terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Bráulio Mantovani

Bráulio é roteirista autor do roteiro do consagrado filme ‘Cidade de Deus’ (indicado ao Oscar) e do curta-metragem ‘Palace II’, ambos dirigidos por Fernando Meirelles. Mais recentemente trabalhou em ‘Tropa de Elite’.



Qual é a importância histórica que o curta-metragem tem no cinema brasileiro?
Acho que a mesma importância que tem para a cinematografia de qualquer país. O curta-metragem é um formato que permite experimentar com a linguagem com mais intensidade (custa menos) e também serve como treino para os diretores iniciantes.

Por que os curtas não têm espaço em críticas de jornais e atenção da mídia em geral?
Provavelmente porque não existe um mercado de curta-metragens como existe no caso dos longas. Os curtas têm espaço em festivais e acabam sendo vistos pelas pessoas que fazem cinema. Não sei se precisam de mais espaço na mídia. Não seria ruim ter esse espaço, mas não penso que essa falta de espaço iniba o trabalho de quem faz curtas. Quanto a não ter mais atenção dos críticos, isso me parece uma vantagem. Quem precisa de críticos?

Na sua opinião, como deveria ser a exibição dos curtas para atingir mais público?
Eu gostava quando as sessões de longas-metragens no cinema eram precedidas por exibições de curtas. Hoje, somos massacrados por comerciais. Tenho saudade de ver curtas antes dos longas.

É possível ser um cineasta só de curta-metragem? Vemos que o curta é sempre um trampolim para fazer um longa...
Eu só escrevi dois curtas na minha vida. É um formato que eu não domino. Eu não conheço nenhum cineasta que voluntariamente queira dirigir apenas curtas. Me parece natural que o curta seja não um trampolim mas um ensaio, uma preparação, um aprendizado para futuros diretores de longas-metragens. E também, como eu disse, um formato privilegiado para o experimental. Evidentemente, se alguém quiser se dedicar exclusivamente a curtas-metragens, não há nenhum impedimento. A pessoa apenas tem que ter consciência de quem vai "conversar" com um público reduzido, porém, especializado. Tem suas vantagens.

O curta-metragem é marginalizado entre os próprios cineastas?
Nunca vi isso. Os cineastas assistem aos curtas com muito interesse.

Seu roteiro para o filme ‘Cidade de Deus’ era formado por pequenas histórias (de vários personagens) que, fundidas, se tornaram um marco no roteiro nacional. Como é trabalhar com a síntese? Você utilizou os mesmos recursos do roteiro do 'Palace II', em 2001?
O roteiro de Cidade de Deus não tem nada a ver com curta-metragem. O roteiro do Palace II foi escrito especialmente para uma série da TV Globo, depois de já ter escrito pelo menos 4 ou 5 versões do roteiro de Cidade de Deus. O esforço de síntese que eu fiz em Cidade de Deus não tem nada a ver com o tipo de síntese que acontece em um curta-metragem. No caso do Palace II, eu não tive muito trabalho. Escolhi momentos do romance do Paulo Lins e inventei o Laranjinha e o Acerola para costurar os momentos escolhidos. Tudo com a colaboração do Fernando Meirelles. Eu não precisei condensar nada, porque delimitei o universo da história antes de partir para o roteiro.

Qual é a grande diferença em escrever um curta e um longa?
Minha exígua experiência com curtas limita muito a minha resposta. Claro que a diferença mais óbvia é o tamanho da história que você quer contar. Você não pode esticar uma história curta para fazer um longa nem espremer uma história longa para fazê-la caber em um curta. A história que se quer contar é que vai estabelecer a duração do filme. Fora isso, penso que muitos curtas funcionam como piadas: eles têm uma grande sacada, e por isso produzem um determinado efeito no espectador. Em longas-metragens, há também casos de grandes sacadas, mas elas não funcionam tão bem quanto nos curtas, se não tiverem personagens densos e uma boa história por trás. Mas tudo isso que eu disse pode ser uma grande besteira. Eu nunca refleti sobre o tema.

Pensa em dirigir um curta futuramente?
A única coisa que eu dirijo é o meu carro velho. Sou um escritor. Sempre serei.

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