quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Thais Scabio



Thais é uma das coordenadoras do JAMAC Cinema Digital, diretora e produtora de cinema.

Você é uma das coordenadoras do Jamac. Fale sobre o seu trabalho à frente desta iniciativa.
Na Coordenação do projeto JAMAC Cinema Digital, somos eu, Gilberto Caetano e Jeronimo Vilhena. Coordenar o projeto significa pensar em toda a parte pedagógica do trabalho, sua metodologia, entrar em contato com os palestrantes (este parece fácil mas não é, talvez seja a parte de maior dificuldade pois, não pode ser qualquer pessoa, temos que pensar sempre em alguém que fale a linguagem do nosso público e que ajude no crescimento da qualidade das produções, que seja bom profissional e que conheça nossa realidade). A coordenação também é responsável por criar e proporcionar um ambiente agradável para que os trabalhos possam ser realizados da melhor forma possível. Também fazemos a orientação das produções e somos de um certo modo exigentes com a qualidade do que está sendo produzido aqui.

Vocês produzem muitos curtas. Qual a sua análise a respeito dos curtas produzidos pela equipe?
Em relação ao JAMAC as produções são realizadas geralmente por pessoas que estão tendo o primeiro contato com o audiovisual. Nossa filosofia sempre foi que não importa se você faça com celular ou com película, o importante é o cuidado, o respeito e o amor com o que se esta realizando, exigimos estudo do pessoal. Sem estudo você não cresce fica sempre produzindo as mesmas coisas e com os mesmos erros. O LEPE é uma forma de exigir e possibilitar este estudo. Não importa se é feito na periferia e com pouco ou quase sem dinheiro, o público quer ver algo diferente da televisão, que sejam bem produzidos e reflexíveis. Isso é o que aprendemos, acreditamos e multiplicamos aos nossos alunos. Acho que é por isso que as produções do JAMAC são bem aceitas nas comunidades. Houve uma vez em uma Mostra de audiovisual que recebemos uma crítica de que nossas produções não pareciam de periferia. Achei ótimo, porque surgiu uma discussão sobre o que é pensado sobre produções na periferia.

Fora as produções do JAMAC nossa equipe de coordenação também produz por fora. Eu e o Gilberto temos uma pequena produtora, a Cavalo Marinho Audiovisual, e o Jerônimo tem a Jerônimo Filmes, que produz mais documentários. A filosofia aplicada nas oficinas vem de nossas produções. Já participamos de Festivais que concorremos com curtas realizados com muito dinheiro, mas que não tinha a preocupação com o roteiro e a narrativa e que no final nossa produção com R$100,00 ganhou deles por ter essa preocupação (observação feita por críticos e jurados), como foi o caso do curta "Comportamento Kamikaze" que ficou em quarto lugar no Mapa Cultural Paulista 2005/2006.

Por que os curtas não tem espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Acredito que as pessoas utilizam os curtas como uma forma de experimentação de suas ideias narrativas. As pessoas não dão muito valor para as experimentações, rsss... Mas no final são elas que mudam o mundo, né? Além disso, são muitos curtas-metragens produzidos no Brasil, graças a tecnologia que temos neste século, a produção de curta-metragem é mais que o dobro do que de longas - metragens e mesmo em menor escala, há muitos que não tem espaço na mídia, imagina para os curtas, iria rolar muito "jaba" se aparecesse uma mídia grande que abrisse esse tipo de espaço. Não estou justificando o descaso da mídia em relação aos curtas -metragens, apenas alertando quanto a má organização e distribuição destes espaços. Uma matéria sobre uma morte violenta tem muito mais espaço do que de uma atividade cultura, por exemplo. Ainda bem que agora temos as redes sociais, por enquanto acredito que seja a melhor divulgação para o curta-metragem e temos que utiliza-las.

Como deveria ser a exibição de curtas para atrair mais público?
Acredito que o curtas-metragens já atraiam o público. A programação da tv é em blocos. Imagina uma novela sem cortes, acho que as pessoas não aguentariam, rsss. A maioria dos festivais de curtas-metragens sempre tem um público grande. O problema é que estes curtas ficam no acervo da organização depois. Não temos acesso. Os festivais deveriam ser permanentes. Apesar dos Cineclubes já exercerem o papel de distribuidores, talvez deveria existir distribuidoras de curtas-metragens. O pessoal do coletivo de Vídeo Popular fez uma coletânea muito boa para distribuição de curtas. Essa é uma iniciativa que acredito que merecia um olhar especial, do governo e dos produtores. Acredito que o filme só é filme quando exibido de alguma maneira, por isso não ligo de minhas produções circularem. É uma delícia alguém te procurar no Facebook porque viu seu filme em algum lugar e gostou.

Temos um projeto que é o Mascate Cineclube, exibimos filmes em ruas, praças, associações dentro das comunidades da região da Cidade Ademar/Pedreira e às vezes na cidade de Diadema.Recebemos um público em média de 100 pessoas por exibição. Os curtas-metragens são muito bem aceitos, pois são rápidos, principalmente para as crianças que já estão no pique da TV, (desenhos animados de 3 minutos, blocos de 10 minutos e comerciais de 30") e funciona muito bem. Mesmo com tantas produções sendo realizadas, ainda falta curta-metragem para exibirmos pois não chegam até nós.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Cara, não sei. Quero muito ter a experiência de produzir um longa. Já fiz um média-metragem, que por falar nisso tem menos espaço ainda no mercado, não consigo exibi-lo em lugar nenhum. Mas, acredito que são narrativas diferentes. Há histórias que você consegue contar em um curta-metragem e há outras que não. Acho horrível uma história que poderia ser contata em um curta e complicam o roteiro só para virar um longa. O estúdio Pixar é um ótimo exemplo, eles realizam longas e curtas sem nenhum problema. Acho que quando você cria algo na narrativa do cinema você já é alguém que pensa como cineasta, não importa se o produto final é um curta ou um longa. Claro que para você dirigir um longa-metragem é muito mais trabalhoso.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Acredito que sim. Pois como disse é considerado como experiência. Até mesmo em alguns editais de curtas, uma das cláusulas é que você não tenha dirigido um longa. Até o governo não acredita que são narrativas diferentes é quase "Você já sabe dirigir um longa, parabéns! Não precisa mais ficar fazendo curtas!". Temos que mudar este pensamento. Por exemplo, meu próximo curta é baseada em um fato real que aconteceu na vida de um menino que era engraxate. A história dele foi tão curta que não poderia contar em um longa, quero que as pessoas sintam isso.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
Sim. Tenho dois curtas que estamos na fase captação de verba e pré-produção. Um é o "Barco de Papel", meu roteiro e direção. Escrevi há 7 anos atrás quando trabalhei com meninos em situação de rua em Santo Amaro, que me contavam muitas histórias. O curta é um dia de um menino engraxate no centro de Santo Amaro que presencia uma chacina. Demorei todo esse tempo para conseguir realiza-lo, por falta de tecnologia suficiente para o que eu queria. Precisaria de muito dinheiro até alguns anos atrás, pois tem uma parte que será em animação e que sempre quis que fosse em stop -motion de dobradura. Agora encontrei o Rodrigo Eba!, diretor de animação do longa "Peixonauta" e educador do JAMAC Cinema Digital que topou de dirigir esta parte. O outro é o "Caixa d´água", o roteiro é do Gilberto Caetano e nos dois vamos dirigir, o roteiro é inspirado em uma fotografia que o Jerônimo Vilhena fez. O curta é uma aventura infanto-juvenil de 4 crianças que usam a caixa d´agua de casa como piscina, muito comum na periferia.