sábado, 13 de novembro de 2010

Armando Praça



Armando formou-se em Dramaturgia e Realização em Cinema e TV pelo Instituto Dragão do Mar e atualmente trabalha com Cinema.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta metragem em qualquer cinematografia, não somente a brasileira, historicamente é o lugar mais propício à experimentação, ao desenvolvimento de linguagens, de novas formas de expressão audiovisual, de novas dramaturgias. É o caminho trilhado por inúmeros cineastas que se firmaram em suas carreiras e na história do cinema brasileiro não tem sido diferente. No caso do Brasil especificamente há uma questão que posso acrescentar com relação a importância do curta metragem que é o fato de que muitos artistas de outras regiões do Brasil só terem conseguido se expressar em imagens através do curta. As políticas de produção audiovisuais no país ainda são muito concentradas ao eixo Rio / São Paulo, assim como o acesso à formação nessa área. Isso acontece por uma série de razões, mas tem sido através do curta metragem que temos tido acesso a imagens e expressões audiovisuais de todos os lugares do país. Recentemente pude assistir a filmes feitos no Norte do país, região cuja produção em longa metragem praticamente não existe. Isso também acontece com alguns estados do Nordeste e até mesmo do Sul do país. No Brasil, através do curta, temos acesso a essas expressões.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Hoje em dia a mídia tem se segmentado cada vez mais, existem jornais e revistas especializados em economia, saúde, celebridades, e até em cinema. Assim como a crítica de arte nos moldes com se conhecia há pouco também não têm sido mais comum em jornais e revistas de ampla circulação. Me parece que o curta metragem por ser um produto com menos espaço inclusive de exibição também "mereça" menos espaço na mídia em geral, não que eu ache isso correto, mas me parece natural dentro desse panorama que d escrevi. No entanto, em publicações relacionadas a cinema, sejam revistas e jornais impressos ou sites e blogs há espaço para críticas e notícias sobre curtas metragens e filmes em geral que não encontram ressonância na mídia por não estarem amparados por grandes estratégias de marketing e divulgação. Acho que isso é um reflexo desse tempo e não necessariamente um problema dos filmes e/ou da mídia. É uma questão muito mais complexa, afinal se você faz um filme sobre uma celebridade ou com alguém muito popular no elenco, se você ganha um prêmio importante, se teu filme passa em algum festival de cinema cuja assessoria de imprensa consegue bastante espaço nos grandes veículos de mídia o teu produto, seja ele curta ou não, fatalmente aparecerá. Tudo é fruto de uma grande construção em que muitos fatores estão envolvidos e nem sempre o que aparece é bom e o que não aparece é ruim, acredito que isso vale pra qualquer área. Quem se interessa por curtas metragens tem que pesquisar sobre o assunto, isso pode ser considerado ruim em algum aspecto, mas também pode ser muito bom se lembrarmos que a grande mídia por sua rapidez e generalização, tende a tratar tudo de forma muito superficial.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Me parece que o sucesso de público do curta metragem está diretamente vinculado a formação de platéias, a educação cinematográfica e ao hábito de ver filmes e isso é base para o sucesso de público de qualquer expressão, não é um problema apenas de maior freqüência de exibição e acesso. Acredito que o curta metragem ainda precisa encontrar uma forma de ser mais acessível, mais popular, no sentido de que mais pessoas desejem assisti-los. Vejo na internet uma bela possibilidade, no entanto o espaço do cinema, da sala escura, com boa qualidade de som e projeção seja fundamental para a melhor fruição e apreensão de alguns filmes. Por isso não deve haver apenas uma forma de exibição de curtas, acho que eles devem estar nos festivais, nos cinemas, nas TVs, na Internet e no que venha a surgir, no entanto não acredito que a melhor forma de aferição da importância e qualidade de uma produção seja a quantidade de pessoas que essa produção atingiu, seja ela em curta ou em longa metragem. Nessa armadilha o curta metragem não pode cair. Por suas características intrínsecas de lugar da experimentação, o curta não pode prescindir dessa qualidade vinculando-se a questões mercadológicas, é como dar um tiro no pé.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Na realidade em que vivo, no Ceará, Nordeste do Brasil é quase impossível ser cineasta, inclusive de longa metragem imagine ser apenas curta-metragista, por aqui fazemos um pouco de tudo nessa área para sobrevivermos e trabalhamos sempre em cooperação com outros artistas e amigos para viabilizarmos nossas produções. Felizmente em Fortaleza há dez anos a produção tem crescido bastante e as conquistas com relação a perenidade dessa produção são notáveis. A nossa história está muito associada a experiências de formação surgidas no Ceará de dez anos pra cá. Escolas de artes, como o extinto Instituto Dragão do Mar, onde fiz minha formação. O Curso de Extensão da Vila das Artes de Fortaleza, e os novíssimos cursos de audiovisual surgidos em universidades particulares e públicas tem criado uma demanda atendida por editais de produção de estado e da prefeitura e feito surgir uma classe de novos artistas e produtores, as coisas ainda não estão sequer perto de serem ideais, mas não vejo facilidades em nenhuma parte do Brasil e embora isso não seja exatamente um consolo, me faz acreditar que estamos realmente melhorando as condições e possibilidades de trabalho por aqui. O importante é persistir no que se deseja, e isso é em qualquer área da vida. Quanto ao curta ser o trampolim para um longa é uma maneira de encará-lo, isso acontece por parte inclusive de alguns cineastas, mas acho essa uma visão reducionista da questão. Alguns cineastas mesmo depois de terem feito longas continuam fazendo curtas, por uma série de motivos: por facilidade de produção, por considerarem que algumas idéias funcionam melhor num tempo curto ou como exercícios de experimentação.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Nunca senti nenhum tipo de marginalização por parte de colegas de profissão com relação ao curta-metragem, muito pelo contrário.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Penso em continuar sempre trabalhando, dirigindo curtas, médias, longas, etc, etc, etc. Cada projeto tem suas características e no que depender de momento farei muitos outros curtas, assim seja!

Qual é o seu próximo projeto?
Eu estou sempre tentando viabilizar algum projeto novo, não sei exatamente qual será o próximo. Eu dirigi quatro curtas e um média, gostaria sinceramente de experimentar e me aventurar na realização de um longa metragem, estou iniciando essa caminhada.