segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Até 2018!!!


As postagens voltarão a ser publicadas em janeiro e vão até agosto/18, quando o blog completará 10 anos e será decretado o seu encerramento.

Depois de publicarmos mais de mil entrevistas com profissionais que falaram exclusivamente a respeito de curta-metragem, propondo um debate e reflexão a respeito do tema, depois de homenagear cinco atrizes que brilharam na Boca do Lixo, depois da homenagem a Neville D’Almeida e o grupo Os Trapalhões, chegou a hora do fim.

Até 2018!!!

O QUE SAIU NA IMPRENSA ESTE ANO:


As HQs dos Trapalhões:


















Silvio Santos:




























Adroaldo:








Biografia Renato Aragão


Matéria que escrevi para a Folha de S.Paulo, destaque também na primeira página do UOL: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/12/1940292-novo-livro-reune-as-memorias-de-renato-aragao.shtml

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dedé Santana


Escrita por mim e Vitor Lustosa, em 2018 será lançada a biografia de Dedé Santana. Sairá pela Editora Estronho. 

Os Trapalhões: José Joffily


José Joffily
Roteirista


Você trabalhou como co-roteirista no filme A Filha dos Trapalhões. Como e por quem recebeu o convite para trabalhar nesse filme? Como foi a experiência?
Já lá se vão quase trinta anos. Não me lembro de detalhes. Eu tinha cometido um livro de poemas na época; e a Denise Fontoura, editora do filme, tinha mostrado um exemplar para eles. Acho que eles gostaram e convidaram-me para mexer nos diálogos. Fiquei surpreso com o convite; mas, quando meu trabalho começou, as filmagens já estavam para começar.

O roteiro de A Filha dos Trapalhões é baseado no filme O Garoto, de Charles Chaplin, um dos maiores ídolos do Renato Aragão. Esse roteiro foi uma forma de homenageá-lo?
Tudo sugere que seja uma homenagem, mas meu convite era restrito a dar palpites sobre a estrutura de um roteiro que já existia e escrever novos diálogos.

Você dividiu o roteiro com o Renato Aragão. Como foi a parceira?
Sequer encontrei o Renato. Meu contato foi com o Dedé Santana. Foi legal, trabalhei lá mesmo na produtora. Era engraçado, ficava isolado numa sala; e, de vez em quando, vinha o Dedé espiar o que eu estava fazendo. Havia uma natural ansiedade, pois a preparação das filmagens já estava a todo vapor. O Dedé vinha, lia o que tinha de novidade, balançava a cabeça concordando e saía de novo. Dez minutos depois, ele voltava. É claro que pouca coisa estava acrescentada, mas ele repetia as entradas a cada dez ou quinze minutos.

Quais as recordações que possui desse trabalho?
São poucas as recordações. Já se passaram quase trinta anos. Trabalho é sempre bem-vindo, e o povo todo da produção era muito divertido. Assustavam-me um pouco aquelas mexidas no roteiro em cima da hora. Também sou produtor e sei o transtorno que alterações de última hora provocam no plano de filmagem. Lembro que o pessoal da produção também ficava aflito que eu mudasse estruturas, acrescentasse locações, inventasse novos personagens. Eles também vinham na sala em que eu estava trancado, perguntavam pelas alterações que já pudessem ir produzindo. Era entre o engraçado e o aflitivo. Acho que eu talvez achasse graça de nervoso.

Que representava, naquele período, trabalhar num filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
O filme em si era sempre um sucesso, mas acho que para os colaboradores não trazia qualquer benefício. Talvez até ao contrário, havia um preconceito bem grande da classe cinematográfica; e os profissionais que prestavam serviços aos filmes dos Trapalhões não eram prestigiados por isso. Mais adiante, as coisas mudaram, quando o Carlos Manga, o Roberto Farias e o Daniel Filho foram convidados para dirigir os filmes.

Quais as suas lembranças do filme A Filha dos Trapalhões? Onde esse filme foi filmado?
Não acompanhei as filmagens, mas lembro que me surpreendia a rapidez com que tudo era realizado. O filme todo e especificamente o plano de filmagem era desenhado para atender à agenda do Renato. E foi filmado ali mesmo, perto do estúdio da R. A. Produções, na Barra da Tijuca (RJ).

Como Dedé Santana conduziu todo o processo fílmico? Como era a sintonia dele com Renato, sempre por perto?
Lembro que me causou certa surpresa o Dedé começar a dirigir os filmes. Acho que foi somente por uma temporada, uns poucos títulos. Acho que ele não tinha tanto interesse nesse comando. Antes, tinha o célebre J. B. Tanko, craque que sabia tudo para conduzir esses gênero de filme. Depois, outros diretores de reconhecidos talento e competência como o Daniel Filho, o Roberto Farias e o Manga foram convidados para conferir mais qualidade aos filmes. Acho que foi em seguida a essa leva que o José Alvarenga Júnior dirigiu muitos títulos e deu também uma qualidade mais apurada aos filmes.

Na sua opinião, como Dedé se saiu na direção do filme, já que ele não tinha experiência na direção?
Acho que tinha um modelo dentro do qual os filmes funcionavam meio no automático. Acho que o Dedé não tinha essa ambição de dirigir filmes, acho que talvez ele estivesse cumprindo uma missão num cargo que estava vacante. Claro que era uma pessoa de confiança, e isso parecia ser suficiente.

Quais as lembranças de bastidores do filme? Como foi o seu contato com o quarteto?
Não acompanhei as filmagens. Assim, tudo que sei foi o que pude perceber daquela salinha onde fiquei trabalhando. Meu contato com o quarteto não aconteceu, minha interlocução era com o Dedé e mais algumas pessoas das quais não me lembro.

Quem era o maior comediante do grupo?
Claro que o Renato era o líder incontestável. Não sei se todos concordavam com isso, mas a nossos olhos era o Renato. Os outros eram talentosos e tinham uma comunicação extraordinária com o público, mas o Renato também era o empresário. Certamente que o Renato sabia da importância do quarteto e tinha o maior apreço por eles.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Bem, acho que ele queria tudo do jeito dele, mas eu não acompanhei o Renato acompanhando...

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Eu diria que a graça e a ingenuidade de sua interpretação somadas ao espírito empresarial foram os ingredientes do sucesso.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Os filmes faziam sucesso e vendiam muitos ingressos. Acho que isso já indispunha uns e outros. O humor dos Trapalhões era bem popular e brasileiro, o que também devia incomodar. Convidando diretores de prestígio, acho que procuraram construir um prestígio que não tinham junto à Academia. De fato, os filmes ficaram melhores; mas não sei se isso também pesou para ser o começo do fim.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Um cinema que não se faz mais. Um tipo de humor que hoje só se encontra nos circos.

Gostaria que contasse alguma curiosidade sobre esse filme, já que foi testemunha ocular desse projeto.
Num daqueles dias escrevendo dentro da sede da produtora, o diretor de produção veio me procurar com um retrato da minha caçula Isabel, que tinha acabado de nascer. O nome e o sobrenome dela estavam escritos no verso do retrato como uma candidata a ser o bebê personagem do filme. Surpreendido, ele veio tirar a limpo. Quando perguntei como ele tinha conseguido a foto, soube que a foto tinha sido encaminhada por uma agência de modelos infantis em Copacabana (RJ). Sabendo da “roubada”, eu disse que era um equívoco; e só mais tarde descobri que a sogra/avó coruja tinha procurado a agência de modelos com a foto da Bel.

Os Trapalhões: José Joaquim Salles


José Joaquim Salles
Diretor de produção


Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
Foi logo após o Collor cancelar/destruir a Embrafilme... Ninguém acreditava... Marco Altberg, grande amigo, companheiro de trabalho e um dos diretores da Embrafilme, me deu uma carona de volta da Embra. Os dois estávamos arrasados. Ele me disse, então, que estava em negociações com Os Trapalhões. De imediato, coloquei-me à disposição dele, que tomou um susto e me disse: “Mas você é muita areia para o meu caminhão...” Eu respondi: “Mas nem caminhão eu tenho!!!” Foi aí que tive a oportunidade de trabalhar como diretor de produção, proposta que aceitei imediatamente. Pelo menos por um tempo, ganhei uma sobrevida no cinema. Tempos difíceis aqueles. Hoje, em pleno século XXI, as coisas continuam, por motivos absolutamente diversos, parecidas como antes. O bom cinema de longa-metragem para sala de cinema nacional se rarefaz enormemente. E eu sem caminhão ou areia.

Antes de iniciar essa parceria profissional com Os Trapalhões, você já acompanhava os seus filmes?
Claro! Eram os heróis de meus filhos, conhecia praticamente todos seus filmes. Virei herói da família!!!!!

Quais as suas principais recordações dos bastidores de filmagens com Os Trapalhões?
Muito boas!!!!! Equipe excelente: direção do José Alvarenga Júnior (com assistência do Luís Henrique), produção executiva do Marco Altberg, fotografia do Walter Carvalho, direção de arte do Marcos Flaksman... Só esse time já é uma seleção... E o resto que conheci na produção e todos os outros que participaram transformaram nosso trabalho num prazer!!!!!

Por que os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos
Trapalhões?
Nunca dei importância à opinião dos recalcados. Para mim, o mais importante eram as opiniões de meus filhos e amigos!!!!!

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Sempre a tentativa de trazer entretenimento e brasilidade a seus trabalhos dirigidos inicialmente para as crianças. Mas eu, como pai, sempre tive prazer em assistir.

Qual o legado histórico que o cinema dos Trapalhões deixou para o país?
Só a história poderá responder essa pergunta... Na minha opinião, só tenho a agradecer seu esforço de trazer graça e divertimento a este mundo tão cruel!!!!

Os Trapalhões sempre “brincaram” em parodiar filmes e clássicos estrangeiros de sucesso para o cinema. Que pensa a respeito dessa linha que eles seguiram?
Acho que a maioria dos artistas citam, inspiram-se e, até mesmo, copiam outros grandes artistas. Anões em ombros de gigantes vão mais longe!!!!!

Acredita que, pela importância que o quarteto possui no cinema, há pouca bibliografia a respeito deles?
Como não conheço muito dessa literatura, não me considero apto a responder, a não ser dizer que deveria ter. Não se escreve a história do cinema nacional, sem um capitulo importantíssimo de sua história.

O cinema dos Trapalhões foi importante, fundamentalmente, por ter formado público e plateia para o cinema nacional?
Também!!!! Mas como formariam público e plateia, sem serem importantes? O público não é idiota!!!!

Uma Escola Atrapalhada foi o último filme com a participação de Zacarias, que faleceu naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
Infelizmente, quando iniciei minha participação profissional, Zacarias já não estava entre nós. Mas não me esqueço das obras em que suas participações eram um dos ângulos do quarteto.

Como era o seu contato com eles?
Só participei de duas produções: O Mistério de Robin Hood e Os Trapalhões e a Árvore da Juventude. Sem Zacarias, minha relação era mais próxima do Dedé e Mussum. Didi era mais discreto e afastado da equipe, talvez até por ser o Renato Aragão, de certa forma, o chefe da turma!!!

Que representava, naquele período, trabalhar num filme dos Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Para quem gosta de trabalhar em cinema, ainda mais no Brasil, o que se precisa é ser picado pelo veneno do desejo artístico. Nunca fiz um filme tendo como alvo a sua bilheteria, e sim o prazer de com quem trabalhava... Mas sucesso, em princípio, não faz mal a ninguém...

Quem era o maior comediante do grupo?
O grupo!!!! Tire o pé de uma mesa. Ela pode continuar a se equilibrar, mas só com três pés?!?!?!

Os Trapalhões: José Geraldo Couto


José Geraldo Couto
Crítico de cinema


Por que os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Não sei se é possível generalizar assim. Não são todos “os críticos” que rejeitam; e imagino que, dentro da Academia, existam pesquisadores e professores interessados nessa produção. Mas, se a tendência predominante é de rejeição, penso que tem a ver com uma antiga hierarquização das artes, e do cinema em particular, em “alta cultura” e “baixa cultura”. Os Trapalhões, nessa hierarquização equivocada e anacrônica, seria considerado “baixa cultura”, entretenimento raso, barato, popularesco. Claro que discordo dessa perspectiva.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
A meu ver, é diversão popular bastante eficiente e, em muitos momentos, tremendamente imaginativa. De certa forma, é herdeiro da Chanchada e dos filmes do Mazzaropi. Herdou das duas vertentes o pendor paródico, uma leitura crítica do mundo a partir do homem do povo, oscilando entre a ingenuidade e a malandragem. É um humor profundamente brasileiro, nos três casos, com um “ouvido” atento à fala popular.

Podemos considerar Renato Aragão um dos maiores e melhores produtores de cinema do país?
Acho que depende do critério. No que diz respeito à realização de filmes de sucesso, sim, sem dúvida.

Os Trapalhões sempre “brincaram” em parodiar filmes e clássicos estrangeiros de sucesso para o cinema. Que pensa a respeito dessa linha que eles seguiram?
Penso que é uma de suas grandes qualidades e tem a ver com o que eu disse na segunda resposta. É um ponto em comum com a Chanchada. Essa sem-cerimônia com que relemos e/ou deglutimos elementos da cultura estrangeira é um traço fecundo da nossa cultura, a meu ver.

Ariano Suassuna disse que o filme Os Trapalhões no Auto da Compadecida era a melhor adaptação já feita da sua obra. Esse filme Renato disse que fez para os críticos o aplaudirem. Que acha?
Acho que os dois têm razão, de certa forma. O filme desenvolve, ou melhor, realiza plenamente o potencial extremamente popular, circense, que havia no texto original. Ao mesmo tempo, por ser uma adaptação de obra literária respeitada, deu um certo aval intelectual ao grupo.

Quais foram os melhores momentos dos Trapalhões no cinema? Os melhores filmes?
Não vi todos, de modo que fica difícil responder. Os que mais me agradaram foram Os Trapalhões no Auto da Compadecida e Os Saltimbancos Trapalhões.

Quais foram os piores momentos dos Trapalhões no cinema? Os piores filmes?
Talvez tenham sido os últimos, nos quais eles contracenaram com Xuxa, Angélica, Gugu... e tiveram que buscar uma solução de compromisso com a lógica de marketing dessas outras estrelas televisivas.

Os Trapalhões sempre se utilizaram de alguns recursos para angariar plateia que ia além do carisma do grupo, como atores famosos, grupos musicais famosos (Dominó, Trem da Alegria etc.) e artistas com forte apelo popular (Xuxa, Gugu etc.). Que acha dessa estratégia?
Como eu disse na resposta anterior, o problema é ter que submeter, ao menos parcialmente, o humor do grupo à lógica promocional desses outros astros e estrelas, que a meu ver estavam muito aquém ou muito abaixo do talento deles, sobretudo de Renato Aragão, que na minha opinião é um dos grandes comediantes que o Brasil já teve.

Os Trapalhões: Joaquim 3 Rios


Joaquim 3 Rios
Diretor de animação


O senhor desenvolveu a primeira trilha do programa dos Trapalhões. Como surgiu o convite para trabalhar com Os Trapalhões?
No fim de 1975, a pedido do Boni, a Blimp Film pediu que eu criasse um storyboard de um minuto para a abertura do programa do grupo recém-contratado pela Globo, usando caricaturas dos personagens. Eu desconhecia a trilha sonora, que ainda ia ser produzida e sequer sabia o nome do programa.

Você acompanhava o quarteto, seja no cinema e/ou na televisão, antes de trabalhar com eles?
Nunca trabalhei com o grupo e nem fui muito interessado nele.

Em que ideias o senhor se baseou para elaborar essa trilha?
A trilha sonora foi fornecida pela TV Globo (depois da produção da vinheta), e eu nem sei quem a criou.

Quais as suas principais recordações dos bastidores de trabalho com Os Trapalhões, nesse período?
Minhas recordações do trabalho são: que a produtora foi a Blimp Film (aliás, foi o último filme que fizemos juntos); que o prazo de produção era muito curto; que a criação, direção, roteiro e storyboard são meus; que eu encomendei as caricaturas ao Bigantti (caricaturista do jornal O Estado de S. Paulo). Recordo também que os animadores foram: Mário Lantana, Hugo Titotto e Sebastião Santana.

Como era o seu contato com o quarteto (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias)?
Nunca tive qualquer contato com o grupo.

Em sua opinião, quem era o maior comediante do grupo?
Eram dois: Mussum e Zacarias.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Popular.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
A única vez que falei com um membro do grupo foi quando (em 1976 ou 1977) o Renato Aragão esteve em meu estúdio, na companhia do Sérgio Murad (Beto Carrero), para tratar de um projeto que não avançou.

Que projeto foi esse que não avançou?
Eles queriam fazer um desenho animado dos Trapalhões, mas não tinham verba.

Os Trapalhões: João Bourbonnais


João Bourbonnais
Ator


Como surgiu o convite para trabalhar no filme Atrapalhando a Suate?
Que eu me lembre foi o Dedé Santana que me convidou, depois de ver um comercial que fiz em 1986 (passava nos intervalos das transmissões da Copa do Mundo). Era um comercial de lâmina de barbear e tinha uns mafiosos; eu aparecia ao lado do ator Alceu Nunes.

Antes de iniciar esse trabalho, você já acompanhava os filmes dos Trapalhões?
Sim, vi alguns filmes e via o programa na televisão, desde criança, com a primeira formação com Ivon Curi, Wanderley Cardoso e Ted Boy Marino.

O filme é uma sátira à série policial de tevê Swat, na qual um batalhão especial de polícia era destacado para missões perigosas. Os Trapalhões sempre se caracterizaram por fazer paródias. Como ator, que você achava dessa linha, da fórmula que eles imprimiram em seus filmes?
Embora tenha trabalhado mais em teatro, com dramaturgia e temas mais complexos, sempre simpatizei com essa linha mais popular do trabalho deles, mais ingênua, originária do circo.

Atrapalhando a Suate é o único filme que não consta oficialmente da filmografia dos Trapalhões. Quais as suas principais recordações dos bastidores desse filme?
Acredito que não conste, por não ter a participação do Renato Aragão e ter sido produzido pela DeMuZa, a produtora dos outros três. Tenho ótimas recordações! Fui muito bem recebido por eles. O Mauro Gonçalves era muito simpático e, parece-me, mais ator. Transformava-se, ao assumir o personagem Zacarias. O Mussum também era uma simpatia e tinha um humor incrível. E o Dedé era o líder e produtor do grupo. Sou amigo até hoje de alguns atores e atrizes do filme, como a Lucinha Lins, com quem gravei depois a novela Esmeralda no SBT. Sou também amigo do marido dela, Claudio Tovar, e alguns outros. Até meu irmão, Blaise Bourbonnais, participou do filme, como um dos agentes da Suate.

Onde esse filme foi realizado?
Foi todo rodado no Rio de Janeiro. Na cidade do Rio e principalmente em Angra dos Reis.

Como foi a experiência de atuar em uma produção envolta de tantas polêmicas, como a separação do quarteto? Eles comentavam algo com você?
Foi tranquilo, e as questões da separação não interferiram em nosso trabalho. Nada que a gente pudesse notar, e eles também não comentavam comigo.

Havia uma disposição de Dedé, Mussum e Zacarias de mostrar ao Renato que eles também sabiam produzir um filme?
Acredito que talvez pudesse haver, embora todos tivessem experiência de ter filmado bastante... antes.

A DeMuZa Produções foi criada com o intuito de apenas gerir os negócios dos três humoristas (Dedé, Zacarias e Mussum)?
Que eu saiba, sim. Lembro que era a produtora que agendava os shows dos três, quando o Renato não podia fazer.

Eles acreditavam que poderiam ser bem-sucedidos sem o Renato Aragão?
Não tenho como responder, mas creio que sim, queriam fazer um bom trabalho. Embora acho que acreditavam que a separação era temporária.

Na sua análise, por que a separação durou apenas seis meses?
Acho que porque perceberam que eram mais fortes juntos. Já havia a identidade dos Trapalhões com os quatro.

Havia, nos bastidores, um clima de tristeza pela separação?
Se havia, não chegava até mim, que era um ator convidado, que não os conhecia muito bem pessoalmente.

Tião Macalé, que atuou nesse filme, era considerado o quinto trapalhão. Quais as lembranças dele.
Lembro que ele fez uma rápida aparição, uma homenagem dos três. Mas foi numa cena em que eu não estava. Não tive contato com ele.

Tião Macalé é substimado?
Não creio que fosse subestimado por eles, era um grande amigo.

Os Trapalhões tinham também outra proposta: inserir diversas atrações midiáticas do momento, com a intenção de atrair para as salas de cinema o maior número possível de espectadores dos mais diferentes gostos e faixas etárias. Isso era o melhor a fazer, pensando na visão de um exigente e diversificado público infanto-juvenil?
Pelo que fui vendo nos filmes, essa é uma prática comum adotada por vários artistas e comunicadores (Xuxa, Angélica etc.) que fazem seus filmes. Acho que fazem isso por questões de mercado, orientadas pelos produtores e por amizade também.

Dedé, Mussum e Zacarias tinham como característica a irreverência. Até nos bastidores das filmagens, eles brincavam muito. Isso procede? As filmagens eram descontraídas?
Eram, sim. Eram bastante divertidos, e o ambiente era muito bom.

Como foi o seu contato com o trio (Dedé, Mussum e Zacarias)?
Foi bom, restrito ao trabalho. O Dedé, muito atencioso e profissional. O Mauro, muito simpático e acolhedor. O Mussum, mais reservado.

Que representou para você trabalhar em Atrapalhando a Suate?
Foi muito importante. Uma das minhas primeiras experiências com cinema. Um personagem bom, ao lado de artistas muito populares.

Quem era o maior comediante do grupo?
Talvez, comediante, na acepção teatral do termo, fosse o Mauro Gonçalves, que fazia uma verdadeira composição com o seu Zacarias.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Acho que, principalmente, porque os críticos e acadêmicos já têm uma certa reserva em relação a tudo que é arte popular.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Antes de tudo, popular. Às vezes, ingênuo demais para o gosto de alguns. Mas não podemos esquecer que são dirigidos às crianças.

Gostaria que contasse alguma curiosidade da sua trajetória com Os Trapalhões, em especial do seu trabalho.
Acho que aconteceram várias coisas pitorescas. Lembro que, na luta com as tortas no final, eu achei que fosse escapar; mas, no momento final, levei uma torta na cara, enquanto beijava a Lucinha. Cena que está nos créditos do filme.

Os Trapalhões: Jessel Buss


Jessel Buss
Diretor assistente


Como se iniciou sua parceria de trabalho com Os Trapalhões?
Eu trabalhava com o Cacá Diniz na Ponto Filmes; e, como ele faria um dos filmes, chamou-me para integrar a equipe.

Você já trabalhou em outras produções cinematográficas, com outros diretores e outros atores. Que significou para a sua carreira o trabalho com Os Trapalhões?
Já trabalhei com vários grandes diretores e produtores como Tizuka Yamasaki, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Hugo Carvana, Lael Rodrigues, Ruy Guerra, Leon Hirzman e outros. Os filmes dos Trapalhões eram muito bem produzidos, especialmente depois que foram feitos pela diretora de arte Yurika Yamasaki. Esses filmes tinham um grande aparato de produção, muitos cenários, em que se usava equipes enormes, com qualificação profissional de ponta. E a reunião dessa gama imensa de profissionais tornava o trabalho uma fantástica máquina de criação, de ideias, de inventividade. Os efeitos especiais eram maravilhosos para a época, como, por exemplo, o painting feito pelo excelente artista Arturo Huranga. O painting consistia em pintar em vidro um cenário, tipo um castelo numa montanha, e filmá-lo junto com uma ação verdadeira. Depois, quando se projetava o filme, tinha o castelo no alto da montanha como se fosse real. O uso de tecnologias mais sofisticadas (tanto na captação de imagem com equipamento de última geração, como na finalização) foram sendo utilizadas conforme o orçamento dos filmes deles nos permitiam. Resumindo, os filmes eram verdadeiras oficinas de aprendizado e evolução para todos os profissionais envolvidos. Os filmes se tornaram muito bem acabados, com excelentes resultados de fotografia, cenários, som, trilha sonora, efeitos. E, com isso, com esse esforço de produção, os argumentos, roteiros, elenco também evoluíram. Uma coisa puxava a outra. A qualidade se tornou primordial em todos os aspectos.

Qual era o diferencial de Renato, Dedé, Mussum e Zacarias?
Renato era mais reservado, muito educado, um homem culto e inteligente, sabia o que estava fazendo. Dedé se esforçava bastante para ser produtivo e criativo como o Renato. Mussum era um brincalhão, gostava muito de viver, vivia seu personagem com alegria na tela e fora da tela, quase nunca deixava de ser o Mussum personagem. Zacarias era muito tímido, muito mesmo e muito espiritualizado, uma pessoa muito simples e humana. E todos eles eram ótimos de se trabalhar, jamais criavam problemas ou dificuldades. Eram profissionais e trabalhavam duro.

Quais as lembranças mais marcantes que possui do quarteto?
Eram todos muito alegres, abertos para as pessoas de uma maneira geral, simples, carinhosos, amavam o grande público de verdade, tinham essa identidade no sangue deles.

Que representou, em termos de linguagem cinematográfica, o cinema dos Trapalhões?
Uma pergunta difícil de ser respondida. Mas tinha uma liberdade de representação, de concepção da cena que abrangia não só o quarteto em si (enquanto ação, caras, bocas, diálogos, improvisação) como também se dava no contexto do uso da tecnologia (o uso dos efeitos, do som etc.) e no sentido mais intelectual da linguagem (a inventividade do uso dos planos, ritmos e sofisticação da concepção, da quebra do tradicional, da busca da modernidade etc.). Não sei, sinceramente, qual das atitudes tem mais peso que a outra. Sei que o grande público se identificava demais com eles.

Concorda com a análise de que os Trapalhões sustentaram” o cinema nacional por longo tempo?
Os filmes deles venderam cento e dez milhões de ingressos. Isso trouxe para a distribuidora Embrafilme uma fábula de dinheiro. E, claro, que ajudou e muito. Naquela época, a Embrafilme era o grande braço da produção dos nossos filmes. Além de injetar na atividade cinematográfica como um todo outra quantia gigantesca de recursos.

Renato Aragão deveria ser considerado um dos melhores produtores de cinema de todos os tempos aqui no Brasil?
Com toda a certeza, mas o preconceito faz torcer o nariz de muita gente.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
Outra pergunta difícil, mas acredito que o preconceito é o primeiro aspecto, coisa como antigamente não se podia ver novela e ai do ator que aceitasse e ai do homem que visse novela. Eu acho que são posições complexas, porque muitos filmes deles são ótimos e outros não, como existem ótimos filmes do Nelson Pereira e outros não... e assim por diante com vários diretores. Claro, a sociedade intelectual espera sempre sofisticar o aparato da cultura e aprimorar a sensibilidade e a inteligência, o conhecimento mais sofisticado, e expandir essa postura para a maior parcela possível da sociedade. E vejo nisso uma atitude coerente e magnânima, mas isso não tira o mérito e o brilho dos filmes dos Trapalhões.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Eu, em geral, não gosto de classificar nada. Não sou dono de verdade nenhuma. Acho que existe espaço para todos em qualquer atividade do mundo (cinema, teatro, ciência, filosofia, religião etc.). Não gosto de estigmas, nem de conceitos herméticos. O cinema dos Trapalhões é popular, honesto, sensível e muito criativo. É o melhor cinema do mundo? Não! É o pior cinema do mundo? Não! Eu diria a mesma coisa de qualquer cinema do mundo.

A chegada da TV Globo, ao produzir os filmes, deu mais recurso para a trupe. Em contrapartida, muitos classificam os filmes produzidos antes da chegada da Globo como os melhores já feitos por eles. Concorda com isso?
Nunca pensei muito sobre isso. De forma geral, escutei esse comentário algumas vezes. Acredito que os trabalhos fora da TV Globo foram mais artesanais e mais autorais. Na Globo, há ingerência de muita gente; e a coisa se complica e, às vezes, se perde.

Gostaria que contasse alguma curiosidade da sua trajetória com Os Trapalhões, em especial do seu trabalho.
Um dia, cheguei ao set. E o Renato Aragão colocou a mão em meu ombro, chamou a atenção da equipe, e disse: “Se juntar o Jessel e eu dá uns duzentos anos de cinema aqui.” Senti-me elogiado, orgulhoso e respeitado pelo meu trabalho. Senti-me um veterano, e um veterano tem seu valor.