sexta-feira, 5 de julho de 2013

Akira Goto

Diretor de arte.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O que me faz participar de curtas: um roteiro que eu me apaixone e roteiros que tenham universo e espaço para arte...
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acho que a mídia em geral, ainda não vê retorno. Ignorância...
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
As exibições de curtas, deveriam estar em todos espaços culturais. Exemplo: nos cinemas, um curta antes do inicio da seção... Nos teatros, dentro do metrô, ônibus, nos bares, tevê, etc...
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho que ainda não. O cineasta mal consegue viver de longa, haja ralação, filmes pra comercial, palestras...
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não acho marginalizado pelos cineastas...
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Já pensei, hoje não mais...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Nelson Baskerville

Ator, autor, diretor e educador de teatro. Um dos nomes mais importantes do teatro brasileiro.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
A ideia e o pensamento. Costumo ler muitos roteiros pobres de idéias e sem nenhuma tentativa de inovação na linguagem. é importante que os novos cineastas tenham uma identidade cultural com alguma coisa, com algum cinema, de algum país, autor ou  pensamento... não basta fazer a faculdade e aprender como filmar as coisas, acho mais importante aprender que coisas filmar. 
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Querido, espaço em jornal é guerra de superpotência o que indica a pobreza também desse meio. Porque, principalmente em cinema, o dinheiro investido é muito grande e o lobby maior ainda. é uma conjunção de fatores e são necessárias pequenas ações discordantes. Falo em provocação, boicote.  
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não sendo obrigado como na época da ditadura faziam com Primo Carbonari. Seria necessária a criação de mais festivais e espaço, mas isso não se consegue individualmente. É preciso empenhar o poder público, se organizar e lutar.  
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Na minha modesta opinião, não. Se você tem histórias pra contar, vai querer um formato maior para viabiliza-la.  
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não acredito. Não acho que que seja um trampolim, acho um estágio, uma passagem que a maioria dos cineastas famosos já passou. 
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Minha praia é o teatro, é onde minhas histórias são melhor contadas. É claro que nada está fechado, se aparecer uma boa oportunidade, por que não? 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Dado Amaral

Poeta e cineasta. Dirigiu o curta-metragem Porr Gentileza, filme a respeito do Profeta Gentileza.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O que me faz aceitar é originalidade do projeto, o interesse que ele me provoca. E isso vale tanto para curtas quanto para longas, peças de teatro, etc.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não vejo desta maneira. Meu curta Porr Gentileza, por exemplo, teve crítica na Folha de São Paulo, quando foi exibido na TV Cultura. Há muito tempo o curta conquistou seu espaço na mídia brasileira, talvez desde o tempo de Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Claro que os longas, que movimentam muito mais recursos e profissionais, que são lançados nos cinemas, têm muito mais espaço, e é natural que seja assim. Mas há muitos programas de TV dedicados a curtas, há um dicionário de curtas-metragens excelente, um registro da produção brasileira, e o próprio trabalho que você desenvolve no blog, fatos que demonstram que o curta não é mais o patinho feio que foi há duas décadas atrás.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Há a chamada lei da obrigatoriedade, que foi muito polêmica por ter sido deturpada pelos exibidores. Essa lei, que eu saiba, não foi revogada, ainda está em vigor, só não é aplicada. Um curta antecedendo cada longa nas salas de cinema é um formato que funciona e que podia retornar, agora mais bem pensado, selecionando-se os curtas com critério e os colocando de acordo com o longa a ser exibido. A Prefeitura de Porto Alegre tem um edital público que faz isso, e me parece muito bem sucedido, o Curta nas Telas.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Há escritores que só escrevem contos, se especializam nisso, e não ambicionam escrever romances. Dalton Trevisan, grande escritor brasileiro, tem mais de 30 livros publicados, e apenas um romance. Se o cineasta só se interessa pela forma curta, porque não exercê-la? Claro que o curta funciona muitas vezes como uma escola: gasta-se menos tempo e dinheiro para realizá-lo, e por isso se dispõe de mais liberdade também. Vários cineastas realizam curtas como estudo para os longas que querem realizar: Cláudio Assis fez isso, realizando Texas Hotel antes de seu Amarelo Manga. Isso me parece legítimo e inteligente.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não creio nisso. Mas obviamente não tem o mercado que os longas têm. Mas que cineasta terá a coragem de negar a grandeza de filmes como Um Cão Andaluz (Buñuel), Neblina e Sombras (Resnais), Now (Santiago Alvarez), La Jetée (Chris Marker), A Velha a fiar (Humberto Mauro), Di (Glauber Rocha), Ilha das Flores (Furtado) e tantos outros? A curta duração destas obras não tem nada a ver com sua qualidade, elas são obras maiores que a maioria dos longas-metragens produzidos.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Apesar de ter um projeto de longa em andamento, gravei um material no sertão nordestino há dois anos no que deve me render um curta experimental em breve.

domingo, 30 de junho de 2013

Danilo Grangheia

Ator formado pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD/ECA/USP) e pela Mary Ward Centre of London. No cinema, atua em “O Capitão chamava Carlos”, de Dida Andrade e Andradina de Azevedo, “London” (UK), de Ana Jara, “A mulher morta”, de Filipe Sales, entre outros. 
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Independente do formato, o cinema é um lugar de expansão da realidade. Boas histórias passam a ser o grande diferencial, passam a ser a identidade de um determinado trabalho. O curta-metragem tem a especificidade da concisão, da síntese, do essencial. Acho que essa ideia é a que mais me chama atenção e interesse em produções nesse formato. Do ponto de vista do ator, mapear o trajeto de uma personagem num curta-metragem é  aparentemente mais simples, no entanto, a dimensão desse trajeto por escolhas essenciais torna o trabalho tão complexo como um longa.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não sei ao certo criar algum diagnóstico preciso para identificar essa falha. Mas o que salta aos olhos é que a pouca difusão de trabalhos em formato de curta-metragem ainda está atribuída e relacionada a questão econômica. A indústria cultural entende que esse formato é inviável financeiramente, o incentivo público (que poderia mudar essa mentalidade) passa a pensar nos mesmos moldes que a iniciativa privada. Isso acaba criando uma esquizofrenia nos modos de produção. A excelência artística agora isolada, infelizmente, já não é mais suficiente para criar espaços de veiculação das obras, o que reflete na pouca articulação da crítica em sua maioria.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Se alguma coisa tem quer transformada nesses termos creio que seja na cultura. O curta-metragem tem que ser encarado como uma obra que tem a sua especificidade e identidade e não como valor agregado. Independente da eficácia e necessidade de se apresentar curtas antes de longas nas salas de cinema, é importante tentar eliminar a ideia do curta ser um brinde aos visitantes. E para que essa mentalidade mude é preciso muito esforço. É necessário mais ousadia por parte dos fazedores e criadores junto as instituições competentes.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Tudo é possível. É possível que o curta-metragem seja um trampolim para um longa. É possível que um curta seja uma prévia para um longa, é possível que um curta seja um teste para se compreender a feitura de um longa e é possível que um curta seja simplesmente um curta por uma opção estética clara e que ele se baste nele mesmo. E para tanto, cada cineasta tem a sua particularidade.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Se há algum tipo de marginalização nesse sentido intuo que seja pelas mesmas razões citadas anteriormente. Os próprios fazedores de cinema são também responsáveis pela sua desarticulação. Todos querem de fato a projeção de seus trabalhos e para defender seus interesses muitas vezes se fez a prática de negar os interesses alheios. Agora, não acredito que haja ação pela negação e desqualificação. O curta-metragem pode ser sim uma opção estética.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Seria muito prematuro da minha parte querer dirigir quando o interesse está voltado inteiro e verdadeiramente no exercício do jogo da cena como ator. E o cinema é um campo, um lugar que ainda pretendo explorar muito nessa função. Mas como já disse, tudo é possível, não é mesmo?

sábado, 29 de junho de 2013

Karla Sabah

Atriz, cantora e diretora. Ex-integrante do grupo "Afrodite se quiser". Karla Sabah já dirigiu curta-metragens, videoclipes e DVDs para artistas da gravadora Indie, entre eles Alceu Valença, Jorge Aragão e Luiz Melodia.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Eu não aceito participar, geralmente eu produzo meus próprios curtas. É uma viagem muito pessoal para quem dirige, edita e/ou roteiriza. No caso de vídeo clipes, filmados em 16mm e telecinados é diferente, tanto no aspecto contratual como o produto final.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Sinceramente eu não sei responder a essa pergunta. Eu adoro todo o tipo de curtas e fiquei muito irritada quando pararam de passá-los antes dos filmes principais nas salas de exibição. Eu gostava muito e me preparava para a surpresa da sessão, "que curta seria?". Inclusive porque não eram divulgados mesmo. Talvez por serem muitos e/ou não estarem disponíveis na hora da impressão do jornal, ou serem de nível considerado "inferior" pelos padrões vigentes. Acho que as pessoas estão muito imediatistas hoje em dia e não querem "perder tempo com baboseiras". Eu via, e continuo vendo, muitos curtas legais. Aprendo muito com eles. Já participei da Mostra do Filme Livre, do Festival de Filme Universitário, de duas mostras de vídeo em Gramado... Curtas existem, festivais também, e tem muita gente os fazendo, não sei porque não falam deles.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Poderiam voltar com a lei que obrigava a exibição de curtas antes das sessões de filmes estrangeiros... ou criar um programa numa TV aberta de grande audiência, que falasse sobre a existência deles e os exibisse com ou sem legendas. Existe publicidade de lançamento de produtos de até 1min e meio de duração, ou programas de humor de meia hora com intervalos comercias, que todo mundo gosta e poderiam ser curtas. Os filmes de animação, por exemplo, tão em moda hoje em dia, são curtos.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Sim, por que não? Depende da vontade, da ideia, do tema, do roteiro. Acho que é uma questão de escolha. Normalmente todo cineasta começa com o curta como aprendizagem, testando ideias... Se bem que, atualmente, vários cineastas começam mesmo é com longas, logo de cara, e se profissionalizam rápido sem usarem curtas como trampolim.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Talvez por conta do custo de uma produção cinematográfica que é tão grande que seja preferível fazer logo um longa, não por preconceito. Na maioria das vezes curtas são produções com pouquíssima ou quase nenhuma verba. Para mim filme é filme, não importa o tamanho e sim o prazer que proporciona, rsrsrs.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não, atualmente minha meta é o filme documentário de longa metragem ‘Luiz Melodia, O Negro Gato’, em fase de captação de recursos, finalmente aprovado nas leis de incentivo fiscal, federal, estadual e municipal, que há 11 anos venho tentando realizar. Por causa dele, vários curtas como "Segura Na Mão De Deus E Vai", "Muvuca No Estácio", "Mal Secreto", entre outros que são trechos do filme, foram editados e esperam uma chance para se consolidarem.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sergio Mastropasqua

Ator. Em cinema atuou em: "Linha de Passe", "O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias", "Não por Acaso" e "Entre Vales e Montanhas". Em TV, atuou em "A Justiceira", "Carga Pesada", "A Grande Família", "João Miguel", "Guerra e Paz", "Malhação" e "Força Tarefa".
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Invariavelmente o talento de quem faz o convite. Há uma geração de realizadores muito profissional e que dentro do formato do curta  tem trabalhado a síntese dos elementos, articulados com ótima produção. São células de preparação e foco. Percebo que as equipes estão cada vez mais entrosadas. E quando as condições de trabalho são claras, os resultados aparecem e é bom fazer parte disso.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Talvez não tenham o espaço pela quantidade e variedade de linguagens dos filmes produzidos. Não há uma padronização reconhecível, graças à Deus. O curta é o espaço da experimentação por excelência. Experimentação  com rigor de narrativa, linear ou não. Já a grande mídia é institucionalizada. São amantes que falam línguas diferentes.  Mas os canais digitais estão ai. Estão até coadjuvando a queda de ditaduras. Vivemos tempos de revolução em relação ao tempo, formato e local de exibição do  áudio visual. Como diz o poema épico dos indianos: "Há muitas auroras que não brilharam ainda".
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
A única forma é como vocês dizem: "botar o filme em baixo do braço", ou botar os filmes no HD. Juntar e articular esforços para os canais que já existem e pensar novas maneiras, principalmente a comunicação digital. A outra questão é: se quer falar com mais gente use a subjetividade sim, mas não isole sua obra para um gueto ou só para si. Numa época de saturação de narrativas, deve-se fazer uma obra não para agradar o público, mas tente conversar com ele. Nem que seja para provocá-lo.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Não sou realizador da área. Produzo meus trabalhos no teatro. Se é possível só fazer curtas? Acho que sim. Conheço gente que faz isso apaixonadamente. Quando ao longa-metragem, os custos são altos e é uma questão de oportunidade. O mercado brasileiro é "chapa branca". Depende de dinheiro do Estado. Não há uma dinâmica, principalmente em relação à distribuição, que permita um trabalho continuado de um criador. São poucos os que conseguem, infelizmente.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Meu convívio com "a classe" é pontual e se reduz, basicamente, ao momento do trabalho. Não tenho como responder. Mas se isso ocorre, é dai? Quem faz curtas é que deve se valorizar. A melhor maneira disso acontecer é problematizar a própria atividade e seguir em frente. Estrela, só no céu.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tenho um projeto de trabalhar textos de teatro do século 19 num média metragem. Sei que o termo "teatral" é empregado nos sets de filmagem como algo pejorativo. Pouca gente de cinema lê teatro. Na verdade, pouca gente lê. Disso resulta que o conceito de "real" ou "realismo" no cinema brasileiro acaba ficando pobre e ingênuo. Geralmente resulta em diálogos inverossímeis, cujo dramatismo ainda depende muito do documentário. Isso é falta de um maior contato com outras fontes de narrativa: a literatura e o teatro. O excesso de lentes e luzes, por vezes, deixa o pessoal do cinema no escuro.

terça-feira, 25 de junho de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


 
A FÁBULA DO HOMEM PAVOROSO
Rubens Francisco Lucchetti

O homem pavoroso, com cara de espantar cuco, vai andando pela rua. Já está entrado em anos. Tem a cabeça dominada pela calvície, e a dentadura não lhe assenta mais. É um infeliz. Eu disse que ele “é um infeliz”? Pois essa é a mais pura verdade, e nunca disse com tanta propriedade que uma pessoa é infeliz.
Eis que surge uma jovem na janela. É linda – tão linda quanto as criaturas decantadas em versos pelos poetas – e grita:


– Ei você aí... Suba, por favor.

O homem pavoroso tem um estremecimento. Será que está sonhando? Não, não está sonhando. A coisa está realmente acontecendo. Ele não perde um só segundo. Sobe apressado as escadas.

Lá no alto, parada na soleira da porta, iluminada pela luz que vem de dentro da casa, está a jovem. Deve ter pouco mais de vinte anos. Seus encantos estão ocultos por um négligé, que mais expõe do que esconde. O homem treme de cima abaixo, mal podendo acreditar no que vê e ouve. E, assim que ele chega ao topo da escada, ela fala com uma voz capaz de ressuscitar frade:

– Faça o favor de entrar.

Ele entra e quase tem um colapso, quando ela lhe segura o braço e o conduz até um quarto. Depois, é levado até um berço, onde está uma criancinha que chora. Então, olhando com cara feia para a criança, a jovem diz:

– Olhe filhinho... se continuar chorando assim, o papão aqui leva você.

MORAL DA HISTÓRIA:

Não há ninguém inútil neste mundo, embora nem sempre sejamos utilizados naquilo de que mais gostamos.

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.