segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Evelyn Ligocki



Evelyn é atriz e diretora de teatro. Além de dar aulas, atuou em curtas.

O que te faz aceitar convites para atuar em curtas?
Quando eu aceito trabalhar em algum projeto independente de ser um espetáculo, um curta, um trabalho de produção...ele deve fazer algum sentido para mim e isso é muito particular de cada projeto. No caso de um curta, é claro que a primeira coisa que gera interesse em mim é o roteiro, mas isso não é determinante para entrar em um projeto, saber com quem se está trabalhando, conhecer um pouco os artistas com que vai trocar, e suas idéias é muito significativo em qualquer escolha pra mim. É desse encontro que será construído o projeto proposto e suas qualidades, linguagem e resultados estéticos. Aceitar com “o quê” e com quem será realizado esse encontro é definitivo pra eu querer e me dedicar na realização de qualquer trabalho artístico.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Eu não tenho experiência suficiente em curtas pra responder essa pergunta de forma eficiente. Desconfio que possa existir um certo preconceito, a idéia errônea de "um gênero menor", falo isso porque já ouvi esse tipo de "reclamação" de pessoas que trabalham com curtas, mas não tenho conhecimento maior pra falar nada além disso.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Acho que é possível sim, se essa for uma escolha do artista. Por que não? Não há nada de errado nisso, pode existir um artista que queira trabalhar somente com esse gênero e fazer maravilhas com ele. Inclusive acho que isso geraria uma especialização e que seria quase natural que o trabalho desse artista fosse muito bom. Sobre o curta ser "sempre" um trampolim para fazer um longa, pode ser ou não, isso depende da trajetória do artista. O que sei que acontece muito são cineastas que trabalham com curtas e depois de um tempo querem fazer algo "maior"(no sentido de tempo) e partem para o longa. Acho que poderia fazer uma comparação com um escritor que começa escrevendo contos e um dia resolve escrever um livro. Não acho que o conto é "menos importante" do que o livro são gêneros diferentes, cada um com suas especificidades e belezas próprias.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas, atores e/ou atrizes?
Como eu estava falando na pergunta anterior, acredito que possa existir um preconceito que parte de uma comparação com os longas. Eu não tenho, como já disse anteriormente experiência pra falar disso, mas todo tipo de preconceito pra mim é burro, e conseqüentemente todo preconceituoso não é digno de atenção e sim de um enfrentamento. Esse enfrentamento pra mim (no caso dos curtas) é simplesmente se continuar realizando e acreditando nos projetos. E isso já se faz há bastante tempo...e que gastemos tempo com o que acreditamos sem dar muita abertura para o que vai contra isso, não é? Ou melhor ainda que isso seja mais um estímulo para não deixar que os projetos sucumbam por motivos tão pequenos...

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Penso em projetos de cinema, penso sim em um roteiro, mas dirigí-lo seria, agora, dar "um passo maior do que a perna". Agora quero atuar neles. Estou muito interessada agora em trabalhar com linguagens de vídeo, cinema e TV. Em Porto Alegre gravei um documentário da RBS TV sobre a obra do Érico chamado “Erico Veríssimo: Memórias de um escritor”, com direção de Rafael Figueiredo e roteiro de Cristina Gomes, no qual interpretei Ana Terra,foi uma ótima experiência, mas depois me dediquei somente ao teatro. Em São Paulo tive duas experiências muito significativas nos últimos dois anos. No ano de 2007 conheci René Guerra, um diretor recém formado na FAAP, mas de uma dedicação e sensibilidade criativa encantadora. Ele assistiu o meu solo "Borboletas de Sol de Asas Magoadas" (no qual interpreto uma travesti), na época em cartaz no Sesc Avenida Paulista e me convidou para estar presente durante as gravações do curta "Os Sapatos de Aristeu". Ele gostou muito do meu espetáculo e encontrou nele algumas referências para o curta, que tem alguns pontos que se encontra com meu solo. No curta ele trabalhou com travestis "de verdade" e achou que seria interessante estarmos juntos devido à minha pesquisa feita com as travestis. Em algumas cenas a minha personagem do espetáculo estava presente, ela era amiga das personagens (travestis reais) e em outros momentos eu estava junto só observando e às vezes tecendo algum comentário. Pra mim foi uma experiência rica em vários sentidos e uma forma de me aproximar dessa linguagem, foi uma retroalimentação entre artistas. No final de 2008 gravei a minissérie "Além do Horizonte", do Projeto Dramaturgias da TV Cultura e foi um aprendizado muito grande como atriz, uma linguagem nova pra mim, e a partir dessa experiência fiquei com muita vontade de aprender mais, também como “trocar” com a câmera. Estou com quase treze anos de teatro e quero agora utilizar toda essa minha experiência como atriz também em novas linguagens. As sutilezas da câmera sempre me seduziram e agora eu me deixei apaixonar por elas...(risos).

Qual é o seu próximo projeto?
Vou gravar um curta ainda nesse semestre chamado "Transvegetable", do diretor Bruno Della Latta, produzido pela produtora KNS. Ainda estamos em processo de pré-produção, mas estou bastante empolgada. O roteiro é bem interessante, me fez refletir através da história principalmente como alguns encontros em nossas vidas, encontros rápidos às vezes, nos modificam profundamente. E como algumas pessoas deixam um pouco delas dentro de nós, nos transformando um pouco nelas também.

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