terça-feira, 1 de maio de 2018

Os Trapalhões: Roberto Guilherme


Roberto Guilherme
Ator


Como surgiu a oportunidade de atuar no filme Dois na Lona?
O Ted Boy Marino era, na época, o ídolo total do Telecatch (programa de televisão criado na extinta TV Excelsior do Rio, Canal 2, dedicado à exibição de combates de luta livre que combinavam encenação teatral, combate e circo); e nós pertencíamos à TV Rio, canal 13. Nesse filme, houve uma inversão de papeis. O Renato Aragão é o treinador; o Ted Boy Marino, o aprendiz; e eu, o campeão de telecatch. Fiz aula de telecatch para aprender as técnicas. Tudo era fantasia. Como eu já tinha sido da escola de paraquedistas, já sabia um pouco. Tinha uma certa noção da coisa. Foi aí que me escolheram.

Foi aí que você conheceu o Renato Aragão?
Eu era fã do Renato Aragão, desde a época da TV Tupi. Então, eu trabalha na TV Excelsior, e via todo domingo o Renato na televisão e sempre comentava a respeito dele. Eu dizia: “Um dia, vou trabalhar com esse cara.” Quando o Renato foi contratado pela TV Excelsior, veio me procurar. Ele falou com o Wilton Franco. O Wilton era muito brincalhão, sabia do meu desejo de trabalhar com o Renato, que queria me convidar para trabalhar com ele. O Wilton Franco, na brincadeira, disse: “Convida. Se ele aceitar, pode ir.” Incrível!!! Eu querendo, sonhando trabalhar com ele; e ele me chama. A partir daí; nasceu uma grande amizade. Somos amigos, compadres, irmãos de sangue (doei o meu para ele. Por isso, ele anda tão saltitante).

Seu próximo filme com o quarteto foi Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, em 1984. Isso é, depois de dezesseis anos você voltou a filmar com Renato Aragão. Por que isso aconteceu?
É muito simples explicar. Devido à minha multiplicidade de trabalhos. Eu fazia o programa Os Legionários, um humorístico que era exibido aos domingos, às 19h na TV Excelsior do Rio de Janeiro e de São Paulo (mas o programa era feito no Rio) e no qual eles aprontavam muito comigo. O próprio Renato Aragão escrevia a maior parte dos esquetes cômicos. Ele fazia muitas sátiras e críticas ao Exército brasileiro. Ele fazia piadas comigo, com o personagem do Sargento Pincel. E essas piadas começaram a ficar “populares” demais pelo país. Era o maior sucesso na época. Nessa época, eu fazia muita coisa: dublagem, fazia programas, estava em todas. E acabei ficando à parte na linha de filmes dos Trapalhões. E aí, quando as coisas se acalmaram, comecei a fazer mais cinema.

Seu próximo filme foi Xuxa e Os Trapalhões em O Mistério de Robin Hood. Como foi filmar sem o Zacarias?
Todos nós éramos muito engraçados em cena. Fora, éramos todos tímidos. Éramos tranquilos, ninguém fumava. Zacarias não bebia, Dedé bebia pouco. Mussum e eu bebíamos mais. Até hoje, eu sou tímido. A ausência do Zacarias, claro, causou muita tristeza, sim. Sentíamos muito a falta dele; mas era estranho, parecia que ele estava com a gente, durante as filmagens nos programas, no cinema. Era muito estranho isso.

Como é viver um vilão?
Até hoje, as pessoas me olham como o personagem e têm medo de mim. Isso se deve também pelo meu porte. Mas eu sou um cara legal, educado. Eu era considerado o vilão mais querido do Brasil.

Como define o cinema dos Trapalhões?
Nosso humor, era para a família, para todos, para idosos, adultos e crianças. Difícil ser superado até hoje. No atual programa Zorra, eu reaprendi a fazer uma nova forma de humor dentro da televisão. É cinema dentro da tevê. Eu faço o mesmo quadro várias vezes, para pegar diferentes ângulos. É muito legal. Eles juntaram um elenco idoso com a nova geração, essa junção ficou muito bacana. Tem um pouco dos Trapalhões aí. Talento não tem idade. A idade não é sinônimo de velhice. Essa formatação fez do Zorra uma verdadeira equipe, graças à visão geral da produção, comandada pelo diretor de núcleo Maurício Farias.

Quem era o melhor dos Trapalhões?
Até hoje ninguém sabe dizer quem era o melhor, porque um dependia do outro para aparecer. É preciso cultivar os ídolos.

Carlos Kurt, Maurício do Valle ou Roberto Guilherme? Quem foi o maior vilão da história dos Trapalhões?
O Kurt levava o vilão para o lado mais pesado. O Maurício era mais interpretativo. Tinha também o Átila Iório. Ele fazia um vilão da pesada também. Pra recuperar o meu lugar, eu decidi raspar o cabelo e fazer do Sargento Pincel um sargento bem durão e bobalhão. Acontece que esse personagem se transformou no vilão mais querido.

E esse vilão não funcionaria também no cinema? Não poderia ser melhor explorado nos filmes dos Trapalhões?
Esse vilão poderia se encaixar até melhor no cinema, em razão do enquadramento, dos cortes. Eu poderia fazer até melhor do que fiz na televisão, graças aos recursos do cinema. No cinema, você tem muito mais tempo para trabalhar o personagem, mais condições de fazer com calma. A televisão é uma loucura.

O que era os Trapalhões no cinema?
O cinema era praticamente a continuação da televisão. Promovíamos os filmes na televisão, e no cinema promovíamos o programa de tevê. A gente dava continuidade do que fazíamos na tevê. No cinema, nosso humor tinha essa continuidade. Os Trapalhões até hoje fazem sucesso, sejam nas reprises, nas vendas dos DVDs, no recém-lançado musical no teatro. Onde tiver alguma referência a respeito dos Trapalhões, haverá sucesso. Será sempre assim. O brasileiro precisa sorrir, precisa largar o celular (acho ridículo esta postura: às vezes, a pessoa está do lado da outra e não se falam, ficam conversando pelo celular!!!), precisa ver televisão, ir ao cinema, ao circo, divertir-se e sorrir. E quem fazia isso com maestria eram Os Trapalhões, tanto no circo, na televisão e no cinema.

Os Trapalhões: Sérgio Chaves


Sérgio Chaves
Contrarregra


Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
O convite surgiu através da diretora de arte Yurika Yamasaki.

Antes de iniciar essa parceria profissional com Os Trapalhões, você já acompanhava os seus filmes?
Sim.

Você trabalhou como contrarregra nos filmes dos Trapalhões. Como era o seu trabalho com o quarteto?
O meu trabalho com o quarteto sempre foi muito profissional. Eu buscava ser sempre objetivo e leal a eles.

A função de contrarregra é geralmente subestimada. Gostaria que falasse a respeito desse trabalho. Qual é a importância dele na engrenagem de um filme?
Não consigo ver um filme sem um contrarregra. Ele é essencial dentro de um set de filmagem. Além de saber lidar com o cotidiano do set, ele também passa a ser um assistente de direção de arte.

Quais as suas principais recordações dos bastidores de filmagens com Os Trapalhões?
Lembro bem que eu me dava muito bem com o quarteto, principalmente com o Mussum. Ele sempre estava de bom humor e era o que mais brincava nos bastidores.

Em quantos filmes vocês trabalharam juntos?
Quatro longas-metragens: O Casamento dos Trapalhões, Os Heróis Trapalhões e os outros dois em seguida.

Renato Aragão, Dedé, Mussum e Zacarias tinham como característica a irreverência. Até nos bastidores das filmagens, eles brincavam muito. Isso procede?
Na minha opinião, os mais engraçados do quarteto eram o Mussum e o Zacarias, pois sempre mostravam o bom humor dentro e fora do set de filmagem.

Como era o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)? Que representava, naquele período, trabalhar num filme dos Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Meu contato era sempre o mais profissional possível. Mas, naquele momento, estar fazendo um filme com Os Trapalhões era muito gratificante, diante das circunstâncias; e fazer parte desse sucesso foi muito importante para minha carreira.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Que eu me lembre, ele dificilmente conferia alguma coisa dentro do set, pois sempre estava muito ocupado e com o tempo muito apertado.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Na minha visão, naquele momento não era satisfatório produzir um filme de Comédia para os críticos e para a Academia, que buscavam sempre um filme mais rebuscado. Se hoje em dia os nossos filmes de Comédia estão na moda e são certamente sucessos nas bilheterias de todo o território brasileiro, devemos isso aos Trapalhões.

Os Trapalhões: Ronnie Von


Ronnie Von
Ator


Em que circunstância surgiu o convite para você trabalhar no filme A Filha dos Trapalhões?
Eu sou amigo do Renato e estava no Rio de Janeiro. Tinha voltado para o Rio de Janeiro, em função de um casamento e do meu contrato com a Globo. Também tinha um negócio de família lá no Rio. Nós somos cariocas. Então, havia negócios de família lá que eu tinha que tocar também. Uma empresa de construção civil junto com o meu irmão. Mas eu não tinha mais nenhuma identidade com a minha cidade. Foi no começo dessa degradação que a gente vê hoje. Não era o Rio que eu deixei, era outra cidade diametralmente oposta. Os meus amigos de infância e amigos de juventude foram convidados a irem à minha casa. Nós fizemos um jantar e como o Rio de Janeiro... Você sabe o Rio não é um lugar louvável, em termos de gastronomia. Eu tinha um chef trabalhando comigo. Tirei o cara de um restaurante tal e ofereci um jantar para os meus amigos antigos. Como eu sei como é, eu sou de lá... se marcar às oito, chegam às onze. Mas, às duas da manhã, eu estava sentado à mesa com minha mulher. E aquele jantar gigantesco. Então, entrou o chef, que chorava, porque ninguém foi e... Essas coisas foram somando com uma depressão... Eu não tinha mais nenhuma identidade com a cidade. Meu casamento era infeliz... Então, falta de identidade com a minha cidade, o casamento infeliz, problemas com os meus filhos (principalmente com a minha filha)... A relação da minha mulher na época com a minha filha não era boa... Enfim, eu estava profundamente infeliz, deprimido. Tive depressão. Certo, encontrei o Renato. E começamos a conversar, a trocar ideia... E ele fez isso mais para que eu me sentisse um pouco mais alegrinho. Tanto que ele nem me contou o que ia fazer comigo. Ele disse: “Vamos brincar um pouco e fazer um filme.” E eu fiz o papel de um delegado. Vi o storyboard, achei muito divertido, muito divertido. Eu era amigo deles todos, mas era mais amigo do Renato. Eu não estava emocionalmente bem nessa época; aí, eu fui para me divertir com eles. Em síntese, foi isso. Ainda mais que uma parte do filme ia ser feito lá na Granja Comary, que o Renato tinha comprado. E eu topei fazer o filme, sem saber nem o que que era direito. Mas eu ia estar com eles, com o Renato principalmente. Aí, eu topei. Então, foi, na verdade uma coisa de diversão. Claro, é um trabalho, exaustivo. Eu tenho pavor de fazer cinema, porque você não tem hora para nada. E eu sou muito arrumadinho, sistemático. Tenho horário para tudo, então eu... Mas, naquela altura nessa altura dos acontecimentos, quanto mais eu pudesse estar com eles... melhor. Queria ficar longe do meu cotidiano, dos problemas que me afligiam na época. Foi assim que eu entrei nessa história. Eu me lembro que trabalhei com a Myriam Rios. Ela, então, estava casada com o Roberto Carlos. E o Roberto exigiu que não tivesse beijos e não sei mais o quê. Roberto estava numa fase engraçada. Ele andava com uns talheres dele dentro do bolso. Era muito engraçado. Só comia um determinado tipo de comida. A Myriam e eu íamos fazer um par romântico. E eu lembro que a produção, o Renato falou comigo: “Não pode ter beijo, não pode ter nada. Roberto não quer.” Eu disse: “Tudo bem. Qual é o problema? Estou aqui para me divertir.” E foi isso. Não teve assim uma coisa maior, uma coisa artisticamente importante, comercialmente importante. Falei: “Olha, Renato. Eu não quero receber nada. Estamos nos divertindo aqui.

O que representou na sua carreira artística ter no currículo um filme com Os Trapalhões?
Trabalhar com eles sempre foi uma coisa muito prazerosa para mim. Na televisão, no comecinho, eu sempre estive com eles. Gostava deles, daquele humor ingênuo, cheio de cacos, fugindo o tempo inteiro do roteiro. Achava aquilo muito interessante, divertia-me junto. Quantas vezes eu fui participar do programa deles na televisão; e tivemos que interromper, cortar, porque eu não parava de rir. Porque eles punham caco em tudo. Você tinha um roteiro; e, de repente, eles saíam daquele roteiro. E você ia junto também. Era uma grande diversão. Agora, em relação à carreira... Você é a primeira pessoa que fala do filme A Filha dos Trapalhões. Ninguém, em nenhuma época da minha vida, tocou nesse assunto. Não sei se não me reconheceram no filme ou sei lá o quê. Mas você é a primeira pessoa que toca comigo nesse assunto comigo. Acredite se quiser.

O Dedé Santana dirigiu e produziu filmes, inclusive na Boca do Lixo aqui de São Paulo. E o Renato Aragão, pelas entrevistas que eu fiz, tem fama de ser perfeccionista, envolvendo-se do argumento à confecção do cartaz. Como é que foi trabalhar com o Dedé na direção e o Renato transitando ali em todas as áreas?
Nada conflitante! Eu nunca vi nada que pudesse gerar algum conflito. Eles se entendiam muito bem. Na época, eles já tinham criado uma empresa chamada DeMuZa, se não me engano.

Foi na época em que se separaram. Dedé, Mussum e Zacarias criaram a De-MuZa.
Sim. Dedé, Mussum e Zacarias estavam numa empresa. Fui conhecer o escritório deles e tudo. Eu só conhecia as coisas do Renato. Mas nunca houve absolutamente nada que eu pudesse dizer: “Olha, tiveram uma discussão.” Eu não vi nada. Foi uma coisa que ocorreu assim lisa, sem confusão, sem discussão, sem nada. Agora, o Renato é realmente perfeccionista. E a gente morre de rir com as coisas que ele faz. Cansei de ver briga. Por exemplo, quebravam a mesa na cabeça do outro, numa briga de bar. Ele quebrava e olhava para câmera e dizia:  “Não se preocupe, que é de isopor.” Isso ia tudo para o ar. Ele é assim. Era muito divertido. Olha, a gente ria tanto, a gente se divertia tanto que valia a pena. Eu cheguei a participar do programa dos Trapalhões, após ter chegado morto de cansado da Europa. Mas fazia, porque sabia que eu ia relaxar. Meus filhos adoravam Os Trapalhões. Eles chegaram a participar uma vez. O meu filho mais velho, quando conheceu o Mussum, até perdeu a voz de tão emocionado que ficou. A minha menina gostava do Zacarias. Tudo isso tinha, de certa forma, um apelo emocional muito grande. Fora a diversão que era, porque a minha paixão é televisão. Hoje, eu não posso chegar e desdenhar ou dizer alguma coisa em relação à música, porque tudo que eu consegui emocional e materialmente foi a música que me deu. Mas o que eu gosto mesmo é de televisão. Sempre gostei muito mais de televisão. Não gosto de viajar. Eu era obrigado a fazer isso o tempo inteiro. Viajei durante 35 anos, fazendo quatro viagens semanais, no mínimo. Viajei para a Europa e por vários países da América Latina. Às vezes, fazia viagens que duravam quatorze horas. Eu vivia bombardeado; mas adorava televisão, como adoro até hoje. Era, para mim, o momento de alienação... Aqui na televisão, eu não trabalho. Só tenho dor de cabeça do outro lado, como empresário de comunicação. Mas, quando começa o meu programa, eu esqueço. Eu estou vivendo um momento muito pesado na minha vida agora. Um momento muito difícil. Estou com o meu pai numa situação dramática de saúde. Ele está muito velhinho e tudo mais. Então, eu passo o dia muito derrubado. Estou muito chateado. Isso me dá um estresse emocional muito grande. Mas basta o programa começar... esqueço tudo. Existe muita coisa na televisão que eu detesto. Game show eu não suporto, reality de enjaulamento de pessoas eu detesto isso; mas eu acho que a televisão é a grande escola do brasileiro.

Eu vou fazer uma analogia com a música. Eu vi aqui a foto dos Beatles, na parede do seu camarim que, coincidentemente, eram quatro. Os Trapalhões também eram quatro. Na minha opinião, Os Beatles foram e são Os Beatles porque trabalhavam harmoniosamente, tinham uma unidade. E Os Trapalhões?
Ah, era assim também. Era uma coisa harmoniosa. A gente sabia que tinha, sim, uma liderança, por parte do Renato. Isso é uma coisa clara. Até porque, muitas vezes, os outros funcionavam como “escada”. Isso era perceptível. Mas eles de fato tinham uma coisa harmônica. A vida inteira trabalhei com eles, e por prazer. Honestamente, eu nunca vi nada, nunca vi confusão, discussão. Nunca vi nada on stage e no backstage nunca vi também. Agora, em relação aos negócios, no escritório e tal... eu não posso falar nada. Mas a experiência cinematográfica que eu tive com eles foi perfeita.

E tem alguma curiosidade para contar sobre as filmagens de A Filha dos Trapalhões?
Todos tiravam sarro com todos o tempo todo! Pregavam peça uns aos outros o tempo inteiro. Se eu tivesse que lembrar de uma, até iria me confundir. Nunca vi nada igual. Foi maravilhoso.

Os Trapalhões fizeram mais de trinta filmes, formaram milhões de espectadores. Muitos, inclusive, tornaram-se cinéfilos. Eu, por exemplo, tornei-me cinéfilo e pesquisador de cinema graças aos filmes dos Trapalhões.
Eu tenho todos os filmes.

Cinco das dez maiores bilheterias do cinema brasileiro são filmes dos Trapalhões. Apesar disso tudo, eles sofreram e sofrem ainda com os críticos, que avaliam muito mal o trabalho deles.
Concordo.

E esses festivais de cinema que ocorrem no Brasil todo não fazem ou não fizeram ainda nenhuma menção à trajetória deles.
Injusto. Acho injusto pelo seguinte: é preciso que se tenha consciência de que esse humor inocente que eles faziam era uma coisa juvenil, era uma coisa infanto-juvenil. O fato de eu, por exemplo, ter formação acadêmica não impede que eu goste de desenho animado e eu gosto muito. Hoje, por exemplo, tem no programa uma menção à Disney. Eu acho o humor dos Trapalhões muito bom, muito bom. É um humor que atrai. Eles faziam um tipo de humor para as crianças. Sei disso, porque eu tinha filhos pequenos nessa época. E meus filhos eram fãs ardorosos, eram apaixonados pelos Trapalhões. Mas nós, adultos, também de alguma maneira tínhamos neles uma referência de diversão. O problema é que a crítica é muito feroz. Porque ela confunde tudo. E o brasileiro é rotulador por excelência. Por exemplo, eu nunca participei da Jovem Guarda, eu nunca tive nada a ver com Jovem Guarda. Mas eles falam: “O Ronnie da Jovem Guarda.” Porque, se não tiver rótulo, a coisa não funciona. Então, os filmes dos Trapalhões são considerados uma coisa menor. E Os Trapalhões faziam um sucesso estrondoso. Certa vez, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, eu encontrei o Tom Jobim numa padaria (carioca adora uma padaria). E o Tom me disse uma frase que eu nunca mais esqueci: “Nós vivemos num país que é proibido fazer sucesso, porque, de alguma maneira, você vai ser apedrejado.” Tudo porque ele tinha sido escolhido pela Coca-Cola para fazer um jingle nos Estados Unidos. Chamaram-no de vendilhão. Bom, eu sou fã dos Trapalhões, da criatividade deles, da improvisação deles. Tenho todos os filmes deles, tendo a consciência de que a coisa é infanto-juvenil. Eu não tenho síndrome de Peter Pan, não; mas acho muito complicado envelhecer.

Os Trapalhões: Romeu Quinto


Romeu Quinto
Técnico de som


Você trabalhou no filme Uma Escola Atrapalhada. Como e por quem recebeu o convite para trabalhar nesse filme? Como foi a experiência?
Trabalhei também no filme Os Trapalhões e o Rei do Futebol e fiz o primeiro deles, quando ainda eles se chamavam Pé com Pano. O filme é A Ilha dos Paqueras e foi dirigido pelo Fauzi Mansur. Para o filme Uma Escola Atrapalhada, fui chamado pelo diretor Del Rangel. Foi uma experiência gratificante. Acho que foi meu primeiro longa fotografado pelo brilhante diretor de fotografia Walter Carvalho. Trabalhar com Os Trapalhões é alegria o tempo todo. Depois, o Del é um ótimo diretor; sabe muito bem o que quer. Isso ajuda demais.

Que representava, naquele período, trabalhar num filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
É como você mesmo disse: certeza de emplacar. Isso significava boa visibilidade ao seu trabalho e, ao mesmo tempo, uma baita responsabilidade.

Quando a Globo se associou aos Trapalhões, ela seguiu uma diretriz de sempre convidar famosos (globais ou não) para atuar nos filmes. Nesse caso, foi a Angélica e o Supla. Que achou da escolha?
Eu achei ótimo. Diverti-me muito com eles, e eles estavam na crista da onda na época

Quais as suas lembranças do filme Uma Escola Atrapalhada? Onde esse filme foi filmado?
Foi todo filmado no Rio de Janeiro, numa antiga escola que estava fechada, o lugar era de frente para a favela do Vidigal eu acho. E já naquela época havia balas perdidas e tiroteio, que, por duas vezes, nos fizeram parar as filmagens por alguns minutos e nos proteger.

Como Del Rangel conduziu todo o processo fílmico? Como era a sintonia dele com Renato, sempre por perto?
O Del é maravilhoso dirigindo. Ele tem uma empatia muito grande com a equipe e os atores. Tenho saudades.

Quais as lembranças de bastidores do filme? Como foi o seu contato com o quarteto?
Nos bastidores, era alegria e descontração o tempo todo. Trabalhar com o quarteto foi muito gratificante. Cada um dos quatro tinha características pessoais marcantes e divertidas.

O filme foi o último com a participação de Zacarias, que faleceu naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
Nós sabíamos nos bastidores que ele lutava contra uma doença muito grave e que ele estava perdendo a luta para ela. Mas, em momento algum, ele se deixava abater por essa razão... pelo menos é o que ele demonstrava.

Em nenhum momento Zacarias pareceu esmorecido?
Eles não comentavam, ninguém comentava.

Como Didi, Dedé e Mussum compartilharam esse momento com o Zacarias? O personagem de Zacarias e os de Dedé Santana e Mussum fizeram apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Parece-me que isso era uma marca deles.

Apesar do sucesso de bilheteria, o filme é considerado pela crítica o pior filme antes da morte de Zacarias. Qual é a sua opinião a respeito?
Não tenho essa opinião formada

Quem era o maior comediante do grupo?
Sem dúvida, era o personagem do Renato Aragão, sem tirar o mérito dos outros.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Com certeza! Essa é uma das metas de um cineasta.

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Sim.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Acho porque é pastelão.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Próprio para a faixa etária.

Os Trapalhões: Rodrigo Salem


Rodrigo Salem
Jornalista


Por que os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Não era nada pessoal, acredito. Os filmes dos Trapalhões fazem parte de um gênero de cinema pouco reconhecido no mundo inteiro. E a ideia era fazer um humor popular e não voltado para prêmios. Pense que Jerry Lewis nunca ganhou nada, até ser reconhecido na França como grande artista.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
A grande maioria era formada por sátiras benfeitas. Eles trafegavam entre comédia física e piadas de duplo sentido.

Qual o legado histórico que o cinema dos Trapalhões deixou para o país?
Os Trapalhões brincaram com Ariano Suassuna, Guerra nas Estrelas, O Planeta dos Macacos; flertaram com Chico Buarque. É um legado e tanto para a cultura popular. Impossível desvencilhar os anos 1980 da trupe. Em um país sério, sem querer ser irônico, Os Trapalhões seriam tratados como gênios do humor.

Podemos considerar Renato Aragão um dos maiores e melhores produtores de cinema do país?
Sim, ele foi um dos maiores. Seus filmes são recordistas de bilheteria até hoje. Ele também tentou se adaptar aos novos tempos do cinema, mas bateu de frente com a crise do setor e voltou a atenção para a tevê.

Quais foram os melhores momentos dos Trapalhões no cinema? Os melhores filmes?
Os Trapalhões, para mim, entram em um âmbito mais pessoal, porque vivi o auge deles quando criança. Então, sem julgar como alguém que trabalha agora com cinema, diria que os meus favoritos ainda são: Os Saltimbancos Trapalhões, Nas Minas do Rei Salomão e Os Trapalhões no Auto da Compadecida.

Quais foram os piores momentos dos Trapalhões no cinema? Os piores filmes?
A Princesa Xuxa e Os Trapalhões, Uma Escola Atrapalhada.

O dito cinema “social” dos Trapalhões, típico de vários filmes anteriores como Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, sempre tratou da problemática da realidade brasileira. Eles se saíram bem, tratando desses temas e tendo como público-alvo as crianças?
Sim, seguindo a escola Charles Chaplin de personagens, Renato Aragão criou Bonga, o vagabundo de coração mole, e repetiu o arquétipo mesmo sem utilizar o nome. O público se identificava, lembrando que cinema era diversão popular naquele tempo, quando filas davam voltas no quarteirão e os ingressos eram bem mais baratos.

Os Trapalhões tinham também outra proposta: inserir diversas atrações midiáticas do momento, com a intenção de atrair para as salas de cinema o maior número possível de espectadores dos mais diferentes gostos e faixas etárias. Por esse motivo, torna-se frequente a presença de personalidades da tevê, como, por exemplo, o grupo Dominó e Gugu Liberato. Isso era o melhor a fazer, pensando na visão de um exigente e diversificado público infanto-juvenil?
Era desespero de causa. Uma tentativa de se manter atraente para um novo público. Foi um erro compreensível, mas um erro. A trupe deveria ter investido em um humor mais sofisticado e não ido para esse lado de celebridade. Eles eram muito inteligentes, rápidos e perspicazes; mas, infelizmente, surgiram em um país que não tem memória. Eram nosso Monty Python, mas que precisaram virar uma triste sombra do que eram para poder sobreviver no mercado brasileiro em crise.

Em termos comparativos com Glauber Rocha, Cinema Novo, Cinema da Retomada e outros, é praticamente insignificante o que se tem para ler e entender o fenômeno que Os Trapalhões foram?
Sim, sem dúvida. Não temos material bibliográfico suficiente.

Os Trapalhões: Roberto Strada


Roberto Strada
Compositor


O senhor trabalhou com os Trapalhões em três longas-metragens: Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, O Cinderelo Trapalhão e O Rei e Os Trapalhões. Como e por quem recebeu o convite para desenvolver as trilhas desses filmes? Como foi a experiência?
Fui chamado pelo finado Adriano Stuart, que era o diretor desses filmes. Durante muitos anos, já vinha criando trilhas para o Adriano. Daí, quando chegou Os Trapalhões para ele, logo fui avisado. A experiência foi muito agradável, porque em Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, tive o prazer de escrever para a antiga orquestra da TV Globo. Eram pelo menos uma dezena de grandes músicos, entre os quais o Hélio Delmiro, grande guitarrista. Em O Cinderelo, trabalhei uma country music com muito banjo e guitarras. Em O Rei e Os Trapalhões, trabalhei muito na música estilo heroica com algumas pitadas da música oriental, isso porque o filme foi rodado em Marrocos.

Que representou para a sua carreira trabalhar em produções estreladas pelos Trapalhões, que eram fenômenos de bilheteria?
Realmente, devo dizer que foi muito bom como divulgação. Mas, como trabalho de música de cinema como sei fazer, ficou muito aquém do que se poderia esperar. Acho realmente que Os Trapalhões na Guerra dos Planetas é um dos filmes de que menos gosto. A experiência foi frustrante. Não sei se você sabe, mas esse filme foi rodado em VT para depois ser passado para a película. Desastre total. Os efeitos especiais são ruins demais. Mesmo assim, a trilha é apontada por quem gosta do quarteto como sensacional. Costumo dizer que não adianta fazer uma grande trilha para um filme ruim. Isso não me deixa feliz. Os outros filmes já acho que tiveram uma melhor produção.

Você menciona que Os Trapalhões na Guerra dos Planetas é um filme ruim com uma trilha boa. Nesse caso eles “prejudicaram” seu trabalho?
Meu trabalho não. O que acontece é que a trilha ficou perdida no filme. O Adriano queria que eu fizesse uma trilha grandiosa. Daí, eu acho que fiz. Mas o filme é risível. Não num bom riso, mas jocosamente ridículo.

Num primeiro momento, parece conflitante um músico com formação erudita se aliar a artistas populares. Como foi esse processo na sua cabeça?
A minha formação erudita nunca impediu que eu criasse música que comentasse de forma jocosa os filmes que musiquei na Boca do Lixo. Com o Adriano, fizemos O Bacalhau, que reputo como o melhor trabalho do diretor. Fiz também Kung Fu Contra as Bonecas, que me fez rir muito. O detalhe é que o Adriano me pedia que a música fosse sempre séria. As comédias rolavam soltas, e a música fazia o contraponto.

O melhor em um filme de Comédia não é ter uma trilha engraçada?
Dizia o Chaplin que a melhor música de Comédia é quando ela faz o contraponto do que aparece de engraçado. Você viu o filme O Garoto? A música é dramática. Aliás, ela foi composta pelo próprio genial Chaplin!

Quais as suas lembranças dessas produções? O senhor teve algum contato com Os Trapalhões?
Meu contato com Os Trapalhões foi muito pequeno. Tive algumas conversas com o Mussum, que era o mais engraçado de todos. E também com o Renato, quando o procurei para saber porque meu nome não aparecia nos créditos iniciais do filme. Pois pasme: ele me respondeu que tinha esquecido. Coisas de ser menor.

Sente mágoa do Renato Aragão?
Eu não sinto nada pelo Renato. Ele é um comerciante. Desses filmes que musiquei nada ganhei de direitos.

Como é a elaboração de uma trilha para um filme?
Estou musicando meu quadragésimo terceiro filme lá para uns meninos de Brasília. O sistema é sempre o mesmo. Lê-se o roteiro várias vezes; e, depois de uma conversa com o diretor, criamos aquele que será o tema principal do filme. A seguir, passamos para as variações e por aí vai. Amo fazer esse trabalho. Ele lhe dá uma grande oportunidade de criar livre, desde que a música caia bem nas sequências. Hoje, além de continuar a fazer trilhas, sou professor de som para cinema. Criei uma oficina que venho ministrando, com muito sucesso. E vejo o quanto os estudantes brasileiros nada sabem de som. Infelizmente, o grande interesse ainda é pelo visual, como se fizéssemos ainda filmes mudos.

O que era pedido e o que era para ser evitado nestas trilhas?
Nada. O Adriano confiava muito no meu trabalho, tanto que para ele musiquei quinze longas.

O fato de Mussum ser músico, facilitou seu trabalho? Vocês conversaram a respeito das trilhas?
Não tive nenhuma conversa com Mussum sobre música. Mesmo porque ele entendia muito de Samba, música de cinema é outra técnica.

Alguns filmes dos Trapalhões renderam discos. Você teve participação nisso?
Os filmes que musiquei dos Trapalhões não viraram discos, mas viraram coletâneas em DVDs das produções do Renato Aragão. E quem só ganha é ele..

Você não tem direito das trilhas? A venda de DVDs dos Trapalhões não rendeu nada a você?
Posso lhe dizer que na primeira semana de exibição de Guerra dos Planetas foram arrecadados dois milhões daquele dinheiro da época. Sabe quanto recebi de direitos? Zero! O maestro Remo Usai, meu amigo e que aliás já se foi, moveu um processo para receber pelos sessenta e quatro longas musicados. Nunca recebeu e parece que só os tataranetos poderão receber por algo. Quando vi uma caixa de DVD com os três filmes que musiquei, fui procurar esse cidadão, o Renato Aragão e perguntar sobre meus direitos. Ele, então, respondeu que eu assinei um contrato cedendo todos os direitos para ele. Procurei outros compositores; e, como sempre, ninguém vai à luta. Aconteceu algo igual com Xandu Quaresma, do meu grande amigo Chico de Assis. Musiquei a peça inteira para o Antônio Fagundes. Ele não me pagou e ainda disse que deveria ser para mim uma honra ter musicado a peça dele. Claro que tenho de direitos 0,5% de cada um que entra no cinema de direitos. E o que contei aqui é para o quanto ganharam e eu não.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Em toda a minha história com o quarteto, nunca vi Renato em absolutamente nada. Além do mais, meu assunto era só com o Adriano.

Por que uma parceria tão vitoriosa como a sua, com Os Trapalhões, não perdurou mais?
Não fui chamado para musicar nada para o Renato Aragão, porque nunca tive mesmo nenhuma ambição em continuar. Quando o Adriano parou, parei também.

No que uma trilha pode enriquecer um filme de comédia para as crianças?
A trilha de cinema foi criada para comentar o que acontece nas sequências. Se a cena é engraçada, a música poderá ou não acompanhar na graça. É um complemento da ação, como toda música. Ela só emoldura a cena, criando, com isso, emoções no espectador.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Porque, na maioria, é tudo muito ruim, mesmo. O Renato não queria saber de muitos gastos. Imagino que esse seja o problema.

Acredita que Renato Aragão estava sempre mais preocupado com o lucro do que com a qualidade dos seus filmes?
Acho que sim. O que mais curti nessa vida de fazer música para o cinema foi a vivência na Boca do Lixo. Esse é um tempo de que sinto uma profunda saudade. Sinto saudade de Antonino Santana, Adriano Stuart, Jean Garrett, Alfredo Palácios... enfim, do grande Galante. Apesar de pequena estatura, aquilo era bacana. E devo muito a Adriano Stuart. Ele me ajudou muito e dizia que só me ajudava porque me achava um bom compositor.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular, durante essa produção em que você trabalhou com Os Trapalhões.
Eu diria que ter gravado com a orquestra da TV Globo, que contava com umas oitenta figuras. Foi, sem dúvida, o melhor momento desse trabalho.

domingo, 1 de abril de 2018

Os Trapalhões: Roberto Farias


Roberto Farias
Cineasta


O filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida é o mais elogiado, dentro da filmografia do quarteto. Renato Aragão afirmou que fez esse filme para agradar a crítica especializada, que sempre batia muito forte nele. Foi realmente com essa intenção que vocês produziram esse filme?
Só ouvi falar disso depois que o filme foi exibido. Como a bilheteria foi de “apenas” 2.600.317 espectadores, menos do que a maioria dos filmes dele costumava fazer e devido à qualidade do filme, acho que ele decidiu falar isso como se fosse necessário desculpar-se.

Certa vez, Ariano Suassuna afirmou que esse filme foi o melhor trabalho que fizeram em relação à adaptação da sua obra. Recorda-se disso?
Não. Não me recordo. Sei que ele gosta. Mas em São Paulo vi Ariano Suassuna dizer que prefere a versão do Guel Arraes, apesar de gostar muito também da minha.

Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
Ele e o Paulo Aragão me convidaram. Viram o sucesso dos filmes do Roberto Carlos, as correrias, a agilidade da câmera, exatamente como o Renato espera que sejam feitos os seus filmes.

Antes de iniciar essa parceria profissional com Os Trapalhões, você já acompanhava os seus filmes?
A primeira vez que Renato e Dedé filmaram foi comigo. Um curta-metragem chamado A Pedra do Tesouro. Eles ainda não haviam formado o grupo dos Trapalhões, eram uma dupla, que trabalhava na TV Tupi.

Fale mais desse curta.
Ele foi feito para enfatizar a força do trabalho, quando todos colaboram. Naquele tempo, o Consulado Americano contratava alguns cineastas para fazerem curtas-metragens e, em troca, dava latas de filme 35mm. Fiz Toda Donzela Tem um Pai Que É uma Fera com latas de filme que ganhei por esse documentário. O patrocinador era a Aliança Para o Progresso. O contato era um diplomata chamado Hart Spraeger, de descendência russa. Dizem que foi preso como espião, anos depois, quando já estava fora do Brasil. Mas não tenho comprovação.

Os Trapalhões no Auto da Compadecida foi filmado onde?
Uma das restrições do Renato era não filmar mais de cem quilômetros distantes de seu estúdio. Construímos uma cidade cenográfica num terreno da minha produtora, a R. F. Farias, na Estrada dos Bandeirantes; e fizemos o filme lá.

Quais as suas recordações dos bastidores desse filme?
Foi agradável, convivemos em harmonia. Somos amigos. O elenco era ótimo.

O elenco contava com atores de primeiro nível, entre os quais Raul Cortez, José Dumont, Renato Consorte. A escalação do elenco partiu de você ou dos Trapalhões?
A escalação foi minha.

Esse filme teve um público total de 2.610.371 espectadores, além de ter sido um dos raros filmes dos Trapalhões que chegou a ser comercializado no exterior, no caso, para Portugal. Apesar do sucesso, foi o seu único filme com eles. Quais as razões disso?
Não falamos em um segundo filme. Mas acho que, daí em diante, o Renato passou a me ver como diretor de “filme de arte”.

Como era o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)?
Maravilhoso. Todos muito legais. Profissionais, pontuais, sérios.

Que representava, naquele período, trabalhar num filme dos Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Modéstia à parte, nunca tive problema com a bilheteria. Sempre estive acostumado a fazer milhões de espectadores e nem me passava pela cabeça que poderia ser diferente.

Quem era o maior comediante do grupo?
Era páreo duro. Mas o maior carisma sempre foi do Renato.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Também sou perfeccionista. No meu caso, quem se preocupou fui eu. Ele só viu o filme pronto.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Essa postura é conhecida. Depois de alguns anos, os filmes dele serão “cults”. Mas a Academia que eu presido não pensa como você está afirmando. Ao contrário, Renato recebeu uma grande homenagem numa das nossas festas.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
É um cinema importante para o Brasil Quando se exibe um filme dos Trapalhões, estamos ocupando o mercado e cuidando da nossa cultura, em vez de ver um filme estrangeiro.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato que tenha presenciado como testemunha ocular.
A curiosidade maior foi o tempo que eu levei para convencer Ariano Suassuna a me deixar filmar sua peça. As tratativas começaram em 1960. Mil novecentos e sessenta. Depois que pedi autorização para filmar, ele ainda cedeu os direitos a George Jonas, que fez a primeira versão. Mais ou menos vinte anos depois, consegui que ele me desse autorização para filmar.