quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Denise Garcia

Denise é autora do documentário "Sou Feia, mas tô na Moda", sobre o funk carioca.


É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Possível é, mas acho mais provável que cedo ou tarde o cineasta venha a fazer um longa , o que não o impede de voltar ao curta, de fazer ficção, animação ou documentário. Assim como o gênero, o tempo pode mudar. O tempo necessário para contar a idéia e que vai determinar o tamanho do filme.

Trampolim para o longa o curta de fato é, pois é possível experimentar bastante em poucos minutos, gastando menos que em um longa, trabalhando com uma equipe menor, menos dias de filmagem, etc. O curta pode ser uma obra em si e também um valioso ensaio. Acredito que fazer curtas, seja como diretor, produtor, fotografo, figurinista, etc. ensina mais que cursar uma faculdade de cinema.

Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
São várias, tem histórias brasileiras que nunca foram tão bem desenvolvidas num longa como foram em curtas. Sobre a resistência a ditadura brasileira e a questão da hierarquia militar, nada melhor que “O Dia em que Dorival encarou a guarda”, do Jorge Furtado. Sobre religião, nada melhor que “Deus é Pai”, do Allan Sieber. E por ai vai.

Como é trabalhar com a síntese no curta-metragem?
Nunca escrevi um roteiro de curta-metragem. Antes da Toscographics eu fazia direção de produção de curtas e longas. E, bem, dependendo do curta, em termos de produção, a estrutura a ser montada e a mesma do longa, a diferença e que a filmagem dura dois, três dias e no longa um mês de filmagem pode não ser suficiente.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Acho que não. Pelo menos não vejo motivo para isso. Já vi curtas e médias do Werner Herzog que são obras-primas, como “Pilmigrage”, de 2001, com 18min, “Lessons of Darkness”, de 1992, de 50min, “The Great Ecstasy of the woodcarve Steiner”, de 1974, 45min. Vale assistir também a “Ten minutes Older”, de 2002, uma coleção de curtas-metragens dirigidos por Jim Jarmusch, Herzog, Spike Lee, Wim Wenders e outros.

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Exibição de um ou dois curtas antes dos longas no cinema para começar e então mais espaço na televisão programando curtas.

O curta-metragem é o grande movimento do cinema atual? Ele está na moda?
Olha, eu acho que rola um problema na enorme quantidade de curtas produzidos e inúmeros festivais de cinema no Brasil. Nos últimos anos assisti a filmes muito ruins nos festivais. Deve ser a moda.

Você trabalha com animação. O que isso implica de dificuldade e/ou alegria na hora de realizar um filme deste gênero?
Na verdade eu só trabalho com animação com o Allan, meu sócio, e cujos roteiros eu gosto. Animação dá muito trabalho, o mercado brasileiro praticamente inexiste para animação adulta – nosso gênero – e eu não tenho o menor saco para animação 3D, desenhos fofinhos, histórias queridinhas, etc.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Tô fazendo aqui em Berlin umas filmagens sobre uns guindastes enormes que se espalham pela cidade. Talvez seja um curta. Mas quando fiz “Sou Feia, mas tô na moda” era para ser um curta e não consegui editar menos de 61 minutos.

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