quinta-feira, 7 de junho de 2012

BISTURI - Rejane K. Arruda


“Impressões sobre olhar e voz de Neville”[1]

Eu o encontrei no hotel ali na Frei Caneca e fomos para o Athenas. Em meio a outros assuntos, perguntei-lhe por que os atores estão sempre bem. Digo do diferencial que vejo nos atores do Neville: Joel Barcellos e Maria do Rosário em Jardim de Guerra; Sonia Braga em A Dama do Lotação; Vera Fischer com Jorge Perugorria em Navalha na Carne; Claudia Raia em Matou a Família e Foi ao Cinema. Vertigem, êxtase, dor, dilaceramento, vício.

“O cinema é um exercício de liberdade. Sem pode ou não pode. Você está preparado para viver tudo o que o personagem vive? Porque você não faria isso”...  Suspensão! “Mas o personagem faria”. A frase incorporava o seu jeito de falar e eu ficava pensando se aquilo não era como uma senha; uma portinha. Se aquela frase não fica reverberando, ali, enquanto o ator se enche de ganas para ser o que não é.

Contaminado por Jean Genet, Jean Vigo, Renoir, Godard, Buñuel, Bergman, assim era Neville. Foi Almodóvar quem viu A Dama do Lotação! Ainda assim: “O que parece aquilo? Não parece com nada”. Ainda assim, a vontade de ver: “Eu vou mostrar depois do corte”. Ainda assim: “Vamos fazer sempre tudo diferente”. Ainda assim: “Vamos fazer o plano que ninguém fez”. Ainda assim: “Eu sou mais um tijolo na parede”. Ainda assim: “Eu quase não pertenço a geração nenhuma”. O que é o Neville?

O encontro com Nelson foi: “um exercício de liberdade. Aquela cena saiu de uma frase do Nelson Rodrigues: ‘Papai, é verdade que você mandou o deputado me procurar?’ Aquilo tudo veio de cinco palavras. Assim é o cinema. Assim é a disposição do teatro para o cinema. A improvisação não veio do nada, veio daquela frase.” Regina Casé pelada no pega-pega com o deputado em Os Sete Gatinhos. “Vamos dar uma personalidade a esse deputado, a essa menina”. Mauricio do Valle veste a calcinha na cabeça. A frase subjacente a todo jogo de criação!

 “Vai Paulo, vai! Dá tudo!” Em Mangue Bangue Paulo Villaça se joga no lixo, vomita, faz cocô. Neville: “Você tem que ter a noção da morte, a noção do finito no cinema. Nunca mais estaremos todos nós juntos. Então o momento é agora”. Villaça brincava com o pau, com os resíduos, cheirava. “Eu falo enquanto filmo. Grito o tempo todo e falo. Vou falando e fazendo, falando e fazendo”. Na cena do motel com o sogro em A Dama do Lotação, a voz de Neville. “Tira o cinto dele!” Nova chicotada, um grunhido, um espasmo. Sem som direto. Depois dubla.

A cultura do teatro e a cultura do garçom. Os olhos do cineasta sobre as mesas do restaurante. “Eu aconselharia os cineastas a ser garçom pelo menos um ou dois anos”. As conversas sobre “como é o mundo em 66”. O conceito do filme: “o mundo em 66”. Jardim de Guerra. O mais emocionante foi vê-lo levantar e fazer com as mãos os movimentos da câmera enquanto parecia nos recortar do espaço para a película.


Rejane K. Arruda, BISTURI de maio, 2012.







[1] Texto escrito a partir de uma entrevista concedida por Neville d’Almeida a mim, Rubens Machado Jr e Fabio Camarneiro no dia 24 de maio de 2012 em São Paulo. As frases entre aspas e em itálico são de Neville. A entrevista na íntegra será em breve publicada.

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