sábado, 7 de maio de 2011

R.F.Lucchetti


EXPERIÊNCIAS EM RIBEIRÃO

Rubens Francisco Lucchetti

O cinema sem câmera nasceu em 1935 com o filme Cllour-Box de autoria de Len Lye, um pintor nascido na Nova Zelândia. É Cavalcanti que nos narra como tudo aconteceu: “... Recordo-me perfeitamente de quando Len Lye nos procurou para dizer que queria fazer um filme sem câmera. Foi preciso muita persuasão, muito“charme” pessoal de sua parte que o ouvíssemos até o fim. Mas ao terminar sua explicação, Grierson e eu estávamos convencidos de que ele faria. Grierson percebeu logo as possibilidades publicitárias do empreendimento e não deixou fugir a “chance”. Além do mais, a explicação de Len Lye fazia tudo parecer coisa muito simples”.

No Brasil são poucos conhecidos esses filmes para não dizer que são totalmente ignorados. Ouros nomes se alinharam ao de Len Lye na produção de filmes desenhados diretamente na película cinematográfica. Podemos citar Norman McLaren, mais conhecido entre nós, e que, segundo Cavalcanti, é um mero imitador de Len Lye.

Se essa modalidade de cinema é pouco difundida em todo o mundo, havendo pouco mais de uma dúzia de pessoas que ele se dedica, conhecemos em nosso país apenas um discípulo de McLaren: Roberto Miller, jovem publicitário paulista que embora quase desconhecido entre nós, tem várias películas premiadas em festivais internacionais e viu um dos seus trabalhos, Sound Synthetic, incluído no Festival “10 anos de filmes sobre arte” que o Museu de Arte Moderna realizou em São Paulo m 1955.

Embora tudo isso existisse, eu ignorava completamente esse cinema, tendo conhecimento somente através de livros e revistas especializadas.

“Descobri” o cinema abstrato, quando, em junho de 1960 o Clube de Cinema de Ribeirão Preto organizou, em colaboração com o Centro dos Cine-Clubes, uma sessão dedicada ao Cinema Experimental e Filme sobre Arte. Nessa noite foram exibidos alguns filmes de Norman McLaren, que chocou a alguns e maravilhou a todos. Como explicá-los? Impossível. Esse tipo de cinema não é para se “explicar” mas para “sentir”.

Desde há muito eu vinha procurando um meio de expressão que me satisfizesse plenamente através do qual eu poderia dar vazão a um novo sentido de arte: interpretar por meio de formas a música, dar movimento a um quadro abstrato ou simplesmente movimentar fantasias de “arabescos’, ‘turbilhões’ de formas, sons e cores. Tudo isso eu imaginava, “sentia” mas não conhecia e fui descobri-lo com trinta anos, com mais de dez anos de atraso, naquela memorável ocasião em que desfilaram diante dos meus olhos Stars and Stripes, Hoppity Pop, A Little Phantasy e Two Bagatelles. Para mim, estava descoberto McLaren, estava descoberto o “cinema sem câmera” – um mundo novo de formas e cores em movimento.

Os filmes interessaram a um grupo de estudantes da Escola de Artes Plásticas de Ribeirão Preto, liderados pelo escultor e cenógrafo Bassano Vaccarini, cujo entusiasmo chegou a tal ponto que o levou a fundar na Escola de Artes Plásticas, um Centro Experimental de Cinema.

Porém, os primeiros entusiasmos se foram apagando, as aulas e os problemas cotidianos foram suplantando a idéia e o número de interessados foi decrescendo até ficarem somente eu e Bassano Vaccarini.

Devido ao alto custo do filme virgem, utilizou-se de uma velha película de 16mm já usadas e sem nenhum valor. Foram gastas 6 horas para livrá-la da camada gelatinosa. No dia seguinte entregava a metade da película a Vaccarini e passei a me utilizar do restante. Pusemo-nos a trabalhar pela noite adentro e, após vários dias, estavam prontos os primeiros cem pés. Incrédulos de um resultado positivo, colocamos o filme no projetor. O momento era de “suspense”. Somente eu e ele. Apagamos a luz e fizemos o projetor funcionar. A emoção foi enorme: permanecemos calados, incrédulos do que víamos.

Meses mais tarde, tínhamos concluído o primeiro filme: Abstrações, que reúne quatro “estudos”, com a duração total de 17 minutos. Depois de concluído o “desenho” deparamos com o problema de sonorização, e que foi satisfatoriamente resolvido com a gravação em fita magnética por Milton Rodrigues, sonoplastia da PRA 7, emissora local e que já traz consigo alguma experiência, pois durante anos foi o responsável pela sonoplastia de jornais cinematográficos e até de alguns filmes de longa metragem.

O ideal seria a transplantação para a “banda sonora” do filme e copiar o que havíamos feito. Mas dado o alto custo, o filme permanece no original e a cada projeção vai se deteriorando. Acredito mesmo que não alcançará mais que uma meia dúzia de projeções pois a tinta (nanquim comum) está se desfazendo.

Estamos estudando um novo filme abstrato que terá o título de ‘Arabescos’, cujo material estamos preparando e esperamos terminá-lo no primeiro semestre de 1961.

Entretanto não é somente o cinema abstrato que tem sido alvo de nossa atenção. Também o de câmera proporciona excelente campo para o filme experimental. Estamos na fase de conclusão do primeiro que se intitula ‘Fantasmagorias’: é a movimentação de uma fantástica paisagem noturna que é mostrada ao espectador com ligeiras tomadas de grandes planos, planos de conjunto e panorâmicas. De repente começa a aparecer no filme uma série de coisas extraordinárias, como a materialização de um fantasma sobre o pântano, outro que sai do interior de um vaso e retorna ao mesmo, materialização de dois estranhos pássaros que são desintegrados por misteriosas explosões, enfim, toda uma série de fatos fantásticos acontece sobre a paisagem, até que clareia o dia e tudo volta à tranqüilidade.

Para os movimentos utilizamos folhas de cartolina preta na qual estão desenhadas as figuras, estes cartões são filmados de um a um (volta da manivela) e depois de todos filmados, voltamos o filme e filmamos o quadro, devendo sobrepor a figura anteriormente filmada exatamente nos seus respectivos lugares.

‘A Sombra’ é um novo filme em fase de acabamento baseado num conto homônimo de Edgar Allan Poe. O filme está dividido em duas partes: a primeira, representando a cidade de Ptolemais com suas ruas desertas e melancólicas; a segunda, a sala onde se desenrolará a trama. Tudo isso será feito sem nenhum movimento das figuras e sim da câmera cinematografia. Para não se cair na monotonia, tudo deverá ser feito de tal maneira que o espectador tenha a impressão de ver uma história “movimentada” quando na realidade é apenas composição de quadros estáticos.

Sobre cinema com câmera há ainda mais dois projetos para filmes, que deverão ser produzidos em janeiro de 1961.

O primeiro Tourbillon, é a movimentação de chenille, pelo processo já citado da “volta da manivela”, ou seja, para cada movimento feito nos fios de chenille, dá-se uma volta na manivela da câmera.

O segundo Cosmos, que deverá, que deverá ser feito por processo inteiramente diferente dos demais, será, uma concepção abstrata da formação do cosmos.
Todos os empreendimentos do Centro Experimental de Cinema têm sido feitos com os meus próprios recursos financeiros, daí, uma simples produção como ‘Fantasmagorias’ que poderia ser feita em pouco mais de uma semana (caso recebêssemos auxilio do governo) levou mais de seis meses para ser concluída. Assim mesmo, dado ao alto custo das cópias e “mixagens”, conservamos o próprio original e a gravação é feita em fita magnética.

Texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo – suplemento literário – Sábado, 25/02/1961.

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