quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Carlos Reichenbach


Carlão, como é mais conhecido, dirigiu diversos filmes e fotografou dezenas de trabalhos cinematográficos.

Qual é a grande importância que o curta-metragem deu para o cinema?
Eu acho que antes de mais nada, o curta-metragem é o grande espaço de experimentação, o curta-metragem é realmente o espaço onde envolve o futuro cineasta ter condições de poder arriscar, de investir na linguagem, na experimentação, na inserção, não tem obrigação com o mercado, ele não tem obrigação com a sala de projeção, ele tem obrigação consigo mesmo. Acho que não existe espaço mais livre do que o curta-metragem, acho que isso é um pouco porque ele pode ser enxergado como um campo de experimentação, um campo de experimento, não apenas como um portfólio, como uma espécie de cartão de visitas, ou como um vestibular para o longa-metragem, eu acho que inclusive, existem cineastas que enxergam o curta-metragem como um gênero específico, que inclusive realizam um determinado tipo de trabalho e voltar para o curta-metragem, voltar para aquela obrigação, aquele tempo determinado, e aquelas possibilidades infinitas de poder arriscar aquilo que ele não podia fazer no longa-metragem.

No começo você falou que o começo do trabalho de um futuro cineasta, e às vezes tem muitos cineastas, que começam com o curta, a depender do sucesso, vão para o longa e não voltam nunca mais para o curta, e tem cineasta que vira e mexe faz curtas. Por que você acha que a grande maioria não volta para o curta, ele é marginalizado dentro do próprio meio talvez?
Não, porque no fundo no fundo, 90% de quem pretende fazer cinema e enxergam o curta-metragem como o portfólio, enxergam o curta como a mostra do seu conhecimento de cinema, e não como um gênero em si. No meu caso específico, no meu caso pessoal e muito específico, eu nunca fui muito interessado pelo documentário, não pelo curta, pelo documentário, eu fui fazer, embora na verdade o meu primeiro filme tenha sido um curta-metragem, ainda foi como exercício de faculdade, eu fui trabalhar mais com o curta-metragem depois de pressurizado, porque eu enxergava que a possibilidade do curta-metragem era exatamente essa, exatamente fazer com o curta o que eu não podia fazer, ou seja, fazer um cinema de experimentação e investigação. No fundo o curta-metragem para mim é a possibilidade fazer um cinema mais conceitual, coisa que o longa-metragem não me permite. Não me permite ou eu não quero fazer, o longa-metragem tem um pouco esse caminho, essa característica de coisa mais narrativa, enquanto o curta-metragem não tem esse compromisso. Os últimos curtas-metragens que eu realizei foram curtas como ‘Olhar e Sensação’, ‘Equilíbrio & Graça’, são curtas conceituais, eu fiz pela necessidade de exprimir alguma coisa dentro de uma bitola, que me possibilitasse não ter compromisso com o mercado, o único compromisso é comigo mesmo.

Você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo de metragem?
Eu não enxergo o curta-metragem com essa visão de contar história, você pode aproximar o curta-metragem da literatura como um conto, tudo bem, é possível. Agora eu não me vejo muito, é que eu não enxergo o curta como uma experimentação de narrativa na verdade, para mim esse espaço, esses 10 minutos, não tem uma obrigatoriedade de trazer uma concisão, tem que ser uma idéia muito centrada. Para mim o curta-metragem é um espaço mesmo de experimentação, essa possibilidade que eu tenho de poder, inclusive refletir sobre determinadas coisas que o longa-metragem não me propicia. Foi no ultimo curta-metragem que eu fiz, que foi sobre o entendimento sobre duas religiões, na certa forma o catolicismo e o budismo. E como fazer isso? Só no curta mesmo. Em um certo sentido, aquilo tudo era sobre entendimento, sobre harmonia, e não sei se um filme meu de duas horas ia ter fôlego para falar sobre isso, eu acho que um filme de nove minutos tinha fôlego, por isso que eu chamo o curta-metragem não como um apêndice, mas sim indiscutivelmente, como num gênero próprio. O curta-metragem que eu busco assistir tem que ter um pouco esse caráter de conceituação desse cinema e também enxergado como uma forma de contar na verdade narrativamente um espaço que você não consegue ocupar em um longa.

Os seus filmes, os longas, são mais conhecidos que os curtas apesar de você ter um trabalho em curta-metragem, isso de certa forma te chateia? Não só pela mídia que não divulga um curta-metragem, que não sai uma critica para um curta, e que as pessoas também pouco assistem, a não ser aquele grupo restrito que vai em busca, ele é pouco divulgado?
Isso tem que considerar, a gente tem um problema com o espaço até no longa-metragem, o curta por exatamente por não ter esse vínculo comercial, esse vínculo industrial, esse vínculo com a distribuição e exibição cinematográfica, na verdade é distribuído para poucas pessoas. Isso não me chateia porque eu enxergo os curtas-metragens como uma complementação da obra, como recurso de comunicação de complemento de uma obra de vários filmes, não enxergo isso como um filme isolado na verdade, não sei dizer se isso me chateia, os filmes são exibidos e estão a disposição em alguns lugares, um dos curtas-metragens, por exemplo chamado ‘Arte Cidade’ o outro que foi anexado a convite da Petrobrás como projeto de vários curtas, e eu sempre faço questão de incluir esses filmes nos DVDs dos longas por exemplo, então você pega o DVD de “Dois Córregos” e você tem o ‘Olhar e Sensação’, você pega o DVD de “Garota do ABC” você tem ‘Equilíbrio & Graça’. Eu gostaria sempre fazer um curta-metragem, eu não tenho condições de fazer isso, mas se em cada filme que tiver sido lançado ter um complemento, como a gente faz no cinema, mesmo porque o filme conceitual, na verdade para mim, surge como uma oportunidade, nem sempre eu tenho essa oportunidade de poder realizar, eu não estou interessado em fazer curta-metragem narrativo, de contar historinha através do curta, estou interessado realmente em refletir sobre a minha época, isso é o grande espaço que o curta-metragem te propõe. Isso é um pouco como diz o cineasta... até júri de cinema: “não é importante você se comunicar com muita gente, em um certo sentido, o importante é você comunicar uma coisa importante para pouca gente que esteja preparada para essa conversa, para essa relação”

Evidente que no caso específico dos filmes conceituais o que revisa é o publico mais informado. É como se através do curta eu tivesse a possibilidade de dialogar com pessoas que tem o meu repertório, ou que tem uma informação próxima a minha, acho que todo mundo tem a necessidade de fazer isso, nos longas eu faço isso. Alguns longas que eu tento abranger públicos mais amplos, mais populares, outros que eu tento me comunicar com meia dúzia de pessoas que tenham tido uma experiência de vida parecida com a sua. Isso tem em qualquer meio de expressão, qualquer arte existe a mesma preocupação.

E tem algum curta que você esteja pensando em fazer, algum plano nessa área de curta?
Eu tenho muito interesse de fazer um terceiro curta que fecharia uma trilogia com ‘Olhar e Sensação’ e ‘Equilíbrio & Graça’, que se chamaria “Arquitetura e Fineza”, um filme sobre espaço, fiz um filme sobre o tempo, um filme sobre harmonia, eu queria fazer um filme sobre espaço, espaço físico, essa uma idéia ampla de tudo que é o espaço na verdade, também um filme conceitual, esse é um curta metragem que me possibilitaria isso, para poder fechar uma espécie de trilogia, e dá tempo em um determinado momento, de serem exibidos juntos, fechando uma idéia conjunta. Como eu digo assim: eu exerci várias atividades na minha vida, de qualquer forma o cinema chega muito próximo de outras manifestações culturais do qual eu já fiz parte, um bico em literatura, muito grande minha formação e totalmente literária, sou filho, neto, sobrinho de editor, tenho uma formação musical, eu estudei música clássica, estudei também música popular... eu tive grupo musical, eu faço música, eu estudei composição e arranjo, e minha grande frustração é não saber desenhar uma casinha, eu não tenho a menor habilidade para pintura. E através do cinema eu consigo de certa forma sublimar essa frustração, excluo inclusive fotógrafo, diretor de fotografia, operador de câmera. Vários longas metragens, 35 longas-metragem, onde eu estou de fotografia. Mas através dos curtas, onde eu consigo trazer, me estabelecer, consigo me manifestar, como pintor que eu sou, por isso que para mim , sei lá, o curta-metragem é tanto de experimentação e eu acho extremamente amplo, e como eu sou, vários cineastas também enxergam o curta-metragem como um gênero em si, e não como um trampolim para fazer o longa-metragem. Você quer ver um artista multimídia, numa amplitude, por exemplo de Arthur Omar, que realmente fez curtas-metragem extraordinários e conceituais, Joel Pizzini, tem uma série de outros, Fernando Severo. Existem vários realizadores que trabalham o curta-metragem como um gênero específico, isso que é importante. Talvez por isso mesmo, Carlos Adriano, vários cineastas para quem o curta-metragem é o gênero de cinema que agrada eles. É, na verdade, a bitola que ele encontrou para poder se manifestar, e não mostrar realmente um cartão de apresentação, olha como eu sei fazer um longa-metragem, como eu sei ser publicitário, como eu sei fazer uma novela de televisão. Eu vejo o longa-metragem como um meio de expressão, um filme conceitual se torna uma coisa enfadonha quando passa de um determinado tempo. Então esses cineastas citados acho que são os que melhor entenderam, enxergaram o curta-metragem como um gênero em si, são os nossos verdadeiros curta-metragistas, no sentido mais adulto da palavra. Eles perceberam o curta como um gênero mesmo, eu não quero fazer longa, eu quero fazer um filme de dez minutos, mas exatamente que estabelece um tipo de comunicação que não seja apenas narrativa, nem uma carta de apresentação para produtores, enxergam o gênero como um gênero em si. A grande possibilidade é de eu ter em dez minutos, estabelecer contato com pessoas que possuam a minha informação, o meu repertório, que possui determinado nível cultural. Para você estabelecer esse contato, vai fazer um vídeo de duas horas que é caríssimo, energia, para fazer um filme que vai atingir meia dúzia de pessoas privilegiadas, faz um curta. Não tem problema, em dez minutos, vinte, trinta minutos, o filme é muito amplo, a gente não pode ficar limitado a um tempo pré-determinado. Agora, eu acho que independentemente de qualquer coisa, esses filmes em algum momento chegam ao espectador buscado, seja o filme que for, o curta que for, na bitola que for.

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