domingo, 2 de julho de 2017

Os Trapalhões: Dedé Santana


Dedé Santana
Trapalhão


Sua família o criou entre artistas de circo. Essa criação foi um fator preponderante para a sua opção de ser artista?
É claro que foi, pois já nasci artista, na oitava geração circense. Artista não só de palco, como de picadeiro.

Que função exerceu, ao entrar, com apenas três meses de vida, no seu primeiro espetáculo circense?
Era uma peça, A Cabana do Pai Tomás, um drama em que eu fazia o filho de uma escrava. Então, com três meses de idade, eu entrei no colo da minha mãe, que também era minha mãe no drama.

Quais as suas principais recordações do trabalho com o seu irmão, o Dino Santana que, juntos, formavam a dupla Maloca e Bonitão?
Tenho várias recordações. A primeira era no circo em que eu era o palhaço e ele era o clown. Depois, criamos o Maloca e o Bonitão. Atravessamos várias fases, até chegarmos a ter tanto nome quanto tem a dupla Dedé e Didi.

O filme Na Onda do Iê-Iê-Iê foi primeiro filme com a dupla Renato Aragão e Dedé Santana. Você imaginava que esse filme seria o primeiro de uma rica filmografia que você construiu ao longo da vida?
Tinha tanta certeza, que eu corri muito atrás na época. O meu sogro Átila Iório nos ajudou muito. E eu fui muitas vezes, durante mais de um mês, falar com o produtor, até que um dia ele resolveu fazer um filme em preto e branco com a gente. Era o Na onda do Iê-Iê-Iê. Eu já tinha certeza do sucesso da dupla no cinema. E não deu outra, não foi diferente do que eu imaginava.

Por atuar, escrever e dirigir cinema, parece-me que o seu maior interesse sempre foi a Sétima Arte. Isso procede?
É engraçado, eu sempre adorei cinema. Desde pequeno, eu aproveitava restos de filme, quadrinhos de filme. Com óculos de aumento, eu já projetava algumas coisas na parede. Eu sempre gostei de direção de cinema e sempre achei que eu era mais diretor do que ator. Dirigi vários filmes, ajudei nos roteiros. Colaborei muito com o cinema nacional.

Apesar da sua formação circense, em algumas cenas dos filmes você não dispensava a figura do dublê, não é? Se sim, gostaria de saber se era o próprio Baiaco, dublê de Renato, que fazia as suas cenas.
É... até era meio uma burrada minha, mas eu me arriscava. Sempre gostei de fazer minhas próprias cenas. O Baiaco era dublê do Didi. Aliás, é até hoje. Faz quase quarenta/trinta anos que é dublê dele. Pelo fato de eu ter feito oito números de circo, ter feito barra, trapézio, globo da morte, acrobacias, parada de mão, tudo, achava que não era necessário usar dublê. Meio arriscado, mas foi assim que aconteceu.

Em alguns momentos, vocês chegaram a rodar cenas dos filmes no Teatro Fênix. Como era trabalhar lá?
Sim, nós rodamos cenas no Teatro Fênix. Foi assim: eu vi uma reportagem nos Estados Unidos e dei a ideia de fazer o primeiro filme; aliás, esse foi o primeiro filme no Brasil feito em VT. Foi uma ideia aqui do seu amigo. E a gente acabou por aproveitar equipamento, gravamos várias cenas em uma coprodução com a Globo, que foi também o primeiro filme da TV Globo em parceria com outros coprodutores. E foi o Dedé que teve essa ideia.

O filme A Ilha dos Paqueras foi uma produção da Boca do Lixo de São Paulo? Se sim, quais as suas recordações de lá?
Eu estava entrosado na Boca do Lixo, trabalhando em produção, edição. E eu tive a ideia de fazer esse filme. Juntei-me com Fauzi Mansur, que era um bom diretor. E conseguimos convencer o Renato Grecchi a fazer um filme, e ele deu a ideia de fazer a A Ilha dos Paqueras. No início, era um desastre de avião; mas, como não foi possível, eu tive a ideia de transformar tudo para um navio. E, junto com o Fauzi Mansur escrevi o roteiro; e a gente acabou fazendo o filme.

O personagem Dedé ficou marcado como o mais sério dos Trapalhões (fato que você mesmo admite em entrevistas sobre o seu personagem), por ser ele o que agia de maneira mais normal, talvez para que o personagem se diferenciasse um pouco dos seus três amigos, exageradamente hilários. Como compôs o seu personagem? Foi sua opção ser o “escada” do grupo?
Na realidade, tudo começou com uma dupla: Dedé e Didi. Eram os dois comediantes; e chegou uma altura que eu vi que isso não estava dando muito certo, os dois fazendo piada. E eu chamei o Renato e falei para ele: “Olha eu vou passar a ser o ‘escada.” E ele falou: “Mas, rapaz, você pode se prejudicar.” Ele não queria, e eu falei: “Não, cara. Eu sinto que você é muito mais engraçado do que eu; então, eu vou fazer ‘escada’ para você.” E ele acabou concordando, e realmente foi o que deu certo. E, quando formamos Os Trapalhões, que você já conhece a história, eu trouxe o Mussum para o grupo e o Renato trouxe o Zacarias. Foi aí que ficou bem mais difícil para mim. E uma vez o Lúcio Mauro me falou isso: “Fazer ‘escada’ pra um é difícil, você faz pra três. Você é um herói.

Depois dos Trapalhões, o cinema nacional pouco produziu para as crianças. Por que há tanta resistência em criar para o público infantil?
Olha não é pra gente se gabar, não; mas vou lhe dizer é muito difícil fazer filme na linha infantil, na linha pra criança. Nós, graças a Deus, demos certo, muito com a ajuda do J. B. Tanko, que merece muito mérito nessa escala nossa no cinema. Mas o pessoal pode ver que todos os filmes feitos para criança não deram muito certo, com raras exceções.

Quais as suas principais recordações do Ted Boy Marino? E por que, ao contrário da televisão, ele participava pouco dos filmes?
Tenho até hoje saudade do Ted Boy Marino, que era um grande colega. Mas ele não era especificamente para o cinema. Tinha também o problema do idioma. Ele falava meio enrolado. E, se dublasse, perdia a espontaneidade. Mas, no princípio, na primeira formação dos Trapalhões, ele funcionou muito bem, pois a luta, a luta livre, estava em evidência.

A crítica elege Os Trapalhões no Auto da Compadecida como o melhor filme do quarteto. E você, qual elegeria?
Quem sou eu para discordar da crítica? Ariano Suassuna, história maravilhosa... Mas a minha opinião é diferente. O filme mais lindo dos Trapalhões é O Trapalhão na Ilha do Tesouro, éramos só o Didi e eu. O mais engraçado é O Mistério de Robin Hood. E o melhor trabalho nosso é Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, melhor trabalho do Dedé e Didi. E o filme da menina dos meus olhos é A Filha dos Trapalhões; em seguida, vem Os Três Mosqueteiros Trapalhões.

Por qual razão, apesar do grande sucesso, vocês ganharam raríssimos prêmios em festivais de cinema no Brasil?
Eu vou falar sobre o prêmio. Vou falar em meu nome, não é em nome dos Trapalhões e nem do Renato. Na época em que o público não queria saber de cinema nacional, nós conseguimos levar uma multidão, cento e cinquenta milhões de telespectadores, sem contar nas trutas que tinham na bilheteria... O número de espectadores deve ter sido muito maior, né? Eu acho que eu, Dedé Santana, já merecia uma homenagem, principalmente lá em Gramado – a minha mulher é do Rio Grande do Sul, e eu sempre toco nesse assunto. Eu acho que eles deveriam fazer uma homenagem para o Oscarito, pra mim, pro Renato Aragão. Acho que a gente já merecia isso. Ou vão esperar a gente morrer para fazer isso? Vai ter que ser rápido, nós já estamos com mais de oitenta.

Para finalizar, o Tião Macalé era considerado o quinto Trapalhão?
Não existiu e nunca teve quinto Trapalhão. Tinha os colaboradores no elenco, que o Renato gostava muito e eu também. Tem o caso do Sargento Pincel que está com a gente desde o começo; o Tião Macalé; o Carlos Kurt, aquele alemão do olho azul, grande; o próprio Átila Iório; Dari Reis... São pessoas que nos acompanharam durante muitos anos. Mas os Trapalhões realmente só eram os quatro: Dedé, Didi, Mussum e Zacarias. Quer saber a verdade? Nem eu me considerava muito dos Trapalhões. Eu era e sou, sempre fui fã dos Trapalhões. Fã número um do Mussum, do Didi, do Zacarias. Eu sempre fui fã deles, tanto é que eu ria em cena e dou risada até hoje. Por isso, eu optei por ser “escada”.

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