quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Jorge Furtado


Jorge Furtado é um dos fundadores da Casa de Cinema de Porto Alegre, da qual é integrante até hoje. No período de vigência da Lei do Curta, alcançou grande sucesso de público e crítica com os filmes ‘O dia em que Dorival encarou a guarda’ , ‘Barbosa’ e, principalmente, ‘Ilha das Flores’ , com os quais recebeu vários prêmios nacionais e internacionais.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
O cinema nasceu curta, os primeiros filmes são curtas, no Brasil também. Sempre produzimos grandes curtas, Humberto Mauro (muitos), Linduarte Noronha (Aruanda), Joaquim Pedro (Couro de Gato), Glauber (Pátio e Di), muitos cineastas fizeram grandes filmes de curta duração. O cinema é uma das poucas formas de expressão em que o valor é julgado pelo tamanho, ninguém diria que Jackson Pollock é um pintor maior que Paul Klee porque seus quadros são maiores, ou que os contos de Borges são literatura menor que James Ellroy. Em arte, tamanho não é documento.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
É impossível viver (isto é, sobreviver, ganhar dinheiro) fazendo só curtas, mas também não é fácil viver de longas, se é que é possível viver de longas. Por mim, sigo fazendo curtas e longas. E programas de televisão. E sites.

Como é trabalhar com a síntese no curta-metragem?
É um desafio interessante. Em síntese.

Como é o processo de elaboração de um roteiro para curta-metragem? Nos curtas é possível inovar na escrita? Vemos que os longas sempre tem a mesma amarração. É isso?
Acredito que cada roteiro é um caso diferente, não há regras claras, felizmente. Documentários, ficções realistas, filmes-ensaio, filmes-poema, cada um pede um tipo de roteiro. Curtas podem, em tese, ousar mais na linguagem, arriscar mais, já que ninguém vai sair de casa para ver um curta, curta é quase uma surpresa, um brinde.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Todos os canais são importantes: tela de cinema, tevê, internet, DVD, tudo o que existe e que ainda vai ser inventado. Quanto mais mídias, melhor.

Por que a ‘Lei do Curta’ não vingou? Qual é o legado que ela deixou?
A "Lei do Curta" durou um bom tempo, fez surgir uma geração de cineastas, mas caducou por mau uso ou por má gestão. Parte do público não gostava de dar de cara com um inesperado curta brasileiro antes do longa, e alguns filmes eram chatos mesmo.

O senhor é um dos fundadores Casa de Cinema de Porto Alegre, da qual é integrante até hoje. Como e pra que surgiu essa idéia?
Surgiu em 1988 com a idéia de juntar forças, reunir num espaço uma turma que já trabalhava junto, em cinema ou tevê, pessoas com a idéia comum de fazer cinema e televisão e continuar morando aqui. Funcionou, até agora.

‘Ilha das Flores’ é uma referencia para todos os cineastas e espectadores de curtas. Seu filme sempre é citado nas entrevistas. Quando o senhor filmou ‘Ilha das Flores’ pensou na magia que estava fazendo? Como lida com o sucesso deste curta?
Quando vi o filme pela primeira vez, numa projeção acelerada (provavelmente a 26 quadros) no antigo cinema Vitória, fiquei chocado. Achei que era impossível alguém prestar atenção naquilo por tanto tempo, 15 minutos de texto, centenas de imagens de todos os tipos. Na segunda projeção (24 quadros, enfim) no Festival de Gramado, percebi mais claramente o impacto do filme. Gosto do filme até hoje, acompanho projeções com freqüência (pelo menos uma por ano, há 19 anos) e sempre descubro coisas novas no filme. A locução do Paulo José é comovente.

Depois de ‘Ilha das Flores’ ficou mais “difícil” fazer curtas, tamanho o parâmetro que criou?
Não, segue tão difícil como sempre foi.

Após construir uma carreira com os curtas, o senhor decidiu ir para os longas. Quais são as dores e as delicias de dirigir um longa?
Muitas dores (conseguir dinheiro, agendar equipe e atores, arrumar sala para mostrar o filme, convencer o público a sair de casa e ir vê-lo) e muitas delícias (o convívio com a equipe e atores, a montagem, a sala cheia vendo o filme, gente que, anos depois, lembra das cenas e conta os diálogos). E muitas outras que eu não me lembro.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Depois que comecei a fazer longas já fiz dois curtas, “Oscar Boz” e “Rummikub”. E espero fazer outros, em breve.

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