domingo, 2 de julho de 2017

Os Trapalhões: Cristina Prochaska


Cristina Prochaska
Atriz


Você atuou no filme Uma Escola Atrapalhada. Como e por quem recebeu o convite para atuar nesse filme? Como foi a experiência?
O convite veio do Renato... Eu já havia feito várias participações no programa de televisão deles e dei-me muito bem com ele e com o resto do grupo. Foi meu primeiro longa-metragem e minha primeira chance de protagonizar um filme. Adorei a experiência.

Que representava, naquele período, protagonizar um filme com Os Trapalhões, que eram certeza de sucesso de bilheteria?
Protagonizar um filme deles era um sonho, pois, além de ter a oportunidade de trabalhar com um grupo tão famoso e talentoso, eu estaria mostrando minha capacidade como artista para milhões de pessoas.

Quando a Globo se associou aos Trapalhões, ela seguiu uma diretriz de sempre convidar famosos (globais ou não) para atuar nos filmes. Nesse caso, foi a Angélica e o Supla. Que achou da escolha?
Acredito que eram os jovens que estavam em evidência na época, principalmente Angélica começando sua carreira; e o filme necessitava de um casal jovem que cantasse. Eles tinham a proposta de misturar a linguagem de videoclipe e cinema, num contexto escolar, onde sempre há pequenos flertes, romances. O elenco era magistral. Os atores, maravilhosos. O Supla não “decolou”, mas gosto muito do trabalho dele no filme. Era o que a produção queria na época.

Quais as suas lembranças do filme Uma Escola Atrapalhada? Onde esse filme foi filmado?
Deliciosas lembranças. Produção impecável, como tudo o que o Renato põe a mão. Filmamos no Rio de Janeiro em três semanas. Tudo em locação, não fizemos em estúdio.

Relate as deliciosas lembranças. Em qual escola do Rio foi feita a locação?
Recordo que foi numa escola da Tijuca. Está exigindo demais da minha memória, Rafael.

Como foi a sua participação no filme? Como compôs a sua personagem?
Fazer o par romântico com o Marcelo Picchi e o contraponto com o Renato, que tinha em seus personagens essa característica do “amor impossível”, foi bacana. Eu interpretava uma professora e não foi difícil, mesmo para uma estreante no cinema, pois ser dirigida por Del Rangel e com a apoio do Renato, que está sempre perto da direção, deram-me o substrato que eu precisava. Foi uma experiência deliciosa.

Como Del Rangel conduziu todo o processo fílmico? Como era a sintonia dele com Renato, sempre por perto?
O Del também começava como diretor novo. Muito profissional e seguro. A produção era toda muito jovem. Acredito que tenha sido uma opção do Renato, para impor de certa forma a linguagem da juventude. Del sempre foi calmo e focado.

Quais as lembranças de bastidores do filme? Como foi o seu contato com o quarteto?
Quatro irmãos sempre batendo bola, sempre aprontando uma novidade. Muito talentosos, todos eles.

Que tipo de bate-bola se refere?
Eles tinham uma química muito deles. Trabalhavam em grupo, ensaiavam entre eles também e sempre rolava uma brincadeira na hora do “ação”, como se eles se provocassem, no bom sentido. Eles tinham o prazer de “inventar” alguma coisa, um “‘caco”, como chamamos. Os “reis” da improvisação. Chico Anysio era assim também, provocar a reação da improvisação nos outros atores em cena.

O filme foi o último com a participação de Zacarias, que faleceria naquele ano. A aparição dele no filme é melancólica, muito magro, abatido, numa cena curta. Como foi o seu contato com ele? Ele já estava doente?
Sim, o bom Zacarias já estava doente. Mas sempre no pique, mesmo tendo que ser poupado em muitas cenas. Deliciosa pessoa. Trabalhei com ele na televisão, no programa; e sempre foi um querido e apaixonado pela profissão. Uma perda triste.

Em nenhum momento Zacarias pareceu esmorecido?
Ele precisou ser poupado algumas vezes, sim. Prefiro não comentar isso, querido.

Como Didi, Dedé e Mussum compartilharam esse momento com o Zacarias?
Como irmãos que perdem um irmão. Foi triste. Sempre com o maior cuidado com ele.

Refiro-me ao vê-lo baqueado pela doença...
O Zacarias lutou muito. Um guerreiro, e o filme foi importante para ele. Prefiro não detalhar isso.

O personagem de Zacarias, assim como os de Dedé Santana e Mussum, fizeram apenas uma breve aparição. A sensação é que pareciam figurantes no filme. Isso procede?
Não... É natural que o Renato apareça mais. E o roteiro era assim mesmo. Nunca podemos dizer que os três eram figurantes. Cada um tinha seu momento de “brilho”, mas o Renato sempre foi o cabeça de chave do quarteto. Todos sabem disso. Ele “criou” o quarteto.

Mas nesse filme especificamente eles apareceram muito menos que o normal.
O roteiro era assim. O Renato sempre foi o cabeça de chave. Não vejo nada demais nisso.

Apesar do sucesso de bilheteria, o filme é considerado pela crítica o pior filme antes da morte de Zacarias. Qual é a sua opinião a respeito?
Bom, eu não acho isso. Se o filme é sucesso de bilheteria e depois de vendas de DVD’s como esse foi, é sucesso. O que a crítica talvez não gostou foi a linguagem nova que se propôs na época. Era fora do “padrão” do que sempre era apresentado por eles. Havia uma tentativa de uma nova linguagem. Videoclipe e Cinema - Música e Cinema para crianças. Eu pessoalmente acho o filme bem bacana. Gosto do roteiro e do desenho das personagens.

Quem era o maior comediante do grupo?
Renato Aragão é um dos maiores atores deste país. Isso é fato. Ele é engraçado e espirituoso naturalmente, sem se esforçar. Para mim, Renato e Chico Anysio são os maiores nomes da Comédia, são atores completos. Chico agora aplaude lá de cima.

Renato Aragão tem fama de ser perfeccionista. Isso procede? Ele acompanha tudo?
Ele acompanha absolutamente tudo. Ama o que faz e, mesmo com a chegada de seu filho Paulo e do diretor Marcus Figueiredo anos depois, ele continua participando de tudo.

Acredita que essa característica de Renato o torna diferente, um profissional de sucesso?
Sim, O Renato é diretor, roteirista, produtor, ator. Um artista completo e extremamente sensível. Merece ser reconhecido como um dos artistas mais completos do país. Contracenar com ele é uma experiência deliciosa. Ele está sempre atento, muito carinhoso com a equipe, com as pessoas em volta.

Por que, na sua visão, os críticos e a Academia rejeitam os filmes produzidos e estrelados pelos Trapalhões?
O cinema “infanto-juvenil” é sempre alvo de críticas vazias. Não só o dos Trapalhões. Xuxa sempre foi alvo de duras críticas. Uma bobagem, mas é assim mesmo. Já as bilheterias comprovam que a crítica erra ou não percebe a importância desse cinema tão necessário para o Brasil. Não conseguimos competir em produção com o cinema infanto-juvenil importado dos Estados Unidos. Não há como “competir” com as superproduções e a tecnologia norte-americanas. Nem se tenta. Eu acho que nosso cinema para esse público é honesto e reflete nossa cultura de forma eficaz, singela e necessária. Criticar o cinema que se faz aqui, com as dificuldades enormes que temos de levantar recursos, mesmo com as Leis de Incentivo, chega a ser uma deselegância da crítica. É muito difícil produzir arte neste país. Apontar dedos é fácil; difícil é fazer um cinema bacana, que lota as salas há quatro décadas e ainda consegue emocionar as plateias. Os Trapalhões são necessários à nossa cultura. Renato Aragão, sozinho hoje, é um guerreiro e merece mais respeito.

Como classifica o cinema feito pelos Trapalhões?
Necessário.

Gostaria que falasse o que representou para você trabalhar com Os Trapalhões, que carregaram, por muito tempo, o cinema nacional nas costas.
Como atriz e como mãe, foi importante fazer parte dessa era. Fiz especiais e cinema com eles. Sempre vou lembrar com muito carinho dessa turma. Renato foi muito importante na minha formação. E, depois de mais de vinte anos, fiz com ele a minissérie Poeira em Alto-Mar, na qual interpretei a personagem Mirela. Renato é divertido e profissional. Aplaudo de pé o mestre Renato e sua infinita capacidade de emocionar com o riso e simplicidade. Renato é simples, direto e raro. Vai ser reconhecido como um dos maiores atores, roteiristas e produtores do cinema feito no Brasil, espero.

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