terça-feira, 29 de janeiro de 2013

BISTURI - Rejane K. Arruda


Cássia Kiss no Contexto de Os Inquilinos: O que se pode aprender?

A atuação de Cássia Kiss em “Os Inquilinos” (Sergio Biancchi, 2011) pode ser considerada uma referência para a observação de algumas operações para quem trabalha com a Direção de Atores no cinema.

O filme parte de uma poética realista, retratando o contexto social de uma família de classe média que, inesperadamente, vê a casa vizinha hospedada por estranhos. Barulhentos, arruaceiros, inconvenientes e agressivos, aquela presença causa bem mais do que o incômodo e as noites de mau sono. Ela interfere na vida de Valter (Marat Descartes), colocando à prova a sua capacidade de proteger a família e preservar o lar da invasão indesejada.

O contexto do filme não se circunscreve a esta família. O principal personagem é um cotidiano invadido pela violência. São ônibus queimados nas ruas – em uma explícita alusão às ações do PCC em São Paulo – toques de recolher, assassinatos, estupros. Uma ameaça generalizada empresta ao filme a atmosfera da paranoia com alguns momentos de suspensão (afinal, eles podem não ser bandidos, mas moleques mal educados) – até a confirmação final, regada com a crueldade (a mutilação de um senhor), a frieza (a vizinha reafirma a posição de locatária da bandidagem) e a sedução: o visível prazer das crianças e das mulheres quando o caso “cai na boca do povo” espelha, no olhar de Valter, a constatação da impossibilidade de mudança.

Mas é a condição social do pai de família que mais empalidece, quando percebemos que nem a carteira assinada (que é seu direito) ele pode reivindicar sob a pena de perder o trabalho de carregador de caixas. Trabalho que lhe suga a energia de dia; a pouca que lhe resta, pois à noite Valter vai à escola. Escola onde vemos a professora interpretada por Cássia Kiss lendo poemas e pondo em questão a posição de seus alunos frente ao mundo ameaçador. Diferentes alunos transpassam os poemas com o seu olhar, vivência e, também, a rigidez de uma tomada de posição – que a professora questiona em uma visível tentativa de provocar a reflexão e o deslocamento do discurso “da guerra”. Para ela, a violência não é a do mundo externo, mas a do estar vivo. O sangue não é o da morte, mas aquele que corre nas veias e “quer mais”.

E é mesmo um descomunal excesso que se percebe no choque entre o mundo comportado da família de Valter e os três arruaceiros, com suas garotas adolescentes, bebidas, drogas, armas, barulho, brigas e xingamentos. Afinal, porque tanto medo do contágio se não pela simples constatação que aquele excesso seduz? Um excesso que vemos também no olhar do transeunte, que para, estupefato, diante dos quadris rebolantes das quatro garotas púberes (uma delas a filha de Valter). O que dá o contraponto, o que salva (pode-se dizer) a garota, é o amor de pai – sem ambiguidade alguma. Um amor que se pode dizer puro e guardião da integridade da família. E que sustenta a sua posição até o final, mesmo que para isto tenha que se tornar um cão (mijando nos cantos do jardim); ou ser apedrejado pelos garotos da rua (para, por fim, desconcertado, dar um basta à festa dos vizinhos).

Propondo um “zoom” na atuação de Cássia Kiss, percebo algumas operações que vale a pena sublinhar para um campo ainda hoje nebuloso, que é a Direção de Atores. Uma das operações que se percebe é a necessidade do ator sustentar o tempo. Quando se trata de atores não adaptados à poética fílmica ou mesmo a uma poética do set (o que se faz quando o diretor diz “ação”?), a questão é: ele corre com o texto. Cássia sustenta palavra por palavra, ação por ação, em um exercício maduro de manejo do tempo, do ritmo e da evocação de certa reflexão. Cássia produz pensamento a partir do encadeamento de ações bem sustentadas. Sustentadas não apenas pela sua relação com os alunos – visivelmente presente (por exemplo, no momento em que ela, bastante à vontade, apoia a palma da mão na cabeça de um deles). Cássia evoca a imagem da professora mítica que nos inicia na poiesis do querer saber, da maiêutica. Também nos remete ao amor implicado nesta relação; outro tipo de sedução, portanto. Mas, sobretudo, nos oferece, enquanto performance de atriz, a perspectiva da construção do material oculto que se supõe pensamento; e que sustenta o tempo das ações lidas nas entrelinhas (exigindo a nossa interpretação e movimentando o desejo).

E em se tratando de questões tão mobilizadoras de uma posição no mundo (que será reafirmada pela morte de um aluno), ela sustenta o estranhamento. A simples escansão de um tempo – quando no final de uma cena é preciso encarar a razão que os apaixona; quando eles se vão e ela fica; ou quando duas posições se chocam, sem se saber qual delas “tem razão”.

Rejane Kasting Arruda é atriz, diretora e pesquisadora no “Centro de Pesquisa em Experimentação Cênica do Ator” (USP); professora de Direção de Atores na “Academia Internacional de Cinema” e de Atuação na “Oficina de Atores Nilton Travesso”.

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