OS
AMORES DE EDGAR ALLAN POE
artigo de Rubens Francisco
Lucchetti
O
editor do Jornal do Cinema
pediu-me que escrevesse um texto sobre o filme Os
Amores de Edgar Allan Poe (The
Loves of Edgar Allan Poe, no
original), pois de todos os colaboradores da publicação sou o único que viu o
filme. Mas que posso dizer a respeito de um filme que vi em 1945 – na época,
minha família residia na Rua Catão, no bairro da Lapa, em São Paulo; e eu tinha
à minha disposição três cinemas: o São Carlos, o mais próximo de casa (ele
localizava-se na Rua Guaicurus), no qual, todas as quintas-feiras à tarde,
havia a Sessão das Moças, que eu não perdia, porque era uma sessão dupla (eram
exibidos dois filmes, além de um curta-metragem, um desenho animado e um
cinejornal), com ingressos abaixo da meia-entrada; o Recreio, o mais distante,
instalado na Rua Engenheiro Fox, atrás das porteiras da estação ferroviária da
Lapa; e o Carlos Gomes (ele ficava na Rua 12 de Outubro, no centro da Lapa), o
melhor e também o mais caro dos três – e nunca mais revi? Pouca coisa me
recordo dele, apesar de ter Poe, um de meus autores prediletos, como
personagem. Porém, recordo-me bem do dia, ou melhor, da noite em que o vi. E
isto por uma razão bem simples: foi minha última noite em São Paulo, uma vez
que, no dia seguinte, minha família se mudaria para o interior (portanto,
naquela noite, despedi-me de São Paulo, a cidade onde eu imaginava que iria
construir meu futuro), para Ribeirão Preto.
Lembro-me perfeitamente de
que, na manhã daquele dia, levantei com a idéia de fazer um passeio de
despedida pelo bairro onde fora criado. Lembro-me de que desci a Rua Roma,
parei na pontezinha rústica de madeira e observei o riacho (suas águas eram tão
cristalinas que dava para ver os peixinhos que ali havia) em que eu costumava
apanhar alevinos (eu os punha naqueles vidros de boca larga onde os merceeiros
guardavam balas, pirulitos e os pacotinhos com grãozinhos de “magnésia efervescente”). Alguns minutos depois,
reiniciei minha caminhada e passei em frente à loja de miudezas na qual várias
vezes fora comprar retrozes, linhas e aviamentos para minha mãe. E foi ali, na
esquina da Rua Monteiro de Melo, que me deparei com um painel, encostado a um
poste, com um cartaz do filme Os
Amores de Edgar Allan Poe (na época, era comum os cinemas distribuírem pelas
ruas do bairro painéis com cartazes dos filmes em exibição). A fita estava
sendo exibida no Cine Recreio.
Devo confessar que o título Os Amores de Edgar Allan Poe jamais chamaria minha atenção,
se nele não houvesse o nome de Edgar Allan Poe. Devo confessar também que ver o
nome do escritor norte-americano naquele cartaz causou-me um frisson, em razão de há muito buscar, em
vão, uma resposta para a pergunta: “Quem é Edgar Allan Poe?” E comecei a fazer essa pergunta a
todas as pessoas de meu convívio, desde que lera, em 1941 ou 1942, na revista Detective, dois contos que me fizeram
imergir em regiões abissais e aterrorizantes das quais nunca emergi: “O Coração
Revelador” e “O Gato Preto”. Durante um pouco mais de três anos, procurei saber
entre as pessoas que me cercavam quem era Edgar Allan Poe. Ninguém soube me
responder (a resposta mais satisfatória foi a da minha professora do Primário: “Esse nome não me é totalmente
desconhecido.”).
Então, no momento em que vi o cartaz de Os Amores de Edgar Allan Poe, pensei que, assistindo à fita,
pudesse descobrir quem fora esse autor que eu tinha plena consciência de ser
muito superior à maioria dos escritores de histórias fantásticas que eu havia
lido até então (Algernon Blackwood, Gaston Leroux, Henry Kuttner, Robert Louis
Stevenson, W. W. Jacobs, entre outros). Penso que os dois únicos autores que
podem se comparar com ele – já que também criaram histórias em que há um forte
clima claustrofóbico (quando o leitor lê essas histórias, falta-lhe até o ar) –
são M. R. James (1862-1936) e H. P. Lovecraft (Howard Phillips Lovecraft,
1890-1937), que conheci por intermédio de Contos Magazine e Policial em Revista, duas revistas pulp dirigidas pelo saudoso sr. Adolfo Aizen.
Mas, como eu dizia,
recordo-me perfeitamente da noite em que assisti ao Os Amores de Edgar Allan Poe. Lembro que fazia muito calor.
Saí de casa por volta das sete horas, logo após o jantar. No caminho, olhei as
vitrinas das lojas que me eram tão familiares e, mentalmente, fui me despedindo
delas – para mim, era como se “nunca
mais” (frase
angustiante que eu iria aprender ainda naquela mesma noite) fosse vê-las.
Cruzei o posto de gasolina; e ali estava, como sempre, a viatura da
radiopatrulha, que tanto me fascinava, porque me remetia de imediato à história
em quadrinhos de mesmo nome (história em quadrinhos essa escrita por Eddie
Sullivan, desenhada por Charlie Schmidt e protagonizada pelos patrulheiros
Patrick e Sammy e seus auxiliares, os jovens Mariazinha e Paulinho e o cão
Rex), que eu lia no tablóide O
Globo Juvenil.
No quarteirão seguinte, passei diante da gráfica que editava O Lapiano, jornal que publicara, em 31 de
outubro de 1942, meu primeiro conto, “A Única Testemunha”, escrito sob a
influência e o impacto de “O Coração Revelador” e “O Gato Preto”. Atravessei as
porteiras da estação ferroviária da Lapa, olhei para os trilhos e segui-os com
a visão, até se perderem de vista. Depois, detive o olhar no prédio (de
tijolinho à vista) da estação. No mesmo instante, transportei-me para um outro
mundo, para um mundo de sombras, de onde emergia uma figura sinistra e vestida
toda de preto. Essa figura, que usava um chapéu enorme e que tinha uma voz
cavernosa e uma risada sibilante, era O Sombra (eu lia suas histórias, assinadas
por Maxwell Grant, nas revistas
Mistérios e Policial em Revista; acompanhava suas histórias em
quadrinhos em O
Lobinho; não
perdia um capítulo do seriado cinematográfico A Sombra do Pavor/The Shadow, em que era interpretado por
Victor Jory; e ouvia suas aventuras no rádio, onde ganhava vida por meio da voz
inconfundível de Octavio Gabus Mendes). E todas esses fatos estão bem vivos em
minha memória, como se tivessem acontecido ontem...
Lembro-me perfeitamente de
tudo isso; no entanto, como já disse, pouco me recordo de Os Amores de Edgar Allan Poe (a razão disso talvez seja porque
a fita quase nada me esclareceu a respeito do escritor). Não me lembro nem
mesmo do nome do ator que interpretou Poe – somente após consultar a edição de
2001 do catálogo Movie
& Video Guide,
do crítico e historiador cinematográfico norte-americano Leonard Maltin, é que
descobri que o poeta foi vivido por John Shepperd (não me recordo de ter visto
esse ator interpretando qualquer outro papel). Uma das poucas coisas que me
lembro da fita é da presença da atriz Linda Darnell, que encarnou Virginia
Clemm, a prima e esposa de Poe.
Aqui, abre-se um parêntese.
Acho oportuno falar um
pouco sobre Linda Darnell (pseudônimo de Monetta Eloyse Darnell, 1921-1965),
uma das atrizes de minha predileção.
A primeira vez que reparei
em Linda Darnell, que possuía uma elegância de porte e uma beleza singular, foi
em A Marca do
Zorro (The Mark of Zorro, 1940), no qual interpretou
convincentemente o papel de uma mexicana e contracenou com um dos ídolos da década
de 1940, o ator Tyrone Power. Em seguida, eu a vi em Sangue e Areia (Blood and Sand, 1941), em que encarnou uma
devotada esposa que tem de disputar o amor de seu marido, um toureiro famoso
(vivido por Tyrone Power), com uma rica mulher fatal (interpretada por Rita
Hayworth, que estava no auge de sua beleza). Alguns anos mais tarde, assisti
com ela às fitas: A
Canção de Bernadette
(The Song of
Bernadette,
1943), em que fez o papel da Virgem Maria; Concerto Macabro (Hangover Square, 1945), que narra a história de
um assassino de mulheres (encarnado pelo grandalhão Laird Cregar); e Anjo ou Demônio? (Fallen Angel, 1946), no qual representou uma
ambiciosa e sensual garçonete, Stella, que, “embora não seja propriamente uma
mulher fatal, é a representação da sexualidade destrutiva” (A. C. Gomes de Mattos, O Outro Lado da Noite: Filme Noir, Rio de Janeiro, Rocco, 2001, p.
128).
Linda Darnell teve uma
morte trágica: faleceu em 11 de abril de 1965, em conseqüência das graves
queimaduras que sofrera, dois dias antes, num incêndio na residência de sua
ex-secretária, Jane Curtis (segundo notícia publicada na época, no jornal O Estado de S. Paulo, Linda Darnell estava hospedada
nessa casa. Também de acordo com a notícia, “após assistir a um programa de
televisão em companhia de sua filha e de Linda Darnell, Jane Curtis recolheu-se
para o andar de cima da residência, acompanhada pelas duas. Durante a noite,
sua filha, Patricia, de dezesseis anos, foi despertada por uma densa fumaça que
provinha do andar inferior e, alarmada, gritou pela mãe, acordando também a
atriz. Protegendo-se com toalhas molhadas, as três tentaram sair da casa por
uma janela do andar superior, auxiliadas por bombeiros. A sra. Curtis não sabe
explicar como Linda Darnell não conseguiu chegar até a janela. Foi encontrada
pelos bombeiros na sala, no andar inferior, com a maior parte do corpo, oitenta
por cento, queimada. Acredita-se que tenha descido à procura da jovem,
ignorando que esta já estivesse salva”).
Fecha-se o parêntese.
Acho também oportuno dizer
que foi por intermédio de Os
Amores de Edgar Allan Poe que tomei conhecimento do poema “O Corvo”. Para ser
sincero, uma das poucas sequências que me recordo do filme é a que mostra Poe
compondo o poema e, em seguida, entregando-o para sua tia Maria Clemm
(interpretada por Jane Darwell, uma atriz especializada em representar mulheres
gordas de meia-idade) vendê-lo para algum jornal. É uma seqüência realmente
marcante. E ela me marcou tanto que, a partir daquele dia, comecei a procurar
alguma tradução em Português de “O Corvo”. E foi causalmente, por volta de
1947, quando morava em Ribeirão Preto e era empregado de uma loja de autopeças,
que encontrei – entre os papéis que acondicionavam algumas mercadorias que haviam
chegado à loja em que eu trabalhava – um exemplar do número de 24 de dezembro
de 1944 de
Pensamento da América,
com a tradução que Milton Amado fizera do poema. Pude ler, então, pela primeira
vez em Português, esse poema realmente magistral; e, hoje, tenho uma coleção de
mais de duas dezenas de versões e traduções de “O Corvo”.
Bem, para finalizar, quero
destacar que, apesar de ter falado pouco ou quase nada de Os Amores de Edgar Allan Poe, escrever este texto valeu a
pena, já que me possibilitou fazer uma viagem ao longo do tempo perdido,
rebuscando no sótão da memória lembranças de um dia e uma noite que existiram
no longíquo 1945...
Os Amores de Edgar Allan Poe (The Loves of Edgar Allan Poe, 1942, 67')
Direção:
Harry Lachman
Roteiro:
Samuel Hoffenstein & Tom Reed
Diálogos adicionais:
Arthur Caesar
Elenco: John
Shepperd (Edgar Allan Poe), Linda Darnell (Virginia Clemm), Virginia Gilmore
(Elmira Royster), Jane Darwell (Maria Clemm), Mary Howard (Frances Allan),
Frank Conroy (John Allan), Henry Morgan (Ebenezar Burling), Walter Kingsford
(T. W. White), Morris Ankrum (sr. Graham), Skippy Wanders
(Poe, aos três anos de idade), Freddie Mercer (Poe, aos doze anos de idade),
Peggy McIntyre (Elmira Royster, aos dez anos de idade), Morton Lowry (Charles
Dickens), Gilbert Emery (Thomas Jefferson), Ed Stanley (dr. Moran), Hardie
Albright (Shelton), Erville Alderson, William Bakewell Jr., Frank Melton,
Francis Ford, Harry Denny
Sinopse: Os Amores de Edgar Allan Poe
é um relato romantizado da curta existência de Poe (1809-1849), com John
Shepperd (depois conhecido como Shepperd Strudwick) apresentando uma sólida
personificação do poeta e escritor norte-americano. Os acontecimentos básicos
de sua vida estão no filme: sua adoção como filho do rico comerciante John Allan;
a perda da namorada da infância, Elmira Royster; seu casamento com Virginia
Clemm, sua jovem prima; seu apego ao álcool, o que prejudicou sua saúde e
ajudou a encurtar sua vida. O filme deixa de registrar o verdadeiro impacto dos
dons de Poe como escritor de relatos fantásticos e terroríficos e também evita
mostrar os aspectos mais sórdidos de sua vida.