quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Tudo o que Sei sobre Glaura


TUDO O QUE SEI SOBRE GLAURA

por Guilherme de Almeida Prado
(texto publicado no "diário de bordo" da revista PRIMEIRO PLANO - ano I - número I - agosto de 1996)

Eu sou o tipo de cineasta que gostaria de fazer muito mais filmes e falar muito menos sobre eles, mas talvez por ter tão poucas oportunidades financeiras de filmar é que entro em mais esta armadilha e cá estou escrevendo alguma coisa sobre meu "Glaura".

Como não há muito o que contar, vou tentar resumir a história de como entrei na enrascada de realizar um curta-metragem.

Eu sempre quis fazer um curta-metragem. Antes de trabalhar profissionalmente em longa-metragem, cheguei a cometer alguns curtas em super-8mm, mas todos eram realmente esboços ou experimentações para um longa-metragem e não tinham qualquer intenção de analisar as possibilidade de expressão do gênero "curta". Apesar de ter escrito alguns roteiros de curtas para inscrever no "Prêmio Estímulo", nunca ganhei e acabei esquecendo os roteiros na gaveta e depois jogando fora nas mudanças de casa.

Mais tarde, quando estreei no longa dirigindo os três episódios de "As Taras de Todos Nós", também não realizei o filme como uma soma de curtas. O filme foi produzido como um longa e já se sabia a ordem das estórias que, de qualquer maneira, tinham todas mais de trinta minutos e portanto eram realmente média-metragens.

De todos os meus projetos "curtos", apenas um continuou martelando minha cabeça, e não era o "Glaura". Como qualquer cineasta sabe, é muito difícil fazer experimentações em longa-metragem. O alto orçamento e as obrigações com o "mercado" impedem que se consiga financiamento para um longa-metragem com características experimentais. Como eu gosto de experimentar, venho sempre embalando a idéia de fazer um filme experimental de quinze minutos contando quinze anos no relacionamento de um casal. Tudo misturando os tempos passado, presente e futuro; todos convivendo no mesmo espaço e na mesma imagem, na forma de "backs" e "front-projections". Assim, quando me convidaram para o que deveria ser o longa de episódios "Felicidade É...", achei que estava na hora de botar na tela esta minha velha idéia.

Mas a idéia tinha ficado mesmo velha. Além disso, o casal com quem eu pretendia rodar o filme não estava disponível. A segunda opção seria o casal Júlia Lemmertz/Alexandre Borges. Eu precisava de um casal realmente casado porque o filme era extremamente erótico, quase pornográfico, e isso só poderia ser bem realizado com um casal com total intimidade para não ficar agressivo e realmente pornográfico. O tempo atual seria em parte uma relação sexual. Acontece que Júlia e Alexandre estavam fazendo no teatro a peça de Arnaldo Jabor "Eu Sei Que Vou Te Amar" e, depois de ver a peça, percebi que todos diriam que eu tinha feito o curta em cima da peça. Esta também sobre o relacionamento de um casal. Como se não bastasse isso, assisti o filme de Oliver Stone "Natural Born Killers" e metade do que eu pretendia realizar com "front" e "back-projection" já estavam no filme. Em outras palavras, eu teriam um trabalhão para desenvolver no Brasil as técnicas necessárias para realizar as minhas idéias experimentais e todos diriam que eu tinha copiado do Oliver Stone.

Estava eu nesta encruzilhada, quando me telefonou o José Lewgoy e, entre um papo e outro, me perguntou: E eu estou no filme? Eu respondi que não; que o filme era só sobre um casal de jovens.

Mais tarde, nadando, fiquei pensando: E se eu esquecesse a velha idéia e fizesse um filme com Júlia, Alexandre, Lewgoy? Algo mais simples, cotidiano, no mesmo estilo dos outros episódios do "Felicidade é...", do qual eu já havia lido três dos roteiros?

Assim a estória de "Glaura" saiu pronta em três mil metros de piscina: Numa manhã ensolarada de domingo, uma infeliz e suburbana dona-de-casa de classe média baixa descobre o significado da felicidade. Afinal, "a vida é uma cebola que se descasca chorando".

Acrescente-se a isso um antigo sonho meu de dirigir um musical. O primeiro filme que assisti na vida foi "Viagem Ao Centro da Terra", em que trabalhava o cantor Pat Boone e, graças a isso, ele tinha que cantar algumas musiquinhas pouco encaixada na estória de Júlio Verne. Mas talvez venha daí minha fixação em musicais e, especialmente, música brasileira. Resolvi que "Glaura" seria um musical-sampler com dezenas de provérbios, citações, letras e músicas sobre a felicidade.

Na elaboração dos personagens levei em conta uma promessa que tinha feito alguns anos atrás ao Lewgoy: escrever um personagem onde ele pudesse mostrar todos seus dons de ator realista. Em geral oferecem a Lewgoy apenas papéis que chamamos de "bigger than life", ou seja o vilão ou o personagem misterioso e irreal. O Lewgoy sempre quis representar papéis de carne e osso, como o velho "Orestes".

A Júlia e o Alexandre vieram do outro projeto e só faltou acrescentar a Matilde Mastrangi, que trabalha em todos os meus filmes e para quem eu havia prometido o papel de italianona da Moóca que o cinema da Boca sempre lhe ficou devendo, por lhe dar apenas papéis de mulheres sofisticadas e ninfomaníacas.

Nessa festa não poderia faltar o marido de Matilde, Oscar Magrini e até os filhos de ambos os casais envolvidos acabaram aparecendo...

E fiquei martelando até as quatro da madrugada no microcomputador e o roteiro estava pronto, faltando apenas acrescentar alguns dos chavões, ditos pelo "Orestes", que fui colecionando na memória e num livro de "pensamentos".

Dizem que enquanto em um longa você pode ganhar o espectador por pontos, no curta você tem que ganhar por nocaute. Mas não me preocupei com isso. Fui fiel ao meu estilo habitual de contar a estória da maneira sutil, inserindo aos poucos o espectador no meu universo. Mas em "Glaura", com apenas quinze minutos, eu tive que ser muito mais sucinto na sutileza. Tive que ir sutilmente direto ao assunto. Cada plano tinha que contar a sua estória completa e foi idealizado para exprimir o máximo de informações no menor tempo. Os personagens tiveram que ser esboçado em traços leves mas marcantes. Também tive que tirar dos planos todos os elementos que não contribuíssem para mais rapidamente dar o recado. Toda a construção do curta tinha um único objetivo: proporcionar dois ou três segundos de felicidade ao espectador no final do filme.

Ficou assim pronto o roteiro. Faltava agora fazer o filme.

Primeiro veio o capítulo da escadaria: Rodei alguns municípios para encontrar a necessária escadaria de igreja que acabou sendo encontrada bem perto, no Cambuci. Uma opção que me parecia longe da ideal, mas que com a decupagem acabou saindo ainda melhor do que em minha imaginação. O interior acabei encontrando na casa de um amigo de faculdade. Um santo!

Roteiro, Elenco e Locações na mão, juntei uma equipe também de amigos, onde contei com a colaboração de alguém que, embora velho amigo, eu nem sabia quanto: Carlos Reichenbach, o Carlão, voltando excepcionalmente a fotografar. Um luxo!

Propositadamente deixo de lado a questão financeira, supervalorizada pela mídia no atual momento. Os jornalistas parecem estar mais interessados no custo dos filmes que eu seu conteúdo.

Ninguém jamais perguntou ao Van Gogh quanto ele gastou para comprar aqueles girassóis, nem quanto custou a tinta e a tela. Também não era nenhuma novidade pintar girassóis. Muitos já haviam pintado antes e pintariam depois. O que importa no quadro é a pincelada do Van Gogh. A pincelada é o que fez o quadro valer milhões de dólares. Do outro lado do Atlântico, Hollywood gasta milhões de dólares em superproduções que não valem um tostão. O que falta? A pincelada. Hoje, quando assisto um filme, só me interessa a pincelada. Nem a estória importa mais. "Todas já foram contadas", garante Truffaut.

O filme ficou pronto e acabou fora do "Felicidade É...": "porque não estava pronto a tempo de ser exibido no festival de Gramado". Essa parte prefiro omitir e ir direto à exibição do filme, que me deu uma enorme satisfação.

Eu imaginava que um verdadeiro "curta" teria que ter todas aquelas características autorais em que o diretor, em geral estreante, faz tudo para chamar a atenção para si mesmo. Isso pode se dizer que faz parte fundamental do gênero "curta" e são assim os curtas que fazem mais sucesso. Eu acreditava que não existiria muito espaço para um curta que valorizasse os atores e o texto em detrimento da linguagem e experimentação, mas acredito que justamente por isso, "Glaura" acabou parecendo original, apesar da extrema simplicidade e despojamento de sua forma. A recepção do público foi tão calorosa que acabei ficando com vontade de entrar em outra fria como essa.

E isso é tudo o que sei sobre "Glaura". Se tiver oportunidade, assista o filme. Só o espectador pode saber mais.

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