sábado, 1 de dezembro de 2012

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


SANGUE DE PANTERA
Rubens Francisco Lucchetti


Val Lewton é a essência do Horror no Cinema. Recordando-me de seus filmes, não encontro paralelo na História do Cinema. Outros produtores, como Roger Corman e William Castle, tentaram imitá-lo, mas não conseguiram. Cada vez me convenço mais de que ele é o Edgar Allan Poe do Cinema, pois foi quem melhor soube retratar o medo – segundo o roteirista DeWitt Bodeen, as “histórias que ele levou à tela são dramatizações da psicologia do medo” – nas telas cinematográficas.
Toda a obra de Val Lewton – uma obra pequena, diga-se de passagem, já que ele produziu apenas onze filmes – marcou minha vida. Porém, foi Sangue de Pantera (Cat People), realizado em 1942, que me provocou o primeiro espanto. E isso aconteceu por volta de 1948, quando vi a fita pela primeira vez, num cinema de Ribeirão Preto, e percebi o quanto eram banais os filmes de Horror a que havia assistido até então.
Seguindo o exemplo de outras fitas de Val Lewton, em Sangue de Pantera o horror é muito mais sugerido do que mostrado. Na verdade, Val Lewton sempre evitou mostrar claramente o horror e o terror: preferia obter a expressão cinematográfica do horror e do terror por meio da sugestão.
Roteirizado por DeWitt Bodeen e fotografado por Nicholas Musuraca, Sangue de Pantera conta a história da desenhista de moda Irena Dubrovna (Simone Simon), descendente de uma antiga raça de mulheres-felinas que, quando excitadas, se transformam em panteras. E o filme tem inúmeras seqüências dignas de figurar na mais rigorosa antologia do Horror no Cinema – ou do Cinema em geral. Há, porém, uma que merece ser destacada: a da piscina, com os ecos dos gritos de Alice (Jane Randolph) se confundindo com os urros de uma fera, que jamais é vista e cuja sombra, deslizando indistintamente na água agitada pela vítima em pânico, pode tanto ser a sombra de uma pantera como a de uma mulher. A seqüência é de uma simplicidade espantosa, uma vez que é feita somente por sons e sombras.
E Sangue de Pantera continua tão atual como na época em que foi realizado. Isso porque é uma obra-prima, e toda obra-prima é atemporal.
Ah, sim, já ia me esquecendo! Sangue de Pantera foi dirigido por Jacques Tourneur...
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.
Este texto foi publicado originalmente no número 3 de Set Especial Terror e Ficção, em janeiro de 2002.

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