terça-feira, 20 de abril de 2010

Nuno Ramos



Nuno Ramos é considerado um dos maiores artistas, em seu termo mais amplo, da sua geração.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Não sou especialista, mas creio que cada vez maior. Acho que em outra época, tinha-se acesso mais imediato ao longa, que foi o formato de quase tudo o que fizeram os nossos maiores diretores (Glauber, Sgarnzela, Bressane, Nelson Pereira, etc.). Hoje em dia, acho bem mais difícil o sujeito ir direto ao longa. Eu diria, por isso, que a importância do curta é ainda maior hoje do que foi ontem.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acho que há um problema enorme de distribuição para o cinema brasileiro hoje, e o curta, que já de cara tem pouco público (não tem aquele formato “programa de sábado”), sofre enormemente com isso. A mídia em geral parece acompanhar essa síndrome. É curioso como uma arte tão cara e difícil como o cinema termina, muitas vezes, num circuito doméstico, só para parentes e amigos. Isso é bem chato, e triste. Há uma vocação pública no cinema que não consegue se ausentar completamente, mesmo da produção mais experimental e fora de formato padrão. Isso é fonte de crise, mas também de interesse. Algo no filme mais maluco pede para ser visto por uma multidão – isso me parece exclusivo do cinema.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho que sim. O curta, como qualquer obra pra valer, não é trampolim pra nada. Desenho não é trampolim para quadro (embora possa ser usado como estudo), curta não é trampolim pra longa. Qualquer obra de arte tem de se fazer valer em seu formato específico. Há uma riqueza em cada formato que é insubstituível.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Como freqüento pouco esse meio, não saberia dizer.

Você já dirigiu curtas que foram considerados de vanguarda. Conte como é o seu processo de criação, produção e direção.
Eu dirigi quatro filmes, com duração entre 5 e 35 minutos. Todos, de alguma forma, têm a ver com a produção de uma instalação. Em geral, o que ponho nos filmes é uma espécie de gerúndio daquilo que a instalação/ escultura apresenta já pronto; é o fazer daquilo, não no sentido “making off”, documental, mas uma tentativa de exploração poética deste fazer. Acho que minhas obras têm uma construção muito penosa e complicada, e nos filmes tento de algum modo tirar partido poético disso, que desaparece quando a obra está pronta. De todo modo, sempre procurei fazer cinema e não videoarte, embora haja tanto em comum entre as duas coisas. Não gosto muito de usar recursos típicos de vídeo (câmera lenta, distorções, inserções, trabalho em computador). Adorei ver os filmes em tela de cinema, com o público na poltrona, ao invés das projeções na parede, características das exposições (com o público em pé, etc.).

Quais as diferenças e/ou semelhanças que encontra na hora de fazer uma tela, escultura e um filme?
São tantas diferenças que não saberia enumerar. Mas gostaria de lembrar de uma, básica: cinema é um trabalho muito mais em equipe. Isso torna tudo muito diferente, numa situação e noutra. Para começar, sempre dirigi meus filmes com meus parceiros Eduardo Climashauska e Gustavo Moura.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, tenho algumas idéias, ou pré-roteiros. Se alguém tiver curiosidade, no meu livro Ensaio Geral, de 2007, pela Editora Globo, há alguns pré-roteiros impressos. O problema é que cinema de fato é uma arte meio cara, e fazer um filme de 15 minutos tem quase sempre o mesmo custo de uma instalação inteira. É difícil, às vezes, renunciar a uma idéia do meu trabalho como artista plástico para fazer um curta. Mas assim que surgir outra oportunidade, gostaria sim de filmar mais.

Qual é o seu próximo projeto?
Estou preparando “Mar Morto”, uma instalação de sabão, barcos e vozes, para a Galeria Anita Schwarz, no Rio, em março.

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