terça-feira, 2 de julho de 2013

Dado Amaral

Poeta e cineasta. Dirigiu o curta-metragem Porr Gentileza, filme a respeito do Profeta Gentileza.
 
O que te faz aceitar participar de produções em curta-metragem?
O que me faz aceitar é originalidade do projeto, o interesse que ele me provoca. E isso vale tanto para curtas quanto para longas, peças de teatro, etc.
 
Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Não vejo desta maneira. Meu curta Porr Gentileza, por exemplo, teve crítica na Folha de São Paulo, quando foi exibido na TV Cultura. Há muito tempo o curta conquistou seu espaço na mídia brasileira, talvez desde o tempo de Ilha das Flores, de Jorge Furtado. Claro que os longas, que movimentam muito mais recursos e profissionais, que são lançados nos cinemas, têm muito mais espaço, e é natural que seja assim. Mas há muitos programas de TV dedicados a curtas, há um dicionário de curtas-metragens excelente, um registro da produção brasileira, e o próprio trabalho que você desenvolve no blog, fatos que demonstram que o curta não é mais o patinho feio que foi há duas décadas atrás.
 
Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Há a chamada lei da obrigatoriedade, que foi muito polêmica por ter sido deturpada pelos exibidores. Essa lei, que eu saiba, não foi revogada, ainda está em vigor, só não é aplicada. Um curta antecedendo cada longa nas salas de cinema é um formato que funciona e que podia retornar, agora mais bem pensado, selecionando-se os curtas com critério e os colocando de acordo com o longa a ser exibido. A Prefeitura de Porto Alegre tem um edital público que faz isso, e me parece muito bem sucedido, o Curta nas Telas.
 
É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Há escritores que só escrevem contos, se especializam nisso, e não ambicionam escrever romances. Dalton Trevisan, grande escritor brasileiro, tem mais de 30 livros publicados, e apenas um romance. Se o cineasta só se interessa pela forma curta, porque não exercê-la? Claro que o curta funciona muitas vezes como uma escola: gasta-se menos tempo e dinheiro para realizá-lo, e por isso se dispõe de mais liberdade também. Vários cineastas realizam curtas como estudo para os longas que querem realizar: Cláudio Assis fez isso, realizando Texas Hotel antes de seu Amarelo Manga. Isso me parece legítimo e inteligente.
 
O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Não creio nisso. Mas obviamente não tem o mercado que os longas têm. Mas que cineasta terá a coragem de negar a grandeza de filmes como Um Cão Andaluz (Buñuel), Neblina e Sombras (Resnais), Now (Santiago Alvarez), La Jetée (Chris Marker), A Velha a fiar (Humberto Mauro), Di (Glauber Rocha), Ilha das Flores (Furtado) e tantos outros? A curta duração destas obras não tem nada a ver com sua qualidade, elas são obras maiores que a maioria dos longas-metragens produzidos.
 
Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Apesar de ter um projeto de longa em andamento, gravei um material no sertão nordestino há dois anos no que deve me render um curta experimental em breve.

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