terça-feira, 12 de junho de 2012

Heitor Dhalia



Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta é uma plataforma de aprendizado e experimentação estética. A maioria dos diretores nascem no curta-metragem. O curta é um formato interessante e aponta para o futuro. No Brasil, temos uma forte tradição de curta-metragem. Tanto aqui quanto no resto do mundo, o curta tem conseguido ganhar espaço e interesse de um público que gosta de cinema. O curta é um formato encantador.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não, na verdade, por uma razão simples. O curta é destinado para um publico específico e não o público geral, que é o público que lê jornal. O curta é formato que normalmente passa apenas em festivais e alguns poucos programas de TV. Acho que a atenção poderia ser maior. Mas isso é difícil até para o longa-metragem conseguir este espaço.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Na verdade, isso é uma coisa difícil. Devido a própria essência do formato. A narrativa curta é sempre mais específica. Na literatura é assim também. As pessoas tendem a se envolverem com histórias de maior fôlego, porque o investimento e resposta emocional costumam serem maiores. A falta de tempo também é um fator. Acho que o mundo virtual é uma boa forma do curta crescer de importância. Também cinemas e TVs poderia se dedicar a reservar um espaço ou construir programações especiais dedicadas a isso...

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É sim tem pessoas que nunca fazem a transição para o longa-metragem. Isso tem muito a ver com o que você quer dizer. E qual o tipo de linguagem que você aprecia como diretor. No entanto, para mim, parece um caminho natural. O longa é irresistível.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não, todo cineasta gosto de curta. Mas depois de um tempo, você passa para a outra fase do game. Você quer construir narrativas maiores, com mais alcance de exibição, público e uma profundidade narrativa maior. O longa permite que você desenvolva personagens. O curta é um tiro. Todo que mundo que faz cinema gosta de curta. Adoraria faze outro curta, por exemplo.

Você dirigiu curtas. O que te levou a trabalhar com esses projetos?
Só dirigi um. Por um razão simples, comecei no cinema tarde. Tinha que correr atrás do tempo perdido. Fiz um curta e três longas. E estou preparando mais 2 para este ano.

Conte como foi filmar "A Pantomima da Morte", seu processo de criação, produção e direção.
‘A Pantomima da Morte’ foi um curta experimenta inacabado que filme com 18 anos de idade. Meu primeiro curta mesmo foi o ‘Conceição’. O processo de criação e excussão foi divertido, mas não profissional. Tenho boas recordações.

Conte como foi filmar "Conceição", seu processo de criação, produção e direção.
‘Conceição’ é uma homenagem ao Recife onde morei 23 anos. Foi uma volta para casa. Adorei fazer. Minha primeira experiência séria no cinema. Filmar, na minha cidade, com um equipe super boa. Amei a experiência. ‘Conceição’ é a minha porta de entrada no cinema. Com este filme ganhei muitos prêmios e viajei o mundo todo. E me tornei um diretor. Devo tudo a este filme.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tentei fazer um ano passado, mas não consegui. O orçamento ficou tão caro que resolvemos desenvolver a idéia para longa. Mas não desisti ainda. Ainda vou rodar mais um curta-metragem na minha carreira de diretor. Viva o curta-metragem.

domingo, 10 de junho de 2012

Homenagem

O blog ‘Os Curtos Filmes’ que no mês de agosto irá completar quatro anos no ar, será homenageado pelo ‘DISSEMINAÇÃO’, Mostra de cinema e vídeo experimentais (http://www.disseminacao.com.br/).

A homenagem é em referência ao seu trabalho pela divulgação e valorização da produção cinematográfica nacional.

Esta é a segunda homenagem que o blog recebe. No ano passado o FIIK, de Rio Claro, prestou uma homenagem ao blog.

Divido essa conquista com todos vocês.

Rafael Spaca.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ari Cândido

Ari cursou cinema na Universidade de Brasília. Em 1971, ameaçado pelo artigo 477 da Lei de Segurança Nacional, partiu para a Suécia. De Estocolmo foi para Paris, onde, à partir de 1975, continuou sua formação em cinema na Nouvelle Sorbonne. Seu primeiro curta, ‘Martinho da Vila Paris 1977’, capta a passagem do sambista carioca por Paris. No Brasil, realizou mais três filmes: ‘O rito de Ismael Ivo’ (2003), retrato biográfico do bailarino negro; ‘O moleque’ (2005), ficção baseada num conto do escritor Lima Barreto; e ‘Pacaembu, terras alagadas’ (2006), documentário sobre o bairro paulistano. Reconhecido ativista da comunidade negra, Ari Candido coordenou o Projeto Zumbi e foi um dos idealizadores do Dogma Feijoada – movimento cinematográfico disposto a questionar os estereótipos e o modelo perverso de representação do negro veiculados pelo cinema e pela TV.


Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Enorme. Vamos tentar medi-la?Só pra ser mais recente em 1978 a Resolução 52 da Concine votou (mas o que valeria o voto ainda na Ditadura  de 78 não é mesmo?)de  que o curta-metragem deveria acompanhar um longa nas salas comerciais...Quem cumpriu??Alguns exibidores ao pé da letra até sim,só que apenas para "cumprir e encher linguiça" a recomendação do Concine! Na redemocratização do País  então que vem junto com a ANistia de 79 em diante ...a coisa esfarelou-se no pó da esteira do Brasil - que tava certo em seu bojo e anseio popular- primeiro DEMOCRACIA E DEPOIS ESSES ITENS CORRELATOS DELA  VIRIAM PER SI SÓ!!! Que nada...estamos em 2010 findando e batemos na mesma tecla...porque não foi comtemplada e nem levada a ferro e fogo tanto pelos órgãos governamentais,paralelos,sindicais e mesmo pelos cineastas em si!!Verdade seja dita né?

Mas uma coisa mudou....alguns nem aperceberam-se disso...E olha que não vou botar a culpa no"povo"telespectador não?!O curta-metragem brotou de tudo que é lugar dos rincões brasileiros urbanos ou não...ou seja em 'terra que adubando dá,tudo deu!'Olhe só....um exemplo: o nosso próprio-nesse 2010 que finda-se ...consegui ir para alguns festivais de cinema nacionais e internacionais. O de Los Angeles-LALLIF 20910-mesmo- colocou na tela do Boulevard Hollywood- nas salas do complexo onde reúne-se o 'glamour' mundial puxadas pelo carro chefe da sala Kodak Theater - onde é feita a entrega do Oscar, com certeza portuguesa não é mesmo? Visionou curtas-metragens do mundo latino- especialmente mexicanos(pela proximidade da  violenta fronteira da mesma com os EUA-contou com até a presença do prefeito de  LA que leva por decorrência dessa maciça presença mexicana -nome americano-mexicano !) mas de todo o continente Latino!e não é que tivemos 3 curtas-metragens brasileiros-corajosos defensores do curta....brasileiro em LA- já que foram escolhidos 5 longas-metragens brasileiros - e os curta metragens não receberam nenhum apoio nem pra copias legendadas em inglês, nem pra nada- exceto uma passagem(Ari Candido-com Jardim Beleléu=Heaven garden) não da ANCINE ou do MINC e seus respectivos departamentos de cinema- mas sim  do Ministério de Relações Internacionais -Itamaraty - DEPTO DE AUDIOVISUAL !!?E aqui não vai nenhuma critica aos órgãos citados acima é apenas para CONFIGURAR- o espaço reservado ao curta-metragem, Que floriu muito nos últimos anos em sua produção,qualidade e visualização nacional e internacional- é que infelizmente ainda não "fala grosso"-tanto para os dirigentes do cinema nacional ao nível governamental- tanto para os próprios cineastas e sem falar nos içados atuais  coordenadores e curadores de inúmeros festivais de cinema nacional!!!!Exemplifico: alguns cineastas de longa-metragem (como se o longa-metragem lhe desse credencial para tal):esperneiam e gritam nas barbas expostas do INC e Órgãos do Cinema Governamentais e até chegam a intimida-los...quando gritam por copias,passagens e hospedagens para festivais e mostras internacionais,,,já os curta-metragistas com se fossem do clero baixo....ficam gritando...até cansarem ou ficarem roucos...de raiva!!!Bom pra fechar esse item...O que vi em LOS ANGELS no LALLIF 2010-Los Angeles Latino Film Festival (com salas lotadas e ingressos vendidos!!!)foi melhor em conteúdo,estética e emoção e denuncia algumas até mesmo singelas...do que vi em longa-metragem! Desforra?Recalque?!Inveja acobertada?!Alma lavada!Que nada foi a pura verdade que meus olhos ,mentes e alma presenciou e saiu-se gratificada! E mais : pelo que vi nesse Brasil de Festivais,Mostras de 2010 emito a mesma opinião. Sem nenhum ensejo beligerante de nossa parte. Apenas :constatação pra que tem olhos, ouvidos, tino histórico e percepção além dos umbigos. E nem consultei ainda o 'povo telespectador'- e olha HEIN?!que curtas estão chegando em formas e vias variáveis à eles...sejam em pontos de cultura, festivais, mostras, encontros, oficinas, etc...

Critica: alguns filmes ditos de longa-metragem independente do gênero, etc... deveriam ficar...como curtas-metragens ou no máximo médias....Coisa mais chata do mundo do audiovisual é alguém ter a coragem de dizer que: Puxa, não precisa encher/esticar tanto...que a narrativa perde até seu impacto e esfarela-se num “auto-comtemplo’-logo: virei cineasta de longa metragem !´fácil não é mesmo?!vale o inverso pra curta metragistas: coisa mais chata desse mundo é alguém virar pra ti e dizer:Puxa, bem que podia ser um longa -metragem!! não é mesmo?!

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Porque é o reflexo direto do dito exposto acima. Mas que mídia poderia ajudar isso sim, porque não deve ser a dona contemplativa de tudo que está ai... só para ser comentado ou noticiado como fato,evento,etc...Não é mesmo, cutucão construtivo e formação/informação jornalística teria um belo papel à cumprir. Quem se habilita?!(além de enfrentar as pautas e pauteiros?)E já faz tanto tempo que a tecla incessante bate no mesmo ponto não?!Algo de novo poderia ser construído... pouco à pouco...mas sempre e com resultados a médio e longo prazo com certeza mesmo!

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Batemos sempre Na mesma tecla: porque não vinga?!Exibido antes e adequado com o tempo dos longas. Nas salas comerciais. E mais: na Tevê Aberta. Chega de ficar vendo apenas em Tevê comunitárias, publicas, TV Cultura, Festivais, etc... e em separado!!que casamento é esse que não dá certo? Então que façam-se sessões de vários curtas em tempo de longa metragens(ou seja acima de 60 minutos!) Respeitando os devidos espaços conquistados: O Festival de Curta Metragens de SP dirigido pela competente Zita Carvalhosa e o Festival Internacional dirigido pelo competente Leon Cacoff deveriam fazer um pré -matrimonio de ideia visando expansão nacional e latino incubadora?! não é mesmo? Nessa enorme Paulicéia que tá cansada de ser desvairada...cinematograficamente falando...

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa
Sim pode... Relativo: Já vi muito cineastas das 2 pontas; curta ou longas quebrarem a perna em acrobacia. No entanto, que não arrisca não petisca ou vamos construir patrimônio como os rios que vão indo até desaguarem no oceano??Acho que foram os casos tanto de um Buenuel como de um Glauber Rocha não? Entre tanto outros...

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas? 
Não, mas bem que poderiam sair desse auto = clube contemplativo e seguir o lema: que "tamanho não é documento até mesmo no basquetebol "e sim a extensão e força criativa de suas ideias...e algumas saibam distinguir: QUEM DITA O TAMANHO DA SUA OBRA É O TAMANHO DO |FOLEGO DE SUA IDÉIA E CRIAÇÂO e algumas   servem/acomodam-se  pra curtas e outras pra longas...E cineasta que se auto preze deveria responder sempre essa perguntinha básica, mas essencial....Porque corre o risco de ser atropelado ou perder o controle- pela sua própria narrativa=trocando em miúdos pela dinâmica do seu próprio filme (criatura!!) e estória....

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Futuro próximo não... Explico: Todo cineasta curta-metragista ou não, realiza seus "balanços" podem ser anuais ou cíclicos.. Alguns de tanto ciclos...acabam reavaliando o todo de sua produção e acúmulo de experiências e vivencias vividas cinematográficas. Alguns ainda lançam-se em toque de ou "agora ou nunca mais"...Será o caso do Arnaldo Jabor em seu último filme?!Não sei é apenas um palpite. É que o 'fôlego' cinematográfico é movido pela paixão nos projetos e idéias que conseguiram chegar a tela- (ou então contenta-se acanhadamente  na telinha de TV ou mesmo visionado em alguns festivais e até Cineclubes ou Mostras Paralelas...até mesmo em ditas retrospectivas...) -ou seja "deram as caras=deram a luz"! Nos projetores...em salas!

Algumas ideias e projetos ficam pelo caminho, diluem-se no tempo e espaço: " e alguns projetos morrem por si só...não envelhecem ,mas morrem simbolicamente.

Existem projetos que continuam latentes/pululantes  na alma dos cineastas...convivem em  "nossos espíritos"... alguns até conseguem sem nenhuma maldade de outren's serem literalmente abordados por outros cineastas, sejam nacionais ou não. No momento tô "acertando contas" com o passado porque de tanto calejar um sonho antigo- (apesar de alguns cineastas desejarem e "rodearem o” tema desse sonho - que aconteceu há mais de cem anos no Brasil) - -o de realizar meu primeiro filho /filme de longa quilometragem ou seja longa-metragem brasileiro- o roteiro já faz tempo está "germinando" assim como a pesquisa do tema-que é histórico no Brasil e somente agora que o mesmo completa mais de um século de ter acontecido e que tenho calejado por mais de 35 anos é que: sinto-me pronto e preparado para esse desafio...que ´só de pensar aqui nas imagens e interpretação e desenrolar plástico do mesmo'- dá me calafrios- aliás é esse o nosso fogo-fátuo- que nos alimenta ) ...não de medo, mas de prazer - ao deslumbrar em meu quarto sagrado e de segredos da 'cabeça e alma'.

E o melhor disso tudo : é que agora sim com patrimônio acumulado avaliado -graças ao exercício de realizações de curtas-metragens - Não porque é curta!!!..é que a História e  Estória não cabem num feixe luminoso só  e nos   limites da fronteira espacial do curta - metragem- por isso tem que ser um  longa metragem!

E sinto-me somente agora à 'altura' de carregar essa historia comigo e muitos outros - para leva-la até a tela e oferecê-la como um banquete digno de merecimento!! O tema??Não conto !! Mas todo dia sai algo sobre: -   na Imprensa, livros, etc....

Mas voltemos a vossa pergunta e resposta especifica: tenho 3 projetos de curtas-metragens que estão suspensos até que o futuro -queira vingar-se:

a)A fruta que chora uma lenda indígena lindíssima- que fala de uma fruta que chora....vermelho como sangue da vida!(de tanto participar de Editais  curta-ficção em que o projeto  não é comtemplado-protelei o mesmo, mas um dia....)

b)curta-metragem ficção: um curta baseado num poema fantástico do poeta Castro Alves...e por incrível que pareça uma linda história e estória de uma casal de negros escravos apaixonados no Brasil na época da chegada da família real ao Brasil!...que preferem à morte e assim o fazem nus e entrelaçados!! - já que na realidade não lhes foi permitido/concedido viverem esse amor mútuo....porque a linda mulher escrava  nesse caso fora perseguida e deflorada como "objeto possuído  do prazer do filho de um senhor real de escravos"!!!....(qualquer comparação à atualidade de mulheres nessa situação na atualidade como trabalhadoras ou filhas rurais e ou urbanas ou domésticas "...é mera e simples coincidência...!!!?....)

c)projeto de curta-metragem mescla de ficção e documentário plástico inclusive como uma forma inovadora  de "clip" musical- que unirá 3 cantoras jovens(todas muito jovens e talentosas demais da conta afro-brasileiras:  

- uma de Imperatriz no Maranhão...

- outra nascida na em meio da guerra na Angola-África mas de pai do recôncavo baiano!!Que por incrível que pareça o mundo a geografia e os sonhos vem de família de ex-escravos angolanos - que nessa região Bahia do Recôncavo do massapê onde  é abundante e farta: por ter recebido a maior parte de escravos angolanos no Brasil colonial!!

- e a terceira: filha de um eminente músico brasileiro e um dos maiores percussionistas brasileiros vivo que conheço há mais de 40 anos- e da região de Minas Gerais.

Novidade disso tudo??!: Reuni-las (reuni-las) num filme plástico e com imagens das regiões, sonhos, cantos, sons e intimidade reveladora entre as 3 que não se conhecem entre si!!!Que serão "descobertas individualmente "em breve pelo mundo musical .E que esse  filme( o filme e não Eu) seria pré-catalizador e revelador profético de suas trajetórias ,mas que no filme estariam plasticamente reunidas em dose TRIPLA!!

Portanto, eis ai minha resposta, dá pra vislumbrar que esse futuro também triplo de curta = metragens...estão meio "engasgados" em minha alma e paixão latente e quiçá venham  a se realizar - num futuro pretérito!!...quem sabe?!

quinta-feira, 7 de junho de 2012

BISTURI - Rejane K. Arruda


“Impressões sobre olhar e voz de Neville”[1]

Eu o encontrei no hotel ali na Frei Caneca e fomos para o Athenas. Em meio a outros assuntos, perguntei-lhe por que os atores estão sempre bem. Digo do diferencial que vejo nos atores do Neville: Joel Barcellos e Maria do Rosário em Jardim de Guerra; Sonia Braga em A Dama do Lotação; Vera Fischer com Jorge Perugorria em Navalha na Carne; Claudia Raia em Matou a Família e Foi ao Cinema. Vertigem, êxtase, dor, dilaceramento, vício.

“O cinema é um exercício de liberdade. Sem pode ou não pode. Você está preparado para viver tudo o que o personagem vive? Porque você não faria isso”...  Suspensão! “Mas o personagem faria”. A frase incorporava o seu jeito de falar e eu ficava pensando se aquilo não era como uma senha; uma portinha. Se aquela frase não fica reverberando, ali, enquanto o ator se enche de ganas para ser o que não é.

Contaminado por Jean Genet, Jean Vigo, Renoir, Godard, Buñuel, Bergman, assim era Neville. Foi Almodóvar quem viu A Dama do Lotação! Ainda assim: “O que parece aquilo? Não parece com nada”. Ainda assim, a vontade de ver: “Eu vou mostrar depois do corte”. Ainda assim: “Vamos fazer sempre tudo diferente”. Ainda assim: “Vamos fazer o plano que ninguém fez”. Ainda assim: “Eu sou mais um tijolo na parede”. Ainda assim: “Eu quase não pertenço a geração nenhuma”. O que é o Neville?

O encontro com Nelson foi: “um exercício de liberdade. Aquela cena saiu de uma frase do Nelson Rodrigues: ‘Papai, é verdade que você mandou o deputado me procurar?’ Aquilo tudo veio de cinco palavras. Assim é o cinema. Assim é a disposição do teatro para o cinema. A improvisação não veio do nada, veio daquela frase.” Regina Casé pelada no pega-pega com o deputado em Os Sete Gatinhos. “Vamos dar uma personalidade a esse deputado, a essa menina”. Mauricio do Valle veste a calcinha na cabeça. A frase subjacente a todo jogo de criação!

 “Vai Paulo, vai! Dá tudo!” Em Mangue Bangue Paulo Villaça se joga no lixo, vomita, faz cocô. Neville: “Você tem que ter a noção da morte, a noção do finito no cinema. Nunca mais estaremos todos nós juntos. Então o momento é agora”. Villaça brincava com o pau, com os resíduos, cheirava. “Eu falo enquanto filmo. Grito o tempo todo e falo. Vou falando e fazendo, falando e fazendo”. Na cena do motel com o sogro em A Dama do Lotação, a voz de Neville. “Tira o cinto dele!” Nova chicotada, um grunhido, um espasmo. Sem som direto. Depois dubla.

A cultura do teatro e a cultura do garçom. Os olhos do cineasta sobre as mesas do restaurante. “Eu aconselharia os cineastas a ser garçom pelo menos um ou dois anos”. As conversas sobre “como é o mundo em 66”. O conceito do filme: “o mundo em 66”. Jardim de Guerra. O mais emocionante foi vê-lo levantar e fazer com as mãos os movimentos da câmera enquanto parecia nos recortar do espaço para a película.


Rejane K. Arruda, BISTURI de maio, 2012.







[1] Texto escrito a partir de uma entrevista concedida por Neville d’Almeida a mim, Rubens Machado Jr e Fabio Camarneiro no dia 24 de maio de 2012 em São Paulo. As frases entre aspas e em itálico são de Neville. A entrevista na íntegra será em breve publicada.

terça-feira, 5 de junho de 2012

João Federici

João é produtor executivo e um dos organizadores do Festival Mix Brasil.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta-metragem tem grande importância histórica não só para o cinema brasileiro como para o mundial, desde as experimentações de Thomas Edison com o Kinestocopio e os irmãos Lumìere já que na época não se produzia tiras de negativo fotográfico suficientemente longa. Já no Brasil o formato veio a ser difundido e se expandiu a partir dos anos 70 , dando assim maior liberdade para novos diretores, jovens cineastas e roteiristas pesquisarem e executar um projeto com baixo custo.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que isso seja um tendência da ultima década, pois em outros anos você conseguia ir ao cinema e antes de cada longa era exibido um curta e esse sempre recebia ao menos alguma menção critica na imprensa escrita. Já o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo veio e esta ai a duas décadas trazendo o que há de melhor no formato nacional e internacional. Através dele abriu-se uma maravilhosa janela para o curta nacional e ainda incentivando vários e antigos diretores a produzirem no formato.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Gosto muito do Festival Internacional de curtas-metragens e sua atuação na cidade, mas acredito e sempre digo isso, que deveríamos ter uma lei nacional, estadual ou municipal orientando os exibidores de que antes de cada exibição de um longa teria que ser exibido um curta. Sinceramente acho que seria uma solução muito bem recebida no setor.

A exibição de curtas é extremamente significativa dentro do Festival Mix Brasil. Como observa a produção e qualidade destes filmes ao longo dos anos de história do festival?
No final de 2010 completamos a 18º edição do Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade com exibição de aproximadamente 100 curtas de mais de 27 países, alem dos longas-metragens. A cada ano percebemos, através das inscrições, o quanto cresceu em qualidade e quantidade os projetos de curtas-metragens nacionais. O grande premiado em nosso festival são os curtas que recebem alem do Premio do Publico na categoria de melhor curta, o Troféu Coelho de Ouro para o Melhor curta-metragem nacional, e o Troféu Coelho de Prata para Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia e Melhor Interpretação. Alem desses prêmios, há dois anos fechamos uma parceria com o Canal Brasil que oferece o Premio Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem no valor de R$ 15.000,00 onde o vencedor concorrera ao Grande Premio Canal Brasil de Curtas-Metragens no valor de R$ 50.000,00.

Quais os planos do Festival Mix Brasil para a vazão e difusão de filmes em curta-metragem nas próximas edições?
Todas as edições de nosso programa Mostra Competitiva Brasil são exibidos, em parte ou na integra,  em vários festivais nacionais e internacionais aos quais somos parceiros e também durante o ano posterior ao Festival exibimos, dentro de nossa Itinerância Mix Brasil, em vários capitais e cidades brasileiras.

domingo, 3 de junho de 2012

VAGA IDEIA


Vera Cruz, uma mentira!

Muitas pessoas cometem um equivoco ao dizer que a Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi uma indústria de cinema aqui no Brasil. Não foi nem um esboço de indústria!

A Vera Cruz foi um estúdio de cinema. Um estúdio profissional, com profissionais extremamente competentes em suas áreas, muitos deles vindos de fora do país. O produtor italiano Franco Zampari e o industrial brasileiro Francisco Matarazzo tinham uma visão, um sonho americano de fazer cinema.

Toda a produção realizada ao longo de quatro anos em que a Vera Cruz funcionou e, neste período, saíram vinte e dois filmes, tinha como espelho a produção americana.

É indiscutível o legado que a Cia. Cinematográfica Vera Cruz deixou para o país. Foram conquistados prêmios, lapidaram talentos em todas as áreas, revelaram nomes e deixaram uma marca.

Buscaram nomes no teatro, equipamentos de vanguarda e tentaram mostrar às pessoas que era possível fazer cinema no país. Foi um período áureo, romântico, mas o mercado é muito mais frio e cruel.

Suas bases eram industriais, mas pelo tempo e pela forma que terminou (quebrada, sem dinheiro, sem distribuição, sem força para concorrer com o mercado industrial americano), não podemos considera-la como indústria.

Faltou uma visão estratégica para mantê-la produzindo, se autogerindo, se durasse mais, o curso da história do nosso cinema poderia ser outro. O que falta ao país é uma politica de longa duração. Nosso cinema é dividido em movimentos, um aqui outro acolá.

Não há uma história linear, com uma média de produção de filmes realizados, de construção de salas de cinema, de formação de público, vivemos de momentos. Isso é fato, desse jeito não somos e nem seremos uma indústria.

Esse pensamento imediatista é péssimo, mas é o pensamento que vigora e que existe neste país.

Quando faliu, seus galpões serviram para todos os fins, desde feiras de automóveis até para festas de casamento. Hector Babenco utilizou os galpões para filmar algumas cenas de ‘Carandiru’, a TV Cultura chegou a gravar algumas produções ali e foi só. Continua sendo subutilizada, com destino incerto.

Sua estrutura física é espetacular, não há galpões na cidade de São Paulo com aquela dimensão e mesmo assim continua de lado. Nem todo mundo tem lugar para filmar, por que não pensam nela?

Ainda hoje há pessoas que citam a Vera Cruz como referência, cabe ao leitor decidir qual é a verdadeira lição que temos que tomar com essa história.

Rafael Spaca, radialista, autor do blog Os Curtos Filmes (http://oscurtosfilmes.blogspot.com/).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Gláucia Davino

Gláucia é coordenadora geral do projeto de pesquisa Historias de Roteiristas, com apoio do Mackpesquisa.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O curta metragem faz parte da historia do cinema brasileiro e já foi até um formato de exibição obrigatória por lei, antes do filme de longa. Nos anos 80, o curta-metragem significou uma grande porcentagem da produção nacional, com propostas estilísticas diferentes das herdadas do Cinema Novo e que culminou no despontar de nomes que hoje se destacam na cinematografia de ficção, documental e mesmo nas produções televisivas. A tese da montadora e professora da ECA, Vânia Debs, é um estudo sobre a produção de curtas metragens que marcaram o perfil desta época. Sua importância se deve a vários fatores: 1. é um formato legítimo (previsto em lei); 2) tem espaços alternativos para exibição; 3) há festivais específicos para o formato, no mundo inteiro; 4) serve para o artista se construir como autor e para se deparar com críticas que o farão crescer; 5) é sintético e a TV poderia absorver....

Como enxerga a questão dos roteiros nos curtas? Como é trabalhar com a síntese?
O roteiro do curta metragem tem que ser pensado tão atentamente quanto qualquer outro trabalho em audiovisual. Isso não significa que ele precisa do mesmo tempo de elaboração do que um longa, não. Ainda é bem menos comum o roteiro de curta ser escrito por um profissional que não dirigirá, por motivos diversos: um deles é a possibilidade de experimentação - a síntese temporal de projeção é uma delas; outro é a questão financeira, etc.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Os curtas têm atenção e espaço em crítica de jornais e mídia!!! É só pedir para que os curta metragistas lhe mostre as matérias que saíram sobre os festivais que participaram. Eles terão uma pequena coleção. Esse tem sido o espaço do curta.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Porque o curta precisaria de mais público? Qual é efetivamente o público alvo dos curta metragistas? De qualquer forma, os festivais o fazem com grande força. Por outro lado, a TV e, principalmente, internet são as outras formas mais rápidas. A internet, hoje, é um repositório (com acesso) a muitos curtas-metragens!

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Se esse é o objetivo do cineasta....Ou se ele ainda não conseguiu dar o salto para o longa, ele continua no curta. Parece uma questão mais de oportunidades do que uma escolha. Ele, por exemplo, pode não ir para um longa mas sim para uma série televisiva, continuar com curtas. Também há a questão do gênero. Tem gente que gosta de fazer documentários na categoria curta metragem. Creio que nada pode ser considerado congelado e estático, o cineasta é um criador nos diversos formatos.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
De modo algum! O curta pode bombear mais sangue no cinema nacional, como já aconteceu e continua!!!

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Não.