na TV Aberta. Temos que se unir e lutar por esse nosso direto de distribuição.

Considera o curta-metragem um trampolim para fazer um longa?
Sim é sempre um grande aprendizado prático e teórico.

Dá para o cinema nacional sobreviver sem subsídios?
Pode ser uma das formas de realização. Mas temos direito de todos os tipos de investimentos. Eu penso assim: O cinema é uma das mais rápidas representações do nosso país no mundo.

O que é necessário para vencer no cinema?
Rsrsrsrs. Apesar da democratização do cinema digital, ainda continua uma arte elitizada. Temos que ter muita paciência, perseverança, identidade e criar parcerias. Talvez seja a saída.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Sempre. Estou com uma ideia dentro da cultura futebolística e a poesia popular.

Qual é o seu próximo projeto?
No momento estou dirigindo um documentário junto com o Cavi Borges sobre os dez anos do filme Cidade de Deus. Vamos falar sobre a transformação na vida de alguns atores. Vou lançar também o documentário Copa Vidigal nos cinema esse ano. Um filme que documenta o futebol de favelas com a ferramenta de paz.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Daniel Tupinambá

Daniel é cineasta. Além da direção, escreve roteiros. ‘Na Base’, curta/documentário, é uma visão do próprio diretor sobre a vida através do skate. ‘Risque outro Fósforo’ e ‘Estro’ são outros curtas de sua autoria.



Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Tem a fundamental importância de ser a porta de entrada para futuros cineastas. Além de ser uma excelente plataforma para o experimentalismo audiovisual.

O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Um bom roteiro. Na verdade, eu escrevo os trabalhos que dirijo, então sempre batalho principalmente em ter uma boa história para contar.

Você sente alguma diferença de satisfação profissional entre fazer cinema, teatro e TV?
Tive a sorte de ter contato com essas 3 plataformas. Difícil dizer, mas é diferente sim. O que mais identifico e o que mais gosto de fazer é cinema, sem dúvidas. Acredito que no cinema a gente tenha a possibilidade de brincar de Deus, pois o controle total acaba sendo do diretor, principalmente quando ele também é o roteirista. Mas no ano passado desenvolvi muito mais projetos para TV e gostei bastante também. A TV te dá uma possibilidade maior para comunicar a sua mensagem, o conteúdo chega em mais lugares. Mas ao mesmo tempo te limita em abordar determinados temas. No teatro, nunca fiz uma peça, mas já estudei em diversos cursos para aprimorar o meu trabalho de direção e tive um pouco da sensação do que é um trabalho de interpretação, apesar de nunca pensar em ser ator. Tenho vontade de no futuro dirigir peças teatrais.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Falta engajamento de nós mesmos, profissionais do ramo. Não podemos esquecer que é um problema cultural também, pois mesmo com brilhantes momentos do cinema brasileiro (como o cinema novo por exemplo) nunca tivemos a cultura de assistir filmes em curta metragem na televisão, exceto nas TVs públicas que dão um espaço como a TV Cultura e a TV Brasil, mas que detém índices de audiência irrisórios perto das outras emissoras de TV aberta. Falo sobre a Televisão, pois é a mídia que detém a maior quantidade de público no Brasil.
De qualquer forma, temos a internet aí. Não precisamos mais depender das mídias antigas para divulgar nosso trabalho. Se fizermos um trabalho de engajamento, aos poucos teremos resultados. Basta nos unirmos!

Como deveria ser a exibição de curtas para atrair mais público?
Teria que ter um trabalho em conjunto de divulgação na internet, mídia impressa e televisão, poderia ajudar bastante. Seria legal também se tivessem exibições de curtas antes de longas com distribuição comercial nas salas de cinema.

Considera o curta-metragem um trampolim para fazer um longa?
Sem dúvidas. Como já disse anteriormente, é a nossa possibilidade de experimentação, de auto-conhecimento profissional e autoral.

Dá para o cinema nacional sobreviver sem subsídios?
Sobreviver sim. Mas existir decentemente não... Tivemos alguns casos de longas que não precisaram de subsídios de leis de incentivo para serem produzidos e lançados. Acho que o Ônibus 174 do Bruno Barreto foi feito somente através de co-produção internacional. Mas não acho que é uma boa alternativa para o cinema brasileiro. Ainda somos muito dependentes das leis. Mas em questão de sobrevivência existem diversas maneiras para fazer um filme. A maioria de nós faz filmes na raça mesmo!

O que é necessário para vencer no cinema?
Não acho que cheguei lá ainda. Estou batalhando.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Provavelmente irei rodar 3 curtas de ficção esse ano.

Qual é o seu próximo projeto?
Em cinema é um curta chamado "Relato Inspirado por Orelhas". Roteiro que eu mesmo adaptei do livro da escritora Paula Febbe.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Vida longa ao Curta

Esse texto foi publicado no caderno “Ilustríssima”, da ‘Folha de S.Paulo’ em 12/02/12.

A França ainda é uma potência no cinema
SERGE KAGANSKI

TRADUÇÃO PAULO WERNECK

O ano de 2011 no cinema foi marcado na França por "Intouchables" (intocáveis). Com mais de 18 milhões de ingressos vendidos, essa comédia social de Eric Toledano e Olivier Nakache é a terceira bilheteria francesa de todos os tempos e provavelmente vai passar "A Riviera Não É Aqui" e "Titanic".

A boa-nova econômica é motivo de comemoração para o cinema francês, completada pelo sucesso artístico e internacional de "O Artista", que prova que a França ainda é uma potência no cinema.

Seria possível moderar de leve esse entusiasmo patriótico observando que "Intouchables" é mais um bom produto formatado que uma obra-prima comparável ao trabalho de Jean Renoir, Jean-Luc Godard ou François Truffaut, e que seu sucesso não deve nos fazer esquecer das dificuldades financeiras de muitos autores franceses.

Para cada "Intouchables", dezenas de bons filmes ficam em cartaz só por uma semana, vítimas da concorrência, de uma oferta abundante e de marketing insuficiente.

A VOLTA DO CURTA

No outro extremo econômico de "Intouchables", o curta-metragem permanece como território no qual fervilha o futuro do cinema.

No último dia 4, acabou o festival de Clermont-Ferrand, uma instituição do curta na França, que a cada ano alcança enorme sucesso.

Ao mesmo tempo, estreiam dois médias-metragens já cult graças ao burburinho dos festivais: "Le Marin Masqué" (o marinheiro mascarado), de Sophie Letourneur, e "Un Monde Sans Femmes" (um mundo sem mulheres), de Guillaume Brac.

Letourneur já assinou um longa elogiado ("La Vie Au Ranch", a vida no rancho) e volta ao formato curto com esta comédia romântica experimental e engraçada. Brac, por sua vez, estreia no cinema com um quarteto amoroso à beira-mar, num filme cujo tom faz pensar nas grandes figuras da nouvelle vague, como Eric Rohmer e Jacques Rozier (trailer em bit.ly/sansfemmes).

A exibição desses filmes de menos de uma hora no cinema é uma boa-nova: antes de serem curtos, "Le Marin Masqué" e "Un Monde Sans Femmes" são, sobretudo, excelentes filmes, que fazem acreditar no futuro desses cineastas.

"STAND-UP" MUÇULMANO

Numa pequena sala parisiense é encenado o "one-woman-show" de Sophia Aram. Muçulmana de origem marroquina, Sophia é uma cidadã francesa, laica, ateia, cujo humor espeta o culto excessivo às comunidades de imigrantes e o extremismo religioso. Como esses temas são sensíveis, isso lhe traz inimigos.

"Meu marido e eu somos de culturas diferentes", diz ela, casada com um cristão, numa apresentação. "Ele perguntou se podia me beijar após comer salsichão. Falei: 'É claro, desde que depois eu possa circuncidá-lo com os dentes'."

Sophia Aram também é titular de um quadro humorístico duas manhãs por semana na France Inter, rádio de grande audiência em todo o país.

Ela volta e meia desperta polêmica com líderes políticos que não apreciam seu senso de humor. Um dia tratou os eleitores do partido de extrema direita Front National de "grandes babacas".

Ela se justificou explicando que entendia as dificuldades econômicas de parte da população, mas que não entendia como aquelas pessoas podiam acreditar nas promessas simplistas de um partido político demagógico e xenófobo.

Ao fazer crítica social pela via do humor, gente como Sophia Aram é necessária à vida de uma democracia.

"FAIT-DIVERS" LITERÁRIO

Régis Jauffret, um dos escritores mais interessantes dos últimos anos, acaba de publicar o romance chocante da temporada de lançamentos de janeiro.
Assim como "A Sangue Frio", de Truman Capote, "Claustria" se inspira num "fait-divers" terrível: na Áustria, um pai de família estuprou sua filha, teve filhos com ela e os manteve reféns no porão durante 24 anos, à revelia do resto da família!

Jauffret tentou descrever o indescritível: não tanto as relações de violência incestuosa, mas o fato de viver apartado do mundo durante 24 anos. Longe de uma literatura obscena e sensacionalista, Jauffret transmite ao leitor uma experiência da duração, da limitação e de uma forma de condição humana que ultrapassa a compreensão comum: assim como uma microexistência que teria suas próprias regras longe de nossa civilização (a filha-mãe-vítima também tinha boas relações com seu pai-amante-predador).

De um "fait-divers" único e terrível, Jauffret tirou um romance único e poderoso.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Lena Roque

Lena fez licenciatura em artes cênicas na ECA, USP (1990-1995). Escreveu texto para teatro e dois roteiros para curta-metragem. Trabalhou em “Domésticas – o filme” (antes atuou na peça de mesmo nome) e “Quanto Vale ou é Por Quilo”. Na televisão fez novelas, a última foi “Essas Mulheres”, da Rede Record.



O que te faz aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Principalmente o roteiro e o personagem que me é oferecido, além dos profissionais envolvidos no trabalho.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
A resposta exata eu não sei. O que percebo é que não há a devida valorização destes filmes, como se fossem um trabalho menor subordinado aos longas, e por isso não conseguem a justa visibilidade. Penso que isso se dá pelo poder que a indústria internacional tem em nosso país em relação ao cinema como um todo. E a mentalidade restritiva que algumas pessoas tem e assim não divulgam.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Talvez pudesse ser exibidos nas escolas públicas e privadas, em clubes e associações de bairros, nos teatros antes dos espetáculos e também começar uma campanha nacional onde as pessoas pudessem entender o valor do curta metragem.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Eu acredito que é muito possível. Assim como podemos ser só documentarista. Questiono o SÓ. Não é só, o profissional É diretor de curta ou É documentarista, o SÓ diminui o valor do trabalho.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Espero que não. Ou será que ainda convivemos com pessoas que depreciam as outras, outros conteúdos, outros formatos, outras realizações que não as suas. (!!???!!)

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Já tenho dois roteiros escritos. Em um futuro breve lá estarei.