segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Júlio Lellis



Júlio dirigiu diversos curtas e, atualmente, está realizando a montagem de um longa-metragem sobre a vida da escritora Nélida Piñon, numa produção hispânico-brasileira. "Nélida Piñon - O Atlântico e suas Correntes" conta a vida e obra de uma das mais importantes escritoras do mundo.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Recebi do escritor Otávio Mello Alavarenga um livro intitulado "O Rosário de Minas", contando a história de sua família. O seu avô, Aristides Junqueira, cavaleiro de muitas viagens, precursor da hipnose e do cinema documentário em Minas, fez em 1909 alguns pequenos filmes de sua família e de vizinhos. Para nós do século XXI, são pequenos curtas. Tudo isto está desaparecido. Eu penso que tipo de história pode ter um país que não respeita e não vislumbra um Brasil com seu povo retratado em imagens de algum tipo. Penso que não há história se não há um arquivo. O Brasil não tem um órgão que seja que realmente cuide de sua cultura, das suas imagens, etc. O que temos está muito maltratado e sem verbas. Por isso, fica muito difícil colocar uma real importância histórica da linguagem do curta-metragem na cultura nacional. Não há formação real acadêmica ou histórica para a linguagem.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Deveria existir uma lei que obrigasse os canais abertos a passar um curta metragem, como era feito nos cinemas há tempos atrás. Os curta-metragistas deveriam abrir mão durante um tempo predeterminado de algum pagamento de seu trabalho para que o público se acostumasse com a linguagem. Já é muito importante o fato em si: o curta ser exibido, um grande avanço. Poderia ser inserido entre uma novela e outra. Sabemos que o Brasil é um dos países que mais produz curtas e os mesmos ficam restritos a cineclubes ou circulando entre amigos e alguns poucos sites direcionados para isso.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
As pessoas acreditam que os curtas são de má-qualidade. Isso perdura até hoje entre alguns segmentos da população, mas não podemos esquecer que as novas gerações não passaram por essa lei, portanto, não tem essa "mágoa antiga", por assim dizer. Podemos restabelecer isso. A duração de um curta talvez não movimente os donos da mídia a investir em divulgação, pois acham que é uma arte de pouco apelo. Talvez a solução seja juntar em uma sessão de cinema alguns curtas afins. tenho certeza que o público se interessaria. É uma questão de costume e divulgação. Não há uma política cultural para isso. Recentemente, na cidade de Congonhas do Campo, em MG, uma curta-metragista chamada Lucia Farinha fez um filme contando sobre uma lenda local e nem a própria cidade exibiu. O interesse do povo existe. O que não existe é algum interesse das distribuidoras e associações políticas em dar força a esta linguagem. Historicamente podemos atribuir isso também à grande poda assassina que foi feita na EMBRAFILME por políticos brasileiros movidos por interesse estrangeiro.

Denise Lopes, professora da Faculdade Estácio de Sá na área de cinema, tem uma tese sobre o assunto, versando sobre o que foi de real interesse político estrangeiro e brasileiro nessa grande maracutaia feita nos anos 80.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Sofri esse preconceito recentemente. Tenho 8 curtas de ficção, 3 curtas documentários (entre eles um sobre a atriz Léa Garcia e outro sobre a escritora Nélida Piñón que foi exibido na UNAN - Universidade do México quando a referida recebeu o prêmio honoris causa ) em meu currículo. Alguns colegas vieram falar comigo me felicitando por eu ter "realmente ingressado na carreira de cinema" por eu estar fazendo meu primeiro longa de ficção. Eu comentei do meu currículo de 5 anos de curtas ... Os tais colegas me responderam que isso não contava!!!???

Você já dirigiu vários curtas (‘A Família Ruiva - Onde Estará o Bebê Ruivo?’; ‘Broadway Off Broadway – Sobrevivendo’; ‘O Menino que Abraça Árvores’; etc.). Como é o seu processo de escolha destes trabalhos? Como é a composição do seu trabalho, etc.?
Sempre me chegam as histórias através de alguém próximo. Os amigos costumam me dizer que sou um contador de histórias, tanto minhas como as que me contam. Sou do interior de MG e gosto de contá-las através de imagens. A minha ida para o cinema foi através da escritora Nélida Piñón pois pensava na época dirigir um conto chamado "Disse Um Campônio à sua Amada". Tentei durante vários anos produzi-lo, sem sucesso. Mas não desisti, pois me sinto um desbravador de idéias. Esta história demandaria uma grande produção em todos os níveis por causa da magnitude da estrutura do conto, portanto, acabei adiando esta produção. A chance de realizar outros curtas vieram em seguida, me levando para um outro caminho.

Ouço as histórias, converso com meu sócios e colocamos tudo em forma de roteiro, já pensando em cenas e planos. "O Menino Que Abraçava Árvores" me foi contado por um dos meus sócios, Breno Pessurno (uma passagem da sua infância)e a delicadeza da narrativa me inspirou a criar esta fábula. "A Família Ruiva" foi uma idéia divertida de meu outro sócio, André Damin, na qual eu agreguei alguns personagens saídos da minha cidade, Conselheiro Lafaiete. "Talco Show" e "Princesas Desencantadas" são curta-metragens realizados em 2009.

Não tenho uma fórmula previamente planejada, mas a cada história que ouço sempre me vêm as imagens que gostaria de filmar. Procuro levar para as telas o que ouvi e o que vivi.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim, claro! É uma história sobre o poeta Carlos Drummond de Andrade. Seria o encontro do poeta com Elke maravilha, a partir de um pequeno caso que me foi narrado por ela. O roteiro está pronto e estou atrás de locações e etc. Filmei um longa-metragem recentemente que está em fase de finalização, intitulado "Mea Culpa", com as participações de Elke Maravilha, Daniel Del Sarto e Cristina Prochaska. Foi um trabalho de junção de forças e talentos. Completamente sem patrocínio, juntamos artistas e equipe técnica que trabalharam em regime de cooperativa. Ou seja, como eu, existem muitos profissionais que acreditam haver uma saída para um trabalho independente. Mas isso só aconteceu por causa da minha experiência com os curta-metragens, portanto, para mim, não difere em esforço da criação de um longa, pois também é um trabalho árduo...É como estar na roça: cavando buracos na terra para poder plantar algo. Penso no cinema assim: como um homem do interior, um agricultor simples, que quer ver as plantas crescendo.

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