sábado, 19 de julho de 2014

Carolina Kasting

 
Como começou a vislumbrar a possibilidade de ser atriz?
Através do palco. Era bailarina e já tinha contato com o palco/público.
 
Em 1996 você foi ao Rio de Janeiro para participar da oficina de atores da Rede Globo. Como foi essa experiência?
Fiz a oficina em São Paulo e já comecei a gravar minha primeira novela "Anjo de mim" na Globo. Sempre fui muito estudiosa. Sempre acreditei no ofício do ator. Compreendi, desde então, a TV como uma grande oportunidade de mostrar o meu trabalho. O ator precisa transitar pela TV, pelo teatro, pelo cinema.
 
A oficina de atores da Rede Globo é realmente o melhor caminho para ingressar na televisão?
Fazer a Oficina é importantíssimo. Mas você precisa compreender que é mais um curso dentre muitos que um ator precisa fazer. Ator tem que estudar. Fora do Brasil parece que se tem mais essa mentalidade. Quem pensa que ator não estuda é no mínimo ignorante.
 
Foi logo após a oficina que você estreou a novela ‘Anjo de Mim’, como protagonista. Como foi isso pra você?
Nesse trabalho tive oportunidade de contracenar com grandes atores. Foi muito importante pra mim.
 
Qual o impacto que teve na sua carreira o protagonismo na novela?
Na época não se esperava tamanha aceitação do meu trabalho por parte do público. A partir daí minha relação com o público de televisão foi sempre de extrema delicadeza. Adoro essa relação com o público.
 
Você trabalhou também no seriado ‘Malhação’ (duas vezes). Parte da crítica considera o seriado um laboratório para iniciantes e uma espécie de ostracismo para atores já consagrados. E pra você, como foi?
Nas duas vezes que estive em Malhação tive oportunidade de atuar com maior liberdade e de forma diferente. Na temporada de 2007 entrei em contato com a comédia romântica, o que trouxe uma maior leveza pra minha maneira de atuar. E o público adorou. Foi uma retomada de sucesso para o programa.
 
Em 1997 você atuou no remake da telenovela ‘Anjo Mau’ e também participou da minissérie ‘Hilda Furação’. Fale destes dois trabalhos.
'Anjo Mau' fiz uma participação. Em Hilda, ainda no início da minha carreira na TV, foi a oportunidade de trabalhar com um excelente diretor de atores, Wolf Maia. Foi uma linda personagem. Romântica e muito bem escrita.
 
‘Anjo Mau’ foi um remake. Você buscou referências anteriores? Como é a construção de uma personagem que pode estar impregnado na memória afetiva das pessoas? É difícil fugir.
Mesmo sendo um remake o ator precisa partir da folha em branco. Sua criação deve estar independente de qualquer referência anterior.
 
Já em ‘Hilda Furação’ você lida com a adaptação literária. Como foi o seu procedimento para este trabalho?
A literatura é só mais uma referência para ser acrescentada à personagem. Acho rica personagem que vem da literatura.
 
Após esses dois trabalhos você se transfere para a Rede Manchete. Como foi esse processo?
Quando fui convidada pelo Avancini para fazer Brida, não estava contratada pela Globo. E ele era um dos maiores diretores da televisão brasileira ainda vivo.
 
A Rede Manchete tinha a excelência em trabalhos em televisão como mote em sua linha artística. Hoje, com o distanciamento histórico, é possível fazer qualquer tipo de comparação entre a TV Manchete e a TV Globo no fazer televisivo, em especial nas telenovelas?
Não. Os tempos mudaram e cada emissora teve sua história.
 
‘Brida’ foi seu único trabalho fora da Globo. Fale deste trabalho.
Foi uma experiência importante para mim na época.
 
Em 1999 você retorna à Globo interpretando a malvada Rosana, na telenovela ‘Terra Nostra’, papel que lhe rendeu elogios da crítica especializada. Como você lida com as críticas, sejam elas positivas ou negativas?
As críticas, feitas por quem tem procedência, são sempre construtivas. De alguma forma, elas trazem visões diferentes do seu trabalho e levantam discussões, o que é muito importante.
 
Na TV Globo você coleciona papéis marcantes, entre eles, a alcoólatra Mariana de ‘Coração de Estudante’, a médica má Laura de ‘Mulheres Apaixonadas’, a doce Mariquinha de ‘Cabloca’ e recentemente, o espírito de Laura no remake de ‘O Profeta’. Podemos dizer que a sua essência é a televisão?
Minha essência é o teatro. O teatro é a arte do ator.
 
Muitos atores consideram o trabalho na televisão escravizante e você, o que acha?
Considero o trabalho na televisão libertador. Ele me proporciona maior autonomia para fazer o que quero, mas essa é a minha visão, não necessariamente é a de outros atores.
 
Muitos críticos consideram a telenovela um gênero menor. Como vê isso?
Menor? O que seria um gênero menor? Maior você quer dizer, pois alcança a massa.
 
Numa outra perspectiva, tem setores da sua classe que consideram o trabalho em televisão superficial, que pouco ou nada acrescenta. Qual é a sua análise?
Faço a seguinte pergunta: qual é o meu trabalho? Sou atriz, recebo para atuar, construir personagens. Portanto faço da melhor forma que me é possível o meu trabalho independentemente do veículo que estou inserida no momento. Se faço um comercial, faço o melhor possível, se faço um filme, idem, uma peça, a mesma coisa. Um ator para trabalhar bem na TV deve alcançar a excelência do seu trabalho como em qualquer outro lugar que ele atue.
 
Há espaço para atuações fora dos cânones televisivos dentro da televisão?
Sim. Arte é essencial e se faz arte mesmo que o governo não ofereça subsídio suficiente.
 
Quais são as suas referências em interpretação?
Liv Ullmann, Laura Cardoso, Fernanda Montenegro, Juliette Binoche, Vanessa Redgrave. Mas muitos diretores me influenciam como Bergman e Kieslovsky.
 
Hoje vivemos a era do voyeurismo. Como é a sua relação com a indústria das celebridades, com os paparazzi?
Isso tudo passa a margem do meu ofício. Não luto contra mas também não alimento.
 
Não é irônico que o mesmo patrão (a TV) que emprega e produz conteúdo voltado para a cultura, alimenta (através de sites e revistas) essa indústria fútil?
Sim. Todo o sistema em vivemos hoje é irônico.
 
Como analisa o movimento da Rede Record, SBT e outras emissoras investindo fortemente em telenovelas?
Acho ótimo.
 
No teatro, você realizou trabalhos como ‘Não me Abandones no Inverno’, de Avelino Alves, dirigido por Hugo Vilavicenzio; ‘Alice Através do Espelho’, de Mauricio Arruda e Paulo de Moraes, direção de Paulo de Moraes; ‘Van Gogh – O Amarelo Aumenta Todos os Dias’, direção de Ivana Leblon e em 2009, esteve no elenco do espetáculo infantil ‘Ogroleto’,dirigido por Karen Acioly. O que é o teatro para você?
Tudo.
 
No cinema, você interpretou Éster no filme ‘Sonhos Tropicais’. Por sua atuação, ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Recife, em 2002. Como foi atuar no cinema?
Divino. Eu amo cinema.
 
Por que fez poucos trabalhos no cinema?
Porque dos roteiros que chegaram a mim nenhum outro me interessou.
 
Como analisa essa nova fase do cinema nacional? Tem interesse em atuar mais nessa área?
Cada vez mais é importante fazer cinema. Do jeito que for, câmera na mão, sem produção, cinema alternativo mesmo. O Som ao Redor foi o primeiro filme brasileiro que vi que me pareceu realmente alternativo. Se não se tem meios de produzir cinema no Brasil, o cinema deve ser feito do jeito que dá. Como se faz no teatro. Do jeito que dá.
 
Já atuou em curtas-metragens?
Não. Mas adoraria.
 
O curta-metragem é a plataforma mais usada para expandir ideias audiovisuais. Sejam elas técnicas ou artísticas. O que te faria aceitar participar de uma produção em curta-metragem?
Gostar do roteiro. Confiar na ideia.
 
Pensa em dirigir em algum momento?
Sim.
 
O que você projeta para a sua carreira daqui para frente?
Cada vez mais autonomia para fazer o que quero. Falo daquilo que me parece necessário falar. O público é o meu fim.

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