quarta-feira, 29 de agosto de 2012

BISTURI - Rejane K. Arruda


Incompletude em Charles Chaplin

O pequeno homem diante dos gigantes. Numa coreografia de luta, a alusão ao boneco: dois para lá e dois para cá: uma relação matemática que não o humaniza. E ainda assim, a marca pela diferença. Carlitos faz tudo errado. Ele é o fracote e tal, não se encaixa bem ali. Ele não se encaixa em lugar nenhum.

Em Sunnyside, trabalha como faz tudo num hotel de quinta. Precisa limpar o chão, preparar a refeição. De pronto, quebra a lógica das coisas: traz a vaca para dentro de casa, a galinha para cima do fogão. Põe o ovo.

Ele faz tudo diferente. Muito açúcar no café. Engrossa e come no pires. Depois passa no pão. Quando ordenha, é claro. Com aquele jeitinho esquizito. Agora sonha com musas. Sai a bailar pelo pasto, imitando os trejeitos. É claro que parece um bonequinho de corda. E isto dura.

Não se trata do instante, mas de uma série de variações. O filme é uma sucessão de situações relativamente autônomas. Ele sentado com a garota, o irmão ao lado. Como expulsá-lo? E isto dura.

A venda para brincar de cabra-cega. Então ficam a sós. Ela toca. Ele canta. Depois trocam de lugar. Mas tem a sujeira na partitura. Ele estranha o bemol: um carneirinho. Uma cabra.

Novamente no hotel, o patrão furioso. Chega o circo na cidade.

Parece que o filme é um laboratório de Chaplin para experimentar a plasticidade das coisas. Um desfile. Chega uma moça e ele se derrete.  Elas sempre tão lindas. Com seus olhinhos e mãozinhas. E o coitadinho do faxineiro.

Enroscado no fio do sapato que desfia. Tenta tocá-la, ela tira a mão. O outro novamente lá. Só lhe resta o trilho do trem. Imagina os chutes e ele ali, enfrentando o rival, o abraço da amada. O trem passa por cima da sua bunda.

É como se a perna fosse autônoma. Keaton ainda arruma as folhas no piano. Isto leva um tempo.

Chaplin cozinha o sapato. Coloca no prato. Capricha no molho, afia a faca. Até esqueço que é um sapato.

Bocadinho por bocadinho. Em desacordo com algum tipo de autoridade. O garçom não quer que ele sente com o chapéu. É o suficiente para uma série de variações. O ritmo como o material por excelência. Sair ou não sair: uma questão sustentada por um longo tempo.

Em Easy Street, um homem discursa. Uma mulher chega com o bebê. Pede pra ele segurar. Será que fez xixi?

O garçom mal humorado joga a comida na mesa. Quando não encontra o dinheiro no bolso, o corpo murcha.

Treina os socos se preparando pro pior. Mas a sorte lhe sorri: uma moeda no chão. Finge cair. Isso acontece. Até que consegue. Mas chega a conta. A coisa vai longe.

Novamente a plasticidade se perpetua no jogo entre o sim e o não. A plasticidade de um fundo, evocado com a palavra: The Immigrant.

O jogo é duplo. A graça do indivíduo na situação. Sob o fundo, amontoados. A justaposição de duas plasticidades.

Carlitos é personagem a deriva. O jogo de cartas é mais uma situação-pretexto. De tudo ele tira ritmo: um barco, os soluços do homem ao lado.

O encontro com a mulher. Sempre a luz do sorriso. O esfusiamento dos afetos.


Rejane Kasting Arruda. Para a BISTURI. Agosto de 2012.

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