segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Paulo Sacramento



Montador, diretor e produtor que estreou em 2002 na direção de longa-metragem com o documentário O prisioneiro da grade de ferro. É autor dos curtas-metragens Ave e Juvenília – este último foi premiado nos festivais Henri Langlois (França) e Rimini (Itália).

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta sempre teve uma presença importantíssima na história de nosso cinema. O cinema nasceu curto e esse formato mantêm-se presente e importante até hoje. Serviu de porta de entrada para todos nossos grandes cineastas (Glauber, Sganzerla, Lima Barreto, para citar poucos), foi produção constante de Humberto Mauro e nos anos 90 adquiriu status de resistência artística após o desmonte Collor.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Quando comecei a fazer cinema no início dos anos 90 ainda era respeitada a Lei do Curta, com exibição compulsória desses filmes antes dos longas. Lembro-me de críticas de curtas sendo publicadas no jornal Folha de São Paulo, e tenho forte lembrança de escolher a sala de cinema em que eu assistiria a um longa exatamente pelo curta que passava antes. Hoje a circulação está restrita a festivais e não se justifica tal visibilidade em um veículo de grande abrangência, infelizmente.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Essa pergunta estava muito em voga nos anos 90, e muitos cineastas diziam que poderiam permanecer fazendo apenas curtas. Os anos se passaram e o que vimos foi que os que não migraram para o longa abandonaram a profissão. Trata-se é claro de uma questão de sobrevivência. Se os curtas não têm um mercado, não conseguem garantir a subsistência dos realizadores. O que não impede que alguns cineastas voltem de maneira esparsa a fazer curtas.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Ao contrário, é um formato pelo qual todos têm enorme carinho. Hoje em dia, porém, com a facilidade de produção das mídias digitais, multiplicaram-se os cineastas e temos uma quantidade imensa de estreantes ano após ano que inviabiliza um acompanhamento constante do principal dessas produções, a não ser pelos profissionais de Festivais.

Na sua opinião, qual a diferença em trabalhar em longas e em curtas?
É muito diferente. No campo da montagem, por exemplo, a diferença é gritante. Primeiro pelo peso do trabalho. É algo como correr 100 metros ou uma maratona. Se eu levava 2 a 3 semanas para montar um curta, em longa este trabalho leva de 5 meses a um ano. Em curta eu podia fazer 4 ou 5 trabalhos por ano, variando bastante o estilo dos filmes. Com longas, monto apenas um filme por ano. É um trabalho extenso, paciente, de extrema precisão na busca da coerência ao longo dos 100 minutos do filme. Já no curta, normalmente, a busca é pela eficiência e intensidade. Atingir o máximo, rapidamente. Enfim, é outra linguagem praticamente.

Conte como foi filmar "Ave", seu processo de criação, produção e direção.
Foi um exercício de concisão. Queria em meu primeiro filme atingir o máximo de expressão com o mínimo de elementos. Um personagem, uma locação, sem diálogos. Pude me concentrar muito na decupagem, sem me perder nas dificuldades de produção. A equipe tinha apenas 4 pessoas, muito centradas na execução. Filmamos em apenas um dia mais de quarenta planos. Quando a filmagem terminou estava tão exausto que fiquei doente por duas semanas, o negativo só foi para o laboratório para ser revelado depois disso. Ah, filmamos apenas uma lata de 16mm, algo em torno de 11 minutos.

Conte como foi filmar "Juvenília", seu processo de criação, produção e direção.
Foi o passo seguinte. Novamente uma única locação, um único núcleo dramático. Mas sete atores, e um cachorro. Novamente eu estava muito focado na decupagem, buscando um controle muito grande da linguagem do filme. O roteiro era muito forte e os atores estavam muito envolvidos no projeto. Havia uma preocupação de todos em fazermos tudo muito rápido, estilo guerrilha, pois sabíamos que o filme poderia ser interrompido a qualquer momento, como efetivamente foi. Os últimos dois planos foram rodados sem a minha presença, pois eu estava prestando esclarecimentos na delegacia mais próxima. Foi um filme que realizamos de maneira 100% pensada, estudada, planejada, com Storyboard completo.

Pensa dirigir um curta futuramente?
Não, mas depois de anos afastado do formato tive a alegria de montar um novo curta do grande cineasta Aloysio Raulino, intitulado Celeste, que abriu o festival de documentários É Tudo Verdade deste ano. E devo na próximas semanas iniciar a montagem do próximo curta de terror de Dennison Ramalho, Ninjas. Estou achando o máximo.

Qual é o seu próximo projeto?
Vou dirigir um longa de ficção chamado O Olho e a Faca. É um projeto muito grande e desafiador, com muitas dificuldades técnicas e de logística, muitas locações, muitos atores e figurantes. É um roteiro muito preciso e provocador. Estou muito concentrado em fazer este projeto acontecer e tenho certeza que ele terá um impacto bastante forte quando explodir nas telas.

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