segunda-feira, 1 de maio de 2017

Os Trapalhões: Braz Chediak


BRAZ CHEDIAK
Roteirista


Você trabalhou na estreia de Renato Aragão no cinema. Como recebeu o convite para escrever o roteiro de Na Onda do Iê-Iê-Iê?
Eu havia datilografado o roteiro de uma comédia para o diretor Aurélio Teixeira, que se passava na Polícia Militar. Como estávamos vivendo sob a ditadura, o filme foi proibido antes mesmo de ser filmado. Disseram que denegria a imagem da polícia a filha do Coronel se apaixonar por um soldado e – pior ainda – ter um ou dois soldados trapalhões era inadmissível.
Como havia sido convidado para trabalhar como assistente de direção, fui à noite à casa do Aurélio, sem saber do fato. Cheguei lá e encontrei todo mundo triste, o Aurélio, o produtor Jarbas Barbosa, a atriz Gracinda Freire, mulher do Aurélio. Enfim, todo mundo estava tenso, chateado. Contaram, então, da proibição. E levei um susto. Eu estava sem dinheiro e precisava de um trabalho urgente. E, na minha ingenuidade de um quase menino do interior, perguntei por que não escreviam outro roteiro. O Aurélio me olhou com cara feia, perguntando: “Você acha que é fácil, garoto?
Respondi: “Acho que não é difícil.”
O Aurélio já ia me xingar, quando a Gracinda falou: “Deixa o menino tentar, Zé!” Na intimidade, ela chamava o Aurélio de Zé e o Jarbas Barbosa o chamava de Lelo.
Ele então disse que eu escrevesse qualquer coisa, qualquer ideia. E ali mesmo, sentado no chão, com um bloco e uma caneta, fiz uma sinopse.
Não era novidade. Na realidade, era o mesmo roteiro que tinha sido proibido, só que mudei os ambientes e os personagens. Ao invés do coronel, coloquei um dono de gravadora; ao invés do soldado galã, coloquei um cantor; no lugar da competição esportiva, coloquei um concurso de calouros.
Ninguém percebeu. O Aurélio leu a pequena sinopse e disse: “Acho que dá um filme. Olha isso, Jarbas.”
O Jarbas leu e sua feição foi modificando. Começou a falar, alegre: “Nessa cena, eu coloco o Renato e Seus Blue Caps; nesta, eu coloco The Fevers...” E assim sucessivamente.
Para ele, Jarbas, que era irmão do Chacrinha, colocar os músicos era fácil; ninguém cobraria e daria publicidade. O Chacrinha era um rei dentro da televisão e faria uma boa divulgação do filme. Na mesma hora, o Aurélio me perguntou em quanto tempo eu faria um roteiro. Respondi que em uma semana. Contrataram-me no ato; e, no dia seguinte, comecei a escrever na casa do diretor, pois lá eu podia almoçar de graça. Fiz primeiro a estrutura aristotélica, com começo, meio e fim, como era em todos os filmes da época. Depois, era só preencher com a ação cênica e os diálogos.
E diálogo era minha especialidade, já que eu estudava Nelson Rodrigues todos os dias.
Eu escrevia rapidamente; e o Renato Aragão, então começando, colocava as piadas ou gags.
E, assim, conseguimos fazer o roteiro em uma semana ou quinze dias, não me recordo.
O filme foi um sucesso tão grande que, no dia seguinte ao lançamento, encontrei o Jarbas na rua. E ele me disse “Chediak, as filas pra ver o filme dobram o quarteirão. Os gerentes estão rasgando as entradas no meio para vender dois ingressos...” Antes, eu havia trabalhado como ator no filme O Homem Que Roubou a Copa do Mundo, do Victor Lima, e feito a assistência de direção de Giorgio Moser (diretor italiano) numa série para a RAI (televisão italiana) baseada em contos de Robert Louis Stevenson. Mas Na Onda Do Iê-Iê-Iê foi meu primeiro trabalho atrás das câmeras para o cinema brasileiro.

O filme tem muitos números musicais. Como foi o desafio de “amarrar” a história entremeada com as músicas?
Como a história se passava num ambiente musical, não houve problemas. No concurso de calouros era fácil: o ator que fez o papel principal foi o cantor Sílvio César e o cantor que disputava o “trono” era o Paulo Sérgio que, na época, imitava o Altemar Dutra e em seguida fez uma brilhante carreira imitando Roberto Carlos.
Ambientei a maioria das cenas em locais que permitiam músicas, como boates, estações de tevê etc. E olha que tinha muita gente: Wilson Simonal, The Fevers, Leno e Lilian, Wanderlei Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, Os Vips, Renato e Seus Blue Caps, Ed Lincoln, além do Sílvio Cesar, que era o ator principal. No conjunto do Ed Lincoln, o rapaz que toca baixo sou eu e o baterista era o Miltinho, que hoje está no programa do Jô Soares. Quando você tem uma boa estrutura dramática, as dificuldades são mais fáceis de serem superadas.

Quais foram as suas referências para montar a estrutura do roteiro?
Olha, Rafael, eu gostava mesmo era de John Ford, Elia Kazan, Hitchcock, Fellini etc. Mas, em minha cidade, Três Corações, havia assistido a todos os filmes com Elvis Presley, Pat Boone e outros cantores da época e percebi que as histórias, as estruturas dramáticas, eram iguais. Mais ou menos o que acontece com as novelas de hoje. Então, talvez tenha sido essa a referência para o roteiro.

Renato Aragão e Dedé Santana ajudaram no tratamento do roteiro?
O Renato, sim. Foi ele quem criou as piadas, as gags. Não interferiu na estrutura, pois ela estava bem costurada. E, quando se tem uma estrutura assim, não se deve mexer, porque pode desmoronar tudo. O Renato é muito profissional. Por isso, fez essa brilhante carreira que conhecemos.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
O cinema é a arte do diretor, e o Aurélio era muito seguro em sua direção. Ele sabia tudo, da maquiagem à luz, da interpretação à montagem. E não achava bom o ator participar da parte técnica. Por gostar de meu trabalho como roteirista e assistente, ele permitiu que eu participasse de tudo, até o lançamento. Compreendia que eu estava aprendendo direção e, como ele, precisava entender de tudo. Mas o Renato, que estava começando na televisão, partiu para outro trabalho logo que as filmagens terminaram.

O argumento é seu também?
Sim.

O filme foi dirigido por Aurélio Teixeira. Como foi trabalhar com ele?
Foi ótimo. Ele entendia de tudo o que se refere ao cinema, e aprendi muito. Fizemos até uma parceria e trabalhamos juntos em: Mineirinho Vivo ou Morto, com o Jece Valadão e Leila Diniz nos papéis principais; Juventude e Ternura (com a Wanderléia, o Ênio Gonçalves como galã e Anselmo Duarte como o bandido), Os Mansos, com Jardel Filho, Sandra Bréa, Felipe Carone, Ary Fontoura, o próprio Aurélio como ator (excelente). Também eu fiz um papel e dirigi um episódio.
Como galã da história que dirigi, convidei o Paulo Coelho, que, mais tarde, se tornaria escritor de sucesso em todo o mundo. Mesmo depois de eu já ter dirigido Navalha na Carne, voltei a trabalhar com o Aurélio Teixeira. Foi em Meu Pé de Laranja Lima, no qual dirigi os atores infantis, pois o Aurélio não tinha muita paciência com criança.

Quais as suas principais recordações desse filme?
São muitas. Fiz amizades com pessoas que admirava, como Mário Lago, por exemplo, do qual fui amigo até sua morte e chegamos a escrever um roteiro juntos (mas isso é outra história). Leila Diniz era minha companheira de papos, já que ela era amiga de Gracinda e ia todas as noites na casa do Aurélio; e, terminado o trabalho, íamos juntos até a TV Rio, onde ela se encontrava com o Henrique Oscar, seu namorado na época. Depois, ela trabalhou conosco em Mineirinho Vivo ou Morto. Enfim, todo filme é uma história, uma vida.

Você construiu uma grande trajetória no cinema, assim como Renato e Dedé. Qual a importância desse filme na sua carreira?
Como foi meu primeiro filme brasileiro atrás das câmeras, vi, de cara, como é fazer um filme em nosso país. Aprendi muito a técnica, tomei intimidade com a câmera, com produção, direção, montagem, sonorização, mixagem etc., coisa que me foi útil para os filmes que dirigi.

Imaginava que esse filme era só o começo de uma grande trajetória no cinema de Renato e Dedé, que, futuramente, iriam criar Os Trapalhões e “dominar” o cinema do país?
Percebi que o Renato era um grande trabalhador e amava seu trabalho. O Dedé gostava muito da direção, também. Vivia me perguntando sobre lentes, movimentos de câmeras etc. Eu vi logo que fariam uma grande carreira na tevê, mas eles foram além: fizeram uma grande carreira na televisão e no cinema, o que é muito difícil, em todo o mundo.

Já dava para perceber o talento deles dois?
Claro. O talento e a disciplina. E que tinham garra. Por isso, fizeram uma carreira brilhante. Fazem parte do imaginário do País.

Nos números musicais, além de várias canções compostas e interpretadas por Sílvio César, há ainda a apresentação de diversos artistas de sucesso da época: Paulo Sérgio, Wilson Simonal, Wanderley Cardoso, Rosemary, Clara Nunes, The Fevers, Os Vips. A escolha desses artistas foi sua?
Não. A escolha foi do Jarbas, talvez orientado por seu irmão, o Chacrinha. Aliás, o filme se passa, em grande parte, no programa do Chacrinha. Tem uma cena no filme, no programa do Chacrinha que, se você prestar a atenção achará no auditório o Jece Valadão, a Gracinda e alguns atores da época. Eles estavam na TV Rio, onde foi feita a cena, e assistiram às filmagens do auditório, onde foram filmados.

Por que, após esse filme vocês não trabalharam mais juntos?
O Renato viu meu trabalho escrevendo o roteiro e no set de filmagens e, depois do filme, convidou-me para fazermos outros filmes. Mas eu não aceitei, achei que ainda não estava preparado para dirigir. O J. B. Tanko aceitou e fez grandes sucessos com a dupla. O Tanko era um diretor tarimbado, muito bom. Eu precisava fazer mais assistências, aprender mais.

Qual a sua avaliação a respeito do cinema dos Trapalhões?
Muito boa. Lembro que os assistia junto com as crianças; e elas riam sem parar, imitavam o Renato, o Dedé, o Zacarias, o Mussum. Meu filho, o músico Yassir Chediak, me fala dos Trapalhões até hoje. Eles fizeram parte da alegria de gerações.

Que representou, em termos de linguagem cinematográfica, o cinema dos Trapalhões?
São comédias muito benfeitas, bem dirigidas, com uma turma de grandes artistas. Sua linguagem influenciou muito a nova geração de comediantes.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
A velha crítica. A nova crítica é feita por pessoas que cresceram vendo Os Trapalhões e têm uma visão diferente. Não só deles, mas do cinema brasileiro como um todo. Hoje, todo mundo que gosta de filmes compreende a importância dos Trapalhões na história de nosso cinema.

Gostaria que contasse alguma curiosidade ou fato desconhecido do público que tenha presenciado como testemunha ocular.
Bom, quem ia fazer a mocinha era uma atriz de nome, já consagrada, conhecida do grande público. Para fazer o teste de fotografia com roupas, ela levou uma garota como ajudante.
Era no estúdio do Herbert Richers. O Aurélio fez o teste, me chamou à sua sala e disse: “Chediak, dirija o teste com a garota que está com a fulana.” Chamei o fotógrafo disponível na hora e fiz alguns ensaios fotográficos. A garota era fotogênica, reagia etc. Foi ela a escolhida. Era Valentina Godói. Outra coisa interessante é que, anos depois, diziam que quem iria fazer o papel era a Leila Diniz, mas que o Aurélio a substituiu. Não é verdade. Como disse acima, Leila Diniz ia todas as noites à casa do diretor e era nossa amiga. Já estava escalada para um próximo filme: Mineirinho Vivo ou Morto. Ah, um caso que presenciei e ri muito: fomos filmar na casa de um milionário, na Gávea. A senhora, dona da casa, já idosa ficou maravilhada, quando viu o Mário Lago. Lá pelas tantas, começaram a falar do regime militar e a senhora disse: “Sr. Mário, dizem que na Rússia comem criancinhas. É verdade?” Como sabemos, o Mário era um comunista de carteirinha. Então ele olhou para a tal mulher e respondeu, sério: “É verdade, minha senhora. Bem assadinhas são uma delícia!” Ela fez o Sinal da Cruz e caiu na gargalhada, enquanto o próprio Mário fazia força para não rir.

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