sábado, 13 de maio de 2017

As HQs dos Trapalhões


Organizado por Rafael Spaca.
Prefácio de Dedé Santana
Textos de Marcus Ramone, Jal, Denison Lemos.
Capa de Bira Dantas e Jânio Garcia.
Depoimentos de 28 profissionais que trabalharam nas HQs dos Trapalhões.

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segunda-feira, 8 de maio de 2017

As HQs dos Trapalhões


Matéria do blog "Caderno da Lua" a respeito do lançamento do livro "As HQs dos Trapalhões" (Editora Estronho): https://cadernodalua.com/2017/05/08/rafael-spaca-lanca-livro-sobre-hqs-dos-trapalhoes-pela-editora-estronho/


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Lançamento As HQs dos Trapalhões


Estão todos convidados!

Os Trapalhões: a série


César Sandoval foi quem criou para a Editora Abril o gibi com os Trapalhões crianças, é dele também a arrojada estratégia de marketing para quarteto, assim como a elaboração das vinhetas de abertura dos filmes. A série é uma parceria da TV Cidade com a Editora Laços. Confiram: https://www.youtube.com/watch?v=cnDX7VDCqmY

Os Trapalhões: Breno Moroni


BRENO MORONI
Ator


Você atuou no filme Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva, sua estreia no cinema com eles (antes já tinha atuado em dezenas de filmes). Como e por quem recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
Olha, eu fui convidado pelo próprio diretor, o José Alvarenga Júnior. Na época, eu fazia bastante cinema. Ele me convidou; e foi uma experiência incrível, porque o José Alvarenga é um dos maiores, melhores e mais experientes e mais práticos diretores cinematográficos do Brasil. O José Alvarenga tem uma coisa que combina muito com Os Trapalhões, que é o talento para o improviso e a rapidez. Eles trabalham muito rápido, filma muito rápido, tanto Os Trapalhões como o Alvarenga. Então, é uma escola de cinema que tem muito da televisão, que é a objetividade.

Que representava, naquele período, atuar em um filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Em relação às bilheterias, eu nunca me preocupei com isso. Porque ganhava cachê. Eu ganhava uma coisa certa; então, não dependia de bilheterias. Mas, de qualquer maneira, o sucesso de bilheteria significava o sucesso de ser reconhecido nas ruas como uma pessoa que trabalhou com Os Trapalhões. Tem sempre alguém aí de meia-idade que vem me dizer: “Na minha infância, eu via muito você nos filmes dos Trapalhões, era muito bom, gostava muito.”
Então, esse sucesso aconteceu, sim; mas não tinha nada a ver com bilheteria no meu caso. Foi uma experiência muito boa. Eles são bastante profissionais. Eu lembro uma vez que teve a estreia de um dos filmes; Os Trapalhões se atrasaram por causa de um voo, e eu tive que substituí-los no palco para uma plateia de milhares de pessoas. Tinham milhares de pessoas lá; e eu tive que ficar improvisando durante muito tempo, por uns quarenta, cinquenta minutos... Não me lembro bem, mas fiquei entretendo o público que esperava Os Trapalhões; e eles não chegavam. E no meu improviso eu usava técnicas de linhas de improvisação deles e fui brincando com o povo e tal; e deu certo, porque a plateia nem percebeu que eles estavam tão atrasados, ficou parecendo até uma introdução da apresentação deles que eles fizeram assim que chegaram.

Nesse filme você tem a oportunidade de trabalhar com não-atores, como Angélica e Luma de Oliveira. Como é para você, com tanta experiência no currículo, contracenar com estrelas populares, mas que não são atrizes?
Em relação à Luma de Oliveira, a gente não teve muito relacionamento, não. Foi mais um trabalho técnico. Não chegamos a papear muito, não. Agora, com a Angélica foi muito bom. Ela era muito nova; e nós começamos a conversar sobre política, tema que as pessoas não conversam com ela; e ela era uma pessoa muito preocupada com o Brasil. Naquela época, ela tinha sido convidada pelo Fernando Henrique Cardoso para ir a Brasília para representar artistas em alguma solenidade; e ela veio conversar comigo, pedir minha opinião se deveria ir ou não. E eu disse a ela que nós, artistas, temos muito mais poder que qualquer político. E, por isso ela, deveria manter a posição dela de não servir de garota-propaganda de nenhum político, porque ela era muito mais poderosa que qualquer político.

No ano seguinte você volta a trabalhar com ele em A Princesa Xuxa e Os Trapalhões. Como surgiu esse convite?
Eu não lembro como surgiu o convite; mas, na época, eu trabalhava tanto com a Xuxa quanto com Os Trapalhões, com o Alvarenga e com o pessoal da Ponto Filmes. Era uma turma que fazia cinema no Rio de Janeiro, e eu participava dessa turma. E foi muito bom, pois eu conhecia a Xuxa há muito tempo, do tempo da TV Manchete, do tempo dos desfiles, participamos de desfiles juntos. A Xuxa sempre me pareceu uma profissional exemplar, uma operária da arte dela, do ofício dela, independente do conteúdo, que às vezes é questionado. Mas ela chega sempre na hora, está sempre pronta, ela arruma suas coisinhas no camarim, as suas maquiagens, coisinhas bobinhas. Ela é educada com todo mundo, nunca vi ela dar um chilique, ela é uma excelente profissional.

Como foi o seu contato com o quarteto?
Era com os quatro sempre na hora das cenas; no intervalo, a gente se dispersava um pouco. O Renato gosta de ficar no camarim quieto, concentrado. Com cada um era uma história. Com o Dedé, eu tinha conversas meio espiritualistas; com o Mussum, era mais umas brincadeiras, umas piadas, ele era uma pessoa muito divertida. O Zacarias falava pouco; por incrível que pareça, era um homem tímido. E o Renato, como eu disse, era mais na dele, ficava concentrado. Pouca conversa à toa, as conversas eram mais profissionais: falávamos de coisas relacionadas às cenas, às ações, aos efeitos, os dublês.

Uma Escola Atrapalhada foi o último filme com a participação de Zacarias, que faleceria naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
No filme, Uma Escola Atrapalhada, minha filha, Joana Moroni, também participou. Eu não me lembro do Zacarias doente. Eu me lembro dele alegre, brincando, ou seja, sendo o Zacarias. Eu nunca me dei conta de que ele estava tão doente. Talvez eu tenha achado ele mais magro; mas, quando filmávamos com Os Trapalhões, era sempre um ambiente de muita alegria, muita festa, cordialidade, solidariedade. Então, eu acho que essas coisas encobriram. E, naturalmente, ele entrou nessa onda de não se deixar abater, né? É compreensível. A pessoa, quando está num momento triste na vida, a vida no cinema se torna melhor que a vida real.

O personagem de Zacarias, assim como os de Dedé Santana e Mussum, fez apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Foi pequena, assim como a minha foi muito pequena nesse filme. Mas isso foi numa época em que o cinema usava muitas pessoas, elenco grande, participações pequenas de pessoas bem famosas como éramos considerados na época.

Após esse filme, você trabalhou em mais um filme com Os Trapalhões, O Mistério de Robin Hood, o quarto e último da parceria. Por que foi o último?
Foi muito bom. Eu pude não só realizar meu trabalho de ator, mas também das minhas pesquisas e estudos em relação a dublê, aquelas cenas de carros correndo, de porrada, de luta. Os Trapalhões também me deram essa possibilidade. Eu estudei técnicas de dublê na Inglaterra e acabei virando diretor de dublê. Continuei as pesquisas no Ceará e no Rio de Janeiro e nos filmes dos Trapalhões eu podia aplicar todo o meu conhecimento, todas as acrobacias, truques, dar tiros de efeito, de festim. Então, foi bem importante esse filme para mim.

Qual foi a sua percepção, em relação ao clima durante as filmagens, sem o Zacarias?
Fazia falta, era uma quebra. Porque era um trabalho de quarteto. Não existe ator principal, são todos “escadas” uns dos outros, são todos comediantes. Assim como os trabalhos de dupla de atores como O Gordo e O Magro, assim como os trabalhos de trios como Os Irmãos Marx. É um estilo de representação. E é muito difícil, porque a vaidade, às vezes, acaba com esses grupos maravilhosos, como aconteceu com Os Beatles, por exemplo, que acabou se separando porque, talvez, seus integrante não tenham compreendido a extensão, a importância do trabalho em grupo. E Os Trapalhões tinham isso, porque vieram do circo; e o circo sempre foi o coletivo.

Nesse filme, Roberto Guilherme e Tião Macalé participam. Como foi trabalhar com eles, que ajudaram a construir a história dos Trapalhões?
Com o Roberto Guilherme, fiz pouco trabalho direto. Fizemos algumas coisas na televisão. Na TV Globo eu participei de alguns programas deles também. E o Tião Macalé está entre aqueles grande atores com quem eu tive a honra de trabalhar. Ficaria aqui alguns minutos falando de todos os artistas, de todos os mestres da Comédia com quem eu tive a oportunidade de trabalhar na TV Manchete, naqueles programas de Comédia que eles faziam lá. No cinema e no teatro, trabalhei com muitos. E o Tião Macalé é um patrimônio da cultura popular brasileira.

Quem era o maior comediante do grupo?
Eram os quatro. Mas no backstage, nos intervalos das filmagens, o Mussum, com certeza, era o mais engraçado. Eu tenho muita saudade do Mussum, gostava muito dele. Eu era pai solteiro e levava a minha filha nas filmagens; e quem ficava cuidando da minha filha, durante as filmagens e nos intervalos, era o Mussum. Ele vivia com ela no colo, dava beijinhos, carinho. Ele era uma pessoa fenomenal, muito carinhoso, muito amoroso, humilde, muito aberto. E a lembrança maior que tenho é ele com a minha filha, a Joana Moroni, que hoje tem 33 anos, no colo dele, brincando e ele fazendo caretas pra ela.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Sim, ele acompanha toda a produção. Geralmente, os argumentos são dele. Depois, ele participa do roteiro e acompanha as filmagens, faz reunião de cenografia, de tudo.

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Essa característica do Renato não é o que o torna diferente, torna-o normal. O que acontece, talvez, é que esse acompanhamento, essa vontade de ser perfeccionista, isso deve acompanhar todo e qualquer artista. Se você fica deitado na praia esperando a fama, o sucesso, talvez você até encontre um produtor que te chame para fazer Malhação... ou algo do tipo. Mas artistas do nível dos Trapalhões são artistas de treinamento, que estudaram teatro, circo, música. Então, é fundamental que se pratique, que se estude, que se treine, que se ensaie. Atores do nível dos Trapalhões, do nível do Chaplin, eles têm tudo pronto, são atores prontos, são atores que você joga no meio do palco e eles começam a entreter uma plateia, dominar uma plateia, chamar a atenção, fazer coisas interessantes, fazer coisas que ninguém faz. A origem dos Trapalhões é o circo, que é a mesma origem do Chaplin, do cinema mudo, do teatro físico. Para ser um ator de verdade, profissional, há de se estudar sempre, tem que ser como Os Trapalhões: cantam, dançam, representam, fazem acrobacias, fazem de tudo na arte. Penso que é importante falar sobre o Baiaco e o Napoleão, que são os dublês dos Trapalhões.
Eu tive uma relação muito boa com eles; depois, acompanhei-os na vida de circo deles, conheci a história pessoal de cada um. E eles, como muitos naquela equipe, vinham do circo; e o circo era o que fazia o cinema dos Trapalhões se tornar uma família, era uma solidariedade, diferente da televisão, em que o ator é um indivíduo, um produto único. No circo, as famílias se unem para sobreviverem juntas; e Os Trapalhões tinham esse espírito.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Existe essa resistência por falta de cultura. Acho isso uma ignorância, porque são estilos diferentes. Não se pode comparar com filmes do Cinema Novo. Temos que parabenizar as pessoas que fazem arte no Brasil. Os Trapalhões, durante anos, conseguiram fazer dois filmes por ano. Isso era muito importante para o Brasil. Empregava os técnicos, atores. Criava bilheteria, criava empregos. Agora, o que acontece é que existe um preciosismo no cinema nacional, onde algumas pessoas demoram cinco, dez, ou mais anos para realizar um filme.
Então, quando veem Os Trapalhões fazendo filme com os pés nas costas, isso causa uma certa inveja, um certo ciúmes.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular durante essa produção em que você trabalhou com Os Trapalhões.
É preciso falar da Ponto Filmes, do Cacá Diniz e da Yurika Yamasaki, que eram pessoas fabulosas, que tinham todas essas características boas dos Trapalhões dentro da produção. Eram pessoas de fácil lida, muito simpáticos, solidários. Eu acho que Os Trapalhões tiveram o sucesso que tiveram por conta também desses dois, que são pessoas muito valorosas, muito importantes para o cinema nacional. Os dois merecem uma citação em letras de ouro, porque a Ponto Filmes foi, durante muito tempo, um ponto de resistência do cinema brasileiro no Rio de Janeiro.

Os Trapalhões: Braz Chediak


BRAZ CHEDIAK
Roteirista


Você trabalhou na estreia de Renato Aragão no cinema. Como recebeu o convite para escrever o roteiro de Na Onda do Iê-Iê-Iê?
Eu havia datilografado o roteiro de uma comédia para o diretor Aurélio Teixeira, que se passava na Polícia Militar. Como estávamos vivendo sob a ditadura, o filme foi proibido antes mesmo de ser filmado. Disseram que denegria a imagem da polícia a filha do Coronel se apaixonar por um soldado e – pior ainda – ter um ou dois soldados trapalhões era inadmissível.
Como havia sido convidado para trabalhar como assistente de direção, fui à noite à casa do Aurélio, sem saber do fato. Cheguei lá e encontrei todo mundo triste, o Aurélio, o produtor Jarbas Barbosa, a atriz Gracinda Freire, mulher do Aurélio. Enfim, todo mundo estava tenso, chateado. Contaram, então, da proibição. E levei um susto. Eu estava sem dinheiro e precisava de um trabalho urgente. E, na minha ingenuidade de um quase menino do interior, perguntei por que não escreviam outro roteiro. O Aurélio me olhou com cara feia, perguntando: “Você acha que é fácil, garoto?
Respondi: “Acho que não é difícil.”
O Aurélio já ia me xingar, quando a Gracinda falou: “Deixa o menino tentar, Zé!” Na intimidade, ela chamava o Aurélio de Zé e o Jarbas Barbosa o chamava de Lelo.
Ele então disse que eu escrevesse qualquer coisa, qualquer ideia. E ali mesmo, sentado no chão, com um bloco e uma caneta, fiz uma sinopse.
Não era novidade. Na realidade, era o mesmo roteiro que tinha sido proibido, só que mudei os ambientes e os personagens. Ao invés do coronel, coloquei um dono de gravadora; ao invés do soldado galã, coloquei um cantor; no lugar da competição esportiva, coloquei um concurso de calouros.
Ninguém percebeu. O Aurélio leu a pequena sinopse e disse: “Acho que dá um filme. Olha isso, Jarbas.”
O Jarbas leu e sua feição foi modificando. Começou a falar, alegre: “Nessa cena, eu coloco o Renato e Seus Blue Caps; nesta, eu coloco The Fevers...” E assim sucessivamente.
Para ele, Jarbas, que era irmão do Chacrinha, colocar os músicos era fácil; ninguém cobraria e daria publicidade. O Chacrinha era um rei dentro da televisão e faria uma boa divulgação do filme. Na mesma hora, o Aurélio me perguntou em quanto tempo eu faria um roteiro. Respondi que em uma semana. Contrataram-me no ato; e, no dia seguinte, comecei a escrever na casa do diretor, pois lá eu podia almoçar de graça. Fiz primeiro a estrutura aristotélica, com começo, meio e fim, como era em todos os filmes da época. Depois, era só preencher com a ação cênica e os diálogos.
E diálogo era minha especialidade, já que eu estudava Nelson Rodrigues todos os dias.
Eu escrevia rapidamente; e o Renato Aragão, então começando, colocava as piadas ou gags.
E, assim, conseguimos fazer o roteiro em uma semana ou quinze dias, não me recordo.
O filme foi um sucesso tão grande que, no dia seguinte ao lançamento, encontrei o Jarbas na rua. E ele me disse “Chediak, as filas pra ver o filme dobram o quarteirão. Os gerentes estão rasgando as entradas no meio para vender dois ingressos...” Antes, eu havia trabalhado como ator no filme O Homem Que Roubou a Copa do Mundo, do Victor Lima, e feito a assistência de direção de Giorgio Moser (diretor italiano) numa série para a RAI (televisão italiana) baseada em contos de Robert Louis Stevenson. Mas Na Onda Do Iê-Iê-Iê foi meu primeiro trabalho atrás das câmeras para o cinema brasileiro.

O filme tem muitos números musicais. Como foi o desafio de “amarrar” a história entremeada com as músicas?
Como a história se passava num ambiente musical, não houve problemas. No concurso de calouros era fácil: o ator que fez o papel principal foi o cantor Sílvio César e o cantor que disputava o “trono” era o Paulo Sérgio que, na época, imitava o Altemar Dutra e em seguida fez uma brilhante carreira imitando Roberto Carlos.
Ambientei a maioria das cenas em locais que permitiam músicas, como boates, estações de tevê etc. E olha que tinha muita gente: Wilson Simonal, The Fevers, Leno e Lilian, Wanderlei Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, Os Vips, Renato e Seus Blue Caps, Ed Lincoln, além do Sílvio Cesar, que era o ator principal. No conjunto do Ed Lincoln, o rapaz que toca baixo sou eu e o baterista era o Miltinho, que hoje está no programa do Jô Soares. Quando você tem uma boa estrutura dramática, as dificuldades são mais fáceis de serem superadas.

Quais foram as suas referências para montar a estrutura do roteiro?
Olha, Rafael, eu gostava mesmo era de John Ford, Elia Kazan, Hitchcock, Fellini etc. Mas, em minha cidade, Três Corações, havia assistido a todos os filmes com Elvis Presley, Pat Boone e outros cantores da época e percebi que as histórias, as estruturas dramáticas, eram iguais. Mais ou menos o que acontece com as novelas de hoje. Então, talvez tenha sido essa a referência para o roteiro.

Renato Aragão e Dedé Santana ajudaram no tratamento do roteiro?
O Renato, sim. Foi ele quem criou as piadas, as gags. Não interferiu na estrutura, pois ela estava bem costurada. E, quando se tem uma estrutura assim, não se deve mexer, porque pode desmoronar tudo. O Renato é muito profissional. Por isso, fez essa brilhante carreira que conhecemos.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
O cinema é a arte do diretor, e o Aurélio era muito seguro em sua direção. Ele sabia tudo, da maquiagem à luz, da interpretação à montagem. E não achava bom o ator participar da parte técnica. Por gostar de meu trabalho como roteirista e assistente, ele permitiu que eu participasse de tudo, até o lançamento. Compreendia que eu estava aprendendo direção e, como ele, precisava entender de tudo. Mas o Renato, que estava começando na televisão, partiu para outro trabalho logo que as filmagens terminaram.

O argumento é seu também?
Sim.

O filme foi dirigido por Aurélio Teixeira. Como foi trabalhar com ele?
Foi ótimo. Ele entendia de tudo o que se refere ao cinema, e aprendi muito. Fizemos até uma parceria e trabalhamos juntos em: Mineirinho Vivo ou Morto, com o Jece Valadão e Leila Diniz nos papéis principais; Juventude e Ternura (com a Wanderléia, o Ênio Gonçalves como galã e Anselmo Duarte como o bandido), Os Mansos, com Jardel Filho, Sandra Bréa, Felipe Carone, Ary Fontoura, o próprio Aurélio como ator (excelente). Também eu fiz um papel e dirigi um episódio.
Como galã da história que dirigi, convidei o Paulo Coelho, que, mais tarde, se tornaria escritor de sucesso em todo o mundo. Mesmo depois de eu já ter dirigido Navalha na Carne, voltei a trabalhar com o Aurélio Teixeira. Foi em Meu Pé de Laranja Lima, no qual dirigi os atores infantis, pois o Aurélio não tinha muita paciência com criança.

Quais as suas principais recordações desse filme?
São muitas. Fiz amizades com pessoas que admirava, como Mário Lago, por exemplo, do qual fui amigo até sua morte e chegamos a escrever um roteiro juntos (mas isso é outra história). Leila Diniz era minha companheira de papos, já que ela era amiga de Gracinda e ia todas as noites na casa do Aurélio; e, terminado o trabalho, íamos juntos até a TV Rio, onde ela se encontrava com o Henrique Oscar, seu namorado na época. Depois, ela trabalhou conosco em Mineirinho Vivo ou Morto. Enfim, todo filme é uma história, uma vida.

Você construiu uma grande trajetória no cinema, assim como Renato e Dedé. Qual a importância desse filme na sua carreira?
Como foi meu primeiro filme brasileiro atrás das câmeras, vi, de cara, como é fazer um filme em nosso país. Aprendi muito a técnica, tomei intimidade com a câmera, com produção, direção, montagem, sonorização, mixagem etc., coisa que me foi útil para os filmes que dirigi.

Imaginava que esse filme era só o começo de uma grande trajetória no cinema de Renato e Dedé, que, futuramente, iriam criar Os Trapalhões e “dominar” o cinema do país?
Percebi que o Renato era um grande trabalhador e amava seu trabalho. O Dedé gostava muito da direção, também. Vivia me perguntando sobre lentes, movimentos de câmeras etc. Eu vi logo que fariam uma grande carreira na tevê, mas eles foram além: fizeram uma grande carreira na televisão e no cinema, o que é muito difícil, em todo o mundo.

Já dava para perceber o talento deles dois?
Claro. O talento e a disciplina. E que tinham garra. Por isso, fizeram uma carreira brilhante. Fazem parte do imaginário do País.

Nos números musicais, além de várias canções compostas e interpretadas por Sílvio César, há ainda a apresentação de diversos artistas de sucesso da época: Paulo Sérgio, Wilson Simonal, Wanderley Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, The Fevers, Os Vips. A escolha desses artistas foi sua?
Não. A escolha foi do Jarbas, talvez orientado por seu irmão, o Chacrinha. Aliás, o filme se passa, em grande parte, no programa do Chacrinha. Tem uma cena no filme, no programa do Chacrinha que, se você prestar a atenção achará no auditório o Jece Valadão, a Gracinda e alguns atores da época. Eles estavam na TV Rio, onde foi feita a cena, e assistiram às filmagens do auditório, onde foram filmados.

Por que, após esse filme vocês não trabalharam mais juntos?
O Renato viu meu trabalho escrevendo o roteiro e no set de filmagens e, depois do filme, convidou-me para fazermos outros filmes. Mas eu não aceitei, achei que ainda não estava preparado para dirigir. O J. B. Tanko aceitou e fez grandes sucessos com a dupla. O Tanko era um diretor tarimbado, muito bom. Eu precisava fazer mais assistências, aprender mais.

Qual a sua avaliação a respeito do cinema dos Trapalhões?
Muito boa. Lembro que os assistia junto com as crianças; e elas riam sem parar, imitavam o Renato, o Dedé, o Zacarias, o Mussum. Meu filho, o músico Yassir Chediak, me fala dos Trapalhões até hoje. Eles fizeram parte da alegria de gerações.

Que representou, em termos de linguagem cinematográfica, o cinema dos Trapalhões?
São comédias muito benfeitas, bem dirigidas, com uma turma de grandes artistas. Sua linguagem influenciou muito a nova geração de comediantes.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
A velha crítica. A nova crítica é feita por pessoas que cresceram vendo Os Trapalhões e têm uma visão diferente. Não só deles, mas do cinema brasileiro como um todo. Hoje, todo mundo que gosta de filmes compreende a importância dos Trapalhões na história de nosso cinema.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
Bom, quem ia fazer a mocinha era uma atriz de nome, já consagrada, conhecida do grande público. Para fazer o teste de fotografia com roupas, ela levou uma garota como ajudante.
Era no estúdio do Herbert Richers. O Aurélio fez o teste, me chamou à sua sala e disse: “Chediak, dirija o teste com a garota que está com a fulana.” Chamei o fotógrafo disponível na hora e fiz alguns ensaios fotográficos. A garota era fotogênica, reagia etc. Foi ela a escolhida. Era Valentina Godói. Outra coisa interessante é que, anos depois, diziam que quem iria fazer o papel era a Leila Diniz, mas que o Aurélio a substituiu. Não é verdade. Como disse acima, Leila Diniz ia todas as noites à casa do diretor e era nossa amiga. Já estava escalada para um próximo filme: Mineirinho Vivo ou Morto. Ah, um caso que presenciei e ri muito: fomos filmar na casa de um milionário, na Gávea. A senhora, dona da casa, já idosa ficou maravilhada, quando viu o Mário Lago. Lá pelas tantas, começaram a falar do regime militar e a senhora disse: “Sr. Mário, dizem que na Rússia comem criancinhas. É verdade?” Como sabemos, o Mário era um comunista de carteirinha. Então ele olhou para a tal mulher e respondeu, sério: “É verdade, minha senhora. Bem assadinhas são uma delícia!” Ela fez o Sinal da Cruz e caiu na gargalhada, enquanto o próprio Mário fazia força para não rir.