quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


AS IMPOSSIBILIDADES EM “OS CRIMES DA RUA MORGUE”...
ORA, O DIABO QUE RESOLVA!
artigo de Rubens Francisco Lucchetti

Foi numa tarde de dezembro de 2002...

O telefone tocou. Fui atendê-lo mal-humorado, porque detesto telefone e sempre deixo a tarefa de atender as ligações para a minha mulher, Tereza. Mas nesse dia ela não estava em casa, e eu tive de parar o que estava fazendo – invariavelmente, escrevendo, já que, além de lavar a louça da cozinha e varrer a casa e o quintal, não sei fazer outra coisa – e ir atender ao telefone. Então, todo o meu mau humor passou, quando ouvi do outro lado da linha a voz amiga do editor Carlos Mann, que foi logo me dizendo:

– Rubens, preciso que me escreva um livro. E você tem de entregá-lo, no máximo, até junho do ano que vem.

“Como ele está bonzinho”, pensei, porque, em geral, seus prazos nunca ultrapassam trinta dias e, agora, estava me dando seis meses! Mas como eu estava enganado. Ele queria nada mais, nada menos...

– É um livro no qual você deve recontar todas as histórias que aparecem no filme A Liga Extraordinária.

Eu já havia lido As Aventuras da Liga Extraordinária, a história em quadrinhos de Alan Moore em que o filme foi baseado.

Portanto, sabia que nele desfilavam os mais extraordinários personagens da literatura universal, os aventureiros eternos que povoaram a minha adolescência: Mina Harker, a mulher que enfrentou o Conde Drácula, o mais terrível de todos os vampiros; Allan Quatermain, explorador britânico que ficou conhecido no mundo inteiro por ter descoberto o fabuloso tesouro das minas do Rei Salomão; Capitão Nemo, cientista, inventor, pirata, o homem que rompeu seus laços com a civilização e resolveu cruzar os mares em seu fantástico submarino, o Nautilus; o monstruoso Mister Hyde, o outro “eu” do bondoso e eminente médico Henry Jekyll; Sherlock Holmes, o primeiro detetive consultivo da Literatura de Detetive & Mistério; e C. Auguste Dupin, que serviu de modelo para a criação de Sherlock Holmes.

– Esse livro, cujo título será Os Extraordinários, tem de ser lançado antes do filme ou simultaneamente com ele – continuou Carlos Mann. – Está certo? Vou desligar, pois sei que você não tem um minuto sequer a perder, a partir deste momento.

E desligou mesmo. Eu fiquei parado, não acreditando no que acabara de ouvir. Tinha seis meses para recontar algumas das mais importantes histórias da literatura de entretenimento e relatar os crimes brutais de Jack o Estripador, célebre serial killer que existiu realmente e que, entre agosto e novembro de 1888, assassinou, no distrito londrino de Whitechapel, cerca de meia dúzia de prostitutas. Era muito pouco tempo. Assim, segui o conselho/ordem do Carlos Mann, engavetei toda a papelada que estava espalhada sobre a minha escrivaninha e dirigi-me até minha biblioteca, a fim de apanhar as diversas edições que tenho do romance Drácula, de Bram Stoker.

Após Drácula, recontei As Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard; em seguida, Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne...

Deixei de propósito “Os Crimes da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, por último, porque sabia de sua complexidade e sabia, portanto, que gastaria um bom tempo para traduzir e recontá-lo.

A primeira vez que li “Os Crimes da Rua Morgue” foi em 7 de outubro de 1949, ou seja, no mesmo dia em que comprei – numa livraria em Ribeirão Preto – os três volumes de Poesia e Prosa (editados pela Livraria da Globo, de Porto Alegre, esses três volumes apresentaram pela primeira vez aos leitores brasileiros a obra completa de Poe), com tradução de Oscar Mendes e Milton Amado. Depois, devo ter relido essa história umas duas ou três vezes, em outras traduções. E essas leituras/releituras eu as fazia sempre como simples leitor, deleitando-me com um texto saído da mente de um dos mais brilhantes autores norte-americanos de todos os tempos. Agora, era diferente: eu teria de traduzir esse texto e recontá-lo.


Como não domino o Inglês, tive de cotejar diversas traduções com o original e ir vertendo para o Português palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo e, em seguida, dar minha própria interpretação e redação. Foi um trabalho diuturno estafante, mas também cativante... pois me possibilitou penetrar no âmago da história. Foi aí que atentei para as janelas...

“Nesta madrugada, por volta das três horas, os moradores do Quartier St. Roch foram despertados por uma série de gritos terrificantes, vindos, aparentemente, do quarto andar de uma casa da Rua Morgue, que se sabia ser ocupada apenas por uma certa madame L’Espanaye e sua filha, mademoiselle Camille. Após demoras causadas por alguns esforços inúteis de se entrar na casa por meios normais, a porta principal foi arrombada com um pé-de-cabra; e oito ou dez vizinhos entraram, acompanhados por dois gendarmes. A essa altura, os gritos já haviam cessado; porém, quando o grupo subia correndo o primeiro lance de escadas, ouviram-se duas vozes que discutiam violentamente e pareciam vir da parte superior da casa. Quando o segundo andar foi alcançado, essas vozes cessaram e tudo ficou no mais completo silêncio. Os vizinhos dispersaram-se e percorreram todas as dependências da casa. Ao chegarem a um grande quarto situado na parte traseira, no quarto andar – sua porta, fechada por dentro, teve de ser forçada –, depararam com um espetáculo que os encheu de assombro e terror.


O aposento estava na mais completa desordem; os móveis, despedaçados e espalhados em todas as direções. Só havia uma cama, e o colchão tinha sido arrancado e jogado no meio do quarto. Sobre uma cadeira encontrou-se uma navalha suja de sangue. Na lareira, havia duas ou três longas e espessas mechas de cabelo humano grisalho, também manchadas de sangue e parecendo terem sido arrancadas pelas raízes. No chão, foram encontrados quatro Napoleões, um brinco de topázio, três grandes colheres de prata, três colheres menores de métal d’Alger e duas bolsas contendo quase quatro mil francos em ouro. As gavetas de um birô, que ficava num canto, estavam abertas e tinham sido, aparentemente, revistadas, embora ainda restassem dentro delas muitos objetos. Um pequeno cofre de ferro foi encontrado debaixo do colchão (e não debaixo da armação da cama). Estava aberto, com a chave ainda na fechadura. Continha algumas velhas cartas e outros papéis sem importância.

Não se viam vestígios de madame L’Espanaye; mas, tendo sido observada na lareira uma quantidade anormal de fuligem, deu-se uma busca na chaminé. Então (coisa horrível de contar!), retirou-se de lá o cadáver da filha, de cabeça para baixo. Havia sido introduzido, à força, pela estreita abertura, até uma altura considerável. O corpo ainda estava quente. Ao examiná-lo, notaram-se numerosas escoriações, causadas, sem dúvida, pela violência com que tinha sido empurrado chaminé acima e, depois, dela retirado. No rosto, havia numerosos arranhões profundos; e, no pescoço, viam-se equimoses negras e marcas fundas de unhas, como se a morte tivesse sido por estrangulamento.


Depois de uma investigação completa em todas as dependências da casa, sem nenhuma outra descoberta, o grupo encaminhou-se para um pequeno pátio pavimentado, na parte traseira do prédio, onde encontraram o cadáver da velha senhora, com o pescoço tão inteiramente cortado que, quando tentaram erguer o corpo, a cabeça caiu no chão. O corpo, assim como a cabeça, estava horrivelmente mutilado – o primeiro de uma tal maneira que nem parecia ser o de uma criatura humana.

Para resolver este horrível mistério, não foi encontrada até agora, segundo parece, a menor pista.” (Observação: os grifos são de Edgar Allan Poe).

É desse modo, por meio de uma notícia publicada na edição vespertina do jornal Gazette des Tribunaux, que C. Auguste Dupin e seu amigo, o narrador anônimo de “Os Crimes da Rua Morgue”, tomam conhecimento dos assassinatos brutais de madame L’Espanaye e sua filha Camille.

A edição do dia seguinte do mesmo jornal noticia que várias pessoas tinham sido interrogadas a respeito dos crimes; mas nada do que disseram conseguiu lançar alguma luz sobre os assassinatos. Na realidade, os depoimentos serviram para confundir ainda mais a polícia, já que as testemunhas inquiridas deram interpretações diferentes a respeito das duas vozes que ouviram quando subiam o primeiro lance de escadas da casa de madame L’Espanaye. Um dos depoentes, Alfonso Garcio, natural da Espanha, afirmou que uma das vozes, a mais áspera, “era de um francês”. Não pôde distinguir o que dizia. A outra voz, aguda, “era de um inglês, disso tinha certeza. Não entende a língua inglesa, mas julgou que a voz pertencia a um inglês pela entoação”. Já outra testemunha, o italiano Alberto Montani, declarou que “a voz áspera era de um francês. Entendeu várias palavras” (outros depoentes afirmaram a mesma coisa; um deles, Odenheimer, nascido em Amsterdã, disse que ouviu essa voz falar repetidas vezes “sacré”, “diable” e uma vez “mon Dieu”). Ainda segundo Montani, a outra voz devia ser de “um russo”, apesar de ele jamais ter conversado com um russo. De acordo com outra testemunha, o médico Paul Dumas, o corpo de mademoiselle L’Espanaye “mostrava-se muito maltratado e cheio de escoriações, o rosto apresentava um tom lívido e os globos oculares projetavam-se para fora. A língua fora aparentemente cortada. Uma grande contusão foi descoberta na boca do estômago, produzida, aparentemente, pela pressão de um joelho. O cadáver da mãe estava horrivelmente mutilado. Todos os ossos da perna e do braço direitos estavam mais ou menos quebrados. A tíbia esquerda estava bastante lascada, assim como todas as costelas do lado esquerdo. O corpo inteiro mostrava-se horrivelmente machucado e pálido. Não era possível dizer como as lesões haviam sido infligidas. Um pesado porrete, ou uma larga barra de ferro, ou uma cadeira, ou qualquer arma grande, pesada e contundente poderia produzir tais resultados, se manejada pelas mãos de um homem muito forte. Nenhuma mulher, fosse qual fosse a arma usada, poderia desferir tamanhos golpes. A cabeça da vítima estava inteiramente separada do corpo e estava também muito machucada. A garganta fora evidentemente cortada com algum instrumento muito afiado, provavelmente uma navalha”. Ainda segundo Paul Dumas, madeimoselle L’Espanaye tinha sido estrangulada por uma ou mais pessoas desconhecidas”. Porém, nada disso importa verdadeiramente para a decifração do Mistério das Janelas. Na realidade, o único trecho da notícia que interessa ser transcrito aqui é o seguinte:

“Quatro das testemunhas, tendo sido novamente interrogadas, disseram que, quando o grupo chegou ao quarto onde seria encontrado o corpo de Camille L’Espanaye, a porta estava fechada por dentro. Tudo estava em completo silêncio – não se ouviam gemidos ou ruídos de qualquer espécie. Após forçarem a porta, não viram ninguém. As janelas, tanto do quarto dos fundos como do da frente, estavam abaixadas e firmemente trancadas por dentro. Uma porta entre os dois quartos se encontrava fechada, mas não à chave. A porta de ligação do quarto da frente com o corredor estava trancada, com a chave do lado de dentro. (...) A porta foi aberta com dificuldade.” (Observação: os grifos são meus).

A partir da leitura dessas duas notícias, Dupin, que possui uma “aptidão analítica incomum”, decide investigar o duplo homicídio da Rua Morgue. E a primeira coisa que faz é conseguir com o chefe da polícia, conhecido seu, uma autorização para examinar o cenário do crime. E o que acontece a seguir está descrito assim pelo narrador da história:

“A permissão foi obtida, e seguimos imediatamente para a Rua Morgue, que é uma dessas miseráveis travessas situadas entre a Rua Richelieu e a Rua St. Roch. A tarde já estava avançada, quando lá chegamos, pois o bairro fica a grande distância daquele onde residíamos. A casa foi logo encontrada, porque ainda havia muitas pessoas do outro lado da rua, olhando, com uma curiosidade sem propósito, as janelas fechadas. Era uma casa como tantas outras de Paris, com um portão, tendo num dos lados uma guarita com vidraça de correr, indicando tratar-se de uma loge de concierge. Antes de entrar, subimos a rua, dobramos numa viela e, depois, dobrando uma vez mais, passamos pela parte dos fundos da residência. Enquanto isso, Dupin, examinava toda a vizinhança, assim como a casa, com uma atenção minuciosa cujo objetivo eu não conseguia compreender.

Refizemos o trajeto e, voltando para a frente da casa, batemos. E, após mostrarmos nossas credenciais, os guardas nos deixaram entrar. Subimos até o quarto onde tinha sido encontrado o corpo de mademoiselle L’Espanaye e onde ainda jaziam os dois cadáveres. A desordem do local fora preservada, como sempre acontece em casos dessa natureza. Não notei ali nada além do que já havia sido detalhado pela Gazette des Tribunaux. Dupin examinou atentamente tudo, até mesmo os corpos das vítimas. Passamos, então, para os demais aposentos e descemos ao pátio, sempre acompanhados por um gendarme. A investigação durou até o anoitecer, quando partimos. Na volta para casa, meu amigo parou, por uns instantes, no escritório de um jornal.”
Somente no dia seguinte, por volta do meio-dia, Dupin inquere seu amigo, perguntando-lhe se tinha observado algo de peculiar no local do crime. O amigo responde que não viu “nada peculiar, nada além do que já haviam lido no jornal”. Então, Dupin fala:

“Receio que a Gazette não tenha penetrado em todo o horror insólito da coisa. Mas deixemos de lado as opiniões sem peso desse jornal. Parece-me que este mistério é considerado insolúvel pela mesma razão que deveria ser encarado como fácil de resolver. A polícia está confusa pela aparente ausência de motivos, não para os assassinatos em si, mas para todas as atrocidades de que foram acompanhados. Em resumo, a facilidade com a qual chegarei, ou já cheguei, à solução deste mistério está na razão direta de sua aparente insolubilidade aos olhos da polícia.

Transportemo-nos, agora, na imaginação, para aquele quarto. Que devemos procurar em primeiro lugar? Os meios de fuga empregados pelos assassinos. Não será demais dizer que nenhum de nós acredita em acontecimentos sobrenaturais. Portanto, madame L’Espanaye e a filha não foram mortas por espíritos. Seus assassinos eram de carne e osso e escaparam de uma forma material.

Há no quarto duas janelas. Uma delas não está obstruída por móvel algum, ficando inteiramente visível. A parte inferior da outra janela está oculta pela cabeceira da pesada cama, que se encontra bem encostada à parede. A janela desobstruída foi encontrada bem trancada por dentro. Resistiu aos maiores esforços dos que tentaram levantá-la. Com uma verruma, havia sido feito um grande buraco no lado esquerdo de seu caixilho; e nele se descobriu, enfiado até quase a cabeça, um prego bastante resistente. Examinando-se a outra janela, foi encontrado um prego semelhante, pregado da mesma maneira; e uma vigorosa tentativa para levantar esse caixilho também falhou. A polícia, então, ficou convencida de que a fuga não se dera por ali. Considerou-se, assim, desnecessário retirar os pregos e levantar as janelas.

O meu exame foi mais minucioso, porque eu sabia que era preciso provar que todas as impossibilidades eram só aparentes.

Os assassinos deviam ter fugido por uma dessas janelas. E, sendo assim, não podiam ter trancado os caixilhos por dentro, tal como foram encontrados. Foi esta evidência, por ser óbvia demais, que fez a polícia desistir de investigar o local. Entretanto, os caixilhos estavam trancados. Deviam, então, ter o poder de trancarem por si mesmos. Não havia como escapar a esta conclusão. Dirigi-me até a janela desobstruída e, com alguma dificuldade, retirei o prego e tentei erguer o caixilho. Ele resistiu a todos os meus esforços, como eu esperava. Devia haver, portanto, uma mola escondida. Uma busca minuciosa me fez descobrir essa mola. Pressionei-a e, satisfeito com a descoberta, abstive-me de erguer o caixilho.

Pus de novo o prego em seu lugar e observei-o atentamente. Uma pessoa, passando através da janela, poderia tê-la fechado; e a mola funcionaria, trancando-a... mas não seria possível recolocar o prego. A conclusão era simples e restringia o campo de minhas investigações: os assassinos deviam ter fugido pela outra janela. Supondo, então, que as molas dos dois caixilhos fossem iguais, como era provável, tinha de encontrar uma diferença entre os pregos, ou pelo menos, na maneira como estavam encaixados. Subi na armação da cama e, por cima da cabeceira, examinei detidamente o segundo caixilho. Passei a mão por trás da cabeceira da cama e descobri facilmente a mola. Como já havia previsto, ela era idêntica à outra. Examinei, em seguida, o prego. Parecia tão resistente quanto o outro e estava encaixado da mesma maneira – enfiado até quase a cabeça. O prego assemelhava-se ao da janela vizinha; mas esse fato não tinha a menor relevância (por mais conclusivo que parecesse), quando comparado com a consideração de que ali, naquele ponto, terminava o rastro de minhas deduções. ‘Devia haver algo errado com o prego’, pensei. Toquei-o, e a cabeça do prego ficou-me entre os dedos. O resto do prego permaneceu no orifício. O prego já estava quebrado há muito tempo (possivelmente, quebrara-se devido a uma forte martelada, que o incrustara no caixilho), pois as beiradas estavam enferrujadas. Com cuidado, recoloquei no lugar a cabeça do prego, que voltou a adquirir a aparência de um prego perfeito (não se notava, então, sua ruptura). Comprimi a mola e ergui vagarosamente, por alguns centímetros, o caixilho; a cabeça do prego subiu junto, sem sair do lugar. Fechei a janela e notei o quanto era perfeita a semelhança com um prego intacto.

O enigma, até aqui, estava resolvido. O assassino fugira pela janela junto à cama. Fechada por si mesma, após a saída do criminoso (ou, talvez, fechada de propósito), a janela havia sido trancada pela mola; e foi a retenção da mola que a polícia confundiu com a do prego ali enfiado. Por isso acharam desnecessária qualquer outra investigação.

O segundo problema diz respeito ao modo como o assassino desceu. Quanto a este ponto, senti-me satisfeito com a volta que demos em torno do edifício. Cerca de uns cinco pés e meio da janela em questão, passa um condutor de pára-raios. Deste condutor é impossível, a quem quer que seja, atingir a janela e, muito menos, entrar no quarto. Notei, entretanto, que as venezianas do quarto andar são do tipo que os carpinteiros parisienses chamam de ferrades. Elas são usadas raramente nos dias de hoje, mas são vistas com freqüência em mansões muito antigas de Lyon e Bordeaux. São em forma de uma porta comum (porta simples, e não de duas folhas), salvo a parte inferior, que é gradeada, oferecendo um excelente apoio para as mãos. Essas venezianas têm, folgadamente, mais de um metro de largura. Quando as vimos, da parte traseira da casa, estavam abertas pela metade, formando um ângulo reto com a parede. É provável que a polícia tenha examinado, como eu, os fundos da casa; mas, ao examinarem essas venezianas, não perceberam sua verdadeira largura. Enfim, quando se convenceram de que a fuga não se dera por ali, os policiais fizeram um exame superficial. Porém, estava claro, para mim, que, se estivesse aberta, a veneziana pertencente à janela que fica junto à cama estaria a sessenta centímetros do condutor de pára-raios. É evidente também que alguém, dotado de elevado grau de agilidade e coragem, poderia, usando a veneziana como suporte, saltar do condutor para dentro do quarto. Então, levaria consigo a veneziana, fechando-a. Isso supondo que a janela estivesse aberta naquele momento.
Repare bem que eu me referi a uma agilidade muito incomum para o êxito de tão arriscada e difícil façanha. A princípio quis mostrar-lhe que tal proeza é possível. Mas também, principalmente, quis chamar-lhe a atenção para o caráter extraordinário, quase sobrenatural, da agilidade necessária para executá-la.

Se agora, além disso tudo, você refletiu convenientemente sobre a estranha desordem do quarto, teremos avançado até o ponto de combinar as idéias de uma agilidade espantosa, de uma força sobre-humana, uma ferocidade brutal, uma carnificina sem motivo, uma grostesquerie de horror absolutamente alheia à humanidade e uma voz que soou estranha para os ouvidos de homens de muitas nações e que era destituída de articulação inteligível. Então, a que conclusão podemos chegar?” (Observação: os grifos são de Edgar Allan Poe).

A seguir, o narrador confessa:

“Senti um arrepio percorrer-me o corpo, quando Dupin me fez a pergunta.

‘Um louco’, eu disse, ‘foi o autor desses crimes, Um louco furioso que fugiu de algum manicômio.’
‘Sob alguns aspectos, sua idéia não é descabida’, replicou Dupin. ‘Mas as vozes dos loucos, mesmo em seus paroxismos mais selvagens, nada têm em comum com a tal voz que as testemunhas ouviram ao subir as escadas. Os loucos nasceram em algum país; e a linguagem que usam, por mais incoerente que possa parecer, tem sempre a coerência da silabação. Além do mais, o cabelo de um louco não é como este que estou segurando. Tirei-o dos dedos rígidos do cadáver de madame L’Espanaye. Diga-me o que pensa deles.’

‘Dupin!’, exclamei, completamente transtornado. Esses cabelos são muito estranhos. Não são cabelos humanos.’” (Observação: os grifos são de Edgar Allan Poe).
Então, Dupin pede ao amigo que leia um trecho de uma obra de Cuvier. O texto dá uma descrição detalhada da anatomia e das características (a gigantesca estatura, a prodigiosa força e agilidade, a ferocidade selvagem e a tendência de imitar os atos dos homens) dos orangotangos fulvos que habitam as ilhas das Índias Orientais. Após a leitura, o narrador compreende que os crimes foram cometidos por um desses orangotangos (os tufos de cabelo que Dupin tem nas mãos são idênticos aos pêlos amarelo-torrados dos orangotangos). Daí, Dupin revela que o orangotango assassino deve pertencer a um francês, ou melhor, a um marinheiro francês. Informa também que o animal possivelmente fugiu e foi perseguido pelo seu dono até a casa de madame L’Espanaye. E conclui que ele só não foi capturado devido às terríveis circunstâncias que se seguiram.


“Se o francês está inocente”, diz, em seguida, Dupin, “como eu suponho, o anúncio que coloquei ontem no Le Monde (jornal especializado em assuntos marítimos e muito lido pelos marinheiros) o trará até nós.”

E Dupin entrega ao companheiro um jornal, em que se pode ler o seguinte anúncio:
“CAPTURADO – No Bois de Boulogne, na manhã de... do corrente, um enorme orangotango da espécie encontrada em Bornéu. O respectivo dono, que sabemos ser de um navio maltês, pode recuperar o animal, após descrevê-lo satisfatoriamente e também depois de pagar as despesas decorrentes de sua captura e alimentação. Dirigir-se ao nº ... da Rua ..., 3º andar, Faubourg St. Germain.”

Pouco depois, o dono do orangotango aparece (ele é realmente um marinheiro francês), a fim de reaver o animal. Ele fala que está disposto a gratificar bem Dupin pela captura do orangotango. Dupin diz que a única gratificação que deseja é que ele lhe dê “todas as informações que tiver a respeito dos crimes da Rua Morgue”. O marinheiro entra em pânico. Dupin tranqüiliza-o, dizendo que sabe que ele é “inocente das atrocidades da Rua Morgue” e convence-o a contar tudo o que sabe sobre elas. O marinheiro, então, relata sua história, que é assim resumida pelo amigo de Dupin:

“O marinheiro fizera recentemente uma viagem ao Arquipélago Índico. Um grupo, de que fazia parte, desembarcara em Bornéu e dirigira-se ao interior da ilha, em viagem de recreio. Ele e um companheiro capturaram um orangotango. Tendo morrido esse companheiro, tornou-se o único dono do animal. Depois de grandes complicações, causadas pela ferocidade intratável do orangotango, durante a viagem de regresso, conseguiu, afinal, acomodá-lo com segurança em sua própria casa, em Paris, onde, para não atrair a desagradável curiosidade dos vizinhos, o manteve cuidadosamente encarcerado, até que se curasse de um ferimento no pé, provocado a bordo do navio por uma farpa de madeira. Sua intenção era vendê-lo.

Uma noite, ou melhor, na madrugada dos assassinatos, ao voltar para casa, encontrou o animal em seu próprio quarto de dormir; escapara do aposento contíguo, onde o marinheiro o supunha bem seguro. Com uma navalha na mão e todo ensaboado, o orangotango estava diante de um espelho, procurando barbear-se, coisa que decerto vira seu dono fazer anteriormente, espiando pelo buraco da fechadura. Aterrorizado por ver tão perigosa arma nas mãos de animal tão feroz e tão capaz de fazer uso dela, o marinheiro ficou por alguns instantes sem ação. Estava, porém, acostumado a acalmar o bicho, mesmo em seus acessos mais ferozes, por meio de chicotadas. Lembrou-se, então, de recorrer a tal processo. À vista do chicote, o orangotango fugiu através da porta do quarto, desceu as escadas e, aproveitando uma janela que, infelizmente, estava aberta, precipitou-se na rua.

Desesperado, o marinheiro seguiu o macaco, que, de navalha na mão, parava de vez em quando, virava-se e gesticulava para seu perseguidor; mas, logo que se via prestes a ser apanhado, recomeçava a fugir. A perseguição continuou dessa forma por muito tempo. As ruas estavam profundamente silenciosas, pois eram quase três horas da manhã. Ao passar por uma travessa, atrás da Rua Morgue, a atenção do animal foi atraída por uma luz que vinha da janela aberta do aposento de madame L’Espanaye, no quarto andar da casa. Correndo para o prédio, percebeu o condutor do pára-raios, subiu por ele, com agilidade inconcebível, agarrou a veneziana, que estava completamente aberta e encostada à parede, e, nela se apoiando, saltou diretamente para a cabeceira da cama. Tudo isso aconteceu em menos de um minuto.

O marinheiro, nesse meio tempo, estava satisfeito e inquieto. Tinha, por um lado, fortes esperanças de recapturar o animal, que não conseguiria escapar da armadilha em que se metera voluntariamente, pois só poderia fugir descendo pelo condutor do pára-raios. Por outro lado, sobravam-lhe motivos de inquietação, no tocante ao que o animal seria capaz de fazer dentro da casa. Essa última reflexão incitou o homem a seguir o fugitivo. Não é difícil a um marinheiro subir por um condutor de pára-raios. Porém, ao chegar à altura da janela, que ficava afastada, à sua esquerda, seu caminho foi interrompido. Tudo o que podia fazer era esticar-se ao máximo, de modo a obter uma visão do interior do quarto. E o que viu quase o fez cair de onde estava, de tão horrível que era. Nesse momento, os gritos desesperados cortaram o silêncio da noite, despertando os moradores da Rua Morgue. Madame L’Espanaye e a filha, em trajes de dormir, estavam aparentemente arrumando alguns papéis num pequeno cofre de ferro, que haviam arrastado para o centro do quarto. Tinham-no aberto; e parte de seu conteúdo (jóias, moedas, colheres de prata, duas bolsas etc.) estava espalhado no assoalho. As vítimas deviam estar sentadas de costas para a janela; e, pelo tempo decorrido entre a entrada do animal e os gritos, parece provável que ele não tenha sido logo percebido. A batida da veneziana fora, provavelmente, atribuída ao vento.
Quando o marinheiro olhou para dentro do quarto, o gigantesco animal havia agarrado madame L’Espanaye pelos cabelos (que estavam soltos, porque ela os estivera penteando) e manejava a navalha em torno de seu rosto, imitando os movimentos de um barbeiro. A filha jazia imóvel no chão. Havia desmaiado. Os gritos e os esforços da velha (durante os quais os cabelos lhe foram arrancados da cabeça) tiveram o efeito de mudar em fúria as intenções, provavelmente pacíficas, do orangotango. Com um golpe rápido de seu braço musculoso, quase lhe separou a cabeça do corpo. A visão do sangue derramado transformou a cólera do animal em frenesi. Rangendo os dentes e com os olhos brilhando como se estivessem em fogo, ele saltou sobre o corpo da moça e enterrou-lhe as terríveis garras na garganta, mantendo o aperto até deixá-la morta. Seu olhar errante e feroz caiu, nesse momento, sobre a cabeceira da cama, por cima da qual se avistava o rosto de seu dono, petrificado de horror. O orangotango, que sem dúvida se lembrava do temível chicote, aquietou-se por um instante, cheio de medo. A seguir, cônscio de merecer castigo, pareceu desejoso de ocultar suas sangrentas façanhas e pôs-se a saltar dentro do quarto, em angustiosa agitação nervosa, derrubando e quebrando os móveis ao pular, e arrancou a roupa de cama e o colchão. Por fim, agarrou primeiro o cadáver da filha e meteu-o pela chaminé acima, na posição em que seria encontrado; depois, pegou o corpo da velha e atirou-o imediatamente, de cabeça para baixo, através da janela.

No momento em que o macaco – com o cadáver de madame L’Espanaye – se aproximava da janela, o marinheiro deixou-se escorregar pelo condutor do pára-raios e correu para casa, temendo as conseqüências daquela carnificina e desinteressando-se do que poderia acontecer com o animal. As palavras ouvidas pelas pessoas que subiam as escadas eram as exclamações de medo e horror do francês, misturadas com os balbucios da fera.” (Observação: os grifos são de Edgar Allan Poe).

Em seguida, o narrador termina o relato, com as seguintes palavras:
“Pouco tenho a acrescentar. O orangotango deve ter fugido do quarto pelo condutor do pára-raios, pouco antes de a porta ser arrombada. E provavelmente fechou a janela, ao passar por ela.”

Agora, você, leitor, está de posse de todas as impossibilidades tidas como possibilidades nos acontecimentos relativos a essa história com a qual Edgar Allan Poe criou as bases da Literatura de Detetive & Mistério – com “Os Crimes da Rua Morgue”, Poe criou, inclusive, um tipo específico de histórias de Detetive & Mistério, a dos crimes de quarto trancado, ou seja, histórias que relatam crimes ocorridos em recintos hermeticamente fechados e que não possibilitam a fuga do assassino. E você, leitor, já sabe quais são as impossibilidades em “Os Crimes da Rua Morgue”?

A primeira dessas impossibilidades (eu as chamo de impossibilidades, mas na verdade são erros) é com relação ao sangue no local dos assassinatos. O quarto onde foi cometido o duplo homicídio é minuciosamente descrito; porém, não se faz nenhuma referência ao sangue (a não ser o contido na navalha e nas mechas de cabelo) que deveria haver ali. Na verdade, o sangue deveria ter “lavado” o piso do quarto, uma vez que madame L’Espanaye fora degolada (“O grupo encaminhou-se para um pequeno pátio pavimentado, na parte traseira do prédio, onde encontraram o cadáver da velha senhora, com o pescoço tão profundamente cortado que, quando tentaram erguer o corpo, a cabeça caiu ao chão; e, quando o marinheiro olhou para o interior do quarto, viu que o orangotango “havia agarrado madame L’Espanaye pelos cabelos e manejava a navalha em torno de seu rosto, imitando os movimentos de um barbeiro. Os gritos e os esforços da velha, durante os quais os cabelos lhe foram arrancados da cabeça, tiveram o efeito de mudar em fúria as intenções, provavelmente pacíficas, do orangotango. Com um movimento rápido de seu braço musculoso, quase lhe separou a cabeça do corpo. A visão do sangue derramado transformou a cólera do animal em frenesi”).

O marinheiro diz ainda que, após meter o cadáver de Camille L’Espanaye “pela chaminé acima, na posição em que seria encontrado”, o orangotango “pegou o corpo da velha e atirou-o imediatamente, de cabeça para baixo, através da janela”. Só o fato de o orangotango apanhar o cadáver de madame L’Espanaye já provocaria a separação da cabeça do resto do corpo (além do mais, o animal arremessou o cadáver de cabeça para baixo). Por outro lado, também ficaria um rastro de sangue desde o local onde fora cometido o assassinato até a janela por onde o corpo fora arremessado, ensangüentando a parede abaixo da janela e o peitoril. Dessa forma, a pista do sangue chamaria a atenção das pessoas que invadiram o quarto; e elas encontrariam imediatamente o cadáver de madame L’Espanaye, e não da forma casual como o encontraram. No entanto, o corpo da jovem foi encontrado primeiro, porque “tendo sido observada na lareira uma quantidade anormal de fuligem, deu-se uma busca na chaminé. Então (coisa horrível de contar!), retirou-se de lá o cadáver da filha, de cabeça para baixo”. Vejam que houve a preocupação de citar “uma quantidade anormal de fuligem” e nada se fala do sangue. Seria, então, o sangue normal e a fuligem anormal?
Mas voltemos ao arremesso do corpo de madame L’Espanaye através da janela... Ao ser arremessado o corpo no espaço, a cabeça – mesmo que ela não houvesse “milagrosamente” se desprendido do corpo, quando o orangotango ergueu o cadáver e encaminhou-se com ele até a janela – teria “voado” longe e talvez caído na calçada e não no pátio, devido à violência com que o macaco atirou o cadáver (logicamente, o corpo faria um ângulo curvo e nunca cairia em linha reta, rente à parede). Nesse pátio, também deveria haver um “mar” de sangue.

E por falar no pátio... Há certa confusão com relação à sua localização. Onde ele se situa realmente? Pela notícia publicada na Gazette des Tribunaux, não há nenhuma dúvida de que se situa “na parte traseira” da casa. E, pela narração que o marinheiro francês faz a Dupin, também se entende que o pátio está localizado nos fundos do edifício, ao rés-do-chão, quatro andares abaixo do quarto onde aconteceu o duplo homicídio: “Ao passar por uma travessa, atrás da Rua Morgue, a atenção do animal foi atraída por uma luz que vinha da janela aberta do aposento de madame L’Espanaye, no quarto andar da casa. Correndo para o prédio, percebeu o condutor do pára-raios, subiu por ele, com agilidade inconcebível, agarrou a veneziana, que estava completamente aberta e encostada à parede, e, nela se apoiando, saltou diretamente para a cabeceira da cama.” (Observação: o grifo é meu). Porém, não encontramos na descrição feita pelo marinheiro nenhuma referência a muro ou grade que teria de haver, caso esse pátio seja mesmo ao rés-do-chão (e ele é ao rés-do-chão, porque está quatro andares abaixo da janela do quarto onde ocorreram os crimes e o edifício tem quatro andares). Além disso, teria de haver um muro ou uma grade, a fim de isolar o pátio da rua (não há pátio que não tenha um muro ou grade separando-o da rua); e o macaco e o marinheiro teriam de escalar esse muro ou grade para atingir o condutor do pára-raios e subir por ele até o quarto onde foram cometidos os assassinatos.

Mas vamos nos ater às janelas...

Quando rememora para o amigo a visita que fizeram ao palco da tragédia, Dupin diz: “Há no quarto duas janelas. Uma delas não está obstruída por móvel algum, ficando inteiramente visível. A parte inferior da outra janela está oculta pela cabeceira da pesada cama, que se encontra bem encostada à parede.” Foi por esta janela (só para deixar bem claro: a que tem a parte inferior oculta pela cabeceira da cama) que o orangotango entrou no quarto. Foi também por esta janela que o marinheiro ficou olhando os trágicos acontecimentos. E foi ainda por esta mesma janela que o macaco arremessou o cadáver de madame L’Espanaye. Imaginamos que seja uma tarefa um tanto difícil, até mesmo para um animal do porte de um orangotango, carregar um corpo (“No momento em que o macaco – com o cadáver de madame L’Espanaye – se aproximava da janela”) e arremessá-lo por uma janela que tem uma parte (a parte inferior) obstruída pela cabeceira de uma pesada cama. Sem falar que ali estava ainda seu dono, o que vai originar outra impossibilidade em “Os Crimes da Rua Morgue”. Porque foi dito que “cônscio de merecer castigo”, o orangotango, ao ver o rosto do dono por cima da cabeceira da cama (o animal, então, lembrou-se do terrível chicote de que o marinheiro fazia uso para acalmá-lo), “pareceu desejoso de ocultar suas sangrentas façanhas” e “agarrou primeiro o cadáver da filha e meteu-o pela chaminé acima; depois, pegou o corpo da velha e atirou-o imediatamente, de cabeça para baixo, através da janela”. Mas seria muito mais lógico o orangotango lançar o cadáver de madame L’Espanaye através da outra janela (a janela desobstruída), já que não tinha nada no caminho para atrapalhar. Além disso, não faz o menor sentido (portanto, outra impossibilidade) o orangotango ter arremessado o corpo de madame L’Espanaye através da janela onde estava seu dono, uma vez que parecia “desejoso de ocultar suas sangrentas façanhas”. E há aqui uma total impossibilidade, levando-se em consideração o tamanho da abertura da janela (essas janelas, quando erguidas, são seguras por dobradiças em forma de “borboleta”), uma janela cuja parte inferior estava obstruída pela cabeceira da cama. Nesse caso, sobraria um espaço mínimo, que, por sua vez, estava ocupado pela cabeça do marinheiro. Então, como o orangotango poderia ter atirado o corpo da velha por essa janela? Ou melhor: que aconteceria se o cadáver de madame L’Espanaye fosse arremessado por essa janela, a obstruída? O corpo se chocaria com a cabeceira da cama e até mesmo com o marinheiro. Agora, há algo que quero deixar bem claro: nestas minhas considerações, sempre levei em conta que a janela estivesse aberta (vejam bem: a janela; e não a veneziana, que, como já foi dito, estava aberta). E outra coisa: a abertura da janela é pequena demais para o corpanzil do orangotango; assim, em sua entrada ou em sua fuga do quarto, ele levaria consigo o caixilho (com vidro e tudo) e até mesmo a parte superior da cama.
Vamos voltar, agora, à notícia publicada pelo jornal Gazette des Tribunaux: “Nesta madrugada, por volta das três horas, os moradores do Quartier St. Roch foram despertados por uma série de gritos terrificantes, vindos, aparentemente, do quarto andar de uma casa da Rua Morgue, que se sabia ser ocupada apenas por uma certa madame L’Espanaye e sua filha, mademoiselle Camille. Após demoras causadas por alguns esforços inúteis de se entrar na casa por meios normais, a porta principal foi arrombada com um pé-de-cabra; e oito ou dez vizinhos entraram, acompanhados por dois gendarmes. A essa altura, os gritos já haviam cessado; porém, quando o grupo subia correndo o primeiro lance de escadas, ouviram-se duas vozes que discutiam violentamente e pareciam vir da parte superior da casa.” Quero chamar a atenção para o tempo decorrido entre o grupo entrar na casa e subir correndo o primeiro lance de escadas: então, o orangotango já havia perpretado suas barbaridades; e as vozes que o grupo ouvia, quando subia as escadas, eram a do marinheiro e a do animal. Nessa hora, o beco e a Rua Morgue deveriam estar repletos de moradores, atraídos pelos “gritos terrificantes”. Portanto, não teria ninguém visto o marinheiro empoleirado no pára-raios? Não teria ninguém visto a fuga do marinheiro ou a fuga do orangotango? Quer dizer que os gritos foram ouvidos apenas por estes “oito ou dez vizinhos” e pelos “dois gendarmes?
Mas deixemos tudo isso de lado e nos concentremos numa questão crucial: QUEM FECHOU A JANELA? Devemos lembrar que o caixilho deveria estar seguro pelas “borboletas”, para a janela estar aberta. Portanto, para a janela se fechar seria preciso descer o caixilho; e, para isso, seria necessário desprender as “borboletas”. O que nos leva à seguinte conclusão: em sua fuga precipitada, o orangotango esbarrou nas “borboletas” e desprendeu-as, fazendo descer o caixilho e fazendo o prego ajustar-se perfeitamente no lugar de costume. E o animal fez isso, sem esbarrar ou quebrar a cabeceira da cama e o caixilho? Se o fez – e o fez, já que a janela estava hermeticamente fechada e o caixilho e a cabeceira da cama estavam em perfeitas condições, quando o quarto foi invadido pelo grupo de pessoas que acorreu após os gritos de madame L’Espanaye e sua filha e quando o aposento foi examinado por Dupin –, é mais uma impossibilidade em “Os Crimes da Rua Morgue”.

E por que há tantas impossibilidades nesse conto? Bem, segundo Baudelaire, o método de Edgar Allan Poe é “muito difícil” de ser desvendado. Portanto, como diria Ellery Queen, “o diabo que resolva”, as impossibilidades existentes em “Os Crimes da Rua Morgue”. Por outro lado, talvez esse maldito imbroglio não passe de mais uma das balelas de Poe... Uma balela que estamos levando a sério demais...

Este artigo foi concluído em Jardinópolis, em 15 de maio de 2009.

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