sábado, 1 de abril de 2017

Os Trapalhões: Alfredo Sternheim


RENATO ARAGÃO: 80 ANOS
Há décadas que o ator continua dono de um carisma e um vigor criativo raros de se ver por muito tempo entre os comediantes

POR: ALFREDO STERNHEIM  /  16/01/2015 /  Revista da Cultura

Se o cearense Antonio Renato Aragão tivesse feito carreira fora do Brasil, o seu nome seria mais louvado, principalmente pela crítica. Mas esta, entre nós, há anos que geralmente demonstra certa ojeriza com a comédia e com os comediantes. Lembro que, ao reverenciar o talento de humorista e diretor de Jerry Lewis em crítica no jornal O Estado de S.Paulo quando do lançamento de O professor aloprado no final de 1963, quase fui linchado por colegas e intelectuais. Depois, já festejado pela consagrada revista francesa Cahiers Du Cinéma, o tratamento ao gênio americano aqui passou a ser outro. Quanto à rejeição aos nossos talentos na área do riso, ela existe e acho que já existia nos anos de 1930 em relação a Genésio Arruda, ator de alguns dos primeiros filmes sonoros nacionais. Na época da Atlântida, por volta de 1950, às produções com Oscarito e Grande Otelo também costumavam ser execradas sob o rótulo de chanchadas. Esse desprezo prosseguiu com as realizações protagonizadas por Mazzaropi. Em todos os casos, o Tempo acabou falando mais alto e a visão a respeito passou a ser positiva. Em especial com aqueles que já estão mortos: agora são cult.

Não é o caso de Renato Aragão. Ele chegou aos 80 anos no último dia 13 de janeiro fazendo o que mais gosta: atuar. Os festejos começaram no palco de um teatro onde trabalha ao lado da filha Livian. Já na mídia, houve menos destaque para um aniversário que precisava ser realçado; afinal, não é sempre que um comediante chega a essa idade oferecendo inalterável o carisma que o torna ídolo há mais de quatro décadas. Até no exterior, é difícil encontrar na comédia, atores como ele, com muita exposição na TV e no cinema, que conseguem ser criativos e aplaudidos por muitos e muitos anos seguidos.  O desgaste chegou para gente como Jerry Lewis, Jacques Tati e outros mestres do gênero.

Em vez de loas, nesta fase de questionamentos sobre o que é politicamente incorreto no humor, Aragão se viu em polêmica após certas afirmações suas sobre as piadas que fez, durante muito tempo, citando gays e negros. Sempre com a companhia do negro Mussum e do delicado ou desmunhecado Zacarias, seus companheiros junto com Dedé no grupo Os Trapalhões. O quase linchamento do ator só não prosperou porque ocorreu a tragédia com a revista Charlie Hebdo em Paris. Em defesa da liberdade de expressão e contra o terrorismo, muitos vestiram a camiseta com os dizeres Je Suis Charly. Não faria sentido insistir na condenação de Aragão que, junto ou não com o seu grupo, apresentou um humor criado em cima de protótipos, de características físicas. As situações em um contexto até delicado jamais acirravam o preconceito, o desprezo. Caso se considere ofensivas essas piadas, temos também que fazer barreiras contra aquelas que utilizam os portugueses, as loiras, os judeus e os muçulmanos.

Independente de se gostar ou não de Aragão, ele tem no cinema nacional uma grande importância. Mesmo com uma exposição contínua na televisão, vários dos mais de 50 filmes que protagonizou desde 1966 se incluem entre os vinte campeões de bilheteria da produção brasileira em todos os tempos. Em uma lista publicada em 2011, lá estavam (pela ordem) O trapalhão nas minas do rei Salomão (1978), Os saltimbancos trapalhões (uma obra prima lançada em 1981), o moderno Os trapalhões na guerra dos planetas (1978), Os Trapalhões na Serra Pelada (1982), O cinderelo trapalhão (1979),O casamento dos trapalhões (1988), Os vagabundos trapalhões (1982), O trapalhão no planeta dos macacos (1976) eSimbad, o marujo trapalhão (1976). 

Está certo, quase todos são com o quarteto dos Trapalhões. Mas, mesmo depois que, gradativamente, o grupo foi se desfazendo após as mortes de Zacarias e Mussum, os longas com Renato continuam atraentes para o grande público. E o ator-produtor, na sua intenção de parodiar, seguiu pegando carona nos êxitos internacionais e se preocupando com as encenações e com a escolha dos diretores. É verdade que, nesse sentido, foi mais feliz nos anos de 1970, quando se apoiou no talento de cineastas como J.B.Tanko e Adriano Stuart, artesões criativos e nada afeitos ao brilho fácil. Porém, acumulando a criação e outras tarefas, ele não deixou de respeitar o público no esmero das encenações e continuou com a graça e a simpatia que o transformaram em um legítimo ícone da nossa comédia, do nosso cinema. Por isso, parabéns pelos 80 anos.  Mais do nunca, je suis Renato.

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