sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Natasha Haydt


A atriz já passou por Record e Globo, e fez o filme ‘Sexo com Amor?’ em 2008. Recentemente atuou na telenovela ‘Amor e Revolução’, do SBT.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
A ideia, o roteiro e o conflito do personagem é o que me faz participar de qualquer tipo de produção.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Eu acho que é pelo fato de ser um mercado fechado, com pouca visibilidade. Os únicos lugares que expõe curtas metragens, são lugares bem específico.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Eu acho que antes de cada sessão de cinema poderia exibir um curta-metragem. Acho também que poderia existir um canal de televisão que abrisse espaço a essas exibições, com entrevistas com produtores/diretores/ roteiristas e making off.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho sim que é possível ser cineasta apenas de curtas. Com boas produções, por que não?!
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Eu não acredito que seja marginalizado, se tratando de arte, como pode existir marginalização?
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não só dirigir, como escrever também. Confesso já ter tido boas ideias para escrever um e vira e mexe penso nisso... Em geral, em situações que presencio que daria um ótimo curta.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


OS AMORES DE EDGAR ALLAN POE
artigo de Rubens Francisco Lucchetti


O editor do Jornal do Cinema pediu-me que escrevesse um texto sobre o filme Os Amores de Edgar Allan Poe (The Loves of Edgar Allan Poe, no original), pois de todos os colaboradores da publicação sou o único que viu o filme. Mas que posso dizer a respeito de um filme que vi em 1945 – na época, minha família residia na Rua Catão, no bairro da Lapa, em São Paulo; e eu tinha à minha disposição três cinemas: o São Carlos, o mais próximo de casa (ele localizava-se na Rua Guaicurus), no qual, todas as quintas-feiras à tarde, havia a Sessão das Moças, que eu não perdia, porque era uma sessão dupla (eram exibidos dois filmes, além de um curta-metragem, um desenho animado e um cinejornal), com ingressos abaixo da meia-entrada; o Recreio, o mais distante, instalado na Rua Engenheiro Fox, atrás das porteiras da estação ferroviária da Lapa; e o Carlos Gomes (ele ficava na Rua 12 de Outubro, no centro da Lapa), o melhor e também o mais caro dos três – e nunca mais revi? Pouca coisa me recordo dele, apesar de ter Poe, um de meus autores prediletos, como personagem. Porém, recordo-me bem do dia, ou melhor, da noite em que o vi. E isto por uma razão bem simples: foi minha última noite em São Paulo, uma vez que, no dia seguinte, minha família se mudaria para o interior (portanto, naquela noite, despedi-me de São Paulo, a cidade onde eu imaginava que iria construir meu futuro), para Ribeirão Preto.


Lembro-me perfeitamente de que, na manhã daquele dia, levantei com a idéia de fazer um passeio de despedida pelo bairro onde fora criado. Lembro-me de que desci a Rua Roma, parei na pontezinha rústica de madeira e observei o riacho (suas águas eram tão cristalinas que dava para ver os peixinhos que ali havia) em que eu costumava apanhar alevinos (eu os punha naqueles vidros de boca larga onde os merceeiros guardavam balas, pirulitos e os pacotinhos com grãozinhos de “magnésia efervescente”). Alguns minutos depois, reiniciei minha caminhada e passei em frente à loja de miudezas na qual várias vezes fora comprar retrozes, linhas e aviamentos para minha mãe. E foi ali, na esquina da Rua Monteiro de Melo, que me deparei com um painel, encostado a um poste, com um cartaz do filme Os Amores de Edgar Allan Poe (na época, era comum os cinemas distribuírem pelas ruas do bairro painéis com cartazes dos filmes em exibição). A fita estava sendo exibida no Cine Recreio.


Devo confessar que o título Os Amores de Edgar Allan Poe jamais chamaria minha atenção, se nele não houvesse o nome de Edgar Allan Poe. Devo confessar também que ver o nome do escritor norte-americano naquele cartaz causou-me um frisson, em razão de há muito buscar, em vão, uma resposta para a pergunta: “Quem é Edgar Allan Poe?” E comecei a fazer essa pergunta a todas as pessoas de meu convívio, desde que lera, em 1941 ou 1942, na revista Detective, dois contos que me fizeram imergir em regiões abissais e aterrorizantes das quais nunca emergi: “O Coração Revelador” e “O Gato Preto”. Durante um pouco mais de três anos, procurei saber entre as pessoas que me cercavam quem era Edgar Allan Poe. Ninguém soube me responder (a resposta mais satisfatória foi a da minha professora do Primário: “Esse nome não me é totalmente desconhecido.”). Então, no momento em que vi o cartaz de Os Amores de Edgar Allan Poe, pensei que, assistindo à fita, pudesse descobrir quem fora esse autor que eu tinha plena consciência de ser muito superior à maioria dos escritores de histórias fantásticas que eu havia lido até então (Algernon Blackwood, Gaston Leroux, Henry Kuttner, Robert Louis Stevenson, W. W. Jacobs, entre outros). Penso que os dois únicos autores que podem se comparar com ele – já que também criaram histórias em que há um forte clima claustrofóbico (quando o leitor lê essas histórias, falta-lhe até o ar) – são M. R. James (1862-1936) e H. P. Lovecraft (Howard Phillips Lovecraft, 1890-1937), que conheci por intermédio de Contos Magazine e Policial em Revista, duas revistas pulp dirigidas pelo saudoso sr. Adolfo Aizen.


Mas, como eu dizia, recordo-me perfeitamente da noite em que assisti ao Os Amores de Edgar Allan Poe. Lembro que fazia muito calor. Saí de casa por volta das sete horas, logo após o jantar. No caminho, olhei as vitrinas das lojas que me eram tão familiares e, mentalmente, fui me despedindo delas – para mim, era como se “nunca mais” (frase angustiante que eu iria aprender ainda naquela mesma noite) fosse vê-las. Cruzei o posto de gasolina; e ali estava, como sempre, a viatura da radiopatrulha, que tanto me fascinava, porque me remetia de imediato à história em quadrinhos de mesmo nome (história em quadrinhos essa escrita por Eddie Sullivan, desenhada por Charlie Schmidt e protagonizada pelos patrulheiros Patrick e Sammy e seus auxiliares, os jovens Mariazinha e Paulinho e o cão Rex), que eu lia no tablóide O Globo Juvenil. No quarteirão seguinte, passei diante da gráfica que editava O Lapiano, jornal que publicara, em 31 de outubro de 1942, meu primeiro conto, “A Única Testemunha”, escrito sob a influência e o impacto de “O Coração Revelador” e “O Gato Preto”. Atravessei as porteiras da estação ferroviária da Lapa, olhei para os trilhos e segui-os com a visão, até se perderem de vista. Depois, detive o olhar no prédio (de tijolinho à vista) da estação. No mesmo instante, transportei-me para um outro mundo, para um mundo de sombras, de onde emergia uma figura sinistra e vestida toda de preto. Essa figura, que usava um chapéu enorme e que tinha uma voz cavernosa e uma risada sibilante, era O Sombra (eu lia suas histórias, assinadas por Maxwell Grant, nas revistas Mistérios e Policial em Revista; acompanhava suas histórias em quadrinhos em O Lobinho; não perdia um capítulo do seriado cinematográfico A Sombra do Pavor/The Shadow, em que era interpretado por Victor Jory; e ouvia suas aventuras no rádio, onde ganhava vida por meio da voz inconfundível de Octavio Gabus Mendes). E todas esses fatos estão bem vivos em minha memória, como se tivessem acontecido ontem...


Lembro-me perfeitamente de tudo isso; no entanto, como já disse, pouco me recordo de Os Amores de Edgar Allan Poe (a razão disso talvez seja porque a fita quase nada me esclareceu a respeito do escritor). Não me lembro nem mesmo do nome do ator que interpretou Poe – somente após consultar a edição de 2001 do catálogo Movie & Video Guide, do crítico e historiador cinematográfico norte-americano Leonard Maltin, é que descobri que o poeta foi vivido por John Shepperd (não me recordo de ter visto esse ator interpretando qualquer outro papel). Uma das poucas coisas que me lembro da fita é da presença da atriz Linda Darnell, que encarnou Virginia Clemm, a prima e esposa de Poe.


Aqui, abre-se um parêntese.


Acho oportuno falar um pouco sobre Linda Darnell (pseudônimo de Monetta Eloyse Darnell, 1921-1965), uma das atrizes de minha predileção.


A primeira vez que reparei em Linda Darnell, que possuía uma elegância de porte e uma beleza singular, foi em A Marca do Zorro (The Mark of Zorro, 1940), no qual interpretou convincentemente o papel de uma mexicana e contracenou com um dos ídolos da década de 1940, o ator Tyrone Power. Em seguida, eu a vi em Sangue e Areia (Blood and Sand, 1941), em que encarnou uma devotada esposa que tem de disputar o amor de seu marido, um toureiro famoso (vivido por Tyrone Power), com uma rica mulher fatal (interpretada por Rita Hayworth, que estava no auge de sua beleza). Alguns anos mais tarde, assisti com ela às fitas: A Canção de Bernadette (The Song of Bernadette, 1943), em que fez o papel da Virgem Maria; Concerto Macabro (Hangover Square, 1945), que narra a história de um assassino de mulheres (encarnado pelo grandalhão Laird Cregar); e Anjo ou Demônio? (Fallen Angel, 1946), no qual representou uma ambiciosa e sensual garçonete, Stella, que, “embora não seja propriamente uma mulher fatal, é a representação da sexualidade destrutiva” (A. C. Gomes de Mattos, O Outro Lado da Noite: Filme Noir, Rio de Janeiro, Rocco, 2001, p. 128).


Linda Darnell teve uma morte trágica: faleceu em 11 de abril de 1965, em conseqüência das graves queimaduras que sofrera, dois dias antes, num incêndio na residência de sua ex-secretária, Jane Curtis (segundo notícia publicada na época, no jornal O Estado de S. Paulo, Linda Darnell estava hospedada nessa casa. Também de acordo com a notícia, “após assistir a um programa de televisão em companhia de sua filha e de Linda Darnell, Jane Curtis recolheu-se para o andar de cima da residência, acompanhada pelas duas. Durante a noite, sua filha, Patricia, de dezesseis anos, foi despertada por uma densa fumaça que provinha do andar inferior e, alarmada, gritou pela mãe, acordando também a atriz. Protegendo-se com toalhas molhadas, as três tentaram sair da casa por uma janela do andar superior, auxiliadas por bombeiros. A sra. Curtis não sabe explicar como Linda Darnell não conseguiu chegar até a janela. Foi encontrada pelos bombeiros na sala, no andar inferior, com a maior parte do corpo, oitenta por cento, queimada. Acredita-se que tenha descido à procura da jovem, ignorando que esta já estivesse salva”).


Fecha-se o parêntese.


Acho também oportuno dizer que foi por intermédio de Os Amores de Edgar Allan Poe que tomei conhecimento do poema “O Corvo”. Para ser sincero, uma das poucas sequências que me recordo do filme é a que mostra Poe compondo o poema e, em seguida, entregando-o para sua tia Maria Clemm (interpretada por Jane Darwell, uma atriz especializada em representar mulheres gordas de meia-idade) vendê-lo para algum jornal. É uma seqüência realmente marcante. E ela me marcou tanto que, a partir daquele dia, comecei a procurar alguma tradução em Português de “O Corvo”. E foi causalmente, por volta de 1947, quando morava em Ribeirão Preto e era empregado de uma loja de autopeças, que encontrei – entre os papéis que acondicionavam algumas mercadorias que haviam chegado à loja em que eu trabalhava – um exemplar do número de 24 de dezembro de 1944 de Pensamento da América, com a tradução que Milton Amado fizera do poema. Pude ler, então, pela primeira vez em Português, esse poema realmente magistral; e, hoje, tenho uma coleção de mais de duas dezenas de versões e traduções de “O Corvo”.


Bem, para finalizar, quero destacar que, apesar de ter falado pouco ou quase nada de Os Amores de Edgar Allan Poe, escrever este texto valeu a pena, já que me possibilitou fazer uma viagem ao longo do tempo perdido, rebuscando no sótão da memória lembranças de um dia e uma noite que existiram no longíquo 1945...


Os Amores de Edgar Allan Poe (The Loves of Edgar Allan Poe, 1942, 67')
Direção: Harry Lachman
Roteiro: Samuel Hoffenstein & Tom Reed
Diálogos adicionais: Arthur Caesar
Elenco: John Shepperd (Edgar Allan Poe), Linda Darnell (Virginia Clemm), Virginia Gilmore (Elmira Royster), Jane Darwell (Maria Clemm), Mary Howard (Frances Allan), Frank Conroy (John Allan), Henry Morgan (Ebenezar Burling), Walter Kingsford (T. W. White), Morris Ankrum (sr.
Graham), Skippy Wanders (Poe, aos três anos de idade), Freddie Mercer (Poe, aos doze anos de idade), Peggy McIntyre (Elmira Royster, aos dez anos de idade), Morton Lowry (Charles Dickens), Gilbert Emery (Thomas Jefferson), Ed Stanley (dr. Moran), Hardie Albright (Shelton), Erville Alderson, William Bakewell Jr., Frank Melton, Francis Ford, Harry Denny
Sinopse: Os Amores de Edgar Allan Poe é um relato romantizado da curta existência de Poe (1809-1849), com John Shepperd (depois conhecido como Shepperd Strudwick) apresentando uma sólida personificação do poeta e escritor norte-americano. Os acontecimentos básicos de sua vida estão no filme: sua adoção como filho do rico comerciante John Allan; a perda da namorada da infância, Elmira Royster; seu casamento com Virginia Clemm, sua jovem prima; seu apego ao álcool, o que prejudicou sua saúde e ajudou a encurtar sua vida. O filme deixa de registrar o verdadeiro impacto dos dons de Poe como escritor de relatos fantásticos e terroríficos e também evita mostrar os aspectos mais sórdidos de sua vida.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

João Camargo

 
Em que momento da sua vida você descobriu o interesse pela carreira artistica?
No colégio, dizendo poesia num grupo que criamos.
 
Chegou a capitular?
Não capitulei, mas já saí de um trabalho.
 
Você se graduou em Artes Dramáticas pela Unirio. Qual a importância na graduação para o desenvolvimento do ator?
São 4 anos em que o ator tem noções de todos os elementos que se relacionam ao oficio de interpretar: corpo, voz, história do teatro e teorias teatrais.
 
Seu primeiro trabalho profissional foi com o Flávio Rangel, no espetáculo ‘Amadeus’. Isso foi em 1982. Quais as lembranças desse trabalho.
Trabalhar com o mestre Flávio me deu a oportunidade de aprender como uma produção profissional se dá. Observar o processo da produção. Fazia um dos criados da corte, sem falas e contra-regragem . Observei a criação da iluminação, que Flávio dominava divinamente. O respeito e admiração que êle tinha e recebia de volta dos técnicos. A importância de um bom cenotécnico. Da direção de cena. Da disciplina que tínhamos que ter, incluindo tabela por algum descuido. O texto que Flávio escrevia, antes da estreia agradecendo a todos que participaram do processo E, numa tarde um ator teve um problema pessoal que o impediu de fazer a vesperal. Raul Cortez, que também produzia o espetáculo, consultou Flávio, me chamou no camarim e disse:- João, você tem que fazer o papel do imperador hoje. Gelei mas lá estava eu me apertando no figurino. Labanca descolou um sapato que tinha em casa como acervo, do tamanho do meu pé. Me "enfiei" nas cenas que estavam no texto e quando vi, já estava entrando em cena e cumpri até o fim a tarefa. Essa beleza de uma equipe que tem paixão e respeito pelo trabalho e pelo público que já tinha comprado os ingressos foi uma lição que trago comigo até hoje. É o famoso: o show não pode parar.
 
‘Aracy de Almeida, no País de Araça’, texto e direção de Eduardo Wotzik, foi um dos primeiros espetáculos a homenagear nomes expressivos da nossa cultura popular. Comente sobre esse trabalho.
"Aracy de Almeida, no país de Araca" foi uma experiência excelente. Eduardo escreveu e dirigiu e muito emocionante o espetáculo.
 
‘U! Madureza e Omelete’, texto e direção de Hamilton Vaz Pereira. Quais as recordações dessa comédia?
‘U!Madureza’ foi uma leitura dramatizada que realizamos a partir de oficinas com Hamilton. Fizemos 6 apresentações no Teatro Glória. Me colocou em contato com o universo de Hamilton. Eu protagonizava e a turma era de primeira. Sinto não termos seguido carreira mais longa. Já, em ‘Omelete’ substitui Eduardo Lago para a temporada de São Paulo. O espetáculo foi um sucesso absoluto. Infelizmente sofri um acidente em cena e tive que sair. Eduardo voltou. Até hoje eu agradeço pelo fato de ter sido num domingo o acidente. Fiz o terço final da peça pulando num pé só.
 
Pela participação na campanha publicitária do Unibanco, você ganhou projeção nacional. Ela foi dirigida pelo cineasta João Moreira Salles. Quais as dores e as delicias de protagonizar campanhas como aquela? Não teve receio de ficar estigmatizado?
Foi delicioso. Fiz um teste muito rigoroso e passei. João tem uma sensibilidade extraordinária. O público amava e ser "marido" de Drica foi uma das experiências mais intensas de cumplicidade e empatia cênica. Ela é divina. O medo de estigmatização sempre ocorre, mas na época fui eu que optei por me dedicar apenas a campanha.
 
Protagonizar uma campanha publicitária ajuda também a equilibrar as contas. Muitos acreditam que a vida de um artista, principalmente aqueles que trabalham na Rede Globo, é de glamour. Atualmente, como é o seu dia-a-dia, você vai embusca de trabalho ou eles aparecem?
Considero que todo trabalho profissional tem que ter retorno financeiro. Claro que o mercado está sobrecarregado e principalmente no teatro, penso que temos que discutir e ficar atentos aos procedimentos de captação de patrocínios e também de como o governo pode paternalizar e tirar proveito do nosso oficio nos deixando com pouca chance de termos lucro. Quanto ao glamour me agrada mais a palavra lúdica, já que nos expomos, somos instrumentos de uma linguagem subjetiva, que lida com o inconsciente, com a alma, com os mistérios internos da condição humana. Agora, se glamour significar reconhecimento do feito tudo bem. Mas é uma profissão que deve nos sustentar como qualquer outra. Hoje em dia, vou em busca e também sou convidado.
 
Mas, coincidentemente, enquanto você estava no ar nesse comercial, não rolaram chances na tevê. Teve alguma relação? Isso aconteceu só com você ou com a Drica Moraes, sua companheira nesse trabalho?
Quanto à pergunta sobre a Drica prefiro não falar por outro colega. Na pergunta sobre obras que saí prefiro não falar sobre.


 
Com Maria Gladys em "Aracy de Almeida no País de Araca".
 
Grande parte da sua carreira é marcada por papéis voltados para a comédia. Qual a razão disso?
Um velho palhaço me disse uma vez, ao me ouvir ensaiando o espetáculo "Quem matou o leão?" que eu tinha diapasão de palhaço. Me senti profundamente honrado. Mas quero fazer mais drama e mesmo uma tragédia.
 
Seu personagem Gildo, de ‘Um Anjo Caiu do Céu’ foi o seu grande papel da televisão?
O Gildo foi um papel que me deu muito prazer. Está na galeria dos meus favoritos.
 
Na Rede Globo você também trabalhou no ‘Zorra Total’, em alguns episódios do ‘Você Decide’ e miniséries. Essa variedade de trabalhos foram uma circunstância que criou?
A Rede Globo me deu oportunidade de navegar por vários gêneros. Não se deve negligenciar nenhum.
 
Já chegou a recusar trabalhos?
Sim. Já recusei trabalhos.
 
Como analisa a nossa atual produção audiovisual?
Nossa produção áudio visual vai de vento em popa. A televisão brasileira está entre as melhores do mundo e o cinema tem grandes realizadores. Novos diretores surgem com tudo! Quanto mais patrocínio melhor. Que venham!!!!!!
 
Seu primeiro trabalho em telenovelas foi em ‘Vale Tudo’, considerada por muitos como a melhor já produzida até hoje. Onde essa novela foi filmada? Como recebeu o convite para atuar nessa produção?
Vale Tudo é uma novela magnifica. Meu primeiro trabalho na TV. Tem a qualidade de ser eterna, no sentido de que a função da arte é questionar o status quo e isso a novela cumpriu belamente. Quanto ao Reginaldo Farias ele foi muito generoso comigo. Me deu dicas como o uso do olho para a câmera. O olhar, que pele lente fica muito mais aproximado literalmente pelas lentes. Um colega que tenho muito à agradecer! Compus o personagem Freitas como costumo fazer: criando uma história do passado do personagem e usando de intuição, que considero 50 por cento da receita. Nada é fácil, tanto na vida quanto na arte. Na sua realização tendo como objetivo o produto final. Compor uma personagem tem a ver com tudo isso. Entender a história do Homem. Observar, sempre. Usar a intuição. Se possível ler os teóricos do teatro. E praticar é mesmo a melhor escola. Nunca paramos de aprender.
 
Seu personagem Freitas cresceu á medida que a novela ia chegando ao fim, como compôs esse personagem? Acompanhou a repercussão da reexibição de ‘Vale Tudo’? Por que ela ainda gera tanta audiência? ‘Vale Tudo’ é um soco no estômago do Brasil, dos brasileiros. Sua temática continua atual e ao que tudo indica, continuará por muito tempo, concorda? Em algumas entrevistas você mencionou a importância do Reginaldo Faria nesse trabalho em ‘Vale Tudo’. Pode nos relatar como foi essa parceria?
Vale Tudo será eterna porque é uma boa novela. A vida é um soco no estomago mas é bela também. Reginaldo foi um colega generoso nessa obra. Foi minha primeira novela e ele me deu conselhos e exemplo. Tivemos uma parceria legal. Burocracia é chata, mas se quisermos produzir, seja com incentivo do Estado ou da iniciativa privada temos que encará-la. Estudar teatro é importante mas sem talento não adianta.
 
Outra produção marcante da TV é ‘A História de Ana Raio e Zé Trovão’, onde interpreta Tavinho Goiabada. Como foi trabalhar nessa produção que incomodou tanto a Rede Globo?
Quanto a "Ana Raio..." foi uma experiência fascinante. O super Jaime liderando uma verdadeira caravana pelo Brasil. Gostei muito de fazer o Tavinho. Trabalhar com o sotaque, com o universo do interiorzão do país. Penso que a concorrência é muito saudável. Uma emissora ameaçando a outra. Faz o mercado ficar "apimentado" e abre campo de trabalho para os profissionais do ramo.
Com Maria Paula, Iris Bustamante e Lena Brito.
Como surgiu o convite para trabalhar na TV Record? É verdade que você, com tantos trabalhos no currículo, teve que fazer teste para ingressar na novela ‘Bela, a Feia’
Quanto ao fato de ter feito teste é verdade. Fui convidado e fiz o teste de imagem para o personagem Haroldo Palhares. Daí, "Bela..."
 
A disciplina e a paciência são fundamentais para se construir uma trajetória de sucesso na vida artística?
Quanto a disciplina e paciência são fundamentais. Um binômio no qual me amparo também é foco-relaxamento.
 
‘Carlota Joaquina, Princesa do Brazil’ foi considerado o filme que marcou a retomada do cinema brasileiro. Você participou dessa produção, foi o seu primeiro trabalho em cinema. Como foi isso?
Quanto ao cinema, cresceu muito a produção depois do período negro da ditadura. Panelas sempre existiram, mas penso que também tem a ver com um mercado sobrecarregado. Poucas produções em relação aos talentos que temos. Gostaria de ter mais oportunidades no cinema. Fiz muito pouco. Em Carlota Joaquina fiz um papel pequeno, mas me agradou o resultado.
 
De 1994 para cá o que mudou no cinema nacional?
Quanto ao cinema nacional me parece que a melhora tem a ver com a democracia em contraponto a ditadura que vivemos no Brasil.
 
O cinema é a área onde sua participação é mais tímida. Muitos atores consideram que há uma “panela”. O cinema é para poucos, isso é fato?
Quanto as panelas, existem, mas é um termo pejorativo. Prefiro o conceito de que os grupos se formam também pela confiança, e pelo talento de ambas as partes. O afetivo também conta e muito. Penso que devemos reclamar menos e realizar mais.
 
Você têm se destacado como produtor teatral. Primeiro, com o ‘Fui’, junto com o Roberto Bataglin. Depois produziu e também dirigiu ‘O Filho da Mãe’, da Regiana Antonini. Como é esse exercício?
O Bataglin me animou para produzir. Agradeço muito a ele. Acho que todos os atores deveriam se aventurar na produção. É uma pedreira mas a sensação de ter escolhido a obra e vê-la montada é de um prazer inigualável. Dirigir foi uma nova escola para mim. Me fez valorizar mais o oficio ao ver de fora os atores se empenhando no processo.
 
Como é lidar com a burocracia que muitas vezes na está na natureza da alma do artista?
Quanto a pergunta da burocracia, é algo que requer também muita paciência e gostaria de citar a diretora de produção, Edda Taranto, fundamental para que a tivesse êxito a realização de "O Filho da Mãe". Nada é fácil, tanto na vida quanto na arte. Na sua realização tendo como objetivo o produto final.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Paulo Fontenelle

Cineasta. ‘Evandro Teixeira - Instantâneos da Realidade; ‘Sobreviventes - Filhos da Guerra de Canudos’ e; ‘Se Puder... Dirija!’ são filmes que contam com a sua assinatura.
 
Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
É difícil pensar num cineasta brasileiro que não tenha iniciado sua carreira fazendo curta metragens. É um espaço aberto a experimentações e a liberdade onde o único compromisso é com as suas próprias convicções. Curtas como "Di Cavalcanti", "Ilha das Flores" e  "A Velha Fia"  são referencias obrigatórias para qualquer pessoa que queira se dedicar à arte o cinema.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Eu não vejo diferença entre realizar um curta metragem ou um longa. Para mim é a mesma coisa. O que muda é apenas o tamanho da historia que você tem para contar. Já vi filmes que tinham uma grande ideia por trás, mas que não se sustentava por mais de 20 minutos e acabou se transformando num longa ruim. Quando rodei o meu primeiro filme "Mauro Shampoo - Jogador Cabeleireiro e Homem", tínhamos captado mais de 40 horas de imagens que transformamos em 22 minutos. Muita gente dizia que dava pra esticar e fazer um longa. Sempre fui contra isso e acabou que o filme teve uma bela carreira nos festivais, e na internet. Portanto, quando eu tiver uma ideia que  se adapte ao formato, farei sem pestanejar.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Infelizmente os curtas não possuem espaço nos salas comerciais. Sendo assim, a exibição fica restrita as mostras e aos festivais, onde   o espaço na mídia acaba sendo ofuscado pelos Longas.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Hoje, quando entramos numa sessão de cinema, somos obrigados a assistir uma serie de intermináveis trailers e comerciais publicitários. Porque não dividir esse espaço com curtas metragens (que não ultrapassem dez minutos)? Existem também algumas iniciativas de formar sessões de cinema agrupando curtas, mas adoraria que o o formato extrapolasse as telas de cinema e fosse veiculado em outros espaços.  Hoje, a internet e alguns canais de TV, como o Canal Brasil, dedicam sua grade de programação para a exibição de curtas, mas ainda e muito pouco. Meu sonho e que os curtas um dia sejam exibidos em ônibus, viagens de aviões, aeroportos, filas de banco etc.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É possível, desde que você ame a sua profissão acima de tudo, e se sinta livre para experimentar e se expressar sem se importar com rótulos ou preconceitos. Cinema é arte, independente do gênero, formato ou duração.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
De certa forma sim. Apesar dele ser bastante apreciado nos festivais, ainda é visto por alguns colegas como uma obra de iniciante, e o seu realizador como uma promessa cujo valor artístico sé será medido a partir do seu primeiro longa. É como se um escritor de contos só fosse considerado escritor de verdade depois do primeiro romance. Acho isso uma grande bobagem.  
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Claro! Nesse momento estou preparando meu segundo longa metragem, mas tenho varias ideias que cabem dentro do formato. Logo que eu tiver um tempo livre, pretendo coloca-las em pratica.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VAGA IDEIA


 
Lord, um autêntico Lord inglês, essa foi a primeira impressão que tive ao avistar Joel Barcellos. Era um dia de frio, ele faria um bate-papo com o público e eu, a mediação. O horário marcado para esse encontro era ás 20h. Nessa conversa o ator abordaria sua trajetória artística, fundamentalmente no cinema, onde deixou uma marca indelével.
 
Era uma grande oportunidade para o público reencontrar esse ator, essencialmente cinematográfico, que se destacou com os filmes que fez no período do Cinema Novo, claro, seu currículo não se resume a essa passagem. Tem muitas outras, era preciso aparar, esse encontro poderia demorar horas, tamanha a bagagem e as histórias que aquele senhor de chapéu e paletó possui.
 
Há muito Joel não aparece ao grande público. Nunca foi afeito á telenovelas, a massa o conhece pelo trabalho em ‘Mulheres de Areia’, de 1993, mas já se passaram tantos anos, tantas novelas, envelhecemos, mudamos, são quase vinte anos.
 
Joel chega cedo, gostaria de conhecer o local onde seria realizado o bate-papo, queria me conhecer, já que tínhamos apenas conversado por telefone. Tem um sorriso ora doce, ora maroto. Pergunta-me se há algum bar por perto, quer se esquentar, deseja um conhaque. Digo que sim, mas acaba optando por um café.
 
Conversamos por um tempo, talvez meia hora. Eu estava diante do ator que fez ‘O Desafio’ (1965), de Paulo Cezar Saraceni, ‘A Falecida’ (1965), de Leon Hirszman, ‘A Grande Cidade (1965), de Carlos Diegues, ‘Jardim de Guerra’ (1968), de Neville D´Almeida, pelo qual recebeu o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília, e ‘Agonia’ (1978), de Júlio Bressane. Cito aqui alguns trabalhos. Observem bem, em cada um desses trabalhos os nomes dos diretores.
 
No café, ninguém o reconhece, nem para dizer: “conheço esse homem de algum lugar”. É triste constatar a falta de memória. Cadê a nossa cultura cinematográfica? Olho em volta, e pela idade, imagino que alguns tenham assistido a ‘Mulheres de Areia’. Estão distraídos, concentrados?
 
Será que aquele homem elegantemente vestido não lhes chamaria atenção?
 
John Lennon disse “A ignorância é uma espécie de bênção. Se você não sabe, não existe dor”.
 
Terminamos o café, Joel diz que voltará ao hotel para descansar e que chegaria uma hora antes do previsto. Daquele instante em diante eu fiquei pensando: por que e pra que estamos fazendo esse encontro? Será que as pessoas estão interessadas em conversar, em conhecer?
 
Como diretor fez dois filmes: ‘O Rei dos Milagres’ (1971), que traz Glauber Rocha no elenco e ‘Paraíso no Inferno’ (1977). Sua última tentativa como cineasta foi em ‘Impérios’ aprovado em março de 1997 pelo Ministério da Cultura. Joel garante que finalizou esse filme, porém, R$ 2 milhões lhe cobram (o pagamento deverá ser feito à União) que garante que a produção não foi finalizada. Enfim...
 
É chegada a hora. Poucas pessoas no local. Joel consegue disfarçar seu desapontamento, eu não. Como pode? Era uma oportunidade rara de extrair daquele senhor a sua história, seus causos. Está ali, disposto a dividir com o público as dores e as delicias da sua vida.
 
O bate-papo durou cerca de setenta minutos. Muitas vezes a quantidade não se traduz em qualidade e foi o que justamente aconteceu naquele dia: os poucos presentes saíram encantados, a conversa fluiu, deixando a certeza que precisamos, devemos insistir.
 
Fomos então para um bar, lá conversamos mais. Contou da vida bucólica que leva em Rio das Ostras (RJ), dos amigos, do encontro que teria no dia seguinte com sua família que vive em São Paulo.
 
Suas falas eram serenas, pausadas.
 
Era tarde, avisei a ele que tinha que sair. Joel estava acompanhado de um amigo, disse-me que ia ficar mais um pouco. Uma vez boêmio sempre boêmio.
 
Na saída, um rapaz, que devia ter uns quarenta anos, me para. Pergunta se aquele rapaz que estava comigo é da televisão. Disse a ele que sim, mas além de televisão, o senhor em questão era, em sua essência, de cinema.
 
O rapaz não queria saber, sua referência era a novela.
 
Temos muito que fazer.
 
Rafael Spaca, radialista, autor do blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com/).