domingo, 1 de maio de 2011

Ruy Gardnier



É jornalista e editor da revista eletrônica Contracampo, ex-professor de linguagem cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, crítico de cinema de O Globo e colaborador da revista Paisà, além de atuar como pesquisador de cinema, cineclubista e curador de mostras de cinema.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Se você pensar que a filmografia brasileira tem entre seus grandes filmes ‘Di Cavancanti’ do Glauber Rocha, ‘Zezero’ de Ozualdo Candeias, ‘Superoutro’ do Edgard Navarro, ‘Ilha das Flores’ de Jorge Furtado, ‘Pixinguinha’ de João Carlos Horta, ‘Tesouro da Juventude’ e ‘Vocês’ de Arthur Omar, ‘Eu Sou Vida Eu Não Sou Morte’ de Haroldo Marinho Barbosa, ‘Partido Alto’ e ‘Nelson Cavaquinho’ de Leon Hirszman, entre muitos outros, você nota rapidamente a relevância artística do formato. Podemos analisar a importância histórica através de dois fatores, a) as grandes obras em curta-metragem deixadas à posteridade e b) a prática do curta-metragem dentro da economia do cinema brasileiro. No segundo aspecto, que se mantém mais ou menos desde os anos 50, o curta-metragem é visto como porta de acesso ao longa-metragem, e freqüentemente o diretor que filma seu primeiro longa jamais voltará ao curta-metragem, a não ser por questões de necessidade (ou seja, por não conseguir recursos para novos projetos de longa). O curta-metragem tem essa reputação de espaço da juventude, da experimentação, mas há muito tempo isso não se confirma quando vemos grande parte dos filmes: muitos dos novos cineastas pensam seus filmes como portfólios para impulsionar seus futuros projetos, seguindo, como é de se esperar, a ideologia dominante e a mentalidade corporativa/publicitária. Em todo caso grandes filmes continuam sendo feitos no formato de curta-metragem. Eu destacaria na última década o Kleber Mendonça Filho, de Recife, e o mineiro Marcellvs L., que hoje circula mais no circuito de artes plásticas do que no de cinema.

Dentro da economia do cinema brasileiro, concede-se ao curta um espaço e uma relevância subalterna. Alguns realizadores, no entanto, subvertem a expectativa e criam algumas das maiores jóias do cinema feito no país.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque o curta-metragem não é um formato tradicional de exploração comercial. Nunca se estabeleceu um circuito para curtas-metragens, e eles têm muito pouca visibilidade sendo exibidos apenas em festivais de cinema. Os jornais trabalham com uma ideia de fato jornalístico em que dificilmente o curta-metragem se inscreve, a não ser quando ganha prêmio em algum festival estrangeiro. Antes, ao menos, havia o espaço do especialista, a coluna do crítico que minimizava essa lógica e chamava atenção para bons filmes, curtas ou não, que estavam fora do circuito exibidor (ou seja, a programação de cineclubes, cinematecas e centros culturais).

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não sei. Sou contra a imposição de curtas-metragens nas sessões regulares de circuito comercial. É claro que seria interessante se os curtas-metragens tivessem maior visibilidade, mas quando até as sessões gratuitas com curtas-metragens (digamos, o programa Petrobras às Seis) têm pouco público, o que fazer? Em todo caso, acho que os programas de disponibilização de curtas na internet (apesar das precariedades de ver filmes por streaming, numa telinha pequena, com vídeo e áudio no máximo aceitáveis) e os esforços da Programadora Brasil notáveis no sentido de fazer circular e tornar visíveis os curtas-metragens.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Comercialmente é inviável. Mas há uma infinidade de realizadores que, por razões estéticas e/ou econômicas, fazem carreira no curta-metragem, como Don Hertzfeldt, Stan Brakhage, Peter Tscherkassky, entre muitos outros. Note-se que para eles não importa fazer "curta-metragem". O que importa é o tamanho que o projeto tem.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
O formato comercial é o longa-metragem. O que marginaliza o curta não são os cineastas, os produtores, o circuito exibidor, nada disso. É a lógica de um sistema. E sistemas não se mudam assim, da noite pro dia. A boa notícia é que grandes filmes podem surgir em qualquer formato independente de qualquer lógica de mercado ou de sistema.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não.

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