quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Don’t Come Knocking - Wanessa Rudmer


Há algum tempo fui convidada pelo amigo Rafael Spaca para escrever sobre cinema neste blog maneiríssimo que ele mantém. Sou atriz. Orgulhosa atriz e produtora do Grupo Cemitério de Automóveis, fundado há 30 anos pelo dramaturgo Mário Bortolotto. Sim, senhores, a partir de agora estarei por aqui tentando, sem muitas pretensões, falar sobre cinema.

Eu gostaria de começar falando sobre um dos meus grandes ídolos: Sam Shepard.
É isso que eu chamo de ser ambiciosa e contraditória: pra quem começou este post dizendo que não tinha muitas pretensões ao tentar falar sobre cinema, digo que vou começar logo com Sam Shepard?! Calma, vamos usar só um fragmento da obra de Shepard neste post, ok?

Dia desses comprei um box com alguns filmes do Wim Wenders, dentre os quais repousavam reluzentes “Paris, Texas” (1984) e “Don’t Come Knocking” (2005), ambos com roteiro do Sam Shepard. Por mais que eu tivesse assistido mil vezes estes filmes, me sentiria levando a maior vantagem trazendo esse tipo de tesouro pra dentro de casa. Rapidamente saquei “Don’t Come Knocking” de dentro da caixinha e me pus a contemplar a obra dessa grande dupla de caubóis cheios de talento.

Ambos se sentem em casa no deserto norte americano. Lugar mítico dos já extintos grandes ídolos de filmes de faroeste, residência perpétua do espírito do macho americano e cenário para quase todos os personagens da obra de Shepard.

E é lá que nos encontramos pela primeira vez com Howard Spence (Sam Shepard).

Classificado seja “Don’t Come Knocking” e seu protagonista brilhantemente interpretado por Shepard, que consegue conferir carisma a um personagem tão pouco digno da simpatia do público em geral quanto Howard Spence, uma estrela decadente de filmes de faroeste.

O negócio é mais ou menos assim:

Após três atribuladas décadas de fama, mulheres e álcool, Spence resolve abandonar o set a galope, em meio às filmagens. Vai de encontro a mãe, após trinta anos sem dar notícias. Ato recorrente dentro da dramaturgia de Shepard: o retorno à mulher, ao ser que confere sentido à sua existência e penitências deste mundo. E essa mulher vale um alto percentual do filme. Interpretada por Eva Marie Saint, a mãe de Spence é um espetáculo à parte. Sua curta aparição é absolutamente deliciosa. O elenco como um todo está muito bem. Jessica Lange, companheira de Shepard desde 82, causa admiração (e inveja) por sua interpretação e beleza irretocáveis. Ela aparece na trama como a mãe de Earl (Gabriel Mann), rapaz de cerca de 20 anos de quem Spence descobre ser o pai. O mesmo acontece com Sky, interpretada por Sarah Polley. A garota mandou bem. Seu personagem causa estranhamento e promove um extremo contraponto na trama em relação ao seu revoltado meio irmão, Earl. A cena final dela com Shepard é um ponto alto; emocionante. Outro personagem que merece destaque é o do detetive particular contratado para encontrar Spence, interpretado por Tim Roth.
Atenção também à trilha sonora, que ficou por conta de T-Bone Burnett e que é matadora.

Sam Shepard tem um jeito muito peculiar de tratar o vazio e a solidão dos quais já não aguentamos mais falar nem ouvir. E sempre vale muito a pena.

Qualquer tentativa de discorrer brevemente sobre este filme, será pequena.
Portanto eu espero que vocês se deem a oportunidade de assistir a este filmão do Wim Wenders. Caso já o tenham feito, espero que tenham ficado a fim de assistir de novo. Eu fiquei.


Wanessa Rudmer é atriz, produtora do Grupo Cemitério de Automóveis e colunista do blog ‘Os Curtos Filmes’.

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