sexta-feira, 24 de maio de 2013

BISTURI - Rejane K. Arruda

“A Palavra Emoldurada, uma Árvore e um Ônibus: Sobre Vai e Vem de João Cesar Monteiro”
por Rejane K. Arruda
“A língua portuguesa é muito traiçoeira. É preciso dar tempo ao tempo” diz João Cesar Monteiro em certo momento de “Vai e vem”, filme de 2002. Em cena de forma bastante performativa, quase como ele mesmo, tece relações com algumas mulheres e a família enquanto o tempo passa em quadros estáticos muito bem delineados. Alternados com estes bate-papos intensos no interior de uma casa ou café, estão os também estáticos quadros de um interior de ônibus e uma enorme árvore, onde João está na maior parte do tempo só, no espaço, para a ação de um cigarro.
É um tipo de filme que, para escrever sobre ele é preciso se pôr a inventar. Mas, ainda assim, dá para destacar aspectos. A música responsável por uma visualidade completamente distinta da que a imagem trás e entre as duas dá-se o espaço de uma contemplação. As memórias da moça vestida com pelos artificiais e compridos: “Cortei o cabelo que meu pai penteou” são lindas. A cena termina com ele falando: “As recordações da infância são sagradas” – e o sentido aparece. Um ponto de basta. De maneira simples e abrupta. “Cortar os cabelos” ganha outro estatuto quando diz: “Dá pra encher um travesseiro e morrer abraçado a ele”. O tempo todo é esta coincidência da ação banal, cotidiana, com a palavra que a eleva, emoldurada pela imagem.
É como se a poética fosse sendo apurada a cada um destes quadros onde o arranjo se repete: o bom-papo com uma mulher, o enquadramento fixo, o ar do cotidiano misturado com a palavra-citação, filosofia, narrativa, poesia, brincadeira. A palavra emoldurada. Um espaço de emolduração da palavra-coisa. Palavra-coisa que ocupa o seu espaço. Não para de sair da boca. E quadros dentro de quadros, janelas em janelas. Meninas de vestidos largos. A infância ali no lugar errado. Palavra que guarda imagens e expele-as. Mundo que se vê de fora. Ouvir. Já estou inventando.
Agora são as três janelas – entre duas estantes de livro. E do bate-papo corta para uma canção – máxima da palavra-som. Por onde se instaura a visualidade de uma brincadeira? Da citação que agora advém da dança flamenca? A preparação da representação é brincadeira e ela aparece: é imagem. Um percurso de quadros. Um a um com a câmera fixa. “Suzana coração de mi vida tem dó de mim, perdoe todo o mal que te fiz”. “E eu?” “A menina não perdoa”. “Não sei se sou capaz. Tenho vergonha”. A palavra sem a ação que corresponderia a fala, se a atuação fosse naturalista. Aqui não. A palavra é expelida, solta no ar. Sem a ação. Um erotismo que não acontece. Mas ameaça. A palavra contorna o erotismo. “As recordações da infância são sagradas” e ele corta para uma canção, uma festa popular dentro do ônibus. E desta vez a alegria toma conta.
João Cesar Monteiro segue uma cultura às avessas, a desitua, desobedece, despreza – para fazer filmes instaurando uma outra: outro sitio, um outro lugar no discurso. Deslocando, produzindo, agindo, ativo. Transpassando o cotidiano com as suas imagens nos faz olhar de maneira diferente para ele. Para um ônibus, de uma maneira diferente. Como ele desconstrói e reconstrói os espaços públicos – a praça, o ônibus – e os domésticos, com a estetização de seus objetos. Elevando cada um ao “preço”, ao valor de significante, ou de representante de algo para além deles próprios, fazendo vacilar a referência como diz Jakobson.
Em nova repetição do ônibus agora está com o “menino da gaita” e aquele cachorrinho segurando um potinho para as moedas. Que vi em Portugal. Acho que isto só tem lá se não estou enganada (se estiver me digam). Ou deixar o pensamento fluir, a cadeia desenrolar sem pudores maiores. E na repetição do quarto agora é tudo escuro junto aos atabaques. O parto do falo. A lenda bíblica. A câmera em pan apresenta um ritual da própria morte? Ele aparece no quadro sem som em preto e branco e é esconjurado. Tira os sapatos e beija os pés do defunto. E depois a boca. É uma mulher. O próximo som é apenas um “bip”. Tudo faz alusão a sua própria morte que, no entanto, não acontece. A menina em câmera lenta joga pétalas no caixão e agora, sob os cuidados de uma enfermeira, o erotismo se dá. E depois da última frase (“Quando fores ter com tua amada, nunca te esqueças de levar o chicote”) e a imagem da árvore ocupando o quadro, o órgão olho é exposto em tamanho descomunal durante um tempo. Onde se pode ver o mundo refletido na íris com o buraco da pupila bem ao centro.

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