quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Carlos Reichenbach


Carlão, como é mais conhecido, dirigiu diversos filmes e fotografou dezenas de trabalhos cinematográficos.

Qual é a grande importância que o curta-metragem deu para o cinema?
Eu acho que antes de mais nada, o curta-metragem é o grande espaço de experimentação, o curta-metragem é realmente o espaço onde envolve o futuro cineasta ter condições de poder arriscar, de investir na linguagem, na experimentação, na inserção, não tem obrigação com o mercado, ele não tem obrigação com a sala de projeção, ele tem obrigação consigo mesmo. Acho que não existe espaço mais livre do que o curta-metragem, acho que isso é um pouco porque ele pode ser enxergado como um campo de experimentação, um campo de experimento, não apenas como um portfólio, como uma espécie de cartão de visitas, ou como um vestibular para o longa-metragem, eu acho que inclusive, existem cineastas que enxergam o curta-metragem como um gênero específico, que inclusive realizam um determinado tipo de trabalho e voltar para o curta-metragem, voltar para aquela obrigação, aquele tempo determinado, e aquelas possibilidades infinitas de poder arriscar aquilo que ele não podia fazer no longa-metragem.

No começo você falou que o começo do trabalho de um futuro cineasta, e às vezes tem muitos cineastas, que começam com o curta, a depender do sucesso, vão para o longa e não voltam nunca mais para o curta, e tem cineasta que vira e mexe faz curtas. Por que você acha que a grande maioria não volta para o curta, ele é marginalizado dentro do próprio meio talvez?
Não, porque no fundo no fundo, 90% de quem pretende fazer cinema e enxergam o curta-metragem como o portfólio, enxergam o curta como a mostra do seu conhecimento de cinema, e não como um gênero em si. No meu caso específico, no meu caso pessoal e muito específico, eu nunca fui muito interessado pelo documentário, não pelo curta, pelo documentário, eu fui fazer, embora na verdade o meu primeiro filme tenha sido um curta-metragem, ainda foi como exercício de faculdade, eu fui trabalhar mais com o curta-metragem depois de pressurizado, porque eu enxergava que a possibilidade do curta-metragem era exatamente essa, exatamente fazer com o curta o que eu não podia fazer, ou seja, fazer um cinema de experimentação e investigação. No fundo o curta-metragem para mim é a possibilidade fazer um cinema mais conceitual, coisa que o longa-metragem não me permite. Não me permite ou eu não quero fazer, o longa-metragem tem um pouco esse caminho, essa característica de coisa mais narrativa, enquanto o curta-metragem não tem esse compromisso. Os últimos curtas-metragens que eu realizei foram curtas como ‘Olhar e Sensação’, ‘Equilíbrio & Graça’, são curtas conceituais, eu fiz pela necessidade de exprimir alguma coisa dentro de uma bitola, que me possibilitasse não ter compromisso com o mercado, o único compromisso é comigo mesmo.

Você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo de metragem?
Eu não enxergo o curta-metragem com essa visão de contar história, você pode aproximar o curta-metragem da literatura como um conto, tudo bem, é possível. Agora eu não me vejo muito, é que eu não enxergo o curta como uma experimentação de narrativa na verdade, para mim esse espaço, esses 10 minutos, não tem uma obrigatoriedade de trazer uma concisão, tem que ser uma idéia muito centrada. Para mim o curta-metragem é um espaço mesmo de experimentação, essa possibilidade que eu tenho de poder, inclusive refletir sobre determinadas coisas que o longa-metragem não me propicia. Foi no ultimo curta-metragem que eu fiz, que foi sobre o entendimento sobre duas religiões, na certa forma o catolicismo e o budismo. E como fazer isso? Só no curta mesmo. Em um certo sentido, aquilo tudo era sobre entendimento, sobre harmonia, e não sei se um filme meu de duas horas ia ter fôlego para falar sobre isso, eu acho que um filme de nove minutos tinha fôlego, por isso que eu chamo o curta-metragem não como um apêndice, mas sim indiscutivelmente, como num gênero próprio. O curta-metragem que eu busco assistir tem que ter um pouco esse caráter de conceituação desse cinema e também enxergado como uma forma de contar na verdade narrativamente um espaço que você não consegue ocupar em um longa.

Os seus filmes, os longas, são mais conhecidos que os curtas apesar de você ter um trabalho em curta-metragem, isso de certa forma te chateia? Não só pela mídia que não divulga um curta-metragem, que não sai uma critica para um curta, e que as pessoas também pouco assistem, a não ser aquele grupo restrito que vai em busca, ele é pouco divulgado?
Isso tem que considerar, a gente tem um problema com o espaço até no longa-metragem, o curta por exatamente por não ter esse vínculo comercial, esse vínculo industrial, esse vínculo com a distribuição e exibição cinematográfica, na verdade é distribuído para poucas pessoas. Isso não me chateia porque eu enxergo os curtas-metragens como uma complementação da obra, como recurso de comunicação de complemento de uma obra de vários filmes, não enxergo isso como um filme isolado na verdade, não sei dizer se isso me chateia, os filmes são exibidos e estão a disposição em alguns lugares, um dos curtas-metragens, por exemplo chamado ‘Arte Cidade’ o outro que foi anexado a convite da Petrobrás como projeto de vários curtas, e eu sempre faço questão de incluir esses filmes nos DVDs dos longas por exemplo, então você pega o DVD de “Dois Córregos” e você tem o ‘Olhar e Sensação’, você pega o DVD de “Garota do ABC” você tem ‘Equilíbrio & Graça’. Eu gostaria sempre fazer um curta-metragem, eu não tenho condições de fazer isso, mas se em cada filme que tiver sido lançado ter um complemento, como a gente faz no cinema, mesmo porque o filme conceitual, na verdade para mim, surge como uma oportunidade, nem sempre eu tenho essa oportunidade de poder realizar, eu não estou interessado em fazer curta-metragem narrativo, de contar historinha através do curta, estou interessado realmente em refletir sobre a minha época, isso é o grande espaço que o curta-metragem te propõe. Isso é um pouco como diz o cineasta... até júri de cinema: “não é importante você se comunicar com muita gente, em um certo sentido, o importante é você comunicar uma coisa importante para pouca gente que esteja preparada para essa conversa, para essa relação”

Evidente que no caso específico dos filmes conceituais o que revisa é o publico mais informado. É como se através do curta eu tivesse a possibilidade de dialogar com pessoas que tem o meu repertório, ou que tem uma informação próxima a minha, acho que todo mundo tem a necessidade de fazer isso, nos longas eu faço isso. Alguns longas que eu tento abranger públicos mais amplos, mais populares, outros que eu tento me comunicar com meia dúzia de pessoas que tenham tido uma experiência de vida parecida com a sua. Isso tem em qualquer meio de expressão, qualquer arte existe a mesma preocupação.

E tem algum curta que você esteja pensando em fazer, algum plano nessa área de curta?
Eu tenho muito interesse de fazer um terceiro curta que fecharia uma trilogia com ‘Olhar e Sensação’ e ‘Equilíbrio & Graça’, que se chamaria “Arquitetura e Fineza”, um filme sobre espaço, fiz um filme sobre o tempo, um filme sobre harmonia, eu queria fazer um filme sobre espaço, espaço físico, essa uma idéia ampla de tudo que é o espaço na verdade, também um filme conceitual, esse é um curta metragem que me possibilitaria isso, para poder fechar uma espécie de trilogia, e dá tempo em um determinado momento, de serem exibidos juntos, fechando uma idéia conjunta. Como eu digo assim: eu exerci várias atividades na minha vida, de qualquer forma o cinema chega muito próximo de outras manifestações culturais do qual eu já fiz parte, um bico em literatura, muito grande minha formação e totalmente literária, sou filho, neto, sobrinho de editor, tenho uma formação musical, eu estudei música clássica, estudei também música popular... eu tive grupo musical, eu faço música, eu estudei composição e arranjo, e minha grande frustração é não saber desenhar uma casinha, eu não tenho a menor habilidade para pintura. E através do cinema eu consigo de certa forma sublimar essa frustração, excluo inclusive fotógrafo, diretor de fotografia, operador de câmera. Vários longas metragens, 35 longas-metragem, onde eu estou de fotografia. Mas através dos curtas, onde eu consigo trazer, me estabelecer, consigo me manifestar, como pintor que eu sou, por isso que para mim , sei lá, o curta-metragem é tanto de experimentação e eu acho extremamente amplo, e como eu sou, vários cineastas também enxergam o curta-metragem como um gênero em si, e não como um trampolim para fazer o longa-metragem. Você quer ver um artista multimídia, numa amplitude, por exemplo de Arthur Omar, que realmente fez curtas-metragem extraordinários e conceituais, Joel Pizzini, tem uma série de outros, Fernando Severo. Existem vários realizadores que trabalham o curta-metragem como um gênero específico, isso que é importante. Talvez por isso mesmo, Carlos Adriano, vários cineastas para quem o curta-metragem é o gênero de cinema que agrada eles. É, na verdade, a bitola que ele encontrou para poder se manifestar, e não mostrar realmente um cartão de apresentação, olha como eu sei fazer um longa-metragem, como eu sei ser publicitário, como eu sei fazer uma novela de televisão. Eu vejo o longa-metragem como um meio de expressão, um filme conceitual se torna uma coisa enfadonha quando passa de um determinado tempo. Então esses cineastas citados acho que são os que melhor entenderam, enxergaram o curta-metragem como um gênero em si, são os nossos verdadeiros curta-metragistas, no sentido mais adulto da palavra. Eles perceberam o curta como um gênero mesmo, eu não quero fazer longa, eu quero fazer um filme de dez minutos, mas exatamente que estabelece um tipo de comunicação que não seja apenas narrativa, nem uma carta de apresentação para produtores, enxergam o gênero como um gênero em si. A grande possibilidade é de eu ter em dez minutos, estabelecer contato com pessoas que possuam a minha informação, o meu repertório, que possui determinado nível cultural. Para você estabelecer esse contato, vai fazer um vídeo de duas horas que é caríssimo, energia, para fazer um filme que vai atingir meia dúzia de pessoas privilegiadas, faz um curta. Não tem problema, em dez minutos, vinte, trinta minutos, o filme é muito amplo, a gente não pode ficar limitado a um tempo pré-determinado. Agora, eu acho que independentemente de qualquer coisa, esses filmes em algum momento chegam ao espectador buscado, seja o filme que for, o curta que for, na bitola que for.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Maurício de Sousa

Neste ano Mauricio de Sousa comemora 50 anos de carreira. É um dos artistas mais celebrados do país. 

Eu fico imaginando que para criar a ‘Turma da Mônica’, você saiu do plano das idéias, da criação, pôs no papel, foi uma sensação, um momento diferente de ver um personagem ali desenhado. E daí quando está esse personagem desenhado, é uma tira, é uma história em quadrinhos, gibi, e livros, qual que foi sua sensação de ver esse desenho sair do papel, ganhando vida, com voz e movimento?
Acho que a expressão é ganhar vida mesmo, é como o personagem que tivesse deitadinho no papel, em 2D, em seguida ele se descolasse, ficasse de pé, se movendo, falando e pedindo logicamente, o entorno dele, o entorno seria os outros personagens também se movimentando, os cenários, aquela história, música, ambiente, outro ambiente, outro mundo, outro universo. E pedindo, logicamente, vôos muito mais ousados da criatividade, se nos quadrinhos tudo é possível, na animação, o impossível é possível. Eu acho que é uma coisa mágica, é um momento mágico, e sempre, desde que eu comecei a desenhar, eu sou louco por animação. E também, desde que eu comecei a desenhar eu sabia que era muito difícil fazer animação no Brasil, e quem dera foi difícil, sempre foi difícil, e será, é uma concorrência, e animação é cara, é um produto caro, hoje principalmente, aparelhos sofisticados, softwares complexos, o pessoal também muito bem preparado, principalmente na parte de computação gráfica hoje, então, a animação foi o personagem ganhar vida e ele exigir todo o entorno necessário para a animação.

Quando você desenha, pode ser que você já imagine a voz, os jeitos, os trejeitos dos personagens, daí quando ele vai para a animação qual foi o trabalho mais difícil para caracterizar uma voz, um estilo de corrida, de andar, de se mexer, esse é o processo mais trabalhoso talvez?
Não sei se eu já contei para você isso, você ver uma pessoa que vem falar com você, e você imagina que essa pessoa tem um timbre, um tipo de voz e, de repente, aquele gordão grandão fala com voz fininha perto de você, bom não é bem assim, não combina, e o contrário também. No desenho animado eu esbarrei com isso, eu imaginava mais ou menos a voz dos personagens, bem logicamente, eu teria que ir atrás das vozes existentes, os artistas, os dubladores que já são profissionais e eu fui buscar as vozes mais próximas das vozes que eu sonhava, e essa busca confirma até hoje, quando eu vou escolher as vozes para os personagens em outros países, quando nós entramos em outros países vamos fazer a dublagem, na Itália, na Coréia, na Espanha, no Reino Unido, as vezes o pessoal até escolhe umas vozes que não combinam, por exemplo, a voz da Mônica tem que ser firme, forte, na Argentina puseram uma menina que falava assim bem suavezinho, não combinava, aí a gente mandou trocar, daí na Itália escolheram vozes ótimas para todos os personagens, tão boas que podem servir de referência em muitos outros países também. Então há essa preocupação da voz combinar com o desenho, e às vezes, já que é desenho animado, já que é uma coisa que deve surpreender, fazer uma voz que não combine com o personagem, principalmente em personagem secundário, daí a surpresa.

Você falou em voz, falou também em trejeito, menino anda de um jeito, menina anda de outro jeito, adulto se movimenta de outra maneira, então realmente a expressão corporal ela é muito bem estudada em nossos filmes, e nem sempre estou satisfeito com o que nós estamos fazendo. É um processo dinâmico que vive sendo consertado, arrumado, reciclado e aperfeiçoado, mas sobre a história em quadrinho, onde eu sempre peço para os desenhistas, antes eu desenhava sozinho, hoje eu tenho uma equipe. Eu peço para eles levarem em consideração a expressão corporal necessária para emoção imprimida naquele momento, isso tem que estar visível com o corpo que eu estou falando, vivendo, vivenciando a sua frente, isso vale para o desenho animado também, aonde é muito mais importante.

Eu vivo dizendo para o meu pessoal que eles devem se basear, mesmo em quadrinhos e depois na animação, nas grandes emissões de desenhos indianos do cinema mudo. O cinema mudo nos ensinou trejeitos, expressões, movimentação, ensinou o artista a falar com o público. Um dos modelos que eu peço para o pessoal estudar aqui com as histórias em quadrinhos, é o “Gordo e o Magro”. Todos os filmes do “Gordo e o Magro” são ótimas lições de mímicas, expressões corporais, e até de layout, repare nos filmes do “Gordo e o Magro”, há poucos cortes, pouquíssimas vezes, o programa americano, geralmente é o cenário e eles todos na cena com o ambiente em volta. Isso dá exata compreensão do que eles estão vivendo, do que eles estão fazendo e onde estão. É isso que eu quero na minha história em quadrinhos, e é isso que está na minha história em quadrinhos na medida do possível. Essas emissões de antigos aristas de quadrinhos, de cinema, de comédia, música, e tudo mais, estão todos aqui para o pessoal ir buscar e repetir, não tem importância nenhuma repetir coisas boas, repetir nos nossos filmes, e mesmo na história em quadrinhos.

A história em quadrinhos é quase um history board, porque o cineasta desenha faz e tudo mais. É até um parente, o curta-metragem é um parente da crônica, history board é um parente do quadrinho. E daí agora para contar uma história, um longa-metragem e um desenho animado, o que vale apena falar mais? Porque o longa-metragem dá para desenvolver uma história mais longa e o desenho animado seria uma história mais curta, que seria o curta-metragem.
Eu gosto de fazer desenho curto, tanto que eu estou planejando um para televisão com 7 minutos, eu acho que 7 minutos dá para você contar uma bela história e não cansa ninguém. Você pega um bom filme, uma boa história e você vai usando, e na hora de fazer o longa você tem que usar o recurso que você possa ver que é bem usado por causa de verba.

Tem que ter a escada, tem que ter personagem que dá a chance ao outro aparecer mais, o outro de falar outra coisa, situações cômicas, ousadas, afetuosas. Então eu acho que dá para escrever muito bem, sintetizar uma história, de preferência bem ágil, uma aventura, e com um tema gostoso e muito humor que é o nosso caso, em 7 minutos. Se quer esticar a história? Um tema que... aonde você possa enredar os diversos personagens em situações diversificadas.. e você tem uma linha mestra, um fio condutor, onde as coisas andam sem sair desse fio, e você faz uma boa história, mas acho que conseguimos isso no filme da turma da Mônica “Caminho no Túnel do Tempo” quando há uma linha, eles vão buscar alguma coisa no tempo, e cada um vai para um lado, e tem uma ligação entre todos eles o tempo todo. Temos que fazer essa ginástica sempre, eu acho teria que para se fazer um longa-metragem, os condimentos, o molho, o tempero necessário para ter aquela Abelhinha que os americanos usam para você ter o início, o problema, a perseguição, o caso de usar também a solução, o final feliz, com alegria, existe várias formas, sempre com muita criatividade, e de preferência, usar os personagens todos, que podem se transformar.

O senhor não tem muita dificuldade de fazer um roteiro, nem longo nem curto, porque tem um poder de síntese, você trabalha com o poder de síntese, porque na tirinha tem três quadros em média, que tem que contar uma história do começo, meio e fim rápido, na tirinha de jornal, ou no final do gibi. No gibi a história um pouco mais longa, que seria o curta, e quando é aquele gibisão é uma história mais longa, então não tem tanta dificuldade de trabalhar tanto com o raciocínio rápido, com uma histórias rápidas, quanto para uma história longa, não é?
Não, não é não, mas de qualquer maneira tem que me identificar como desenhista de tira de jornal, eu faço tudo mais, mas eu sou um desenhista de tira de jornal, porque eu fiquei muitos anos só fazendo isso e adorei, gostei. A tira de jornal para mim é como se fosse, quando termino de fazer a tira, de desenhar e escrever a tira, é como se eu tivesse terminado de fazer uma palavra cruzada, um joguinho de sudoku, alguma coisa assim que você dá um esforço, você chega ao fim e tem a gratificação de olhar e terminei, gostei, saiu legal, saiu gostoso. A tira para mim é isso, é uma satisfação pessoal,e alma, não só porque eu criei, mas porque saiu bem feito, saiu com uma técnica boa, com humor, no nosso caso e tudo mais. Então para mim, é fácil fazer síntese, mas também dá para escrever bem, eu já tenho 3 filmes, não canso de explicar, você tem que manter ritmo, se você não tiver ritmo é a mesma coisa.

Nos desenhos animados, Simpsons, que tem uma fama internacional, os desenhos americanos que chegam aqui, o público brasileiro gosta. Por que a indústria de desenho animado, agora com o Ziraldo e o senhor que está agora começando, ainda não engrenou de vez. Qual é a dificuldade, você acha que o público brasileiro ainda tem essa mente colonizada de apreciar o que vem de fora, mesmo que seja familiarizado com as histórias aqui nacionais?
Não, o público não tem culpa disso, o sistema econômico, mundiais tem culpa disso. E também nem televisões, nem a TV Globo, ninguém tem culpa, a culpa é do custo. Desenho animado é caro e chega aqui material estrangeiro depois, e chega baratinho, já atravessou o mundo, já se pagou 2, 3 vezes, pode ser dado, de qualquer maneira, pode ser exibido gratuitamente pelas nossas televisões. Eu não forneço gratuitamente porque tem os representantes aqui e os representantes precisam ganhar algum dinheiro, tem que ganhar alguma coisa, então tem um custo. Esse custo é pago pelo baixo preço que tem esse material, conseqüentemente é muito difícil concorrer com esse material. Temos que ao invés de ficar dando murro em ponta de faca, criar condições de fazer a mesma coisa. Fazer desenho animado, não dá para distribuir, vamos dizer que esses desenhos que não dá para distribuir, vamos de pouco em pouco, e agente consegue custear a produção, e é esse o nosso projeto atual. Nós estamos abrindo o mercado promocional para podermos realizar desenhos animados e levar para todo o Brasil, não adianta, eu vou ter que produzir e vender barato, para que renda também.

Eu fiz isso com o jornal e funcionou, eu fiz isso com tira de gibi e funcionou, e hoje temos a liderança de histórias em quadrinhos brasileira e não era assim, a anos atrás. Está faltando agora, não sei, talvez agente não chegue uma liderança, mas se fizer mais um pouquinho está bom.

O senhor vai continuar fazendo filmes e qual tua pretensão na área de cinema em relação à ‘Turma da Mônica’?
Nós vamos continuar, nesse momento discutimos já um contrato novo com a Dagostini do Rio de Janeiro, espero que agente chegue a um acordo, para continuar fazendo, mas agora o desejo é para a televisão, nós fazemos filmes também, longa-metragem, e já estamos iniciando os preparativos para a produção do Horácio, um filme em relação ao Horácio, totalmente em computação gráfica, com a empresa digital 21, aqui de São Paulo. Então o filme vem aí, desenho animado de televisão, e muito material para a norma no portal da internet, que nós estamos planejando, até mesmo com filmes de Rush, já que é o último nós queremos aumentar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Djin Sganzerla

Com trabalhos respeitáveis no teatro e cinema, Djin é uma atriz de destaque no cenário brasileiro. 

Qual é o grande barato de um curta-metragem?
O curta-metragem possibilita fazer todas as experiências, você pode em um curta colocar suas idéias, a sua criatividade de uma forma muito mais abrangente com custo, entre aspas, zero, isso a gente já está começando a fazer com o longa, imagina ter uma câmera na mão, conseguir fitas HD ou mini DV, uma turma bacana, com uma idéia bacana e fazer as vezes um filme realmente criativo, original, inventivo, porque o curta, ele possibilita você, a exercitar sua imaginação, sua criatividade, sua linguagem, e já num longa é um pouco mais complexo, não falando da questão financeira, estrutural de como fazer um longa-metragem, mas também a questão de estrutura mesmo, do roteiro, de como manter um história interessante, então o curta ele é a porta de entrada para você se tornar um criativo e bom cineasta.

O curta tem um poder de síntese muito grande. Você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo? Passar uma mensagem em tão pouco tempo de metragem?
Esse é que é o lado interessante e contraditório, ao mesmo tempo você fala, ah isso é fácil fazer um curta, mas tem esse outro lado, esses dias eu estava pensando no ‘Festival do Minuto’, como é que você conta uma história, não de uma forma, enfim, você pode contar de diversas formas, pode não ser uma história linear, pode ser uma história que não seja uma história, mas que passe sensações, que passe imagens, em um minuto, como é que você consegue em um minuto passar uma idéia, ou uma sugestão, o que você consegue passar em um minuto. Isso é um exercício fabuloso, porque como é que você conta sua proposta em tão pouco tempo, e o curta-metragem é mais ou menos isso, as vezes você tem 10 minutos, mas como é que você sintetiza um pensamento, uma idéia em um tempo mais curto, de uma forma objetiva, criativa interessante, eu acho que quando é bem feito, é fabuloso.

Para uma atriz, para um diretor, ele gosta de ver o seu filme sendo visto por milhares de pessoas, e o curta é meio marginalizado, tem pouco espaço, agora recentemente com sites, como o ‘Porta Curtas’ e o próprio Youtube! consegue dar uma alavancada. O que você acha que tem que fazer para o curta ser mais visto mais visto, tanto pelo público quanto pela crítica dos jornais que não saem quase nada de matéria?
Esse público, jovens, o público mesmo, não só pessoas relacionadas a nossa área, a área audiovisual, mas se interessam pelo curta, eu vejo amigos meus que se formaram em áreas distantes da área digamos assim, cultural, e tem interesse em curtas, acho que a questão maior é a forma de ser colocada, entre aspas, no mercado, na verdade o curta não vem com essa proposta de você ganhar dinheiro, de você ficar rico, enfim, já é difícil com o longa, imagine com o curta, é você conseguir inserir ele dentro da própria programação da semana, teve uma época que no espaço Unibanco estava exibindo em certos horários uma sessão de curtas, incentivar cada vez mais, inserção dos curtas-metragens antes dos filmes, como foram feitos nos festivais, em todos os festivais você vai ver um longa-metragem, mas se antes não tiver dois curtas, então isso é um exercício que deve ser feito por esses pensadores e pelo Ministério da Cultura, pelo Audiovisual que insira mais, não uma coisa obrigatória, mas prazerosa de ter dentro da programação dos cinemas.

O que te faz aceitar participar de um curta, de fazer um curta, o que te leva a fazer?
Sempre é a proposta, o que é o tema, como é feito, escolha uma linguagem, para mim sempre me chama atenção o personagem e o contexto, o que está propondo, qual é a mensagem, se tem mensagem, se não tem mensagem, se é uma linguagem menos convencional, isso é o que acho que atrai sempre um ator a querer fazer um trabalho.

O curta, isso eu tenho visto com as próprias pessoas do meio, ele é marginalizado até pelas pessoas, às vezes o diretor começa com o curta, ganha projeção, vai para o longa e nunca mais volta para o curta, uma atriz quando ela não está com uma peça, não está em uma novela, não está com um filme em longa, ai aparece de fazer um curta, aí ela faz, assim, mas nunca é uma coisa que está em primeiro plano. Você acha que o curta é considerado até um gênero menor pelas pessoas do próprio meio?
Não, acho que um gênero menor não, claro que eu não posso responder por todos, mas isso é uma pena se o pensamento for assim, pelo contrário, como eu volto a dizer, é um exercício interessantíssimo e quantos maravilhosos grandes cineastas não fizeram um curtas, melhores que muitos longas, então é ingênuo você achar o diretor, claro que há uma tendência dos diretores começaram através do curta e depois exercerem enfim, longa-metragem, mas você pode ter a chance de trabalhar com um cara extremamente talentoso, criativo, bacanérrimo, se você achar, nossa é curta eu não vou fazer, isso é muito pequeno para o ator, tem que nesse sentido, eu acho que é um pensamento menos interessante, e eu procuro não pensar assim, é de você achar que, ah porque o curta, entre aspas, não tem uma visibilidade tão grande então eu não vou fazer, uma questão mercadológica. Se você tem essa postura perante o seu trabalho sempre, claro, tem atores que são completamente comerciais, querendo analisar um retorno de dinheiro, mídia, não é o meu caso, eu optei para essa carreira por uma paixão, por um ideal, então se eu tiver a chance de fazer um curta criativo, interessante, eu faço, é um desafio tão interessante quanto um longa-metragem, mesmo que seja menos visto, porque eu vou batalhar para que o filme seja visto, para que passe nos festivais, que alguma coisa fechada, enfim, que não é para o grande público, mas é um trabalho que eu vou ter todo orgulho de ter feito.

Você estava falando da linguagem do curta, eu conversei se eu não me engano foi com João Batista de Andrade, e eu falou que o curta é o grande movimento de cinema que temos hoje, porque os longas estão dentro dos tramites do cinemão e o curta permite fazer experimentações, tanto dar uma liberdade para o ator, quanto para o diretor. Você acha que talvez essa não pressão do mercado favorece a experimentação?
Eu acho que não é a questão da não pressão do mercado, eu acho que tem uma pulsação que a maioria é jovem que está ali buscando sua identidade, buscando a sua linguagem mesmo, digamos assim, não digo que todos, mas uma boa parte sim, então o curta permite isso, você se expressar como você é, eu acho que alguns tendem, depois de certo tempo que entram no mercado, tem que responder por um certo nome, e acaba entrando para um caminho que eu acho menos interessante, e o que agente tem visto é que o público de alguma forma também percebe isso, porque fica um negócio quadrado, sem nenhum charme , igual a todos os outros, então acaba nem ficando interessante, e também não tem retorno de público, fica algo no meio do caminho, eu acho que os cineastas jovens, hoje que estão procurando uma linguagem ou algo menos convencional, do que tem sido feito.

Você falou que optou pela carreira por ideal e tudo mais, você já pensou que atrás das câmeras talvez um dia produza um curta, um filme, ou você acha que a sua tarefa é na frente?
Direção sempre foi uma coisa que, naturalmente, instintivamente, sempre me rondou, e até no teatro eu produzi um programa, morei dois anos na minha terra, e produzi um programa cultural sobre a cidade de Londres, sempre tive um ‘Q’. Acho interessantíssimo, acompanhei todas as filmagens, tenho um projeto, que agora ficou um pouco de lado, chamado ‘Peixe Pequeno’, na verdade era uma co-direção e eu sempre tive um olhar apaixonado pela direção, eu quero exercer essa função de estar atrás das câmeras, um olhar para os planos, para a direção de atores, algo que me fascina, eu até brinco, que eu gostaria de ser no futuro, com pessoas muito próximas, que eu gostaria de trabalhar, e ter um trabalho quase que como um colch, que é uma direção pessoal com o ator, que é extremamente interessante, buscar os estímulos, o que faz o ator agir dessa forma e não assim, e da mesma forma em um plano maior, na direção da misancene, entender um pouco mais sobre luz, eu tenho muita vontade sim de passar por essa fronteira e no futuro dirigir.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

João Batista de Andrade

Além de sua produção cinematográfica e literária, atuou sempre em diversas frentes do cinema e da cultura brasileira, tendo sido por duas vezes presidente da Associação de Cineastas de São Paulo, presidente da Cinemateca Brasileira, conselheiro do Museu da Imagem e do Som (SP) e coordenador geral da primeira e terceira edições (1999 e 2001) do Fica (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental), que acontece em Goiás. Atualmente preside duas entidades não-governamentais de cinema e meio ambiente: Icumam (Instituto de Cultura e Meio Ambiente, em Goiás) e Cinemar (Instituto do Homem, Audiovisual e Meio Ambiente, em São Paulo).

João Batista de Andrade é diretor do curta "Portinari, Um Pintor de Brodowsky" (1968).

Qual é o grande barato de fazer um curta-metragem?
Vou fazer uma piada: é porque acaba logo, acaba rápido.

O curta tem uma história importante no Brasil e de várias maneiras, uma delas é evidente: de informação. Os cineastas começaram com curtas-metragens, com narrativas menores, e custo menor também, muitas vezes dá para fazer, com participação de profissionais que sempre ajuda, empresas, equipamentos, câmeras, é uma espécie de porta de entrada. Por outro lado é uma forma de expressão como é o conto na literatura, quer dizer o que dá o sentido de qualidade para uma obra não é o tamanho dela, às vezes até você tem um momento no cinema brasileiro em que os curtas eram muito melhores que o longa metragem, então não tem nada a ver com qualidade. E o curta possibilita um numero muito maior para os cineastas para fazerem, até porque como ele tem um custo menor, você às vezes tem mais liberdade de fazer, e muitas pessoas que não conseguem, ou que teriam muito mais dificuldade de chegar ao mercado, podem realizar um desses filmes, até encontrar sua brecha de entrar no mercado, porque o mercado está limitado, chega uma hora que você tem um certo número de filmes possíveis e não adianta fazer mais que você não tem como colocar, então vai virando um pouco aquela irracionalidade do sistema de produção, o produto vai acumulando e vai ficando aquela reserva e a produção começa a cair, cair, cair até ficar faltando.

Você disse no começo que o curta é a porta de entrada para os cineastas e geralmente o cineasta começa com o curta, daí obtêm um sucesso vai para o longa e nunca mais faz um curta, ele é marginalizado no próprio meio do cinema?
Eu acho que sim, eu acho que até porque agente não conseguiu criar um espaço próprio para o curta-metragem, o espaço do curta-metragem no Brasil hoje é Festival, então felizmente existe uma quantidade imensa de Festivais no Brasil, mais de 100 Festivais no Brasil, então o curta-metragem pode ficar circulando aí o ano inteiro, quando lança de Festival em Festival... sempre tem seleção, então nem sempre o curta consegue passar na seleção oficial, às vezes passa numa mostra. Nós, nos anos 70, tentamos... eu participei dessa luta e briguei muito por ela, para que houvesse um espaço nas programações de cinema, nós fizemos a ‘Lei do Curta’ nos anos 70, mas aquilo desencadeou. A lei 70 para quem não lembra é a obrigatoriedade exibir um curta primeiro, junto de todo filme longa estrangeiro, e realmente era maravilhoso, esse público que está acostumado com a linguagem do cinema americano de repente poder ver do lado um filme com uma linguagem brasileira, com uma temática brasileira. O que aconteceu foi que de um lado, houve um aproveitamento da própria lei por parte de muita picaretagem e dos próprios exibidores, já que tinha que fazer, eles conseguiam um patrocínio lá e faziam umas porcarias lá para poder exibir, cumprir a lei no cinema, e isso gerando uma desmoralização muito grande que também era em parte estratégia dos próprios exibidores e distribuidores americanos, porque eles entraram com uma guerrilha de ações judiciais contra a lei. Eu chamo de guerrilha porque derrubava uma, entrava outra ação, então não parava, a ‘Lei do Curta’ estava permanentemente sob judicie, então não funcionava aquilo, e além de tudo como estava invadido pela picaretagem, o público começava a vaiar, e acabou criando uma coisa negativa par o curta-metragem.

Aquilo que nós queríamos que fosse uma voz fantástica, seria uma voz fantástica, exigiria portanto uma nova regulamentação, um controle dos filmes, acabou virando uma coisa negativa para a população. Então, caindo a lei, aliás eu quero lembrar uma coisa, o cinema americano é tão violento o seu mercado, que na época ameaçou o Brasil de cortar corredores de exportação de laranja, aço, café, e foi descobrindo que até no acordo de exportação existia itens que diziam ao governo brasileiro, obrigava a não criar nenhum empecilho para o cinema americano no mercado, mas eles impunham muito o cinema, eles sabem que o cinema carrega ideologia e transmite a sociedade de consumo americana e tal, então eles levam muito a sério isso e jogavam pesado, tanto é que ai virou uma brincadeira do governo que dizia o seguinte: de ficar com a lei de curta e perder o corredor de exportação do aço por exemplo.

Então o governo sabia, não tinha diálogo, aquilo foi sendo jogado no bueiro. E aí ficamos sem esse passo, na televisão, exemplos raros de TVs mais educativas, e no Sul tem uma experiência a NDS que é positiva para curta-metragem, mas se você for somar essas pequenas coisas de curta metragem na televisão é quase zero, então na verdade o curta não tem mercado, o mercado são os festivais. Isso é claro que cria um problema, você não pode viver disso, daí cria também um desnível de importância, você faz um longa-metragem e vai para o mercado, então você tem a avaliação crítica, tem a programação no jornal, outro nível. Então nem sempre os próprios cineastas aceitam muito, quando conseguem passar do curta para o longa não quero voltar, eu acho uma bobagem.

Eu pessoalmente, isso é para deixar para você registrado, eu nunca fui pessoalmente muito adepto, eu batalhei pelo curta, defendi, participei da luta, agora pessoalmente nunca gostei muito de fazer, eu tenho um curta-metragem que é 1968, é o único filme que existe sobre Portinari, único documentário sobre Portinari, e acabou de ser usado na Itália uma imagem, interpõe meus filmes sempre foram 16mm e atualmente é digital, sem tempo indeterminado, eu começo um filme e o tempo que der é aquele lá, a não ser na época da televisão que eu era obrigado a cortar o filme dentro do tempo do ‘Globo Repórter’, ou o tempo de noticia ‘TV Cultura’, mas aí é um tempo livre, na Cultura como nós éramos do noticiário, eu entrava com um pequeno documentário todo dia, e ai 5 minutos, 7 minutos, 3, que era o que desse ali. No ‘Globo Repórter’ não, mas eram maiores, ‘Globo Repórter’ é um programa bem maior, tinha 38 minutos, 40 minutos de filme. Nunca me interessei pessoalmente, sempre achei importante, sempre gostei, mas não era muito meu gosto.

Essa não predileção pelo curta se deve talvez pelo poder de síntese de contar uma história em tão pouco tempo de metragem, e o senhor ser um pouco mais prolixo para poder fazer um filme?
Talvez, eu acho que eu não me sinto muito livre com as cenas de muita ação ali, na verdade, depois, eu não sei porque, mas eu fiquei sempre com a sensação do curta de um certo formalismo, para você se enquadrar em um curta, e depois os curtas eram 35mm sempre foi 35mm, a idéia do curta, da ‘Lei do Curta’ para passar em cinema naquele tempo era 35mm, e eu não gostava muito de 35mm, eu tenho isso de documentarista até para o longa-metragem, então eu fui mais para o 16mm e ficava no 16mm, nos primeiros anos, anos 60, anos 70 principalmente, a circulação do 16mm era muito grande, qualquer escola tinha o aparelho de 16mm, qualquer sindicato, igreja, clubes, todos tinham o aparelho de 16mm, então os filmes que eu fazia em 16 circulavam demais, eram até campeões de saída, greves, migrantes, os filmes de cinema de rua, e também eram curtas, mas saíam com 16mm e circulavam com 16mm, e depois também a cópia dos filmes que eu fiz para televisão, então a circulação era impressionante em 16mm.

Fale do seu curta, o único curta da carreira?
O Portinari, esse filme foi produzido até pelo INC, ‘Instituto Nacional de Cinema’, na época não foi nem produzido por mim, foi produzido pelo Jorge Wonan, Jorge Teixeira, eram produtores, e eles me convidaram para, eu tinha esse projeto aliás, e eu queria fazer, e comecei a procurar como produzir esse filme, aí eu pensava em fazer 35mm, eu apresentei o projeto para eles e eles entraram lá no INC e conseguiram o dinheiro para fazer o filme, e eu realizei. É um filme chamado “Portinari, o pintor de Brodósqui” eu filmei muito na cidade de Brodósqui, tem reconstituições dos quadros, futebolzinho, que ele se inspirou para fazer a tela do futebol, papagaio e tal, Brodósqui, e depois as telas dele em São Paulo, Rio, então é um filme muito interessante, é um filme muito de idéias, de análise, e muito da época, muito marcado pela época de 68 e tal, achei engraçado, porque até na abertura tinha som de metralhadora, e essa visão muito politizada do Portinari acabou fazendo com que o instituto tenha encostado o filme, primeiro eles queriam que eu mudasse o filme, eu não quis mudar, eles receberam o filme encostaram, nunca exibiram o filme. Então o filme foi absolutamente encostado, o filme só foi apresentado na verdade em um festival em Brasília há uns 10 anos atrás, fechamos em 1968, muitos anos depois da produção e era uma mostra de filmes de arte, e é engraçado porque tinha um prêmio de público, a votação do público para cinco filmes, tinha lá uma quantidade grande de filmes e o Portinari foi escolhido como um dos 5 melhores filmes. E também não continuou, não circulou, ficou nisso, aí o pessoal da Itália, tinha umas pessoas que queriam fazer algo ligado a pintura, artes plásticas queriam fazer uma homenagem a Portinari lá, e eles descobriram pela internet, a estética desse filme que eu nem lembrava mais, e eles me localizaram e pediram informação sobre filme e eu tive que procurar esse filme para dar informação, e acabei achando no CPAV, porque veio do INC para a Embrafilme, foi passando de entidade para entidade, até cair no CPAV, ai o CPAV inclusive me deu uma cópia digital e mandou para lá e passou a Itália, agora o ano passado, ai saiu noticia, jornal tal, o pessoal de Brodósqui ficou sabendo,a i o filme foi exibido em Brodósqui em praça pública e foi muito bonito, porque o publico de lá, as pessoas de lá viram e se reconheciam, quantos anos depois.

O ano passado, o filme é de 1968, é 40, 38 anos depois, tinha garotos naquela época, tinham uns 10 anos, que estavam por exemplo na praça, no futebolzinho que eu filmei de criança, e que estavam com 46, 50 anos. Foi fantástico, realmente uma repercussão maravilhosa, mas que também ficou lá, a gente viu lá e acabou o filme, então você vê que é difícil, mas não sei se essa experiência também me marcou, eu sempre tive um espírito muito militante no cinema e queria ter um filme num processo mais agressivo de distribuição, de levar aos lugares, não limitando no conteúdo do cinema, tanto que meus filmes são muito críticos, mas no sentido da carreira, de ser cineasta, e aquela produção, aquilo me prendeu, fiquei preso a uma estrutura, a um produtor, um INC, se estivesse comigo eu teria brigado com o INC, teria exibido o filme na rua, ou cineclube, teria colocado o filme para distribuir, teria mais liberdade, talvez isso tenha ajudado a criar uma pequena rejeição, eu tinha feito o filme anterior, ‘Liberdade de Imprensa’, em 16mm, meu primeiro filme sozinho depois do meu grupo é de 1963, mas acabou com o golpe de estado e em 1966 eu fiz meu primeiro filme sozinho que é o ‘Liberdade de Imprensa’, e fiquei com o 16mm com muita liberdade, muita invenção, um filme bastante saudado pelos historiadores, mas também foi apreendido logo em seguida, mas pelo exército, fica a diferença no cérebro não são muito gratificantes, mas de qualquer maneira eu achava melhor aquilo, único problemas era como estava apreendido eu não ia poder ficar exibindo o filme sem criar problema, aquela época era uma época muito pesada, mas o fato é que a partir daí a minha preferência foi pelo 16mm.

Você estava falando de distribuição, hoje você tem o Youtube! que você pode fazer um curta pelo celular, pela máquina fotográfica também grava vídeo, câmeras digitais também se proliferam e tem uma grande quantidade de curtas no, que de certa forma, você coloca no computador e distribui para o mundo todo e que as pessoas podem assistir, você acha que tem uma avalanche de curtas, nesse sentido, você acha que é uma revolução o que está acontecendo, que é bem diferente do que aconteceu, nas dificuldades que você encontrou naquela época?
Bom, eu sou uma pessoa bem adepta dos avanços tecnológicos, aliás eu posso dizer até que eu sou meio pioneiro disso, porque como eu sou veterano eu filmei em digital, fiz um filme em digital há muitos anos, eu ganhei prêmio com o longa digital que eu fiz em 2001, que é o ‘Vida de Artista’, e todo mundo achava que eu ia passar para o 35mm, e eu disse na época que eu não ia passar, que eu achava um absurdo, nós estamos em um mundo digital e é um absurdo, é retroativo você estar no cinema digital e passar para a mecânica de novo, mesma coisa que você usar o computador e chegar uma fórmula, e você pegar aquilo e jogar numa maquininha de calcular, para checar o computador, é uma coisa pirada, eu achava um absurdo e achava o sistema de exibição que estava atrasado, o que tinha era que já ter um processo de exibição digital. Então eu não aceito isso, o filme ficou circulando em DVD, gerou muita polemica, o cineasta é muito tradicional, muito cheio de preconceito, então quando o cinema era mudo e passou para sonoro, ah acabou o cinema, quando passou para cor, ah acabou o cinema, o cinema era branco e preto, ai quando veio a televisão, ah acabou o cinema, é tudo cinema para mim, mesmo televisão, tudo vem do cinema, então quem vem do cinema e foi para a televisão continua fazendo cinema, fica criando imagem, colocando imagem na tela, quando apareceu ‘Vida...’, ah ‘Vida’ não é cinema, é uma câmera filma até uns quaro segundos, é um quadro, uma forma de enquadrar a realidade, de editar, criar tempos, é o próprio cinema, é o avanço tecnológico, quando veio o digital então, ah teve gente, famosos e tal, destrói a conquista pictórica do cinema, isso é pictórico de papel Kodak, nós somos obrigados a ter padrão Kodak a vida inteira, a tecnologia muda, muda o padrão também, dá até para olhar esse padrão Kodak e achar aquilo antigo como a gente acha da fotografia branca e preta antiga, a gente olha a fotografia branca e preta em algum lugar e vê aquele ar antigo, é isso que a gente vai sentir também com esse padrão Kodak, a questão de qualidade é uma coisa mais complexa, não tem esse conservadorismo, quem mantém esse conservadorismo é o sistema de poder, quem tem poder sobre isso não quer perder, sendo cineasta que tem o linho naquilo, então não quer perder, seja a indústria que domina tudo e não quer perder para outra tecnologia, então vocês criam uma mente horrorosa, agora que problemas que tem?

Não é para as pessoas, só dele viver com isso, Deus me livre ter uma visão totalmente elite, se o cara é dentista e gosta de cinema e faz filmes, nas horas vagas exibe, o cara perde para ele, a profissão dele é dentista, o cara vai fazer cinema e as vezes se sai muito bem, não tem domínio, não tem reserva de mercado, ah porque eu sou cineasta e agora eu acho que a pessoa tem que ser cineasta com a minha formação para poder fazer filme, você obtém equipamento em qualquer banca de rua hoje, se o cara compra tem todo o direito de pegar aquele equipamento e fazer o que ele quiser, filmar do jeito que ele quiser, montar ou não montar, isso é problema dele. Então, eu acho que hoje a questão do cinema, é um pouco como cada um encara aquilo ali, você encara como profissão então você vai batalhar profissionalmente e vai viver daquilo, então você vai se enturmar, vai buscar aquilo, vai trabalhar, buscar patrocínio em indústria, empresa, montar, captar recursos, procurar mercado, formas de exibir, ta certo, o problema é só isso, qual a diferença? Sempre foi assim, agora é um absurdo não abraçar as conquistas, as novidades que tem nessa área, acho que no fundo é essas coisas, se a pessoa faz um filme num curta e dá sucesso, pode acontecer o que for com ele, ele pode fazer a partir daquilo trazer uma carreira, e essa carreira pode ser continuar fazendo curtas agora com um pessoal que me siga, para o curta, pode fazer o longa-metragem dele, pode fazer o que quiser , pode continuar como dentista e fazer nas horas vagas belos filmes dele no Youtube! fazendo sucesso no e continue sendo dentista e vivendo daquilo lá, eu acho que é o cronometro de cada um, porque as coisas estão colocadas cada um que escolhe o que quiser.

Para os fãs de curtas, o pessoal que gosta de assistir curtas, você tem esperança de um dia voltar a fazer um novo curta, como que acontece, só vai ficar com o longa ou pode ser que mais para frente tenha uma idéia de um curta?
Olha, vou frustrar as pessoas, mas eu não tenho projeto de um curta-metragem agora, eu tenho vários projetos, tem vários documentários, a idéia é ser longas, embora que tenha a literatura, na literatura tenho muitos contos, não publico, mas escrevo muitos contos, vou publicar uma hora, mas o cinema eu pessoalmente não tenho muita vontade, eu gosto muito de ver os filmes, acho importante e gosto, tem muitos curtas que eu gosto demais, é vocação pessoal.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Paulo César Pereio

Atuou em quase cem filmes como ator, participando de muitas de suas obras decisivas, passando por suas correntes artísticas importantes como o Cinema Novo, Cinema Marginal, Pornochanchada, e imprimindo a seus personagens traços de sua personalidade: a irreverência, a corrosiva ironia, a anarquia e o deboche.

Você já fez uma porrada de curtas, qual que é o grande barato de um curta-metragem?
Eu acho que é a mesma coisa, é fazer cinema, é um filme curto, em geral o orçamento é proporcionalmente muito menor, porque você vê que um curta que pode ter 15, 20 minutos, e um longa tem 90 minutos pode até um pouco mais, então quer dizer é mais técnica sempre e o orçamento é muito menos do que 10% o orçamento do longa.

O curta no Brasil inclusive, não tinha possibilidade de veiculação, agora se abriu com a projeção digital, com exibição na televisão, no Canal Brasil, principalmente, e nos festivais de curtas, mas o prazer é o prazer de fazer cinema, não muda muita coisa, tem uma vantagem que fica mais relaxado e que em geral tem um aspecto experimental, e eu sou chegado a isso, e não trabalhar com cara muito rígido, poder experimentar.

Por não tem tanta pressão do mercado e da crítica... talvez seja um grande fator de fazer um curta, não ficar tanto naqueles padrões do cinemão...
Eu acabei de dizer isso cara, engraçado eu acabei de dizer isso, que tem mais liberdade de experimentação, agora trabalhar com jovem não é necessariamente bom, não, tem jovens que são insuportáveis, um dia um cara que estava viajando, um curta aí que eu fiz, estava viajando em estar na direção mais do que estar dirigindo, ele falou assim para mim, eu estava na Praça da Sé ao sol, era verão de terno azul marinho, e ele falou assim para mim, não sue, tem umas coisas as vezes com jovem que enche um pouco o saco, mas tudo bem, eu não acho que seja assim, o que eu tinha acabado de dizer foi a sua pergunta seguinte, eu tinha dito que o curta é mais livre, dá para experimentar.

Você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo de metragem?
Mas é claro, existem novelas, existem contos, eu vi um curta uma vez que tinha, eu acho que tinha 2 minutos e era bem interessante.

E você acha que também os veículos de divulgação, tem o Canal Brasil, a própria TV Cultura que exibe, mas tem poucas salas de cinema que exibem o curta, ele é pouco visto, isso de certa forma te chateia?
Não, eu acho que isso é uma luta que o pessoal que realiza curta e tal, tem que fazer, eu sempre gostei de curta, eu amo muito e eu amei um clube de cinema em Porto Alegre que passava muitos curtas, quando eles exibiam inclusive da Inglaterra, documentários, curtas etc., eu acho que isso é um fenômeno do brasileiro... esse negócio de não dar importância para o curta.

E da crítica, você acha que é uma crítica viciada que só quer falar do cinemão, e não quer falar do curta, é meio marginalizado do próprio meio da imprensa?
Eu acho que a crítica, não deve ser uma crítica adjetiva, acho que a crítica de cinema deve ser uma crítica estimulante, o papel do crítico ser muito mais de dar estímulo, agora evidentemente, que o jornal coloca o crítico que tem a ver com o processo comercial da coisa, não se dá muito ao trabalho de ficar criticando, dando livre interferência, recomendando ou desencomendando um negócio que está dando mercado, absolutamente, mas eu acho que o papel do crítico é de estímulo não de adjetivo.

E os cineastas, a maioria dos cineastas famosos, grandes diretores, eles começam com o curta e tem uma projeção, um grande sucesso, vão para o longa e nunca mais faz um curta, e alguns atores, quando não tem muito o que fazer, fazem um curta. Você acha que o curta é marginalizado no próprio meio artístico?
Eu acho que não, eu acho que isso que você está dizendo não acontece, eu me lembro que teve uma época que teve uma sessão inteira de cinema com vários curtas, tinha um que era “história extraordinária”, sei lá, tudo cineasta consagrado... eu me lembro que Fellini fazia curtas e juntava com outros diretores, e isso já aconteceu no Brasil também, três diretores do cinemão, numa sessão inteira de cinema, dessas de 2 horas, com curtas-metragens, é evidente que pelo desprestígio que tem pela falta, pela coisa não estar armada direito para a comercialização, o cara que faz o cinemão, ele fica no cinemão.

Dos curtas que o senhor fez, qual que o senhor destaca?
Eu me lembro que eu gravei um recentemente sobre o Camboja, que eu achei muito interessante, porque eu não trabalho só como um ator eu trabalho também como narrador, eu recentemente gravei um do André Ferezini, sobre o Camboja que eu gostei muito, mas eu não boto na minha cabeça, as coisas em ordem, é ordem da memória, ordem afetiva entende? Porque eu não exercito a crítica adjetiva, essa crítica que eu falei mal, eu não exercito, isso é bom? Isso é ruim, mas eu não exercito isso, e hoje e sinto a arte, se eu começar a ficar crítico adjetivamente eu jogo tudo que eu critico para dentro da minha cabeça e me proíbo de fazer aquilo. Eu não posso mais pisar na bola, então eu evito o exercício da classificação qualitativa disso, daquilo, as vezes eu tenho prazer numa filmagem e isso é o que importa entende.

Tem algum curta em vista que o senhor vai fazer?
Atualmente não sei, as coisas aparecem assim subitamente, eu estou sempre de olho, para você ver, o ano, nesses últimos anos, eu devo ter feito uns 40 curtas, então eles vão surgindo e eu vou fazendo.

E o que te leva a aceitar um convite?
Eu gosto de trabalhar com gente nova, com gente que futuramente vai estar no cinemão, porque o pessoal do cinemão já enjoou um pouco de mim, então a chance que eu tenho de ter um trabalho no futuro, uma espécie de aposentadoria. Essa gurizada ainda vai fazer bons filmes.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Fernanda D'Umbra

Fernanda já fez mais de 40 peças com o grupo ‘Cemitério de Automóveis’, uma das mais underground e ovacionadas do teatro brasileiro contemporâneo , é conhecida pela influência da literatura beatnik, dos quadrinhos, do cinema e do blues.

Fernanda, você que é uma atriz de teatro, o que você acha que o teatro pode ajudar no cinema especificamente no curta-metragem?
Eu acho que o ator de teatro é um cara que aprende a interpretar porque ele tem que saber mesmo, a linguagem de teatro depende muito dele. A gente não tem os recursos que nos favorecem, como tem no cinema e na TV, que é uma edição, que é uma câmera que vem te ajudar, no teatro a gente tem que aprender a ser bom quase que sozinho ali, então um ator de teatro via de regra é um ator que sabe interpretar, o que ele precisa quando vai para o cinema de curta-metragem, é conseguir adaptar aquele saber que ele tem da interpretação para aquela linguagem e jogar com ela, porque ao mesmo tempo que o cinema te favorece, porque ele te dá os recursos que o teatro não tem, ele também pode te passar a perna porque tem que também saber lidar com esses recursos. No quesito interpretação eu acho que o ator de teatro tem muito a oferecer para o cinema, curta, média e longa-metragem.

E você pensa, por exemplo, em enveredar para essa área? Por que eu sei que o Ivan Cabral já fez curtas, o pessoal do Sátyros, tem essa vontade de experimentar, de contestar o que está por aí dessa linguagem cinematográfica.
Olha, depois que eu comecei a fazer TV, que eu estou fazendo agora uma série na GNT, muito me interessava por esse assunto câmera, e ele começou a mexer com meu imaginário, se eu disser que já tive idéia de fazer um curta, é mentira, nunca tive, mas agora eu posso te dizer que eu devo vir a ter interesse em enveredar por aí, porque as tecnologias estão mais fáceis, o acesso está mais fácil e a gente vai acabar fazendo alguma besteira uma hora ou outra.

Você falou de tecnologia, tanto do celular que dá para gravar curta, câmeras digitais, tem uma proliferação muito grande. O que você acha que uma pessoa tem que fazer para diferenciar um trabalho, fazer um trabalho bacana, nessa avalanche de curtas que tem por aí?
Se o cara quer ser diferente tem que ser bom, e ser bom significa ter um certo talento para a coisa, não é o equipamento que faz o bom cineasta, é a cabeça dele, é o que ele tem lá dentro, é o que ele quer mostrar do jeito que ele quer mostrar. Então o que eu acho que vai diferenciar no final das contas, como o acesso está fácil, todo mundo vai sair fazendo, o que vai diferenciar é a cabeça de quem tá com aquele negócio na mão.

Qual é o grande barato de um curta?
È de contar de maneira sucinta uma boa história, eu gosto de história, eu acho a coisa da linguagem pela linguagem bem sacal, mas também pode ser que seja até uma limitação minha estética, não estou aqui me colocando, estou assumindo até uma possível limitação, mas um curta que me conte uma boa história eu acho bem bacana.

O curta tem um poder de síntese muito grande, você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo de metragem? O teatro geralmente é de 50 minutos para cima, se pudesse ser filmado, nunca seria um curta, você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo?
Acho que dá, dá para você fazer isso de várias formas, dá para você fazer isso no roteiro, na montagem, e eu acho que dá sim, acho que dá fácil para contar uma história curta.

Você também é autora, interpreta e tudo mais, você acha que poderia escrever, e produzir, dirigir um curta, já que você me falou que pode vir a ter essa idéia no futuro? Se tivesse agora uma idéia que tivesse que fazer um curta agora, qual o curta que você faria?
Idéia de um curta agora, eu acho que eu faria uma curta sobre uma pessoa que abandona todas as tecnologias e tenta continuar vivendo na cidade grande assim, sem celular, sem internet, pelo menos por um tempo e ver o que acontece na vida dela, é uma experiência que eu estou tentando fazer comigo agora, mas na verdade você me pegou de surpresa, eu não sei que idéia teria, agora eu acho que eu não teria problema nenhum em escrever e dirigir se eu conseguisse alguém para fazer uma direção de fotografia comigo, e fazer uma parceria ai comigo, resta saber se eu vou achar esse alguém, se eu achar eu vou fazer sim.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Clarisse Abujamra

O primeiro contato de Clarisse com câmera de cinema foi em 1968 no filme ‘As Amorosas’, de Walter Hugo Khouri. Em 79, participou de ‘Gaijin’, de Tizuca Yamasaki. Mas, o seu mais importante trabalho foi no filme ‘Anjos do Arrabalde’, de Carlos Reichenback, que lhe rendeu o Prêmio Governador do Estado como a melhor atriz do ano de 1987.

O curta para uma atriz que está em televisão e está em teatro ele é pouco visto, pela pouca divulgação que tem na própria mídia e também nos cinemas e tudo mais, isso de certa forma chateia, porque para uma atriz ela quer ser vista por milhões de pessoas, ela quer ver seu trabalho amplificado, isso de certa forma te chateia para aceitar um convite, e o que te faz aceitar um convite para um curta?
Não me chateia em absoluto, me chateia usando essa palavra que você usou, num quadro geral da falta de divulgação que um artista não estou falando só de teatro, o interprete, todos ocupam um espaço mínimo dentro da mídia, isso é uma grande lástima, nesse sentido sim, quanto a atriz fazer, acho que todo o ator ou interprete, ele não perde a chance, nunca, de um personagem, é sempre o prazer, eu fiz só dois curtas para o pessoal de faculdade, etc, mas foi um prazer enorme porque é um exercício, cada veículo requer um tipo de preocupação, então você está sempre se exercitando, eu nunca penso nesse setor, talvez eu esteja até errada, mas quando me convidam para fazer se isso pintar na minha cabeça vai ser uma coisa bem depois, mas nunca é uma premissa, nunca é uma questão para dizer não, se vai ter divulgação ou não, porque eu estou nessa vida a muito tempo e eu sei como é.

O curta, algumas pessoas dizem que ele é o grande movimento do cinema, devido a muitos cineasta ou não cineastas fazerem curtas porque tem muita facilidade com a mídia tanto com celular, câmeras digitais e tudo mais e tem uma vazão para experimentação. Você acha que isso é o que instiga a um trabalho de curta? Porque a TV já tem um formato padrão, ao autor, a interprete e tudo mais.
Eu acho que sim, porque ele por si só, já abre uma certa facilidade e depois eu tenho uma fé muito grande nessa garotada que faz curtas ou não, que você vê que com certeza amanhã vai querer fazer um longa, por mais que ele se especialize, que seja só paixão o curta, fatalmente é um laboratório para ele encarar um longa metragem, ou mesmo se aperfeiçoar naquilo e conseguir uma síntese maravilhosa, eu acho o curta uma coisa super interessante e fértil, e agora com essa facilidade que está tendo agora de fazer, não estranho que ele ganhe um terreno maior.

Sobre o poder de síntese do curta, você acha que dá para contar uma história em tão pouco tempo de metragem?
Eu acabei de ler um conto e uma autora francesa, o livro é assim pequenininho, o texto é uma página, e ela cona tudo,daí cabe o saber fazer.

No seu trabalho, você que teve dois curtas , o modo de preparação para atuar em um curta é diferente de um filme, de uma novela ou de uma peça?
Não, obviamente a diferença é do modo interpretar, eu não vou interpretar no cinema da maneira que eu interpreto no palco, como nesse teatro que onde nós estamos agora aqui, esse palco tem 150 lugares eu não vou soltar a voz tanto quanto eu tivesse em um teatro com 700 lugares, então só nesse sentido que muda, e as vezes o curta tem uma certa liberdade para o interprete de voar um pouquinho mais, de prosperar mais com o diretor, as vezes é até mais fértil.

Você acha que o curta é um gênero menor dentro do cinema?
Não em absoluto, você pode ter um longa-metragem, eu sou fascinada pela competência, então se o cara é competente ele vai ser absolutamente maravilhoso, se ele for incompetente ele vai ser em um longa, em um curta, e no que ele quiser, e eu acho que ele é belíssimo.

Qual é o grande barato de curta-metragem, tanto o que te leva a assistir um curta, e qual que você acha que é o grande barato de um curta?
O que me excita num curta é que você vê a coisa da síntese do pensamento, o cara tem que ir na mosca, porque se ele não for ele está ferrado, esse talento de conseguir no curta-metragem uma idéia, isso me fascina.