sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ana Maria Magalhães

Foto Juliana Torres: Ana Maria Magalhães no lançamento do DVD do seu filme "Reidy, a construção da utopia".

Você atuou como atriz em diversos filmes dos mais renomados diretores, novelas e especiais para televisão. Ganhou registro na história da nossa dramaturgia, dirigiu filmes, ganhou prêmio, o que mais falta para você?
Escrever livros, por exemplo. Mas também tenho planos de realizar filme de ficção com roteiro original.
 
Você tem uma relação muito intensa com o curta-metragem. O que mais lhe agrada nesse formato?
A experimentação. É um formato livre.
 
Seu primeiro trabalho de atriz no cinema foi um pequeno papel no filme francês ‘Les amants de la mer’, quando tinha 15 anos. Quais as recordações desse trabalho e o que ele contribui para a sua formação artística? Foi aí que você descobriu-se como atriz?
Fui ‘descoberta’ na praia de Ipanema, mais precisamente no ponto que chamávamos de Castelinho, pelo Pierre Barrouh. Ele queria que eu fizesse o papel principal e me apresentou ao Vinicius de Moraes, autor do roteiro. Mas o diretor tinha outra atriz em mente, a Duda Cavalcanti, e então eu fiz um pequeno papel no filme. Foi aí que tomei a decisão de ser atriz. Participei de um set de filmagem pela primeira vez, trabalhei com atores experientes que me ensinaram alguma coisa naquela pequena participação. E conheci o Cecil Thiré com quem vim a me casar,
 
'Garota de Ipanema’, de Leon Hirszman é um dos filmes brasileiros mais esquecidos da história. Que mistério cerca esse sumiço? É algo deliberado deixá-lo no limbo da memória?
O que eu sei é que negativo do filme foi parar no cofre de um banco, talvez na Suíça, como garantia de pagamento de empréstimo para a sua realização. Quem deve ter maiores informações a respeito é o Eduardo Escorel, o Carlos Augusto Calil ou a Maria Hirszman, filha do Leon. A situação de extravio do negativo dificulta a sua divulgação. De qualquer forma, o filme não foi bem recebido pela crítica e público à época. Revi há pouco tempo, e curti. Mas entendo que não era bem o que se esperava do clichê da garota de Ipanema.
 
Eugênio Kusnet foi seu professor em cursos livre de teatro. O que tem a falar sobre ele
Kusnet foi sim meu professor. Fiz um curso com ele. Era especialista em Stanislawski, mestre que os atores modernos buscavam seguir no Brasil. Nos EUA o Actor’s Studio e Elia Kazan já utilizavam o método criado por Stanislawski, pelo menos desde os anos 40. O curioso é que Kusnet se baseava no livro iniciático de Stanislawski, “A preparação do ator” se não me engano, que tratava da memória afetiva e tantos outros conceitos que formavam a base da interiorização que o ator usaria para interpretar as personagens. Algo muito próximo do realismo. No entanto Kusnet, que era um ator genial, utilizava em seu próprio trabalho, o segundo livro de Stanislawski, “A construção da personagem”, mais voltado para os aspectos exteriores da construção das personagens.
 
O Grupo Oficina, é considerado um dos mais importantes e revolucionários grupos teatrais do país. Na sua formação de atriz, qual o mérito maior da sua passagem por lá?
A passagem pelo Oficina foi fundamental para a minha formação de atriz. Lá tomei conhecimento teórico e prático do método de Stanislawski, num tempo em que o Conservatório Nacional de Teatro, onde eu estudava, louvava o teatro inglês exclusivamente e sem nenhum senso crítico. Fernando Peixoto me deu os livros teóricos fundamentais para a minha formação de atriz, como Meyerhold, Brecht, Piscator e tantos outros. Zé Celso me dava para ler peças de teatro desde “Que pena que ela seja uma puta”, de John Ford, escritor inglês do século XVII, “A gaivota” de Chekhov e “O homem e o cavalo”, de Oswald de Andrade. Na prática participei do seminário que buscou o caminho da interpretação dos atores para a famosa montagem de “O rei da vela”. Além disso, o exercício diário de interpretação em “Quatro num quarto”, comédia sem maiores pretensões, abria possibilidades de experimentações sempre estimuladas pelo Zé Celso, ainda que eu fizesse apenas uma figuração.
 
As dificuldades ocasionadas pelos constantes embates políticos na faculdade – você militou no movimento estudantil - , com perseguição a alguns professores, te levaram a abandonar o curso superior e se dedicar à carreira de atriz. Em algum momento você achou que atuando não teria um papel “político” também?
Sempre mantive a perspectiva Política, assim mesmo com maiúscula. O problema é que a ditadura exigia mais do que um papel político integrado naturalmente à existência profissional. A ditadura nos provocava a resistir em função de suas atitudes repressivas ao nível político, social e cultural. Resistir era combatê-la. Quando mocinha tinha um leque de possibilidades a seguir. Queria fazer muitas coisas e testá-las na minha vida para ver o que de fato eu queria fazer. Sempre fui estudiosa, gostava de ler, então fiz vestibular e passei para Ciências Sociais. Vivi em meio à política desde a infância. Meu pai foi político importante e cassado na primeira leva.
 
A militância veio desde o golpe de 64. No início de 68 militei entre os artistas contra a censura. No ano seguinte, já na faculdade, passei a militar entre meus colegas do IFICS.
 
Em 1970 foi protagonista de ‘Como era gostoso o meu francês’, de Nelson Pereira dos Santos (seu marido á época), um clássico do cinema brasileiro. Esse foi o maior filme da sua trajetória como atriz?
Necessário esclarecer que não fui casada com o Nelson. Namoramos e tivemos um filho. O “Francês” é um clássico, sem dúvida, e isso não é pouco. O filme me ofereceu a possibilidade de inventar uma interpretação nova, porque eu fazia uma índia e isso não era usual, então eu podia criar com máxima liberdade. E a chance de entender o sentido e exercer plenamente o protagonismo no cinema, ainda muito jovem. Foi aí que aprendi também a trabalhar com grandes diretores. A sentir o desejo do diretor e lhe oferecer interpretação técnica e artisticamente condizente com o espírito e a linguagem que almeja praticar.
 
Cacá Diegues, Hector Babenco, Antônio Calmon, Neville D’Almeida foram alguns dos diretores que você trabalhou. Entre eles há diferenças de linguagem, comportamento e conduta ante a uma atriz. Como se adapta a pessoas tão plurais como as citadas acima?
O desafio é justamente esse que você citou. Nem sempre é fácil, mas faz parte do trabalho do ator. Por outro lado, a variedade quebra a rotina. Induz-nos a buscar novos caminhos. O indesejado é quando você tem um desenho específico para aquela personagem e o diretor não o entende. Cabe a nós, atores, fazê-los compreender. Nem sempre conseguimos. Do mesmo modo que o ator deve buscar o melhor meio de servir à linguagem do filme, o diretor também pode estimular o ator, em seu ato de criação, a atingir esse objetivo. Justamente para beneficiar o resultado do filme.
 
Naquele tempo os atores de cinema, de alguma forma, buscavam uma interpretação brasileira. Longe dos modelos importados, e em busca da identidade nacional que movia a cultura e o país.  Havia que ousar e consolidar. Hoje temos identidade nítida. Somos livres para criar conforme os padrões mais elevados de interpretação sem aquele compromisso que muitas vezes nos restringia.
 
Em compensação o que vejo é que estamos muito atrasados nesse sentido.
 
Outro cineasta que você trabalhou foi Glauber Rocha, em ‘A Idade da Terra’. Há uma corrente que dizem que Glauber foi muito mais um agitador cultural do que um grande diretor. Qual é a sua análise?
Glauber foi o maior diretor com quem trabalhei. Com ele obtive o máximo entendimento em minha carreira de atriz. Tudo o que eu esboçava nos ensaios Glauber percebia e estimulava ou dirigia. E eu também procurava entender a sua linguagem e assim contribuir para a sua melhor expressão. Foi o ‘casamento’ mais feliz que tive com um diretor. Se fosse hoje, claro, faria melhor. Considero “A idade da terra” o grande filme da minha vida, ao lado do “Como era gostoso o meu francês".
 
Neste momento estamos assistindo ao remake ‘Gabriela’, inspirada no livro de Jorge Amado. Informações dão conta que um dos problemas da novela é a atriz Juliana Paes, que não está conseguindo cativar a audiência. Você atuou na primeira versão, qual é a sua análise crítica sobre essas duas versões?
“Gabriela” foi uma novela muito feliz. Remakes costumam gerar comparações. Não vi nenhum capítulo dessa versão, mas a última moda é socializar os prejuízos e privatizar os lucros. Será que não estão jogando sobre os ombros da protagonista uma responsabilidade que não é só dela?
 
No início dos anos 80, logo depois de realizar um média em 16mm, dirigiu um documentário sobre Leila Diniz, ‘Já que ninguém me tira prá dançar’, que se tornou o primeiro vídeo com produção independente a ser exibido pela televisão brasileira. Como foi a concepção desta produção? Por que Leila Diniz?
A iniciativa não foi minha. Fui convidada a dirigir o documentário, relutei muito em função da minha grande amizade com a Leila. Depois vi que por isso mesmo seria melhor que eu fizesse. O produtor pretendia obter os recursos através de quotas vendidas a pessoas físicas. Mas o único aporte que conseguiu veio de Sonia Braga. Com esse recurso conseguimos gravar parte do programa.  Aí o produtor caiu fora e eu me vi na situação de ter que completar o trabalho e depois veiculá-lo. Assim por acaso, esse vídeo se tornou emblemático da produção independente para a TV. 
 
É bom que se diga que contei com a ajuda da equipe que concordou em prosseguir mesmo sem receber. Ninguém mais ajudou a produção desse vídeo.
 
Mais do que uma grande atriz, Leila Diniz foi uma provocadora?
Leila foi uma mulher e pessoa muito especial. Veio, provocou transformações nos costumes e nas relações entre os homens e as mulheres, e se foi aos 27 anos. Sofreu muito a incompreensão das pessoas. Interessante que quando se fala dos jovens rebeldes que se foram aos 27 ninguém se lembra da Leila. Tenho muitas saudades dela. Foi a minha melhor amiga de todos os tempos. Falávamos de tudo, mesmo temas íntimos, de nossa maneira de ser, sem rodeios, mas sempre com muita delicadeza. Hoje há quem queira se apropriar da sua estória, com o intuito de reescrever a própria biografia acrescentando avanços e suprimindo caretices. Aproveita-se da cicatriz quem não conhece a ferida. Inútil. Leila foi única.

O cineasta português Manoel de Oliveira e a brasileira Ana Maria Magalhães, atriz de 'O Estranho caso de Angélica'.

Muitos consideram que a sua visão inovadora, onde imprimiu aos curtas que dirigiu, contribuiu para a renovação do gênero e o sucesso obtido despertou a curiosidade do mercado externo para a produção nacional. O que você fez de tão diferente para causar essa revolução?
Curta como “Assaltaram a gramática” é clássico cult hoje em dia. “O bebê” vendeu muito para o exterior e o “Spray jet” passou em inúmeros festivais internacionais. Estou falando do início dos anos 80. Posso dizer que contribuí para o sucesso do gênero mas não causei nenhuma revolução. Na época a grande revolução foi a lei do curta. Passávamos os filmes antes das sessões dos longas nos cinemas. Isso deu muita visibilidade e meios de realização aos curtas.

Acredita que o curta é o único campo onde o cineasta pode ter liberdade?
Liberdade total não existe. Aliás, cada vez existe menos liberdade em geral. Mas quem gosta de praticar o esporte há de encontrar algum caminho para exercê-la. Seja no curta ou nas novas mídias.

Entre seus trabalhos no gênero destacam-se ‘Assaltaram a gramática’, o primeiro curta que teve um rock brasileiro como canção original, ‘O bebê’, exibido na Europa e no Brasil, e ‘Les enfants de la samba’ (Mangueira do Amanhã), veiculado no Canal Plus de Paris e premiado com Menção Honrosa (Margarida de Prata) pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Você ainda pensa em dirigir curtas?
Tenho muitos projetos de vida e trabalho. Se surgir a oportunidade, sim, dirigiria um curta, mas não vejo essa possibilidade no horizonte próximo.

‘Lara’ e ‘Já que Ninguém me Tira para Dançar’ são dois filmes onde você homenageia duas das mais marcantes atrizes do país: Odete Lara e Leila Diniz, respectivamente. Onde essas atrizes te estimularam a produzir esses trabalhos? Por que sempre atrizes?
O vídeo sobre Leila Diniz surgiu de um convite do Centro Cultural Cândido Mendes. Relutei muito antes de aceitá-lo devido aos laços de amizade com a Leila. Depois, decidi realizar o documentário porque percebi que poderiam apequenaar a sua biografia. Ninguém melhor do que uma pessoa próxima como eu seria capaz de honrá-la.  No caso de “Lara” tinha em mente a subjetividade de uma atriz que teria transcendido dificuldades existenciais e encontrou na arte o caminho de sua redenção. Infelizmente o filme me trouxe muitos dissabores, não foi compreendido e finalmente foi mal acolhido. Já havia realizado “Mulheres de cinema” sobre atrizes representativas das diversas fases da nossa cinematografia. Esse sim nasceu de uma reflexão sobre ser atriz de cinema no Brasil.

Quando começou a atuar o que era necessário para vencer no cinema nacional? E, atualmente, o que precisa? Algo mudou?
Nunca pensei em termos de vencer. O chamado “vim para vencer” é algo muito distante de mim. Aos oito anos fui convidada para fazer uma peça de teatro e desde então pensava em ser atriz. Na época, desisti porque minha mãe me proibiu. Eu não queria desagradá-la. Mas aos quinze anos o cinema veio a mim. Então minha mãe já tinha falecido e eu achei que devia experimentar esse caminho. Ser atriz significa para mim expressar-se através de um meio. No meu caso foi o cinema que preponderou. E por aí comecei a seguir o meu caminho. Para ser atriz estudei teatro, fiz cursos livre, li peças, livros sobre métodos de interpretação e teorias teatrais. Pratiquei e me exercitei. Sobretudo me encantei com o set de filmagem.  Tudo o que estudei e observei foi sempre com o intuito de utilizar da melhor maneira possível esse meio de expressão e atingir o ponto em que pudesse servir aos anseios da direção.

Sinto-me realizada nesse sentido. Sei trabalhar com diretores autorais. Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Manoel de Oliveira, e mesmo Walter Avancini na TV, manifestaram seu apreço pelo meu trabalho. Utilizei a técnica para contribuir esteticamente à linguagem que pretendiam em seus respectivos filmes: “Como era gostoso o meu francês”, “A idade da terra”, “O estranho caso de Angélica” e as novelas “Gabriela” e “Saramandaia”. 

O cinema atual está muito comportado?
Mesmo para ser comportado é preciso ousar. Por outro lado, para ousar é necessário dominar a convenção.  Ou seja, o caminho convencional pressupõe a experiência da transgressão. Ser ator é vivenciar intimamente o humano em todas as suas dimensões e estranhezas. Estamos muito longe disso.

Você é considerada a musa do cinema nacional, essa classificação veio nos anos 70. O que esse título significa para você?
Uma honra. Como dizia o Nelson Rodrigues à jornalista que achou pouco classificar Cacilda Becker de maravilhosa: “Minha filha, o dia em que disserem que você é maravilhosa, caia de joelhos e levante as mãos aos céus”. É o que eu sinto hoje em dia quando me lembram que fui considerada musa.

Algumas atrizes dizem que títulos como esse, de musa, “rebaixam” o trabalho, tornando-se vulgar, supérfluo, simplório, desclassificando o trabalho. Você concorda com isso?
De modo algum. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A musa é aquela que inspira os criadores e artistas. Envolve simultaneamente generosidade, intuição, beleza e conhecimento. Algo que não se constrói artificialmente. É ou não é. E tudo o que é ofertado de coração se aproveita muito. Ser musa não é parâmetro para o trabalho de interpretação. E vice-versa. Concordo sim que vulgaridade e superficialidade não combinam com cinema.

Você se considera, ou se considerou, a musa do nosso cinema?
Eu tinha uns vinte anos quando li isso pela primeira vez numa reportagem da revista Manchete escrita pelo saudoso cineasta e crítico Maurício Gomes Leite que me comparava à Anna Karina no quesito “musa”. Achei graça. Quem sou primo? Não me considerava “musa” no sentido de ser melhor do que os outros. Levei muito tempo para encontrar a minha medida. Não me sinto mais nem menos do que sou. Mas tenho consciência de que de uma forma ou outra inspirei pessoas com quem trabalhei ou convivi.  Glauber que às vezes dividia as pessoas em classificações como padres ou militares, dizia que eu era sacerdotisa. No sentido de inspirar, como as musas.


Ana Maria Magalhães em 'Quando o Carnaval Chegar'.
 
No panorama atual qual atriz você considera que seja uma expoente do cinema, que poderia equipar a figuras como você, Odete Lara, Leila Diniz, e outras?
Talvez Alice Braga. É uma pergunta difícil de responder.  Atualmente, o exponencial são qualidades cultivadas e não naturais.  Aparência, exposição na mídia e situação financeira substituíram talento, inteligência e conhecimento.
 
‘Top Model’, ‘Elas por Elas’, ‘Saramandaia’, ‘Gabriela’ e ‘O Bofe’, foram novelas que você atuou. Pela sua trajetória, foram poucas, teria motivo?
Participei também de Casos Especiais como “Quincas Berro d’água”, “Sarapalha” e “A promessa”. Tive poucos convites para trabalhar em TV. Ao mesmo tempo o cinema sempre veio a mim. De modo que acabei me sentindo mais atraída por ele. Foi um caminho natural. Mas gostei de fazer TV e do que fiz. É uma grande escola e devo muito a ela.
 
Novela é um gênero menor?
A novela tem outras características. Fala para um público imenso, exige respostas rápidas, é executada em ritmo industrial. Esteticamente a gente se relaciona mais com a câmera do que com a personagem com quem contracenamos. É próprio da TV. E muitas vezes as pessoas assistem enquanto estão ocupadas com os seus afazeres domésticos. A dramaturgia televisiva e a própria TV ainda têm um grande papel a cumprir.  
 
Assiste a novelas, seriados e telefilmes?
Praticamente não assisto por falta de hábito. Trabalho muito em casa. Nos momentos de lazer gosto de ouvir música e, quando estou com tempo, ler. Costumo sim ver filmes em DVDs.
 
‘Anchieta, José do Brasil’, é outro clássico da nossa filmografia, quais as suas recordações desse trabalho?
Personagem difícil, dramática, com apenas uma cena prá dar conta do recado. Me entreguei e acho que consegui. Ultimamente o Zé Celso elogiou o meu trabalho e o do Pereio no filme. Na época Caetano Veloso comentou que eu falava correntemente tupi-guarani. Acho que ele quis dizer que o meu tupi tinha fluência. Evidentemente ele falava sobre o mimetismo que eu não sei falar tupi.
 
‘As Deliciosas Traições do Amor’ e ‘O Doce Esporte do Sexo’ são outros dois filmes que você atuou. Os títulos nem sempre correpondiam ao filme. Houve uma época que usavam esses nomes para atrair público. O que pensa a respeito desse subterfugio?
É que as comédias eram ingênuas mesmo. Estamos falando do início dos anos 70. A pornochanchada ainda estava em processo. Veio a se estableecer como gênero no decorrer dos anos 70.
 
Helena Ignês casou-se com Glauber Rocha e depois com Rogério Sganzerla. Você causou paixões em muitas pessoas (com Nelson Pereira dos Santos e Gustavo Dahl foram dois cineastas que se tornaram seus parceiros). De certa forma sua trajetória artística e também amorosa se assemelha a dela (ou vice-versa), já que são duas das atrizes mais fantásticas que surgiram. Essa minha analogia faz sentido?
Helena e eu temos algumas semelhanças mas nem tantas. Ela é a atriz de maior expressão e que melhor compreendeu a proposta estética do Cinema Novo.
 
Eu sou da segunda geração. Quando comecei a filmar com o Nelson, Glauber já decretava o fim do Cinema Novo. As semelhanças são que casamos e trabalhamos com diretores excepcionais. Há algo mais. Uma vez encontrei Helena em São Paulo e ela disse aos colegas que a acompanhavam que eu era uma das pessoas fundamentais do cinema. E ela também. 
 
Outra característica marcante na sua personalidade é a sua força e o seu vigor. Prova disso é que você escapou milagrosamente da morte ao sobreviver a um atropelamento. Da onde vem essa vontade de viver?
Força e vigor devem vir um pouco da minha natureza. Há que considerar que tudo tem dois lados. Traz energia pra realizar e viver, mas veemência pode causar estranheza e conflitos. Não considero que tenha escapado daquela vez por desejo de viver. Como você mesmo empregou o termo milagrosamente, creio que foi por determinação divina. E a necessidade de acabar de criar meus filhos.  Sou movida a fé e paixão. Talvez a origem da chamada vontade de viver esteja aí.
 
No Brasil a memória é sempre fugidia. Além das políticas de incentivo a produção cinematográfica, não acha que deveríamos ter políticas também para a preservação da memória do nosso audiovisual?
Sem dúvida. Ao preservar filmes passados, guardamos nossa história e nosso imaginário registrados nesse imenso acervo. Resolvemos a questão da identidade. Falta-nos celebrar a memória das coisas.
 
Você é reconhecida nas ruas? Se sim, qual é o perfil das pessoas que te reconhecem?
Às vezes sim. Tem um lado popular, por causa da novela “Gabriela”, e de filmes como “Os sete gatinhos” que passam no Canal Brasil.
 
Fãs de cinema são identificáveis de imediato. Diferem na abordagem e comportamento. Filmes como “A idade da terra”, do Glauber, e “Como era gostoso o meu francês”, do Nelson, têm seu público cativo. Os jovens são maioria entre os amantes do filme do Glauber.  No caso do Nelson o pessoal dos anos 70 predomina.
 
No grupo de pessoas que assistem TVs culturais e educativas não sou vista como atriz, mas como diretora. 
 
Sua mais recente atuação como atriz foi no filme ‘O estranho caso de Angélica’, do aclamado diretor português Manoel de Oliveira, selecionado para a mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes 2010. Como foi o trabalho com ele? Como executou o processo fílmico desse papel?
Foi uma das melhores coisas, uma joia. Oliveira tem sua própria linguagem. E isso é o melhor que pode acontecer para uma atriz como eu. O processo é basicamente o mesmo quando se trata de um autor como ele. Primeiro procurei entender o que ele queria com o filme. Dei sorte porque a minha personagem se conectava com o sentido geral da estória, ou uma das leituras que se possa fazer dela. Cheguei no set com o texto decorado, muita insegurança e um monte de vontade. Ele é um mestre. Quis lhe oferecer a minha técnica de atriz de cinema do seu rigor. Tive êxito. Fizemos um belo trabalho.
 
Há mais de vinte anos você criou a ‘Nova Era’, que é uma base empresarial e operacional de produção de projetos cinematográficos e audiovisuais independentes. O que te motivou a partir para o empreendedorismo?
Como é usual entre artistas independentes tenho empresa para viabilizar a produção dos meus trabalhos. As atividades da Nova Era Produções são circunscritas aos meus projetos. Preservar o acervo de filmes, produzir os novos e prospectar distribuição para eles.
 
As produções (curta, média e longa-metragem) resultantes encontram mais vazão fora do país, a que se deve isso?
Conforme o projeto isso realmente ocorre. Ou por tratarem de temas universais ou, ao contrário, por serem tão locais que acabam despertando interesse em sua diversidade. É o caso de “Spray Jet” que percorreu inúmeros festivais internacionais, “O bebê” que vendeu mais na Europa do que aqui, e “Mangueira do amanhã” que só pôde ser realizado graças à co-produção com o Canal Plus, na França.
 
No entanto, é bom lembrar que o Brasil não cultiva o respeito aos seus artistas. Isso quer dizer que temos dificuldade em reconhecer o trabalho de nossos artistas e, consequentemente, de retribuir o que dele recebemos, seja materialmente ou simbolicamente. Se o artista é bem sucedido logo encontram motivo para criticá-lo. A mentalidade é a seguinte: “Artista bom é artista pobre”. Por outro lado, se o artista não obtém sucesso financeiro é considerado marginal.
 
Para o bem ou para o mal o artista brasileiro convive com cortes de todos os lados.
 
Até chegar à direção, você desempenhou várias funções por trás das câmeras: roteirista, assistente de montagem, continuísta, produtora. Toda essa trajetória nos bastidores é fundamental para a formação de um profissional completo, de um cineasta?
É desnecessária tanta movimentação. Eu é que sou curiosa. A montagem sim foi essencial para a minha formação. E gostaria de saber fotografia. Quanto maior o conhecimento e a independência maior a capacidade de utilizar os recursos disponíveis para a realização de nossos sonhos.
 
Para finalizar, gostaria que falasse qual é a maior verdade que contaram a seu respeito. Conte também qual é a maior mentira que falaram sobre você.
A maior mentira teria que perguntar aos que falam sobre mim. E como falam...
 
A verdade que meus amigos sempre comentaram é fui muito dedicada aos filhos.

Um comentário:

Matheus Trunk disse...

Excelente depoimento de uma das maiores musas do cinema brasileiro, gosto muito dela em Os Sete Gatinhos e principalmente A Idade da Terra.