segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Joel Pizzini



Joel dirigiu diversos documentários de curta e longa-metragem, com destaque para o longa 500 almas (2004), vencedor do prêmios de melhor fotografia, trilha sonora, som e montagem no Festival de Brasília, e prêmio de melhor documentário pelo júri oficial do Festival do Rio.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O cinema brasileiro nasceu através de experimentos de curta duração e formou uma tradição poderosa nesta forma de expressão que passou desde o cinema institucional, cinejornal, pedagógico, animação como ensaios de arte como "Di" do Glauber, "Couro de Gato" de Joaquim Pedro de Andrade e "Arraial do Cabo" de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro, que se tornaram clássicos. Trata-se de um espaço por excelência, da experimentação e renovação da linguagem. O tempo físico neste caso é ficha técnica, o que fica é a experiência estética que atinge um nível de transcendência onde a duração temporal é subjetiva e reverbera na imaginação. Temos um conjunto de filmes de curta-metragem que integram o patrimônio audiovisual mundial, além da produção educativa, realizada especialmente por Humberto Mauro que tiveram uma grande função “social”.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Por critérios estritamente comerciais, já que o longa-metragem atende a um tempo de programação compatível com a grade das salas de cinema e deste modo chama mais atenção e movimento uma economia maior. Nos anos 90, na Era Collor, quando a produção de longas minguou no Brasil, os curtas ocuparam o primeiro plano e forjou-se inclusive o movimento chamado ‘A Primavera do Curta’, do qual fui até incluído, que se notabilizou pela capacidade narrativa e também pelo exímio acabamento. É bom lembrar que nesta Idade Média da produção brasileira, vários fotógrafos atuantes na publicidade migraram para o curta o que imprimiu aos filmes uma excelência visual nunca vista antes na produção do gênero. Lembro-me que se falava na época de um tipo de curta chamado "portfólio" ou "mini-longa", que miniaturizava a mesma estrutura de um longa convencional para um formato mais compacto. É claro que paralelo a isso, se contrapunha a experimentação.

A mídia estampou na capa dos segundos cadernos toda esta fase luminosa do curta e, na medida que os editais voltaram, os curtas retornaram ao segundo plano. O curioso é que houve uma crise criativa a partir daí, pois a função dos filmes mudou e não fazia sentido repetir o mesmo procedimento. Hoje vemos fenômenos como o documentarismo mineiro, que dialoga com as artes plásticas, arejando assim a produção ensaística.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Em parte sim, pois há toda uma mistificação sobre se dirigir um longa como se só assim, o autor alcançasse enfim a sua maturidade artística. A repercussão social de um longa, sem dúvida, é maior, a cobertura da mídia é superior, mas isso não garante a sobrevivência do filme enquanto fenômeno sócio-cultural. Autores como Agnés Varda, por exemplo, segue fazendo seus curtas, independente desta hierarquização.

Até por que, quem trabalha na fronteira das artes, realizando instalações, web-art, não tem essa necessidade de se adaptar ao tempo padrão das salas de cinema. O Jean-Luc Godard fez uma constatação interessante à respeito: por que um filme precisa necessariamente ter o mesmo tempo que uma partida de futebol (em média 90 minutos)? É quanto em média, com raras exceções, o sujeito "suporta" sentado numa poltrona de uma sala escura...

Entre os anos 50 e 70, haviam os longas de esquetes, que aglutinavam de 2 a 4 curtas de autores conceituados como os filmes "Amores na Cidade", "ROGOPAG" e "Bocaccio 70", entre outros. É uma forma de amplificar a circulação dos curtas, desde que sejam parte de um projeto de longa-metragem. Outra saída é a composição de programas afins temática e esteticamente, que possam se equivaler à duração de um longa e assim ocuparem os espaços consagrados. Do contrário, resta-nos o chamado circuito alternativo dos cineclubes onde sobrevive a criação independente e experimental não subordinada à pressão do mercado.

Por outro lado, há uma espécie de culto-à-metragem que não contribui pra essa discussão. Ninguém diz que "O Cão Andaluz" do Buñuel é um curta, inclusive ele é distribuído num DVD solo. Antes de tudo é um filme, cuja duração é curta. Há que se tomar cuidado em não valorizar o tempo físico, o foco é outro. É claro que a duração cria um conjunto de filmes que precisam de outra estratégia de circulação e distribuição, naturalmente.
Sempre me incomodou a auto-intitulação por parte de certos realizadores, de curta-metragista. Soa pejorativo, infantilizado.

Você já dirigiu vários curtas (‘Caramujo-Flor’; ‘Enigma de Um Dia’; ‘Glauces - Estudo de um Rosto’; ‘Helena Zero’). Como é o seu processo de escolha destes trabalhos? Como é a composição do seu trabalho?
Realizar a síntese é às vezes mais difícil do que comportar a prosa dentre de uma história de longa duração, onde a palavra pode servir de muleta pra falta de imaginação sonora e visual. Concordo com o Fellini quando diz que o autor realiza um filme só à vida inteira, com uma luz própria onde de filme pra filme questões são retomadas, revistas e revisitadas. Basta ver uma seqüência de um filme do Fellini ou do Antonioni pra reconhecer a autoria, pois o estilo prevalece como protagonista da história.

No meu caso, parto de uma palavra, uma sensação, algo que me persegue ou que não lembro exatamente até dar forma a um argumento. Mas é no processo que o filme nasce e o tempo de duração resulta do ritmo imposto pela abordagem, pela natureza dos materiais arranjados. Há um princípio fisio-químico que deve ser observado, e sobretudo o olhar dos colaboradores envolvidos que construirão novos sentidos à composição do trabalho. Há que se confiar na natureza, incorporar o improviso não como ponto de partida, mas como desdobramento da ação desencadeada. É um jeito particular, onde a experiência é intensa, radical de longa-metragem, e a feitura resulta breve, como se arvorasse voar.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tenho dois projetos encaminhados, um chama-se "Cinema de Sombras" e outro "A Morte do Pai" aguardando apenas um incentivo de produção. Penso sempre em filmes-haicai, pois a poesia está muito ligada ao sentido da brevidade, do sumo, do gesto essencial, da abstração do tempo. O Robert Bresson costumava dizer que seu sonho era chegar a cinco minutos de cinema puro...

Não tenho uma visão linear e hierárquica deste processo. Após filmar "500 Almas" realizei por absoluta necessidade "Dormente", que talvez seja o meu trabalho de maior repercussão de público, inclusive. Ganhou vários prêmios, inclusive num Festival no Irã e teve cópias adquiridas para o acervo do Festival de Oberhausen e Moma.

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