quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Conheça as várias faces de R..F. Lucchetti - parte 4



A VIDA EM PRETO E BRANCO
A carreira de Lucchetti teve como peça fundamental a figura carismática de Nico Rosso, famoso desenhista italiano.

Valter Martins de Paula

Rubens Francisco Lucchetti teve sua primeira história em quadrinhos publicada quando tinha 15 anos, intitulada “A única testemunha”. Era uma história de mistério, gênero que, mais tarde, se tornaria algo constante em seus roteiros. Rubens justifica esta preferência pelo mistério da seguinte maneira: “Fui criado com literaturas policiais inglesas e não poderia deixar de ser diferente. Minhas histórias jamais poderiam transcorrer no Brasil. Sou incapaz de criar uma trama com a policia daqui, tão suja, mal vestida e mal paga”.

Sua carreira com roteirista de histórias em quadrinhos tomou forma consistente quando ficou amigo de Nico Rosso, famoso desenhista italiano que, na década de 60, veio para o Brasil para aperfeiçoar suas técnicas de desenho. “Minha primeira reação foi entregar-lhe alguns roteiros para ele desenhar,mas, depois de alguns dias fui informado que meus roteiros continham muitos diálogos e, como as HQs são desenhos por excelência, mergulhei numa frustração profunda, só contatando-o um ano depois”.

As primeiras histórias que Rubens escreveu e que tiveram desenhos de Nico foram “A Condessa Sinistra”, “O Segredo do Doutor Roger Blackhill”, “O Quadro Maldito” entre outros, realizados no período entre 1966 e 1967, mas que não guardam grandes surpresas, já que Rubens não aprecia nem um pouco essas histórias. “Eram feitas por encomenda e com o único propósito de preencherem páginas de uma revista para a qual prestava serviços”, julga Rubens.

Rubens trabalhou com Nico durante os anos de 1966 a 1972. era uma época, no Brasil, em que os quadrinhos começavam a tomar forma como um produto da indústria que podia ser levado a sério e o maior exemplo disso é a revista “A Cripta” que teve um nascimento fértil, porém, um fim triste: “Tão logo comecei a produzir os quadrinhos em impresso, tive vontade de rasgar a revista, pois a editora não respeitava minhas idéias e disponibilizava um papel de péssima qualidade para leitura”, diz.

Depois da investida desastrada, Rubens começou a se envolver com o personagem Zé do Caixão e trouxe o seu amigo Nico para integrar a equipe que produziria uma revista chique com o personagem, uma técnica inédita que mesclaria imagens de filmes e quadrinhos. Depois de seis edições da revista “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, Nico abandonou o projeto. “Pensávamos que estávamos sofrendo um boicote das editoras com as quais trabalhávamos. Depois do fracasso, eu continuei escrevendo roteiros e ele desenhando para outros roteirista de quadrinhos”.

“Encontrávamo-nos quase toda a semana. Eu ia até a sua casa enquanto ele ficava rabiscando algumas folhas. Depois, eu pegava estas folhas e escrevia, baseada naquelas figuras”.

Nico teve uma vida rodeada de tragédias. Em 1976, ele teve toda a sua obra, assim como todos os seus trabalhos, destruídos por uma enchente que inundou a sua casa. Foi aí que a parceria entre ele e Lucchetti acabou realmente, pois logo após o desastre, Nico entrou em processo de “suicídio profissional”, até vir a falecer, em 1981.

Lucchetti relembra com gratidão todos os momentos que dividiu com o amigo, tendo a certeza de que não existirá mais ninguém com a magnitude e delicadeza de um trabalho feito para durar. “Se existe uma palavra que pode definir meu relacionamento profissional com Nico ela é “encantador”. Não desmerecendo os outros desenhistas, mas Nico tinha uma sensibilidade toda especial para captar minhas idéias, sabendo, como nenhum outro, a mágica de conceber em imagens quadrinísticas os meus roteiros. Houve uma grande colaboração e uma imensa compreensão entre mim e ele, e uma perfeita integração entre o meu trabalho e o dele”.

Rubens Francisco Lucchetti é um exímio escritor de histórias, tendo produzido em toda sua carreira nos quadrinhos, cerca de 300 tramas, entre mistério, terror, horror e romances. Mestre na arte de prender e sustentar um leitor por inúmeras páginas, Lucchetti não precisa justificar sua amizade, pois ela não se mede em palavras, e sim, nos sentimentos mais profundos da alma.

“Na imaginação de muitos papalvos, os quadrinhos eram verdadeiras ervas daninhas, que, à medida que ram lidas, iam se apoderando da inteligência e do cérebro dos leitores, reduzindo-os a parias da sociedade, candidatos a uma cela da penitenciária. (...) Felizmente, os quadrinhos, a despeito de tudo sobreviveram e se transformaram na linguagem de hoje. Hoje vivemos este futuro. Hoje vivemos o “tempo da imagem”, como disse Abel Gance”.

Rubens Francisco Lucchetti.



ENTREVISTA

Ivan Cardoso: relato sincero
Amanda Ferreira
enviada especial ao Rio de Janeiro

O cineasta Ivan Cardoso nasceu no Rio de Janeiro em 1952. começou sua carreira em 1970, quando tinha apenas 18 anos. De 1970 a 1974 fez mais ou menos 40 filmes super 8. em 1974 abandonou o super 8 e começou a fazer documentários sobre Mojica, o Zé do Caixão, que foi o elo da parceria com Lucchetti.

Seu primeiro longa, de 1975, foi “Nosferatu no Brasil”, estrelado pelo poeta tropicalista Torquato Neto, parceiro de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Em 35 anos de carreira dirigiu 60 longas, dos quais cinco títulos com roteiros de Lucchetti, entre eles os grandes sucessos: “As Sete Vampiras” e “O Segredo da Múmia”, que atraiu 1,3 milhão de expectadores.

Na entrevista, em sua casa no Vidigal, Rio de Janeiro, sempre direto e aberto, Ivan falou sobre os trabalhos desenvolvidos com Lucchetti.

Claquete: Como o senhor conheceu o Lucchetti?
Ivan Cardoso: Em 1976 viajei para a Europa e comprei uma máquina boulier 16 mm. Comecei, então, um trabalho novo sobre múmia, chamado “Lago Maldito”. Mas, filmávamos sem uma história definida. Contei ao Mojica, durante a realização do documentário “O Universo de Mojica Marins” e ele me falou que iria me apresentar o seu roteirista, o Lucchetti. Falou que ele tinha muita experiência, que era muito bom e já havia feito outros roteiros para ele e para outras pessoas. Ele assistiria ao meu material e, a partir dele, costuraria um roteiro para terminar o meu filme. O Lucchetti ficou tão emocionado e tão animado com a história que, ao invés de fazer um roteiro que concluísse aquele filme, escreveu um roteiro novo, que é o roteiro que você conhece. Ele só utilizou 20% do material antigo. Toda a história era nova. Como nós gostamos muito do roteiro, o adotamos.

Claquete: Qual a sua relação com Lucchetti hoje?
Ivan Cardoso: Nós desenvolvemos uma relação, não só profissional mas afetiva, porém, em virtude dele morar em Jardinópolis, e quase não sair de lá, eu não tenho muito contato com ele.

Claquete: Para o senhor qual o melhor roteiro do Lucchetti?
Ivan Cardoso: Eu gosto muito do roteiro que ele fez para o Mojica “O Estranho mundo de Zé do Caixão”, de “Mulher Mulher” do Jean Garrett, de “O segredo da múmia”, de “As sete vampiras” e gosto muito do próprio “O escorpião escarlate”.

Claquete: O que o senhor acha do filme “Ritual dos sádicos”?
Ivan Cardoso: Eu nunca vi direito esse filme, nunca assisti no cinema, então eu não poderia falar. Mas eu acho que o Mojica termina praticamente a obra dele na trilogia. “O estranho mundo de Zé do Caixão”, “Á meia noite levarei a sua alma” e “Esta noite encarnarei no seu cadáver”. Depois, tanto “Ritual dos sádicos” como “Exorcismo negro”, são filmes espetaculares, mas são filmes que já são diluições da própria obra do Mojica.

Claquete: Quando começamos a fazer o TCC, “Maldito” foi o primeiro livro que lemos, e dá a impressão que André Barcinski e Ivan Finotti descobriram o “Zé do Caixão”. O que o senhor acha?
Ivan Cardoso: Eu sou suspeito para falar, porque fui convidado pelo Jornal O Globo para participar de uma mesa de debate de lançamento, e eu me retirei da mesa por causa disso. O André foi desonesto neste sentido. Na verdade, a primeira pessoa a falar do Mojica foi o Sganzerla (cineasta Rogério Sganzerla, “O Bandido da luz vermelha”). O Sganzerla, em toda entrevista que dava, falava mal de todo mundo e bem do Mojica. Mas eu acho que o filme que resgatou o Mojica para a cultura brasileira, foi esse meu documentário.

Claquete: O Lucchetti acha que o livro e o documentário “Maldito” têm muita coisa que não é verdade e que transformaram o Mojica em palhaço. O senhor concorda?
Ivan Cardoso: O que é a verdade? É uma coisa complicada, o que existe é a verdade de cada um. É claro que o Lucchetti é uma testemunha ocular dessa trajetória do Mojica. Ele conheceu essa trajetória como ninguém.

Claquete: Como o senhor define o Lucchetti?
Ivan Cardoso: O Lucchetti é um grande escritor, porém ele tem um problema: ter nascido em um país que não valoriza este tipo de cultura. Também pelo fato dele se sentir marginalizado, dele ter que, para sobreviver, escrever centenas de livros que ele não gosta. Eu acho que o Lucchetti é muito centralizador.

Ele escreve na máquina dele, na casa dele, da maneira dele. Aqui no Brasil você tem que ser o vendedor de si próprio. E o Lucchetti se vende muito mal. Talvez se ele se vendesse melhor ele teria mais sucesso. A propaganda que ele faz dele é nenhuma. Mas cada um é cada um. Ele não pode ser diferente do que ele é. Se ele fosse diferente não seria o Lucchetti.

Claquete: E esse jeito dele já atrapalhou alguma coisa?
Ivan Cardoso: Talvez tenhamos perdido nossa maior oportunidade. No lançamento do “Segredo da múmia”, por causa do Julio Medaglia, que trabalhou com a gente, nós fomos convidados pela TV Globo. O Avancini tinha um núcleo em São Paulo, e queria fazer uma novela novela de múmia. Mas a TV Globo jamais encomendaria um roteiro a uma pessoa só. Tem que ser um núcleo. E por infelicidade do Lucchetti, a gente caiu num núcleo que tinha o Daniel Más, que era um jornalista que havia trabalhado comigo no “Noferatu no Brasil”, que era a pessoa da língua mais ferina talvez do jornalismo brasileiro. Ele foi editor da Vogue durante muitos anos e escreveu algumas novelas para a Globo. O cara achou o Lucchetti uma figura de outro planeta. Tinha um outro também que era de esquerda, o Lucchetti tinha medo deles. E tinha esse problema do Lucchetti só escrever na máquina dele, o Lucchetti praticamente fugiu do núcleo.

Não são as portas que se fecham para o Lucchetti, o Lucchetti, às vezes, não quer abrir as portas. O que é realmente uma lástima para uma pessoa com o talento do Lucchetti. Por outro lado, ele não tem que se queixar, porque ele tem uma enorme obra de histórias em quadrinhos, de filmes e mesmo os que ele diz que não gosta, nem bota o seu nome.

Claquete: O que o senhor acha do Mojica como pessoa?
Ivan Cardoso: Ele é um cara fora de série. É quase um Salvador Dali. Fez das unhan o seu bigode. Ele é um cara realmente único.

Claquete: Dá para viver como cineasta no Brasil?
Ivan Cardoso: Tem que dar. É difícil, eu só não roubo, não mato e não trafico drogas, mas o resto... .Eu acho que tanto eu quando o Lucchetti e o Mojica, na verdade, nós só temos a agradecer, porque nós demos certo. Se a gente não tivesse dado certo você não estaria aqui.

“O Lucchetti quer porque quer ser um autor cult, considerado cultural, sem que ele entenda que ele, ao natural, já é. Ele é um caso raro. Eu poderia falar uma coisa que até o ofenderia. Quanto pior for o Lucchetti, melhor ele será”.

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