sexta-feira, 7 de março de 2014

R.F.Lucchetti: Memória Cinematográfica


EU SEMPRE O CHAMEI DE "SENHOR MOJICA"
Rubens Francisco Lucchetti

“Depois de ler as declarações dos diretores da cinematografia mundial, perguntamo-nos como pode existir um Chaplin. Há mil razões para que não exista. O Cinema não pode viver sem dinheiro; e todas as implicações industriais, comerciais etc. impedem irrevogavelmente a chegada do gênio. Não obstante, Chaplin consegue trabalhar livremente: tem popularidade, independência (...). Para quem conhece todos os costumes do cinema, esta situação merece ser qualificada de maravilhosa.”

Ditas pelo famoso diretor francês René Clair (1898-1981), as palavras acima foram extraídas do livro Carlitos a Vida, a Obra e a Arte do Gênio do Cine (Charles Chaplin – El Génio del Cine, tradução de Melo Lima, Rio de Janeiro, Leitura, 1944, p. 241), do historiador e pesquisador espanhol Manuel Villegas López, e podem também ser aplicadas a José Mojica Marins.

Tudo conspira para que ele não exista. Mas ele existe e, da mesma forma que Charles Chaplin (1889-1977) deu vida ao eterno Carlitos, criou Zé do Caixão, um personagem ímpar.

José Mojica Marins esteve muitas vezes do “lado de lá”. Esteve muitas vezes “além, muito além do Além”. Viu “coisas que a nossa vã filosofia nem sequer imagina”. Dante, Poe, H. P. Lovecraft, Robert Louis Stevenson, Mary Shelley... também viram essas coisas. E Zé do Caixão nasceu de um delírio/visão/pesadelo de José Mojica Marins. A criatura nasceu numa noite em que seu criador possivelmente oscilava entre a vida e a morte.

José Mojica Marins (ator), herdeiro direto de Boris Karloff, Bela Lugosi, Lon Chaney...

José Mojica Marins (diretor), o sucessor de F. W. Murnau, Tod Browning, James Whale, Karl Freund...

José Mojica Marins (criador), uma figura tão importante quanto Mary Shelley, Joseph Sheridan Le Fanu, Robert Louis Stevenson, Bram Stoker...

Frankenstein, Mister Hyde, Drácula... Zé do Caixão, personagens que se sobrepõem aos seus próprios criadores. Frankenstein é um monstro? Todos responderão que sim, e não “o homem que criou um monstro”. E Mary Shelley?Será alguém capaz de associar esse nome tão romântico à autora de Frankenstein, um dos livros capitais da literatura de Horror? E Bram Stoker? Muitos desconhecem que foi ele quem escreveu Drácula. E quanto a Conan Doyle? Um grande número de pessoas desconhece ser ele o criador de Sherlock Holmes – e os menos esclarecidos pensam que Sherlock Holmes existiu realmente e viveu em Londres, no número 221B da Baker Street.

E, quando tiverem passados tantos e tantos anos quanto os que nos separam de Mary Shelley, Bram Stoker e Conan Doyle, será que alguém associará o nome de José Mojica Marins ao de Zé do Caixão? Muitos certamente responderão que José Mojica Marins foi um frei mexicano ou espanhol.

Mas, na verdade, quem é José Mojica Marins?

TERIA SIDO UM SONHO?

Recordo-me perfeitamente... Era um anúncio, publicado num jornal de São Paulo. Mostrava umas caveiras, uma coruja, uma árvore desfolhada, uma urna funerária, tudo em negativo, e o seguinte texto: “Aguardem! À Meia-Noite Levarei Sua Alma”. Esse anúncio intrigou-me. Fiquei aguardando. Na época, eu residia em Ribeirão Preto; e um dia, apareceu num dos cinemas da cidade, o São Jorge – um verdadeiro templo do Cinema (ele tinha quase dois mil lugares) e que, embora ficasse no centro, era frequentado por pessoas dos bairros e da periferia –, um painel com algumas fotos e um cartaz com o tal título, À Meia-Noite Levarei Sua Alma. Não posso deixar de mencionar que as fotos não eram nada recomendáveis. O cartaz muito menos (era um caleidoscópio de desenhos toscos e não trazia os nomes dos atores nem indicação alguma de quem havia produzido ou dirigido o filme). Apesar disso, comprei um ingresso, entrei na sala (ela estava quase vazia, havia somente umas trinta pessoas em seu interior), sentei e esperei.

Quando aquilo começou, tive vontade de sair do cinema, acompanhando o cortejo dos que se desalojavam em direção à liberdade. Eu não estava entendendo nada do que via. Eram imagens estranhas; e também havia um personagem esquisito, desconcertante. Eu já começava a ficar arrependido de não ter ido assistir a Um Amor de Vizinho (com Jack Lemmon e Romy Schneider), que estava sendo exibido no São Paulo, o cinema da elite ribeirão-pretana. Realmente, senti vontade de deixar a sala; porém, pelo que me lembro, nunca saí do cinema sem ver escrito na tela The End ou Fim. De repente, senti um calafrio na espinha. Percebi que estava diante de um clima de tragédia pura. Ésquilo, Eurípedes, Sófocles, enfim, todo o teatro grego estava ali, misturado a Shakespeare. Percebi que assistia a uma fita sem par na História do Cinema. Ao mesmo tempo em que se assemelhava a uma peça apresentada num circo mambembe de vilarejo interiorano, tinha algo de tragédia grega ou do teatro elisabetano. Notavam-se também traços da obra do Marquês de Sade. Às vezes, a desumanização do personagem principal era total, inconcebível. O ator que o interpretava gesticulava, gritava, pulava. Suas feições se multiplicavam em máscaras de ódio e sadismo. Eu nunca vira nada igual. E todas essas cenas iriam me marcar profundamente. E destaco uma delas: a do agente funerário Josefel Zanatas (mais conhecido como Zé do Caixão) comendo uma perna de carneiro e olhando através da janela a procissão da Semana Santa. É uma cena de grande impacto (sobretudo por causa da expressão de deboche no rosto do personagem). Uma cena verdadeiramente memorável. Tão memorável quanto aquela que considero a mais bela cena realizada por Chaplin: a cena de Em Busca do Ouro em que Carlitos, do lado de fora do bar, olha pela janela e vê, com uma tristeza infinita nos olhos, a mulher amada – mulher amada essa que havia prometido cear com ele na noite de Ano Novo – se divertindo com outros homens...

Na tela, o ator continuava sua pantomima. Eu nunca havia presenciado nada que pudesse se assemelhar àquelas sequências desconcertantes, uma mistura de Expressionismo Alemão com a inquietação e a angústia que nos provocam os contos de Edgar Allan Poe... Tudo feito no melhor estilo primitivista. Sabia estar diante de um ser único na cinematografia mundial... um louco genial (não poderia haver outra definição para designar o responsável por aquela tragédia na sua mais pura concepção clássica). Só alguém dotado de um espírito genial um espírito muito acima de nossa vulgaridade poderia realizar um espetáculo tão inquietante e paradoxal.

Terminado o filme, lembro-me de que ainda fiquei um tempo sentado na poltrona, como um paciente que, após uma longa enfermidade, começa a adaptar-se ao mundo que o rodeia.

Deixei o cinema sob o efeito “daquele anestésico”. Minha casa ficava a uns quinze quarteirões; e, durante o percurso, que fiz a pé, Josefel Zanatas não saía de minha mente. Esteve o tempo todo ao meu lado; e, quando entrei em casa, não me recordava sequer do trajeto que havia percorrido. O estranho personagem havia saído comigo do cinema e tinha me acompanhado. Sua personalidade e magnetismo eram por demais marcantes, fazendo com que não se restringisse somente ao celuloide e criasse vida própria. Cheguei até a imaginar que cochilara no cinema e havia imaginado tudo aquilo. José Mojica Marins e Josefel Zanatas se confundiam em minha mente. Criador e criatura eram uno.

EU SEMPRE O CHAMEI DE “SENHOR MOJICA” - PARTE 2
Rubens Francisco Lucchetti

Mas quem é José Mojica Marins?

Fiz essa pergunta a mim mesmo durante vários dias, após ter assistido ao filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma. E não encontrei para ela uma resposta. Todas as pessoas de meu relacionamento nunca tinham ouvido falar dele; e nenhum jornal ou revista fazia qualquer menção à fita, que permanecera apenas um dia em cartaz em Ribeirão Preto.

Foi somente alguns meses mais tarde, em abril de 1966, que alguém citou o nome José Mojica Marins. Foi numa carta endereçada a mim e escrita a quatro mãos pelo meu amigo Sérgio Lima, que na época era secretário da Cinemateca Brasileira, e por sua esposa Leila (os dois já haviam estado em minha casa, para conhecerem o trabalho que o artista plástico Bassano Vaccarini e eu desenvolvíamos à frente do Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto). Em determinado trecho dessa carta a Leila dizia:

“Sérgio, eu e alguns amigos (...) temos ido frequentemente visitar José Mojica Marins. Sr. Lucchetti, este homem é mesmo uma figura de contos maravilhosos e fantásticos. Capa preta, pálido, barba desalinhada, unhas enormes e verdadeiras; e o mais importante: é a única pessoa que vive uma realidade imaginada! (...) Já falei do senhor a ele, e seria delirante o vosso encontro.”

Em julho de 1966, mudei-me para São Paulo e fui trabalhar como chefe de escritório da Sokofer, uma loja de ferragens pertencente a uns primos de minha mãe. Eu nem me instalara direito na nova casa, recebi a visita do Sérgio e da Leila. Então, entre outras coisas, eles disseram que iriam marcar o tal “encontro delirante” e que, certamente, “o Mojica e eu iríamos nos dar muito bem”.

Passados alguns dias, o Sérgio me telefonou, a fim de avisar que marcara o encontro para aquele dia. Informou-me também de que eu deveria encontrá-los às cinco horas da tarde, no Largo do Paissandu, no centro de São Paulo. Na hora marcada, eu já estava parado junto à fonte de mármore branco do Largo do Paissandu. Menos de cinco minutos depois, vi o Sérgio e o sr. Mojica subindo a Avenida São João, vindos dos lados do edifício dos Correios.

O sr. Mojica que me estendeu a mão nada tinha em comum com Josefel Zanatas, a estranha e sinistra criatura de barba hirsuta que eu vira em À Meia-Noite Levarei Sua Alma. O sr. Mojica mostrava barba aparada, um sorriso agradável no rosto; trajava um terno escuro de qualidade muito superior ao meu, que fora comprado na Exposição Clipper; usava sapatos pretos bem polidos e totalmente diferentes dos meus, que sempre foram cambaios...

O Sérgio Lima, um perfeito dândi (na ocasião, ele vestia um paletó marrom, calça de flanela cinza; usava uma echarpe em torno do pescoço; e fumava cachimbo), começou a caminhar em direção à Rua Barão de Itapetininga. Ele falava muito e, em determinado momento, disse que “a parceria que o Mojica e eu faríamos iria resultar em algo inédito no cinema nacional”. O Mojica não dizia nada; e muito menos eu, que sou extremamente tímido.

O Sérgio nos levou a uma casa de chá na Barão de Itapetininga, a rua onde, na época, estavam instaladas as principais boutiques e lojas de grife de São Paulo. Por uma escada de mármore coberta por um tapete carmesim, chegamos a um amplo salão com colunas espelhadas e iluminado por finos lustres de cristal. Cortinas de renda de cor de caramelo escondiam as janelas, e uma brisa suave – vinda do teto através de orifícios camuflados por enfeites de anjinhos – tornava o ambiente extremamente agradável. A um canto, um quinteto de cordas, acompanhado por um piano, executava uma música de Brahms. Ou seria Vivaldi? Várias senhoras da mais fina sociedade paulistana tomavam o seu chá das cinco e, assim que entramos, voltaram seus olhares em nossa direção. Éramos os únicos varões naquele ambiente suntuoso.

Tão logo nos sentamos a uma mesa com tampão de vidro e ornamentada com um vaso de flores, surgiu não sei de onde, uma donzela de tailleur cinza, sapatos envernizados de salto alto e um barrete que lhe prendia os cabelos dourados. Ela tinha um rosto encantador e, oferecendo-nos o cardápio, saudou-nos com um “boa-tarde, cavalheiros” que na boca de qualquer outra jovem soaria totalmente falso. Quem fez o pedido foi o Sérgio, que me deu a impressão de ser um assíduo frequentador do local.

Assim que a moça se afastou, o Sérgio falou:

“Como eu lhe disse, Mojica, o Rubens já tem vários livros publicados, colabora numa infinidade de revistas, escreveu novelas de rádio, scripts para a televisão e fez aqueles filmes desenhados na própria película.”

Depois, voltando-se para mim, ele pediu:

“Vamos, Rubens, fale um pouco sobre o seu trabalho.”

Naquele instante, deu um branco em minha mente. Embora eu tivesse ensaiado exaustivamente o que deveria dizer para impressionar o sr. Mojica, esqueci tudo. Não sabia o que falar. Sentia-me travado. Fui salvo pela chegada providencial de um carrinho de chá de metal polido e rodas de borracha que era empurrado por uma graciosa garota envergando um uniforme azul que contrastava com sua cabeleira platinada. Ela colocou as chávenas em cima da mesa e despejou – de um bule com enfeites da cor de ouro velho – o chá em cada uma delas.

Esse espaço de tempo permitiu-me coordenar o pensamento, e fiz um relato sucinto sobre minhas atividades. Ressaltei, então, minha predileção pelo Horror e acrescentei que estava trabalhando para uma editora de São Paulo, escrevendo roteiros de histórias em quadrinhos de Suspense e Horror.

O sr. Mojica ouviu tudo sem fazer nenhum aparte ou comentário. Em seguida, consultou o relógio e disse que tinha outro compromisso. Mas antes de nos despedirmos, foi extremamente cortês, convidando-me para ir ao seu estúdio. O que aconteceu depois relatarei num próximo artigo...

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos.

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