sábado, 3 de novembro de 2012

VAGA IDEIA


Maria Gladys, Vida Loka
 
A vida de Maria Gladys não daria um filme. Já deu: o curta "Maria Gladys, Uma Atriz Brasileira" (1979), de Normal Bengell, e o documentário "Vida" (2008), de Paula Gaitán, última mulher de Glauber Rocha.
 
Documentários sobre a vida de determinada pessoa costumam ser produzidos após a morte, Gladys quebrou paradigmas, por quê?
 
A atriz, pouco conhecida do grande público e sempre presa a papéis pequenos na televisão, presa também em estereótipos, quase sempre é uma faxineira ou uma suburbana, é um dos maiores nomes do cinema nacional. Dirigida por diretores como Ruy Guerra, Neville D’Almeida, Domingos de Oliveira e Rogério Sganzerla, ao lado de Helena Ignez, Maria Gladys é uma das musas eternas do Cinema Marginal.
 
Foi mãe adolescente, dançou rock em programas de TV nos anos 60, quando namorou o cantor Roberto Carlos (diz a lenda que foi ela quem tirou a virgindade dele), fez teatro e participou do Cinema Novo. Foi hippie, protestou contra a ditadura e exilou-se em Londres com os amigos cineastas.
 
Lá, caiu de cabeça no ácido. Estava em uma “república” com diversos artistas. Certa vez, para comemorar o aniversário de Caetano Veloso, “indignada” com a caretice do cantor e compositor baiano, resolveu, junto com outros amigos, fazer um bolo com uma receita bem peculiar: na massa, maconha e ácido para Caetano sentir o barato das drogas.
 
Caetano sempre foi careta, Gladys queria dar a ele a oportunidade de conhecer o “prazer” da viagem com as drogas. Montou o bolo e pensou: “e se ele passar mal e morrer?”. Abortou a ideia e preparou um bolo convencional para o amigo. Essa história eu tive o prazer de ouvir quando a conheci e nos encontramos em São Paulo... ela dá o tom da sua “vida loka”.
 
Engravidou e voltou ao Brasil, onde continuou atuando, não tanto quanto antes, em filmes.  Estourou com a empregada Lucimar de "Vale Tudo" (1988). “Fiz muita empregada e gosto muito mesmo das empregadas que fiz”, diz a atriz, acostumada a interpretar mulheres simples e determinadas. A paixão pela profissão não rendeu estabilidade financeira. Gladys mora de aluguel, fecha as contas mensais com dificuldade e passou por períodos difíceis. “Nem sempre tive trabalho, teve época em que fiquei em casa só cuidando de filho. Sempre fui dura. Não tenho casa própria. A única coisa que sustenta ator hoje é a televisão, ou uma peça que fique três anos em cartaz”, disse.
 
Não há glamour!
 
Alegre, transgressora, boêmia e divertida. “Pô, estava no hotel que você me indicou, cheguei cansada de viagem, fui relaxar e fumar um baseado. Coloquei o pano na porta para não importunar ninguém e fiquei fumando. Pouco tempo depois o porteiro me liga e fala: Dona Maria, por gentileza, apague o cigarro, esse hotel é de família. Sabe que eu fiquei feliz? É maneiro, o hotel é de família, fui lá e apaguei, se não pode, não pode, tudo bem”.
 
Assim é Maria Gladys.
 
Rafael Spaca, radialista, autor do blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com/).

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