quarta-feira, 31 de março de 2010

Daniel Rezende



Daniel é considerado um dos maiores montadores de cinema do país, formou-se em publicidade pela Escola Superior de Propaganda e Marketing. Depois de fazer carreira em comerciais e videoclipes, estreou no cinema com Cidade de Deus trabalho pelo qual ganhou o BAFTA, prêmio da Academia de cinema da Inglaterra, além de uma indicação ao Oscar em 2004. “Blackout”, curta dirigido por Daniel Rezende, ganhou o prêmio de Melhor Curta de Ficção segundo o Júri Oficial do Festival do Rio 2008.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acredito que sim, mas será sempre uma vida de amor à arte, porque o curta-metragem não paga as suas contas. Os orçamentos, quando existem, são sempre enxutos. Geralmente você acaba colocando dinheiro nele.

Como é trabalhar com a síntese no curta-metragem? Seu trabalho com comerciais e videoclipe ajudou?
O que eu acho mais bacana num curta é exatamente a síntese. Me interessa idéia que se resolvem em um espaço curto de tempo e geralmente gosto das mais simples. Curtas que tentam desenvolver muito uma situação, personagem ou uma história geralmente ficam no meio do caminho, acabam sendo “curtas longos”. E como fazer curta no Brasil é sempre muito difícil e, quase sempre, não tem dinheiro, acredito que a solução é exatamente essa. Histórias interessantes que se resolvam com poucos personagens e em poucas locações.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Não acredito que haja mais espaço (do que o pouco que há hoje) pra curtas nas salas de cinemas. Hoje em dias até os longa-metragem estão lutando para não perder esse espaço... Infelizmente, na sala de projeção, os curtas são vistos apenas em festivais (que geralmente tem um público mais específico). Os DVDs estão com os dias contados. Acho que o futuro do curta, sem dúvida, está na Internet.

Ainda estamos no começo, já que a qualidade dos vídeo em sites como o Youtube!, ainda são muito ruins, mas isso deve mudar em muito pouco tempo. Nos Estados Unidos, quase todas as redes de televisão já tem toda a sua série na rede e com uma qualidade muito boa, quase chega a de um DVD. Já se pode alugar ou comprar curtas no iTunes e qualidade é excelente. É uma questão de tempo para estarmos falando apenas na internet como principal meio de difusão de curtas. O que é uma pena, porque assim perdemos a experiência do coletivo, da sala escura, do parar tudo para colocar sua atenção só no filme. 

Conte como foi filmar "Blackout", seu processo de criação, produção e direção.
"Blackout" nasceu de uma idéia simples que tive há uns 8 anos, mas que ficou na gaveta. E se na hora que você estivesse numa situação de perigo, sua vida estivesse em perigo e nada mais pudesse dar errado, acabasse a luz e você ficasse totalmente no escuro.

Simone Alexal, a roteirista, foi a responsável de transformar essa idéia numa história. Foi ela que trouxe todo o fundo político e desenvolveu os personagens.Como era o primeiro curta que eu ia dirigir, queria desde o início que ele fosse simples. Tanto de conceito como, e principalmente, de realização. Assim criamos uma história que se passa numa única locação, com praticamente apenas dois atores na frente da câmera todo o tempo e num único plano seqüência. Filmamos em apenas uma diária (com dois ensaios prévios com os atores), o que facilitou muito a produção, já que não tínhamos dinheiro. Já sabíamos que esse plano seqüência seria falso, porque há uns 8 ou 9 cortes escondidos, mas acabamos filmando um contra-plano que foi usado no final do curta. Apesar de termos criado uma situação quase que surreal, queria que tudo parecesse o mais natural e real possível, o que era um desafio muito grande. Para isso, precisa trabalhar com dois excelentes atores. Tivemos a sorte de contar com o Wagner Moura e o Augusto Madeira, que criaram uma química perfeita, possibilitando, assim, que o plano seqüência funcionasse. Ficamos todos muito felizes com o filme, acho que conseguimos mesclar tensão com boas doses de humor negro.

Você é considerado um dos maiores montadores de filme do mundo. Quais as suas perspectivas em relação ao seu trabalho como diretor?
Primeiro, muito obrigado pelo elogio, mas estou anos-luz de me considerar um dos maiores montadores do mundo, pois tenho muito o que aprender ainda.Uma das principais razões pela qual eu quis dirigir o "Blackout" foi descobrir como era estar do outro lado. Como era sentar na outra cadeira e ter a responsabilidade geral em contar uma história. Foi por isso que convidei uma montadora para trabalhar no "Blackout", a Valéria de Barros. Respeito os diretores que montam os próprios filmes, mas acho, talvez por ser montador, que uma segunda visão do material é tão importante que acho que sempre vou querer trabalhar com um outro montador em qualquer trabalho que venha a dirigir. Gosto de dividir com a equipe a função de contar uma história. Uma das melhores qualidade de um bom diretor é saber ouvir.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Claro, estou trabalhando num novo roteiro com a Simone Alexal, roteirista do "Blackout".

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