Assistam o programa Zootropo veiculado no maior portal de cultura deste país e aproveitem para conhecerem outras seções deste projeto fantástico capitaneado pelo Pipol. Acessem em: http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=5730
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
Petrus Cariry
Cineasta.
“Dos Restos e das Solidões” (2006) e “O Som do Tempo” (2010), são
curtas-metragens dirigidos por ele. “O Grão” (2008), estreia de Petrus Cariry
em longas, arrebatou mais de 30 prêmios em 50 festivais mundo afora e delineou
o que seria um cineasta promissor dentro do cenário audiovisual brasileiro.
O que te faz aceitar
participar de produções em curta-metragem?
Na
verdade, sou eu que produzo e dirijo todos os meus curtas-metragens.
Por que os curtas não
têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Simplesmente porque o curta não é um
formato comercial. Historicamente o curta-metragem é mais ligado aos estudantes
de cinema e cineastas que querem fazer algum experimento. Sendo que no Brasil,
eu acho que uma significativa parte dos realizadores usa o curta-metragem como
uma espécie de portfólio. Vejam o que eu posso fazer em curta. Para mim curta
metragem é um campo aberto para o cineasta fazer experiências, se um realizador
não tiver a coragem de experimentar em curta, no longa é que não vai. Já que os
riscos são maiores.
Na sua opinião, como
deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
A internet poderia ser
um caminho viável para um primeiro contato da obra com o público, mas acho que
ainda é muito deficiente, principalmente para os filmes que foram pensados para
tela de grande. Acho que o lugar do curta-metragem deve ser o cinema e
televisão. Infelizmente nos cinemas só é possível assistir curtas dentro de um
festival ou mostras de cinema, já que não temos uma política de exibição de
curtas no circuito comercial. Na televisão é mais complicado, pois apenas umas
2 ou 3 emissoras se interessam em fazer a exibição de curtas.
É possível ser um
cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para
fazer um longa...
No meu caso, eu gosto de
ficar transitando entre o formato curto e de longa duração, antes de realizar o
meu primeiro longa-metragem “O Grão – 2007”, eu já tinha realizado quatro curtas-metragens
bastante premiados, principalmente o “Dos restos e das Solidões” que recebeu
mais de 20 prêmios nacionais e internacionais. Eu lhe respondo com total
franqueza, eu vou ficar transitando com total liberdade em todos os formatos de
audiovisual, independente de gênero ou duração.
O curta-metragem é
marginalizado entre os próprios cineastas?
Todos os cineastas que eu conheço adoram o
formato! Quem marginaliza é o mercado.
Pensa em dirigir um
curta futuramente?
Já realizei mais de oito
curtas-metragens, acabei de finalizar um novo longa-metragem que se intitula
“Mãe e Filha”. Acho que daqui as uns dois meses vou começar um novo projeto
chamado provisoriamente de “O Homem da Lua”, não sei ao certo se será um curta,
um média ou um longa-metragem. Independente da metragem o filme será feito. Vou
deixar os links de três curtas-metragens que eu fiz e disponibilizei no Vimeo:
A MONTANHA MÁGICA - http://vimeo.com/16770682
DOS RESTOS E DAS
SOLIDÕES - http://vimeo.com/17032665
A VELHA E O MAR - http://vimeo.com/17325417
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Carolina Fauquemont
Atriz. Atuou em ‘Três
Pesadelos e Um Delírio de Edgar Allan Poe: O Corvo’, entre outros. Está em cartaz no Teatro Augusta com o espetáculo
‘Covil da Beleza’.
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Eu começo lendo o roteiro, acho
importante encontrar nele uma motivação para contar a história. Mas em geral
aceito participar pela abordagem. Pra mim o essencial é confiar no diretor e
ser uma colaboradora do projeto além de uma atriz que vai interpretar uma
personagem.
Conte sobre a sua experiência em trabalhar em produções em
curta-metragem.
Meu primeiro curta foi em 2002, logo
depois de me formar atriz pela FAP - Faculdade de Artes do Paraná. Até o
momento, trabalhei em 20 curtas no total, realizados a maioria em Curitiba,
onde nasci e morei a maior parte do tempo. Participei também de produções em
São Paulo, onde moro atualmente, e no Rio de Janeiro onde morei pequenos
períodos para fazer oficinas de cinema e TV e apresentar espetáculos de teatro.
No início, boa parte dos curtas dos quais participei foram realizados por
estudantes de cinema. Em Curitiba o cinema é uma produção recente e crescente.
Hoje existem muitos novos cineastas e coletivos de cinema que começaram com uma
câmera na mão, uma boa ideia e muita vontade de fazer cinema. Tenho orgulho
desses "garotos", dos trabalhos que fiz com eles. Embarquei nas suas
ideias e fiz várias parcerias. Alguns desses curtas foram realizados em
película. Tive a sorte de ouvir o meu primeiro "Ação" acompanhado do
barulho do filme rodando numa câmera 16mm.
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da
mídia em geral?
Os curtas precisam ser vistos por um
número maior de pessoas. Mas o interesse não se cria de uma hora para outra,
nem existe uma fórmula. Depende dos idealizadores e do impulso que motivou a
obra. Falando da minha experiência, a maioria dos curtas que fiz foram enviados
para festivais, foram desenvolvidos na busca de um olhar cinematográfico
autoral e rapidamente encontraram seu lugar. Participei de alguns curtas
realizados para um programa da TV Globo paranaense, com roteiros desenvolvidos
a partir de histórias e "causos" locais. Os curtas são exibidos
semanalmente e envolvem muitas produtoras, atores, diretores e artistas da
área, é uma ideia que gerou interesse de um público mais diverso e encontrou
seu espaço dessa forma. Um curta em que atuei recentemente foi divulgado em uma
revista online chamada LAMA, desenvolvido a partir de um conto inédito escrito
para a revista. Essa revista criou esses "duetos" artísticos, o
escritor fazia um conto para o curta ou o curta inspirava o conto. Isso gerou
um movimento interessante de diálogo entre linguagens e artistas de várias
áreas. Acho que o importante pra quem realiza não é questionar se o curta tem
ou não espaço na mídia, mas criar espaço para ele. Acredito em boas ideias e
acredito que devemos realizá-las independente das contrariedades, que são
muitas sempre. São as posturas, as vontades individuais que transformam o
coletivo. As mídias sociais hoje, provam que as individualidades tem um
potencial maior do que já se imaginou no que diz respeito à transmissão da
informação e à formação de opinião. Acho fundamental o artista se perguntar o
que quer dizer, por que quer dizer, como vai dizer, mas apesar de tudo,
dizê-lo.
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais
público?
Assisti a alguns curtas-metragens antes dos longas nas sessões de cinema. Acho
esse um bom método. Acredito que de uma maneira geral o público de arte é
carente de formação. As pessoas precisam ter contato com arte desde sempre,
precisam se sentir convidadas a participar. Entender, por meio da experiência
direta, que arte não é para alguns, não é feita só para artistas, que é para
todos. Nesse caso, também é importante a procura dos artistas pelo público.
Alguns cineastas que conheço tem projetos de oficinas nas escolas, nas
periferias e exibem filmes fora das salas de cinema.
O curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou
produção) é o grande campo de liberdade para experimentação?
Muitos profissionais do cinema
começaram a sua carreira em produções de curta-metragem. No início sempre nos
abrimos à experimentação, ela é a sorte de quem começa. Mas também acredito na
experimentação como o desafio de quem permanece. Acho interessante que a
experimentação faça parte do cinema e do artista de uma maneira geral. Acho tão
importante estar conectado consigo próprio e com seus objetivos, quanto estar
aberto ao momento. A reinvenção faz parte do percurso e a liberdade está
contida nisso. Tadeusz Kantor, artista polonês, dizia que os artistas não devem
parar de procurar, devem renunciar às posições já conquistadas, ir além das
formas já adquiridas e se modificar com o tempo.
O curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Acredito que a experiência de realizar curtas-metragens ajuda no processo de
realização de um longa e acredito que o inverso também é verdadeiro. De uma
forma ou de outra não deve existir arte maior ou menor no cinema e comparo isso
com o fato de não existir uma pessoa da equipe com maior ou menor importância.
Se uma única pessoa não está ali, o trabalho para, não se realiza. É o que
considero belo no cinema, o trabalho em equipe, as pessoas unidas por um mesmo
objetivo que é contar uma história. E não importa se é romance ou conto, se veio
de um livro ou de uma música, se vai ter 100 ou 10 minutos, importa a
experiência e o compromisso com a obra.
Qual é a receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Não acredito em receitas. Ou melhor, não acredito em uma única. É importante
agir, colocar as ideias em prática. Nesse caso esperar uma fórmula não ajuda.
Cito Denise Stocklos em cena numa peça sobre Louise Bourgeois: "Eu
acredito na minha potência. Por isso hoje eu posso ir aonde eu quiser. Porque
estou livre da esperança."
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não está nos meus planos. Mas nunca digo nunca ;)
terça-feira, 10 de setembro de 2013
R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica
O
DENOMINADOR (IN)COMUM DO CINEMA
Bernardo Vorobow
Se
o Cinema é a Sétima Arte – por codificar as artes anteriores e por anunciar as
outras que viriam a seguir, como os Quadrinhos –, Rubens Francisco Lucchetti é
um dos (últimos) sétimos artesões mais inquietos ainda em atuação no Brasil.
Isso porque seu campo principal de lavor é (aparentemente) a Literatura, mas
cujo solo solitário e fértil estende-se por outras terras da comunicação (sim,
de massa).
Homem de Cinema, ele dedicou-se também ao rádio [ Grande Teatro de Aventuras e Grande Teatro A-7 (PRA-7
Rádio Club, Ribeirão Preto, 1956-1958)] e à televisão [Quem Foi? (TV Tupi,
Ribeirão Preto, 1961), Além,
Muito Além do Além (TV Bandeirantes, São Paulo, 1967-1968) e O Estranho Mundo de Zé do Caixão
(Tupi, São Paulo, 1968)].
Paralelamente à devoção apaixonada, o que parece mover Lucchetti em sua
incursão pelas narrativas visuais – dizia o pintor Paul Klee: “a arte não reproduz o visível, ela
torna visível” – é um espírito crítico intuitivo. Não satisfeito
com o abundante “fazer”,
ele escreveu textos quase metalinguísticos, publicados em jornais e revistas,
dos quais podemos citar como exemplo a história em quadrinhos “Como se Faz uma
Estória de Terror”.
Outro exemplo são os diários que ele acalenta há anos e permanecem inéditos,
com reflexões e anotações variadas. Seu livro Carlitos o Mito Através da Imagem (1987) não
deixa de seguir Ezra Pound na esfera crítica: às variações iconográficas
desenhadas por ele, coligiu citações de Otto Maria Carpeaux, Alberto
Cavalcanti, Jean Cocteau, Georges Sadoul, Carlos Heitor Cony, Eisenstein,
Blaise Cendrars, Buster Keaton, Max Linder, André Gide, Fernand Léger, Jean
Mitry, Maiakóvski, Luigi Chiarini, entre outros. E há outros índices de tal
ímpeto.
Outro empenho crítico foi a atividade cineblubística, que contribuiu para a
(in)formação de plateias do interior de São Paulo. Entre os eventos e as
mostras de filmes que realizou, constam: Semana
Chapliniana (1960), Festival
Introdução ao Cinema Francês (1960), Festival do Cinema de Animação (Museu de Arte
Moderna de São Paulo, 1962), Festival
Sherlock Holmes (1965), I
Festival Internacional do Cinema de Animação (VIII Bienal de São
Paulo, 1965).
Duas palestras no Centro Médico de Ribeirão Preto iriam mudar completamente o
curso da vida de Lucchetti. A primeira delas, proferida por Paulo Emílio Sales
Gomes (na época, conservador da Cinemateca Brasileira), aconteceu em 28 de
agosto de 1959 e lançou a pedra fundamental do Clube de Cinema de Ribeirão
Preto, que teve Lucchetti como um de seus principais animadores. A segunda,
tendo como conferencista Carlos Vieira, diretor do Centro dos Cineclubes do
Estado de São Paulo, ocorreu em 25 de junho de 1960, quando foram exibidos
alguns filmes de Arte, entre os quais três do canadense Norman McLaren, um dos
mais famosos e respeitados realizadores de filmes experimentais de Animação.
A descoberta dos filmes de McLaren levou Lucchetti a querer fazer filmes como
as abstrações pintadas diretamente sobre a película e as animações quadro a
quadro. Então, Lucchetti se uniu a Bassano Vaccarini (artista plástico,
cenógrafo e um dos fundadores do TBC); e juntos fundaram o Centro Experimental
de Cinema (CEC), liigado à Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto.
Lucchetti e Vaccarini atuaram de modo independente, sem qualquer subsídio
oficial.
As dificuldades financeiras eram cobertas pela loja de autopeças de Lucchetti,
levada à falência pelo capital investido nos filmes. Usavam um laboratório no
Panamá, o que acarretava longa espera na volta do material 16 mm revelado. O
trabalho da dupla foi destaque em três páginas da revista lisboeta Filme (número 42, setembro
de 1962) e na Primeira
Exposição Documental de Cinema de Animação de Lisboa.
Entre 1960 e 1962, Lucchetti e Vaccarini realizaram quatorze filmes
experimentais de Animação: Abstrações
– Estudos 1, 2, 3 e 4 (1960), Fantasmagorias
(1960, inacabado), Estudo
5 (1960-1961), Cosmos
(1961), Tourbillon
(1961), A Sombra
(1961, inacabado), Vôo
Cósmico (1962), Rinocerontes
(1961), Viagem à Lua
(1961), Catedralle
(1961), Arabescos (1962),
Variações Sobre um Tema de
Miró (1962), Painel
Abstrato (1962) e Planificação
(1962, inacabado).
A experiência com a animação abstrata precedeu a experiência que talvez tenha
marcado de modo mais evidente a obra de Lucchetti. A partir de 1967, ele
começou a se lançar nos roteiros de filmes de Horror. Na lista extensa,
aparecem Trilogia de Terror (1968,
episódio “Pesadelo Macabro”; direção de José Mojica Marins), O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968,
direção de José Mojica Marins), Ritual
dos Sádicos (1969, liberado pela Censura em 1983 e rebatizado com o
título de O Despertar da
Besta; direção José Mojica Marins), Finis Hominis (1971, direção de José Mojica
Marins), Exorcismo Negro (1974,
direção de José Mojica Marins), Inferno
Carnal (1976, direção de José Mojica Marins), Delírios de um Anormal (1978,
direção de José Mojica Marins), O
Segredo da Múmia (1982, direção de Ivan Cardoso), As Sete Vampiras (1986,
direção de Ivan Cardoso) e, entre outros, O
Escorpião Escarlate (1989, direção de Ivan Cardoso), além de
inúmeros roteiros escritos para Mojica e jamais filmados.
Nessa mesma época de efervescência de roteiros, Lucchetti criou várias
publicações, sempre conjugando palavras e imagens. Foram revistas policiais pulp como Série Negra (1969) e Mistérios (1970); revistas
de histórias em quadrinhos como A
Cripta (1968-1969), O
Estranho Mundo de Zé do Caixão (1969) e Fantastykon Panorama do Irreal (1972); e
livros em quadrinhos como O
Filho de Satã (1970), Carne
Fresca para a Mesa (1970) e Os
Vampiros Não Praticam o Sexo (1970). De 1968 a 1971, escreveu
roteiros de fotonovelas para revistas femininas. E, em 1970, organizou o
catálogo da seção brasileira do Congresso Internacional de História em
Quadrinhos (Museu de Arte de São Paulo).
Um ano antes de José Mojica Marins lançar o Zé do Caixão em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964)
– Lucchetti viria a colaborar com Mojica na definição do perfil deste personagem
a partir do filme O Estranho
Mundo de Zé do Caixão –, a Editora Outubro lançava Noite Diabólica, antologia
de contos de Lucchetti, considerado “o
primeiro livro de Terror escrito no Brasil” (Rudolf Piper, O Grande Livro do Terror!,
São Paulo, Argos, 1978, p. 38).
O próprio Lucchetti comenta a gênese do livro (e não deixa de ser curioso, se
pensarmos que o livro foi editado mais ou menos na mesma época em que Mojica
gestava Zé do Caixão): “As
minhas primeiras histórias em quadrinhos não foram escritas como tal. Eu
desconhecia inteiramente a técnica da roteirização. Assim, imaginei-as como
argumentos e mandei-as, num dia qualquer de 1962, para a Editora Outubro
(alguns anos depois, ela passaria a se chamar Editora Taika), a fim de serem
apreciadas pelos seus diretores. Esperava que, caso aprovados, os argumentos
fossem adaptados por Hélio Porto, então o principal roteirista da editora, e
quadrinizados por Nico Rosso, a quem eu considerava um dos mestres dos
Quadrinhos (...). Fiquei
aguardando ansioso por uma resposta, enquanto ia comprando todos os meses a
revista Seleções de Terror,
na qual eram publicadas as histórias em quadrinhos do Drácula, valorizadas
pelos desenhos do Nico. Sonhava encontrar num dos números, como complemento,
uma das minhas histórias. Passaram-se os meses. Nem carta, nem história
quadrinizada. A frustração começou a apoderar-se de mim. Em outubro de 1963,
quando já estava quase conformado, fui surpreendido com o primeiro
pocket book da
Série de Terror da coleção
Super Bolso, da Editora
Outubro. Nesse pequeno volume de 149 páginas, intitulado Noite
Diabólica, estavam
publicados dezoito argumentos e uma poesia que eu havia enviado à editora. Na
quarta capa, os editores prometiam: ‘Nesta coleção desfilarão os
maiores nomes da literatura de Terror e Mistério.’ Eu achava que aqueles histórias não eram indicadas para
figurar num livro que dava início a uma coleção que prometia tanto. Eram apenas
argumentos. Mais tarde, fiquei sabendo que Hélio Porto gostara tanto dos meus
textos que resolvera publicá-los como eu os havia escrito. Entretanto, se eu
não ficara satisfeito com a forma com que esses textos foram aproveitados, fui
recompensado com a capa e as ilustrações do livro. Elas foram feitas por um
mestre na arte do Desenho: Jayme Cortez, que era um dos diretores da Outubro”
(No Reino do Terror de R. F.
Lucchetti, Vinhedo, Opera Graphica, 2001, pp. 11-12).
Em 1966, logo após mudar-se para São Paulo, Lucchetti tornou-se um prolífico
roteirista de histórias em quadrinhos de Horror.
O FEITO SUSPENSE
A revista Suspense,
cujos contos eram selecionados por Alfred Hitchcock, publicou em um de seus
números, o 67, a história “Em Pleno Espetáculo”, escrita por Lucchetti. Foi um
feito inédito para um escritor brasileiro; e Lucchetti, que, na época, estava
com aproximadamente trinta anos, viu-se abençoado pelo mestre do Cinema e dos
gêneros de Mistério e Horror que tanto cultuava. Talvez como ninguém nos
domínios da indústria dos mass
media, Hitchcock soube explorar os mecanismos de medo e desejo, da
tensão entre ausência e presença (ou entre mostrar e esconder), que geram o
suspense e fizeram do gênero um modelo protomatriz das emoções em multimídia.
Podemos ler nesse feito uma súmula não só da sina de Lucchetti com relação à
falta de reconhecimento por sua obra (um exemplo disso é a ingratidão de
Ribeirão Preto, a cidade adotada, que até na hora de um documentário-homenagem
se furtou a retribuir com pouco o muito que Lucchetti lhe deu, perdendo – ou
furtando? – o projeto original que os produtores enviaram à Secretaria
Municipal da Cultura; curiosamente, Carlos Reichenbach escreveu após ver o
filme: “Tenho a impressão de
que Adriano vai pagar (mais uma vez) o preço da exuberância de seu talento.”).
O feito Suspense também
concentra a imantação que o Cinema exerceu sobre os outros modos de comunicação
cultivados por Lucchetti.
LUCCHETTI, UM
ESCRITOR VISUAL
Uma das virtudes de Lucchetti é seu desprendimento (outra é a paciência). A
renúncia a uma vida confortável levou-o ao caminho dos sonhos que só podem ser
compartilhados no ambiente escuro e coletivo da projeção de cinema. Ou, em
última análise, acalentados no mais recôndito da própria imaginação, aquela que
se recusa – como enunciou Giotto – a se deixar registrar, por acreditar que não
vale a pena sua apresentação após sua concepção (para que trazer ao mundo real,
se a coisa já existe no mundo da imaginação?).
Uma escrita que lida com substantivos e com a transubstanciação de inefáveis
sentimentos em vocábulos quase palpáveis acaba mexendo com forças estranhas ou
sobrenaturais [Lucchetti gosta de colecionar casos reais incríveis acontecidos
com ele e que competem (em “além
da realidade”) com suas ficções]. E, quando estas penetram a rotina
da circulação das mercadorias ditas culturais, é natural que ocorra um
curto-circuito... e que esses modos de narrar sejam alijados por serem
incompatíveis com as demandas “modernas”
e sejam deslocados para as franjas da memória irremediável.
Se o homem é a medida de todas as coisas (numa visão pós-renascentista e
pré-panteísta), o Cinema para o homem Lucchetti é o denominador comum de suas
experiências, a tábula rasa e o plano de vôo (além de campo de pouso) de seus
projetos. O Cinema parece coagular as ambições mais caras de Lucchetti, agenciando
os dotes da Literatura e dos Quadrinhos, justamente por colocá-los em movimento
e por materializar a palavra (ou as idéias) em imagem.
Lucchetti é um escritor – ou ficcionista, como ele mesmo prefere se
autodenominar, em um de seus múltiplos autorretratos e auto-heterônimos em
raios X – visual. E o Cinema é o canal privilegiado que ele parece ter
escolhido (mesmo que involuntariamente) para tornar o imaginário em
representável.
Este
texto foi escrito em São Paulo, em fevereiro de 2003
Bernardo
Vorobow (1946-2009) foi programador cultural. Criou e dirigiu o setor de Cinema
do Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo e o departamento de programação
da Cinemateca Brasileira. Foi programador de filmes do Museu de Arte
Contemporânea (MAC) de São Paulo e diretor técnico e de programação da
Sociedade Amigos da Cinemateca (SAC). Realizou os filmes Depois da Lua (Obrigado, Chacrinha), Minha Escola (censurado e inacabado), O
Discurso e Cinema
Paulista – Ovo de Codorna.
Com Carlos Adriano, escreveu o livro Peter Kubelka: A Essência do
Cinema e organizou Cinepoética, uma antologia de textos sobre o
cineasta Julio Bressane. É co-produtor e co-roteirista do
documentário-homenagem O Papa da Pulp: R. F. Lucchetti – Faces e
Disfarces.
Karen Menatti
Atriz. Presença constante nos palcos de teatro.
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
A maioria das produções de curta que trabalhei foi a convite de alguém da
produção ou envolvida com o trabalho. Os que eu fui fazer o teste fui atraída
pelo roteiro. De qualquer maneira, em ambos os casos, o que me fez - e faz -
aceitar é a aproximação que posso ter com a linguagem, de desenvolver um
trabalho artístico com o qual me identifico!
Conte
sobre a sua experiência em trabalhar em produções em curta-metragem.
Não tenho uma vasta experiência mas os que eu trabalhei se aproximavam muito do
teatro, no que diz respeito ao trabalho em equipe e na vontade de que ficasse
tudo bem feito. Havia esse tipo de paixão e de proximidade ! Tive a alegria de
trabalhar com pessoas que lidavam bem com imprevistos, que pode acontecer
quando se trata de uma externa, por exemplo e de incluir algo que num primeiro
momento poderia ser visto como erro e que se transforma em algo bacana. Essa
maneira de lidar se aproxima também com a maneira de alguns trabalhos teatrais.
Mas, é claro, que essa abertura é específica das pessoas com quem trabalhei!!
Por que
os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Olha, não sei o porquê! Talvez haja alguma questão de dinheiro envolvida... Não
sei se interessa para as grandes empresas, se dá o tal "retorno" que
muitas vezes impedem lindos trabalhos de serem vistos por mais pessoas. Isso se
dá muitas vezes na música e no teatro também. Talvez seja por aí...
Na sua
opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Já assisti alguns curtas em festivais ou em projetos específicos, como , por
exemplo, no Espaço Itaú Cultural, Cine SESC. As salas não estavam tão cheias,
muito provavelmente por conta dessa falta de espaço na mídia, colocada na outra
questão. Acredito que se houver mais projetos contínuos, se consiga formar um
público maior.
O
curta-metragem para um profissional (seja ele da atuação, direção ou produção)
é o grande campo de liberdade para experimentação?
Acredito que a tentativa de liberdade de experimentação é buscada em todas as
áreas de trabalho artístico! No teatro, nos longas, nos curtas, na música... Se
pensarmos que é mais caro produzir um longa, talvez sim. Acho que a grande
questão de driblar e lidar com as tais “necessidades" de mercado,
patrocinadores e tudo o mais, é mais específica de produções maiores que vão
precisar de um suporte financeiro maior e claro, terão uma pressão também
maior!
O
curta-metragem é um trampolim para fazer um longa?
Não acredito que as coisas se deem dessa forma.
Qual é a
receita para vencer no audiovisual brasileiro?
Poxa! Realmente essa não vou saber te responder! Receita, talvez só as de bolo
funcionem! Rs
Pensa em
dirigir um curta futuramente?
Já tive algumas ideias de roteiros com
alguns amigos, que por hora, estão engavetadas! Quem sabe um dia?!
domingo, 8 de setembro de 2013
Munir Kanaan
Ator e produtor. No cinema destacam os trabalhos "Angels of Rio",
pela BBC Londres, "Póvora Negra" e " Nome próprio"
-dirigido por Murilo Salles e indicado ao prêmio de melhor ator no Festival
Cinema de Gramado, em 2008. Sua versatilidade proporcionou participações também
na televisão como as novelas "O profeta" (2006/2007) e "Duas
caras" (2007/2008), na Rede Globo, "Futura profissão" (2005),
como apresentador no Canal Futura e a série "Os figuras" (2011), série
do canal Multishow. Atualmente dirige sua produtora, Gengibre Multimídia,
criando e desenvolvendo conteúdo audiovisual.
O
que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Não vejo diferença em atuar num longa ou num curta. A entrega do ator tem que
ser a mesma, a história existe, a personagem existe, o set existe. São as
mesmas motivações, o roteiro, a direção, a personagem.
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia
em geral?
Penso que os curtas pertencem a um lugar onde a experimentação vem na frente.
Isso deve fazer com que a maior parte do público se restrinja aos profissionais
do cinema, outros artistas e alguns simpatizantes. O que naturalmente deve
acabar gerando uma mídia alternativa e mais direcionada.
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais
público?
Acredito que antecedendo os longas nas salas de cinema, mas previsto e, de
alguma forma, relacionado com a programação.
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre
um trampolim para fazer um longa...
Pensando na questão financeira, acredito que não. Artisticamente, com
certeza. Mas, ainda não conheci nenhum diretor que dissesse só gostar de contar
histórias curtas. São desafios diferentes, contar uma história curta e contar
uma história longa.
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sempre vi muito respeito com os curtas. A maioria dos profissionais que
trabalham com cinema já estiveram envolvidos com curtas e sabem da paixão que
os movem. Um minuto pode ser mais valioso e mais belo do que 120 minutos.
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Acabei de ter a minha primeira experiência como diretor, foi dirigindo uma
série de ficção para TV. Gostei muito e tive a certeza de que em breve vou
dirigir o meu primeiro curta.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Martha Meola
Atriz. Atuou nos filmes ‘O Cheiro do Ralo’; ‘Tapete Vermelho’; ‘O
Palhaço’, ’12 Trabalhos’ e ‘Antônia’.
O que
te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
Uma boa ideia, um bom roteiro e, claro, algo que eu possa experimentar,
ir além. Como foi o caso do curta
"Outros Modos de Sentir" de Rodrigo Pépe e Giovanna Belucci, em que pude me transformar
em Clarice Lispector, foi uma grande
oportunidade. Com as produções de curtas-metragens nós, atores, podemos entrar em contato com a
linguagem cinematográfica
pela carência na formação.
Por
que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em
geral?
Não tenho muita informação a respeito, mas se
os curtas ganharem mais espaço para
exibição, a mídia também dará mais atenção.
Na sua
opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Acredito que todas as salas de cinema deveriam
apresentar curtas antes dos filmes, em vez de publicidade, porque já assistimos
muito disso na
TV. Acho que também deveria haver mini festivais de curtas dentro das
escolas, assim o público poderia votar nos que mais gostaram e, claro,
transformar esse público em público de cinema.
É
possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um
trampolim para fazer um longa...
Possível é, mas acho que a maioria almeja um longa,
porque comercialmente não sobreviveria.
O
curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Acredito que não, a maioria dos cineastas começa
pelo curta-metragem, não seria lógico, porque é onde se pode ver
a capacidade de contar uma boa história em 10 ou 15 min.
Pensa
em dirigir um curta futuramente?
Não penso na ideia, mas nunca se sabe...
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