sábado, 26 de janeiro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica

Não sabemos a origem desta entrevista que R.F.Lucchetti concedeu, não encontrei nenhum registro, supõe-se que tenha sido publicada na saudosa ‘Interview’.
De qualquer modo, segue a íntegra:
 Quem é R.F.Lucchetti?
Na verdade sou uma pessoa comum, bem comum. Gosto de passar despercebido e raramente falo o meu trabalho, a não ser com pessoas que professam o mesmo gosto que eu. Mas isso é tão raro... Detesto morar muito tempo num mesmo lugar para não tornar-me uma pessoa familiar na vizinhança. É por esse motivo que saio muito pouco. Meu mundo resume-se nas quatro paredes do meu gabinete. Ali tenho o Universo ao alcance de minhas mãos.
Como é o seu método de trabalho?
Eu não tenho uma fórmula ou um método de trabalho. Escrever tornou-se uma obrigação, não por inspiração, mas por opção, por não saber fazer outra coisa. E para que o trabalho possa fluir é necessário que eu seja pressionado por prazos de entrega. Sobre o motivo de eu ter atuado nas mais variadas frentes, foi porque tudo aconteceu a um só tempo. Em 1967 eu gravitava em torno de pequenas editoras. Para eles escrevia roteiros de histórias em quadrinhos e fotonovelas; contos e livros. Estes dos mais variados gêneros, escritos como ghost-writer. Foi também nesse ano que a televisão e o cinema entraram na minha vida.
Como nasceu seu gosto pelo horror?
O gosto pelos temas de horror, só posso dizer que ele é inato. Nasceu comigo. Desde que me recordo só achava interesse pelo maravilhoso, principalmente pelos contos de Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle e Robert Louis Stevenson. Eles impressionavam-me de tal forma que meus primeiros textos foram calcados em temas desses autores.
Como foi trabalhar com Mojica e Ivan Cardoso?
José Mojica Marins e Ivan Cardoso são dois diretores únicos, donos de uma filmografia sem paralelo no nosso cinema. Eu tive a sorte de trabalhar com ambos e assim poder concretizar tudo quanto aspirava poder realizar no cinema. E isso só me foi possível por meio de alguém com a personalidade de um Mojica ou de um Cardoso. É como achar, não uma, mas duas agulhas no palheiro. Com Mojica foi o terror explicito, social; com o Ivan, o horror, o suspense, a sátira. Orgulho-me de ser parte integrante dessa filmografia diferenciada, cultuada por alguns e detestada por outros. Sempre me dei melhor com a minoria.
E o vampiro nos seus escritos?
Desde os meus primeiros escritos, ocupei-me do tema vampiro. Mas sem ter onde publicá-los permaneceram inéditos. Foi somente nos anos sessenta que consegui publicá-los. Alguns adaptados para as histórias em quadrinhos e outros nas coleções de terror dos pockets-books da Editora Bruguera que depois passou a chamar Cedibra.
O vampiro te fascina?
De todos os personagens que povoam o folclore terrorifico o vampiro é sem dúvida alguma o mais sedutor de todos. Ele está intimamente ligado à sensualidade. Há nele um halo de fascínio irresistível, arrebatador. Isso deve-se muito ao cinema que raramente mostra-o como um ser horripilante e amedrontador. Para seduzir suas vítimas ele apresenta-se como um encantador cavalheiro ou uma mulher de beleza irresistível e muitas vezes etérea. Pode-se dizer que o vampiro  é o mais belo de todos os monstros criados pelo ideário popular.
Tanto na literatura quanto no cinema, o personagem vampiro mais interessante para mim, continua sendo o conde Drácula. E na sua versão feminina, Carmilla – esta somente na literatura, porque até hoje não vi nenhuma versão cinematográfica que lhe fizesse jus. Quanto aos quadrinhos, os italianos Jorge Scudellari e Nico Rosso, foram os responsáveis por uma série memorável tendo Drácula como protagonista. Memorável quanto aos desenhos, talvez o melhor que se fez até hoje, mas comprometida no que se refere aos argumentos. Eles refletiam o pouco caso com que eram concebidos. Também merecem citação especial as nossas duas vampiras: Mirza e Naiara. A primeira uma criação de Eugênio Colonnese (dois anos antes da norte-americana Vampirella) e a segunda, criada graficamente por Edmundo Rodrigues, teve vários desenhistas. Mas foi na pena de Nico Rosso que ela encontrou sua melhor fase. Também faço restrições a seus argumentos (incluindo a Vampirella). Seus argumentos estão muito aquém de suas concepções artísticas. Para mim o quadrinho é uma arte que se completa com a perfeita integração: texto-desenho.
E a sua paixão pelas revistas pulps?
Foi ainda muito cedo, quando fui descobrindo outros notáveis expoentes do fantástico e do horror como: Sherin Le Fanu, E.T.A. Hoffmann, H.P. Lovecraft, Henry James, Guy de Maupassant, H.G. Wells, W.W.Jacobs, Theóphile Gautier, Ambrose Bierce e o pouco conhecido, mas extraordinário M.R.James. cada um deles contribuiu com uma parcela para a minha formação literária. E só para que você tenha uma ideia, todos eles frequentavam as páginas das revistas pulps!
Temos horror a tudo que foge ao normal?
É isso mesmo. Temos horror a tudo quanto foge ao normal. Mas também pode-se dar ao contrário: uma coisa estranha, por muito estranha que seja se ela perdura acaba tornando-se uma coisa normal. Quando o homem não encontra satisfação nas coisas de seu dia-a-dia, busca no irreal o “algo mais” que lhe permita fugir da vida sem aventura. E o homem estará pronto a precipitar-se em qualquer caminho que o leve ao imponderável.  O medo desconhecido é uma volta ao terrores ancestrais da espécie humana. Nossos antepassados eram perseguidos pelo desconhecido; o imprevisível parecia precipitar-se sobre eles e pertencer a esfera sobre as quais não tinham nenhum poder.
Como é a sua relação com os críticos?
Eu não levo muito a sério o que os críticos dizem. Respeito a opinião de cada um, seja de crítico ou não. Mas esse negócio de rotular o que é literatura e o que é subliteratura já há muito está superado. Não sei como ainda tem alguém se preocupando com isso. Acho que devemos ver as coisas por um outro prisma, o do bom senso: analisando o texto que se nos apresenta se está bem escrito ou mal escrito. É isso. O resto é puro preconceito.
Qual é o seu livro predileto?
Por um fator muito especial, meu livro predileto é ‘O Fantasma de Tio William’. Não sei precisar com exatidão o ano, se seria 1937 ou 1938. Minha família residia na Lapa, à rua Tito, próximo da Companhia Melhoramentos que conhecíamos como ‘Weiszflog’. De um lado da rua ficava a gráfica, um grande edifício e do outro, o depósito. Recordo-me bem, ele estava num imenso terreno baldio, por isso podíamos vê-lo por inteiro. Era um galpão feio, com muitas janelas envidraçadas e coberto com zinco que reluziam ao sol. Uma tarde, minha mãe, minha irmã Célia e eu andávamos pela calçada e quando chegamos diante do portão da gráfica, ele se abriu e um funcionário saiu empurrando um carrinho de quatro rodas repleto de livros. Atravessou a calçada à nossa frente, a caminho do depósito. Olhei para o interior do portão aberto e vi uma larga alameda calçada com paralelepípedos com a acesso à inúmeras dependências da gráfica. E me recordo do pensamento que me ocorreu naquele exato momento: “Um dia vou ter um livro publicado pela ‘Weiszflog’.”. O porque desse meu pensamento não sei. Mas, estranhamente em 1983, ou seja, 41 anos depois, ele se convertia numa realidade. Nesse ano a Companhia Melhoramentos publicou meu livro. Para mim é mistério. O que levou-me a ter o pensamento que “um dia eu teria um livro publicado pela ‘Weiszflog’.”? O mistério ainda é maior porque eu não fiz absolutamente nada para que meu desejo de menino se tornasse uma realidade, certamente eu jamais iria me recordar que um dia eu tivera esse pensamento... tão absurdo!
Tem muitas ideias na gaveta? Quais os seus próximos projetos?
As gavetas de minha escrivaninha e as prateleiras das estantes do meu escritório estão cheias de originais. No momento estou empenhado em reescrever alguns antigos textos e também terminei recentemente o scrit de um reality show intitulado “A Mansão dos 13 Condenados” e um game para TV: “O Jogo das Palavras”, só que não sei o que fazer com eles.
Há pouco espaço para escritores iniciantes?
Compreendo bem essa queixa. Falta mesmo espaço para aqueles que estão iniciando e queira publicar o seu livro. As editoras não arriscam num nome desconhecido, ou melhor, raramente arriscam. No passado tínhamos um grande número de revistas que abrangiam todos os gêneros, possibilitando aos que estavam iniciando, um veículo onde poderiam publicar suas produções, tornando-o conhecido nacionalmente. Era o primeiro passo para se chegar ao livro. Hoje, infelizmente, não vejo onde o novel autor possa exercitar. Existem os fanzines. Mas o fanzine é uma ação entre amigos. Ele gravita num universo muito restrito. Quanto a internet também não é a solução. Então, que posso eu dizer? Existe o fator sorte, como nos conta o ator Jack Black que dez o produtor apaixonado e obcecado, Carl Denham, no filme de Peter Jackson, ‘King Kong’. Ele conta que: “Ser escolhido para trabalhar neste filme foi como um sonho para mim, porque eu sou um grande fã do trabalho de Peter Jackson e de toda sua equipe e eu me recordo de falar para mim mesmo, enquanto assistia ‘O Senhor dos Anéis’, que eu precisava conseguir um teste com ele qualquer que fosse seu próximo trabalho. E eu ficava imaginando que ele faria depois da trilogia, mas logo descartei a ideia de trabalhar com ele. Foi então que recebi o telefonema para conversarmos sobre ‘King Kong’ e esse foi um daqueles telefonemas que algumas pessoas aguardam a vida toda para receber e eu o recebi”. Portanto, o jeito é batalhar e acreditar no sonho. “Siga seu coração que o sonho é a chave de tudo”.
Rubens Francisco Lucchetti (As Sete Vampiras) – Roteiro
1 – Qual foi a base do roteiro desse filme?
‘As Sete Vampiras’ nasceu como balé em 1971. O José Mojica Marins pretendia abrir uma boate do terror, em São Paulo, nos moldes do grand-guignol. Tinha até o local: confluências das avenidas Paulista e Angélica. Seria uma caverna, com estalactites pendendo de um teto desigual, decorada com teias de aranha, aranhas e morcegos; iluminada por archotes presos às paredes. Mesas e cadeiras imitando ossos humanos, alguns carunchados. As bebidas teriam coloração avermelhada e servidas em crâneos por sedutoras garçonetes vestidas à caráter, como vampiras (jovens muito brancas de plástica impecável e de longos cabelos negros caindo-lhes por sobre os ombros nus). A bilheteria no saguão da “caverna”, seria um buraco aberto na parede e a bilheteria, igualmente uma vampira. O ingresso recebido à porta por um “Drácula” que, ao invés de rasga-lo, jogaria-o no interior de um fogareiro. Cheguei a escrever todo o roteiro do que seria o primeiro espetáculo. Além do balé “As Sete Vampiras”, um humorista cadaverizado, andaria pela plateia e contaria piadas de humor negro, algumas até encenadas. Um dos esquetes que ainda me recordo referia-se a um grupo de alienados que assumiriam o controle do manicômio. Uma das funcionárias do manicômio, grávida de uns oito meses, seria amarrada à uma cadeira e um dos loucos, armado com uma longa espada, tranpassaria-lhe o ventre, e então, ouviria-se o grito do feto. Também haveria teatro. A primeira peça a ser encenada a adaptação de “O Coração Revelador”, de Edgar Allan Poe. Contávamos com uma excelente aparelhagem de som e o sonoplasta, um amigo meu que já havia colaborado com o Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto. Tinha tudo para dar certo e ser um sucesso. Até hoje o Mojica não me disse porque o projeto não evoluiu.
Quanto terminamos ‘O Segredo da Múmia’, o Ivan Cardoso  queria uma ideia para o nosso próximo filme. Falei-lhe de ‘As Sete Vampiras’. Ele gostou do título e aprovou-o na hora. Como se tratava de um balé, tive de imaginar toda uma trama e a escrevi como se estivesse escrevendo uma novela para as revistas nas quais colaborei: ‘Policial em Revista’ e ‘X-9’, mas com os olhos voltados para as produções de Hollywood, dos anos de 1950.
2 – Quais foram as dificuldades encontradas?
A principal dificuldade para a realização de ‘As Sete Vampiras’ foi a falta de recursos financeiros. O Ivan trabalhou com uma verba exígua e isso impossibilitou-o de filmar o meu roteiro da forma como o escrevi. Por isso o filme está meio ininteligível. Também culpo a montagem.
3 – Além de escrever roteiros para filmes de terror, você também já trabalhou com roteiros de histórias em quadrinhos. Houve preocupação da sua parte em saber como utilizar a linguagem dos quadrinhos neste filme?
Tenho mais de trezentas histórias em quadrinhos que tiveram por base roteiros meus e desenhados pelos principais desenhistas brasileiros ou aqui radicados. Não, não houve nenhuma preocupação em utilizar a linguagem dos quadrinhos nesse filme. Mas devido eu ter lidado durante muitos anos com essa arte, ela está incorporada naquilo que escrevo. E, como antes dos quadrinhos trabalhei em rádio, escrevendo seriados, e ainda, simultaneamente escrevia contos e novelas para revistas pulps, acabei por assimilar suas linguagens que são correlatas porque todas trabalham com a imagem e hoje não seu mais desassociar uma das outras. Minha cabeça está repleta de imagens – quadrinhos é imagem, rádio é a imagem transformada em som e nas pulps o que prevaleciam eram boas histórias que possibilitassem a criação de boas cenas (imagens).
4 – De que forma a sua experiência com gibis de terror foi útil na produção do roteiro?
Nem tanto os gibis de terror, mas os quadrinhos em si. Como eu disse na resposta anterior, querendo ou não a gente acaba  por agregar ao trabalho que executamos o nosso universo e o meu universo foram os seriados de cinema e os de rádio, as histórias em quadrinhos (mais os jornalzinhos: ‘O Globo Juvenil’, ‘Suplemento Juvenil’ e ‘A Gazetinha’ e os comic books: ‘Mirim’ e ‘Gibi’, ambos tri-semanais que publicavam as histórias que saíam em tiras de jornais. Nunca gostei dos gibis mensais que publicavam histórias completas, geralmente de super-heróis. E eu não gosto de super-heróis).
5 – Nesse filme, há várias cenas em que o personagem ‘Raimundo Marlou’, o detetive particular, está lendo gibis de aventura policial (“X-9”, “Detective” e “Sherlock Homes”). Estes gibis serviram de inspiração para a criação deste personagem? Como surgiu essa ideia?
‘X-9’, ‘Detective’ e ‘Policial em Revista’ que Raimundo Marlou está lendo são revistas pulps que foram muito populares nos anos 40, 50 e 60, e a ‘Sherlock Holmes’ é uma revista de histórias em quadrinhos. Sempre procurei nos meus roteiros fazer referências e homenagens a tudo quanto me influenciou e que formam o meu universo.
O personagem Raimundo Marlou é uma homenagem a Raymond Chandler, um dos expoentes máximo da moderna literatura policial, criador do detetive Phillip Marlow. Chandler começou sua carreira de escritor na Black Mask, que era a principal revisa pulp de detetive & mistério dos Estados Unidos e Sherlock Holmes, o primeiro detetive consultivo do mundo.
Mas além dessas homenagens, faço outras mais, como o ‘Fantasma da Ópera’, de Gaston Leroux e ao filme ‘Sangue de Pantera’, autêntica obra-prima produzida por aquele que considero um dos maiores produtores que o cinema já teve: Val Lewton. Ele produziu (com orçamento reduzido, utilizando sobras de cenários de outros filmes), 11 filmes para a RKO no início dos anos 40, nove deles, compõe, como disse sabiamente o crítico Carlos Fonseca: “a mais extraordinária coleção de horror da história do cinema”. Cada vez me convenço mais de que ele é o Edgar Allan Poe do Cinema, pois foi quem melhor soube retratar o medo nas telas cinematográficas. Em ‘As Sete Vampiras’ homenageio Val Lewton, em particular no filme ‘Sangue de Pantera’, dirigido por Jacques Tourner, na sequência da piscina que o Ivan soube recompor de forma admirável.
6 – Como você enxerga a relação entre cinema e quadrinhos no Brasil?
Sinceramente, o que eu tenho visto são filmes usando personagens de quadrinhos. Talvez o filme que tenha se aproximado mais da linguagem dos quadrinhos foi ‘Cidade Oculta’, de Chico Botelho. O Chico Botelho conseguiu recriar toda a atmosfera sufocante de ‘The Spirit’, de Will Eisner. E isso, não acontece unicamente com o nosso cinema. Acontece também com o cinema dos outros países.
Mas, se até hoje o cinema não teve uma fiel transposição da linguagem dos quadrinhos, o mesmo não se pode dizer da televisão. Nela, vamos encontrar um exemplo notável: o ‘Chaves’. Nessa série, temos cenários, situações e personagens típicos dos quadrinhos.
7 – Tendo em vista sua experiência no roteiro deste filme, como você enxerga o potencial do cinema para adaptar a linguagem dos quadrinhos em geral?
As duas artes nasceram praticamente juntas. O que ambas têm em comum é que contam uma história por meio de imagens em movimento (no quadrinho este é sugerida). Só nisso é que se igualam. Nos quadrinhos os cortes espaço e tempo são muito mais bruscos do que no cinema. O leitor vai ter que criar em sua mente as ações que estão faltando entre um quadro e outro. Mas como o cinema é uma arte que congrega todas as demais artes, ele pode ser valer também dos quadrinhos.
8 – Me parece que depois de ‘As Sete Vampiras’, era para ter sido feito ‘Naiara, a Filha de Drácula’. Isso está correto?
É isso mesmo. Você não pode imaginar o meu entusiasmo quando o Ivan me ligou dizendo que estava pensando em fazer outro filme de vampiro, mais precisamente ‘Naiara, a Filha de Drácula’ (Naiara é uma personagem brasileira das histórias em quadrinhos dos anos de 1960, desenhada pelo Nico Rosso), e pediu-me para que fosse ao Rio, queria mostrar-me dois castelos, um na estrada Rio-Petrópolis e outro em Itaipava. Eu já tinha a história mais ou menos pronta quando encontrei-me com ele. Na verdade , foi toda imaginada durante a viagem de Ribeirão Preto ao Rio, feita de ônibus.
Trata-se de uma jovem brasileira, filha de uma cigana de origem romena que havia sido engravidada pelo Drácula. Os pais fugiram para o Brasil, onde a criança nasceu e fora deixada na porta de um orfanato com uma fortuna em ouro. A criança tornou-se uma linda jovem de fina educação, mas com uma fixação pelo Drácula, e chegava a sonhar com ele. Na verdade Drácula comunicava-se telepaticamente com ela. Por ocasião do seu casamento, ela recebeu do marido, como presente de viagem de núpcias, uma viagem ao castelo de Drácula. Coincidentemente, uma agência de turismo estava organizando uma excursão à Transilvânia...
9 – E você iria necessitar de um castelo...
Exatamente. Primeiramente viajamos à Itaipava. Porém, logo descartei o castelo. Era de estilo francês, muito bonito e não infundiria o mínimo terror (era até romântico). Na volta ao Rio, entramos numa estrada secundária a fim de ver o segundo. A estrada era toda assinalada por árvores com galhos desfolhados e estava iluminada por um sol de inverno.
De repente nos deparamos com o castelo, um edifício majestoso e espectral, todo cinza; e uma neblina começava a descer sobre a paisagem, parecendo querer saudar-me com uma visão escocesa. Em pouco tempo, todo o castelo estava envolvido por ela, (era como se a neblina quisesse abraça-lo), e suas torres, em poucos segundos tornaram-se totalmente invisíveis. O próprio edifício, uma massa fantástica fora tomado pela neblina convulsiva. Era um espetáculo encantador para mim que, pela primeira vez, estava diante de um castelo; mas certamente infundiria pavor numa pessoa influenciável. Foi uma viagem fantástica e inesquecível. Mas infelizmente o filme não chegou a ser feito, embora o roteiro se encontre pronto desde 1988; em seu lugar, o Ivan fez ‘O Escorpião Escarlate’.
Rubens Francisco Lucchetti (O Escorpião Escarlate) – Roteiro
10 – Como surgiu a ideia do filme?
Em três meses escrevi o roteiro de ‘Naiara, a Filha de Drácula’. Mas quando foi feita a análise técnica do roteiro, constatou-se que a verba que o Ivan dispunha não dava para produzi-lo. Fiquei, então, de sugerir ao Ivan um novo projeto. Me lembrei de ‘O Escorpião Escarlate’, um seriado radiofônico que eu escrevi em 1956. Falei sobre ele com o Ivan. O Ivan gostou do título e do argumento.
11 – Qual foi a base do roteiro para este filme?
A base para a feitura do roteiro foi todo ele inspirado no ‘Escorpião Escarlate’. A única diferença é que, ao invés do detetive Reginaldo Varela, personagem do seriado de rádio, eu o substitui por um personagem misterioso que age nas sombras, o Morcego.
12 – Quais foram as dificuldades encontradas?
A principal dificuldade foi a falta de recursos financeiros. O Ivan sempre trabalhou com orçamentos reduzidos e cada uma de suas produções  levava em média dois anos ou mais para ser concluída. Isso em cinema é uma loucura! Mas uma loucura que era sempre recompensada com o reconhecimento da crítica e do público.
13 – As histórias dos personagens “Anjo” e “Escorpião Escarlate” foram criadas originalmente por Álvaro Aguiar para uma novela radiofônica e posteriormente foram adaptadas os gibis pelo quadrinista Flávio Colin. Eles participaram/colaboraram para a realização do filme?
Na primeira versão do roteiro do filme ‘O Escorpião Escarlate’, como eu disse, havia um personagem misterioso, o Morcego, alter ego de o Sombra que infelizmente o Ivan Cardoso não o aceitou e impingiu-me o Anjo, um herói sem nenhuma empatia – com o agravante de estar cercado por muitos homens – frustrando-me totalmente, uma vez que eu fiquei privado de homenagear o maior herói das pulps – e que originou todos os demais heróis – dos quadrinhos, dos seriados de rádio e do cinema, do século passado. Era minha intensão, com o ‘Escorpião Escarlate’, homenagear todos os vilões mascarados do cinema – cuja identidade só era conhecida no final do último capítulo. E com o Morcego, homenagear todos os heróis mascarados. Tive brigas homéricas com o Ivan, tentando impor meu ponto-de-vista. Mas o Ivan foi renitente e quis por quis, o Anjo. Então, era isso ou nada.
“As Aventuras do Anjo” foi um popular seriado radiofônico apresentado pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, entre 1948 e 1967. Criado por Péricles Leal, o Anjo alcançou maior sucesso ao ser escrito e dirigido – ainda em 1948 – por Álvaro Aguiar que desde o inicio da série foi também seu autor principal. Aguiar faria no filme o papel de ensaiador dos radiatores, se a morte não o houvesse surpreendido em 1988, aos 69 anos, meses antes do inicio das filmagens.
O Anjo teve uma revista de histórias em quadrinhos escrita pelo próprio Álvaro Aguiar e teve três desenhistas: Juarez Odilon, Walmir Amaral, mas quem mais a desenhou foi o Flávio Collin.
14 – Na realização do filme, houve alguma preocupação em utilizar a linguagem e o formato das radionovelas e das histórias em quadrinhos?
No meu roteiro procurei evidenciar a linguagem radiofônico na visualização de como se produzia uma radionovela que, infelizmente, o Ivan não teve condições de retratar no filme da forma como a concebi.
15 – Na sua opinião, existe alguma relação entre as radionovelas e os gibis? Se sim, isso de alguma forma contribuiu para a produção do filme?
Se formos analisar, eu acho que até existe. Nos quadrinhos temos os “balões” com os diálogos e o cenário desenhado; na radionovela temos o diálogo e o cenário sugerido pelo som, produzido pelo sonoplasta e pelo contrarregra.
 No meu roteiro procurei mostrar através da metalinguagem, a história sob os vários pontos-de-vista: o do autor, o das personagens e dos rádio ouvintes. O rádio tinha a seu favor aquilo que se apregoava como desvantagem: a falta da imagem. O som desenvolve nossa imaginação. Por intermédio do som, cada pessoa cria uma imagem de acordo com sua capacidade intelectual. O rádio era a extensão da imaginação. Foi isso que eu quis mostrar no meu roteiro.
16 – Qual foi a reação do autor ao saber que sua obra seria adaptada para o cinema?
O Álvaro Aguiar teve a satisfação de saber que seu personagem estaria num filme. Fui testemunha disso, quando, juntamente com o Ivan fizemos-lhe uma visita. O Álvaro morava numa casa modesta, no bairro de São Cristóvão. Infelizmente, ele não chegou a vê-lo. Os últimos anos de vida do Álvaro Aguiar foram melancólicos: atuava nos programas humorísticos da TV Globo.

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