domingo, 24 de novembro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


ALGUMAS PALAVRAS A RESPEITO DE ONDE ESTÁ BLONDIE?
Rubens Francisco Lucchetti

Não sei precisar o ano. Talvez tenha sido 2000 ou 2001. Só me recordo perfeitamente de que, numa manhã, o editor Franco de Rosa me ligou e perguntou se eu conhecia o trabalho do Milo Manara. Respondi que havia lido dois de seus álbuns: O Clic e O Perfume do Invisível, lançados na década de 1980 pela Martins Fontes. O Franco, então, falou que queria que eu escrevesse um roteiro de uma história em quadrinhos semelhante às histórias do Manara, pois conhecera um desenhista que tinha o mesmo estilo do quadrinhista italiano. Em seguida, explicou que essa história em quadrinhos seria publicada num álbum de luxo e deveria ser mais erótica e não tão pornográfica (não teria cenas de sexo explícito) quanto o O Clic ou O Perfume do Invisível.

“Eu já tenho isso escrito!” Falei.

Por volta de 1983, escrevi, a pedido do diretor Jean Garrett, um argumento para um filme, Onde Está Blondie?, que é uma mistura das histórias do Manara com Jane Pouca Roupa (de origem inglesa, essa história em quadrinhos, uma de minhas preferidas, foi publicada em nosso país no jornal A Noite, do Rio de Janeiro, nos anos 1940 e 1950. Era protagonizada por uma simpática lourinha que, pelas razões mais diversas e devido a acidentes constantes, estava sempre se desnudando. Jane também usava roupas que mais mostravam do que escondiam as belas curvas de seu corpo).

Infelizmente, por motivos que desconheço, o Jean não quis filmar Onde Está Blondie?, preferindo realizar a fita Meu Homem, Meu Amante (1984), baseada num livro meu; e o argumento ficou engavetado.

Em 1988, fui assistir em São Paulo, às filmagens de O Gato Botas (depois, esse filme teria seu nome trocado para O Gato de Botas Extraterrestre), cujo roteiro, baseado na história imortal do escritor francês Charles Perrault, é de minha autoria.

Wilson Rodrigues, o produtor e diretor de O Gato de Botas, estava, na época, muito bem financeiramente (sua empresa, a WR-Filmes, que distribuía principalmente fitas pornográficas de procedência norte-americana e filmes infantis, prosperava). Por isso, não poupou “dólares” à produção da fita: pagou generosamente os atores; gastou uma pequena fortuna na maquiagem especial do Gato (na verdade, essa maquiagem especial consistia em oito máscaras adesivas, feitas por Burman Studios Inc., de Hollywood); e contratou uma produtora estrangeira, Jane (infelizmente não me lembro do sobrenome dela), uma cubana que trabalhava em Hollywood, para cuidar da produção executiva.

Devido à Jane, muitas pessoas ligadas à indústria cinematográfica norte-americana assistiram às filmagens de O Gato de Botas. Conheci algumas dessas pessoas; e conversei longamente com uma delas, mrs. Sofia Agrama. Ela residia em Los Angeles; e seu marido era proprietário de um estúdio de gravações em Hollywood, o que lhe possibilitava conhecer inúmeros atores, produtores, diretores...

Durante nossa conversa (eu falava Português; e ela, um Espanhol estropiado), mrs.Agrama mostrou-se simpática e interessada pelo meu trabalho de roteirista. E, no final da conversa, pediu que eu lhe enviasse alguns argumentos meus, porque queria mostrá-los a produtores e diretores com quem tinha mais amizade. Disse também que algum desses argumentos poderia se transformar em filme. Informei-lhe que todos os meus argumentos e roteiros estavam escritos em Português. Ela falou que isso não tinha problema, já que em Hollywood existiam pessoas que entendiam perfeitamente o Português.

No dia seguinte, retornei a Ribeirão Preto e, voltando a dedicar-me a meus freelances (na época, escrevia livros sob encomenda para diversas editoras paulistanas), esqueci-me do pedido de mrs.Agrama. Então, numa tarde de agosto de 1988, recebi um telefonema dos Estados Unidos. Era mrs.Agrama, querendo saber quando eu iria enviar-lhe os argumentos.

Fiquei entusiasmado com esse inesperado interesse pelos meus trabalhos e, em 12 de setembro de 1988, enviei-lhe o argumento de Onde está Blondie?; depois, em 18 de novembro do mesmo ano, mandei-lhe o argumento de A Sombra da Outra, que daria um excelente filme de Suspense. O que aconteceu com ambos não sei, visto que, até a presente data, não recebi resposta alguma.

Assim que o Franco me disse que queria um roteiro semelhante às histórias do Manara, recordei-me, de imediato, de Onde Está Blondie? e contei-lhe rapidamente a história. Ele achou-a interessante, e transformei-a num roteiro de história em quadrinhos.

Demorei umas duas semanas para escrever o roteiro, que remeti ao Franco. Lamentavelmente, a editora havia se desinteressado em publicar o álbum. Dessa forma, Onde está Blondie? não foi desenhada e continua existindo apenas como argumento para um filme e roteiro de uma história em quadrinhos.

Este texto foi escrito em dezembro de 2011

Rubens Francisco é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.

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