domingo, 1 de julho de 2012

Lívia Camargo

Lívia é atriz e produtora de teatro. Seus últimos trabalhos nos palcos foi o espetáculo GARGÓLIOS, do diretor Gerald Thomas (com a London Dry Opera Company), e o musical ‘Noel Rosa – O Poeta da Vila e os seus Amores’, com direção de Dagoberto Feliz. Na TV atuou em duas séries do Canal Multishow - “Na Fama e na Lama” e “Olívias na TV”, e recentemente participou de um episódio do Saturday Night Live Brasil, da Rede TV.

O que te faz aceitar participar de trabalhos em curta-metragem?
Sou atriz com formação em teatro. Fiz poucos curtas na vida, mas quando me convidam, primeiro vejo se gosto do roteiro e sendo ele interessante aceito de imediato, mesmo sem verbas (algo muito comum nesse tipo de trabalho). Faço isso para adquirir experiência na linguagem cinematográfica, que é muito diferente da teatral. Existem muitos caminhos que podem formar um ator: escolas, cursos e trabalho direto na prática. No teatro me formei em escola (além de diversos cursos livres). No cinema, por enquanto, estou aprendendo "fazendo". O primeiro filme que fiz foi um média-metragem chamado BRASA, de um diretor alemão, Sebastian Mez, que quis realizar um trabalho no Brasil. Tive que fazer uma cena em plano-sequência de 9 minutos umas 25 vezes (ele era o maior detalhista que já pude conhecer). Pude perceber que no cinema tudo é muito diferente, tudo é mais contido, interiorizado, mas o sucesso da cena não tem a ver só com atuação do ator. As vezes o seu melhor take não é o que entra na edição, pois a câmera não estava boa. É difícil assimilar a linguagem do vídeo, mas foi uma experiência sensacional.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Em primeiro lugar, acredito que, no Brasil, infelizmente, não existe ainda uma cultura de valorização para trabalhos "alternativos" (no sentido de não-convencionais), isso de forma geral, incluindo todas as formas de manifestações artísticas (no teatro, no cinema, na música, nas artes plásticas, etc.). Além disto, o cinema brasileiro ficou muito tempo na geladeira. Nós temos filmes fantásticos que além de não terem sido valorizados pelo grande público na época, foram esquecidos. O Glauber Rocha, por exemplo, foi um dos maiores gênios do nosso país, mas poucos o conhecem. O cinema nacional nunca foi e ainda não é algo rentável para o mercado brasileiro. Hoje, por mais que a bilheteria dos filmes nacionais esteja em ascensão, podemos contar nos dedos filmes que lucraram. Eu consigo lembrar apenas do "Se Eu Fosse Você", "Dois Filhos de Francisco" e "Tropa de Elite 2", longas-metragens totalmente comerciais, sem julgamento de valores pois, sobretudo o último, é um ótimo filme. O resto foi "prejuízo" para o governo, uma vez que toda a produção que se insere no mercado nacional conta com apoio estadual ou federal, através de leis de incentivo fiscal. E, geralmente, o valor da bilheteria nunca atinge o valor da produção. Tudo isso pra dizer que, se nem o mercado dos longas-metragens está estabelecido, imagine o dos curtas? Enfim, acredito que a saída pra todos esses problemas seria uma "revolução cultural brasileira". Há que se resignificar os focos e os interesses do grande público.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Essa pergunta, para mim, está diretamente ligada à anterior. Acredito que o problema para atingir mais público está na DIVULGAÇÃO desses trabalhos. E não há espaço  para divulgar curtas-metragens nos meios de comunicação de massa, pois ainda não se estabeleceu nem o mercado dos longas. Não sei se o problema está na exibição, pois vejo um movimento bem forte de festivais de curtas, nacionais e internacionais, uma saída bastante inteligente para esses filmes terem um mínimo de reconhecimento e popularidade.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Não sei se um curta é necessariamente um trampolim para se fazer um longa, mas da mesma forma que eu, como atriz, tenho sempre vontade de fazer coisas diferentes, de passar por novos desafios, acredito que os cineastas possam ter as mesmas inquietações. Desta forma, me identifico muito com quem sente necessidade de se inovar em seus trabalhos, mas não desvalorizo quem possa ter um currículo apenas com curtas-metragens, mesmo porque cada trabalho pode ser extremamente diferente do outro.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não sei se isso acontece entre os cineastas, mas repudio toda forma de desvalorização do trabalho do outro, a não ser quando o trabalho seja realmente desqualificável no meu ponto de vista, ou seja, ele próprio desvalorize a luta dos artistas por uma cultura consistente. É óbvio que tudo é muito subjetivo, tudo pode ser unicamente uma questão de gosto, mas eu já vi curtas belíssimos e longas péssimos. Acredito que não há regras para se executar um bom trabalho.  

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Além de atriz, sou formada em Radio e TV. Meu TCC foi um média-metragem que ficou bem bonito. Mas na equipe assumi a função de roteirista e produtora de casting. Foi assim durante toda a faculdade. Sempre me aproximei do que diz respeito à criação da história, ou de funções relacionadas ao elenco. Recentemente, em 2010, dirigi um curta-metragem documentário sobre a vida do Noel Rosa. Foi uma experiência maravilhosa, adorei o resultado. Por isso, tenho vontade, sim, de dirigir um curta, mas acredito que, no momento, se trabalhasse efetivamente no ramo cinematográfico, me daria melhor como preparadora de atores, do que como diretora.

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